Alergia e Imunologia · Alergia alimentar e testes

Alergia alimentar IgE mediada — ovo, amendoim, castanhas, trigo, peixes e frutos do mar

Reconhecimento da reação imediata, particularidades de cada alimento, reatividade cruzada, cofatores, síndrome pólen-alimento e látex-fruta, vacinas na alergia ao ovo, autoinjetor de adrenalina e plano de ação escrito para casa e escola, segundo o posicionamento ASBAI e SBP 2025

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Na alergia alimentar IgE mediada, os sintomas surgem em minutos e até 2 horas após a ingestão (raramente até 6 horas, como na alergia à carne por alfa-gal ou com cofatores): urticária, angioedema, prurido oral, vômitos, tosse, sibilância, estridor, hipotensão. Os alimentos mais envolvidos são leite, ovo, trigo, soja, amendoim, castanhas, peixes e frutos do mar (ASBAI/SBP 2025). Leite, ovo, soja e trigo tendem a ser superados na infância; amendoim, castanhas, peixes e crustáceos costumam persistir. O diagnóstico une história compatível e reprodutível + IgE específica ou prick test dirigidos ao alimento suspeito; teste positivo sem história é só sensibilização, e o teste de provocação oral (TPO) é o padrão de referência. Toda reação sistêmica deve ser encaminhada ao alergista (🟡, com prioridade). O pediatra orienta a exclusão, a leitura de rótulos e o plano de ação escrito, e prescreve o autoinjetor de adrenalina quando indicado. Anafilaxia é 🔴: adrenalina IM 0,01 mg/kg imediatamente (máx. 0,3 mg na criança; 0,5 mg no adolescente) e pronto-socorro, conforme o Protocolo de Anafilaxia do site.

1.O que é e como se apresenta

É a reação de hipersensibilidade tipo I: IgE específica fixada em mastócitos e basófilos reconhece a proteína do alimento e libera histamina e outros mediadores. A sensibilização pode ocorrer por via oral, pela pele inflamada (dermatite atópica) ou por reatividade cruzada com pólens e látex (ASBAI/SBP 2025).

Manifestações (ASBAI/SBP 2025; AEP 2019):

  • Pele (a mais comum, cerca de 90% das anafilaxias têm pele): urticária, angioedema, rubor, prurido; urticária de contato isolada, no ponto em que o alimento tocou, não é necessariamente reação sistêmica.
  • Digestivo: prurido e edema oral, náuseas, vômitos, cólica, diarreia — minutos a 2 h.
  • Respiratório: rinorreia, tosse, rouquidão, estridor, sibilância; sintomas respiratórios isolados e recorrentes raramente são alimentares.
  • Cardiovascular e neurológico: palidez, taquicardia, hipotensão, síncope, sonolência; no lactente, irritabilidade, choro rouco, hipotonia.
  • Anafilaxia (critérios WAO adotados pela SBP): início agudo com pele ou mucosa + respiratório, hipotensão ou sintoma gastrointestinal grave; ou hipotensão, broncoespasmo ou envolvimento laríngeo após alérgeno provável, mesmo sem pele. Lactentes vomitam e têm urticária; pré-escolares, sibilância e estridor; adolescentes, dificuldade para respirar ou engolir (ASBAI/SBP 2025).

Cofatores que reduzem o limiar de reação: exercício (anafilaxia induzida por exercício dependente de alimento, típica do trigo), anti-inflamatórios, infecção, febre, jejum, inibidores de bomba de prótons, álcool e menstruação no adolescente (ASBAI/SBP 2025).

Particularidades por alimento (ASBAI/SBP 2025, salvo indicação):

Alimento Componentes e perfil Reatividade cruzada Evolução
Ovo Clara: ovomucoide (termoestável — mais grave e persistente) e ovoalbumina (termolábil); gema: livetina (síndrome ovo-frango) Carne de galinha rara (livetina) 63–84% toleram ovo assado; cerca de 50% resolvem até 5 anos
Amendoim Ara h 2 e Ara h 6: maior gravidade; Ara h 8 (PR-10): reações leves, pólen Nozes cerca de 33%; tremoço cerca de 20%; gergelim 10–15% Só 20–30% toleram até 5 anos
Castanhas Caju (Ana o 3) e pistache; nozes e pecã; avelã (Cor a 14, Cor a 9) Caju → pistache 66–83%; noz → pecã 66–75%; entre castanhas 15–33% Resolução 9–14%
Trigo Ômega-5 gliadina: reações graves e anafilaxia com exercício Cevada e centeio < 25% Tende a resolver na infância
Peixes Parvalbumina Outros peixes ósseos cerca de 50%; cartilaginosos (cação, arraia) < 5% 26% toleram até 5 anos
Crustáceos e moluscos Tropomiosina (também em ácaros e baratas) Crustáceo → crustáceo cerca de 75%; → moluscos < 50% Só 4% toleram; frequente no escolar e no adolescente
Soja — Amendoim raramente reage clinicamente Tende a resolver

Síndrome pólen-alimento (síndrome de alergia oral): prurido, formigamento e edema de lábios, boca e garganta logo após frutas, vegetais crus e castanhas, por reatividade com proteínas de pólens (PR-10, profilinas). As proteínas são digeridas e destruídas pelo calor: o cozido costuma ser tolerado e os sintomas raramente passam da boca. Aumenta com a idade e tende a persistir (ASBAI/SBP 2025; AEP 2019). Atenção às proteínas de transferência de lipídios (LTP, como a do pêssego, Pru p 3), estáveis ao calor e à digestão, que podem causar reação sistêmica, e à síndrome látex-fruta (banana, abacate, kiwi, castanha), por reatividade com o látex (ASBAI/SBP 2025).

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Sintomas restritos à boca com frutas ou vegetais crus (síndrome pólen-alimento sem LTP); urticária de contato localizada que regrediu; sensibilização sem reação (teste positivo, alimento tolerado) Orientar; anti-histamínico de 2ª geração se sintomas; não excluir alimento tolerado; encaminhar ao alergista de forma eletiva se dúvida
🟡 Moderada Reação imediata sem comprometimento respiratório ou circulatório (urticária generalizada, angioedema, vômito isolado); primeira suspeita de alergia IgE mediada; sintomas orais com castanhas, amendoim ou LTP Exclusão do alimento suspeito; plano de ação escrito; encaminhar ao alergista com prioridade; avaliar autoinjetor (asma, castanhas, amendoim, acesso difícil ao PS)
🔴 Grave Anafilaxia: estridor, rouquidão, dispneia, sibilância, hipotensão, hipotonia, síncope, sonolência, vômitos repetidos com urticária; reação após dose mínima Adrenalina IM imediata e pronto-socorro; observação conforme o Protocolo de Anafilaxia; autoinjetor e alergista na alta

Fatores que elevam o risco de reação grave ou fatal

  • Asma, sobretudo não controlada — o principal fator de risco de morte.
  • Anafilaxia prévia; reação a quantidades mínimas; amendoim, castanhas, crustáceos e peixes.
  • Adolescência (comportamentos de risco, não portar adrenalina), atraso na adrenalina, cofatores.
  • Mastocitose e uso de betabloqueador.
  • Sensibilização a componentes de maior risco (Ara h 2, Ana o 3, ômega-5 gliadina, ovomucoide), avaliada pelo especialista.

3.Diagnóstico no consultório

História é a base (NICE CG116; ASBAI/SBP 2025): alimento e quantidade, cru ou cozido, tempo até os sintomas, quais sistemas, tratamento recebido e resposta, reprodutibilidade, cofatores, se o alimento é tolerado em outras formas, dermatite atópica e asma associadas.

Testes (ver Testes alérgicos na criança):

  • IgE específica sérica para o alimento suspeito e coalérgenos prováveis; o prick test é feito pelo especialista em ambiente preparado para anafilaxia (NICE CG116; ASBAI/SBP 2025).
  • Teste negativo com história altamente sugestiva não exclui; teste positivo sem história não diagnostica. Na dermatite atópica é comum sensibilização múltipla sem relevância clínica.
  • Componentes (Ara h 2, Ana o 3, Cor a 14, ovomucoide, ômega-5 gliadina) refinam risco e prognóstico — solicitação do especialista.
  • Não pedir painéis amplos, IgG/IgG4, testes de cinesiologia, biorressonância, análise de cabelo (NICE CG116; ASBAI/SBP 2025).
  • TPO: padrão de referência, sempre em serviço preparado (especialista) — para confirmar, liberar alimento ou testar formas assadas.

Diagnóstico diferencial: urticária aguda por vírus (a causa mais comum na criança; o alimento responde por cerca de 20% das urticárias agudas — ASBAI/SBP 2025), reação a medicamento ou picada de inseto, intoxicação escombroide (peixe mal conservado), reações irritativas perorais (frutas ácidas, tomate), engasgo e aspiração, crise de asma, ansiedade, eritema de contato, FPIES (vômitos tardios, sem pele).

4.Tratamento e seguimento

No consultório, o pediatra:

  1. Trata a reação aguda (abaixo) e encaminha ao alergista.
  2. Orienta a exclusão apenas do alimento implicado (e dos de alto risco de reatividade cruzada definidos pelo especialista), sem exclusões "preventivas" de alimentos tolerados.
  3. Ensina a ler rótulos (Anvisa, RDC 26/2015): "ALÉRGICOS: CONTÉM", "CONTÉM DERIVADOS DE" e "PODE CONTER"; a regra não vale para padarias, restaurantes e produtos sem embalagem; conferir a cada compra.
  4. Entrega o plano de ação escrito e, quando indicado, prescreve o autoinjetor.
  5. Acompanha nutrição e crescimento (nutricionista nas exclusões de ovo, trigo ou múltiplas) e o impacto emocional (ansiedade, bullying em mais de 30% — ASBAI/SBP 2025).
  6. Mantém a introdução alimentar dos demais alimentos, sem atraso (ASBAI/SBP 2025).

Autoinjetor de adrenalina — quando prescrever (documento do site Anafilaxia e autoaplicador de adrenalina): anafilaxia prévia por qualquer causa; alergia a alimentos de alto risco (amendoim, castanhas, frutos do mar) com reação sistêmica; anafilaxia induzida por exercício; alergia alimentar grave, especialmente em ambiente escolar; mastocitose (decisão do site). Orientar dois dispositivos (ASBAI/SBP 2025). Nos casos de menor risco, decisão compartilhada (custo, acesso ao pronto-socorro) (EAACI, citado pela ASBAI/SBP 2025). No Brasil nenhum autoinjetor tem registro regular: o acesso é por importação excepcional autorizada pela Anvisa; enquanto não chega, plano de ação e SAMU 192 (Protocolo de Anafilaxia do site).

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação e referência
Adrenalina IM (1 mg/mL) 0,01 mg/kg; máx. 0,3 mg na criança e 0,5 mg no adolescente Repetir em 5–15 min se necessário Até resposta Vasto lateral da coxa; 1ª linha sempre (SBP 2021; ASBAI/SBP 2025; Protocolo de Anafilaxia)
Autoinjetor de adrenalina 0,15 mg abaixo de 30 kg; 0,3 mg a partir de 30 kg Repetir em 5–15 min se necessário Porte contínuo de 2 dispositivos SBP 2021; importação excepcional (Anvisa)
Anti-histamínico H1 de 2ª geração Conforme idade e bula, doses de Urticária aguda (ex.: cetirizina 2–6 anos 2,5 mg 12/12 h; desloratadina 6–11 meses 1 mg/dia) Conforme bula Sintomas cutâneos; ≥ 7 dias após anafilaxia (SBP 2021) Não substitui a adrenalina; 1ª geração não usar (padrão do site)
Salbutamol inalatório com espaçador 50 mcg/kg/dose = 1 jato/2 kg (máx. 10 jatos) A cada 20 min se necessário Broncoespasmo persistente Após a adrenalina (SBP 2021; Protocolo de Anafilaxia)
Prednisolona ou prednisona após anafilaxia 1–2 mg/kg/dia (máx. 40 mg/dia, padrão do site) Dose única diária 5–7 dias SBP GPA nº 6/2021, mantida pelo Protocolo de Anafilaxia do site; ASBAI/SBP 2025, SBP DC nº 220/2025 e AAAAI 2023 não encontram evidência de que previna a reação bifásica (ver Leitura)

Plano de ação escrito (AAP 2017; ASBAI/SBP 2025): nome, peso, alérgenos, se tem asma; sintomas leves (coceira, poucas urticas, coriza) → anti-histamínico e observação; qualquer sintoma de garganta, respiração ou circulação (rouquidão, "garganta fechando", tosse persistente, chiado, falta de ar, palidez, moleza, desmaio) ou sintomas em dois sistemas → adrenalina imediatamente, deitar com pernas elevadas (sentado se falta de ar), SAMU 192; dose e validade do autoinjetor; contatos de emergência; assinatura do médico. Revisar a cada consulta e quando o peso passar de 30 kg.

Na escola (ASBAI/SBP 2025; GA²LEN/EFA 2025):

  • Informar a escola na matrícula; reunião com coordenação, professores e cozinha; relatório médico atualizado e plano de ação com foto.
  • Cardápio especial é direito do aluno (Lei 12.982/2014 e PNAE); atenção ao contato cruzado no preparo, nas festas, aniversários, aulas de culinária e passeios.
  • Autoinjetores (com a criança e na escola), em local conhecido e fora de calor excessivo; funcionários treinados — a Lei Lucas (13.722/2018) obriga capacitação anual em primeiros socorros.
  • Não há lei no Brasil que obrigue escolas a manter adrenalina de estoque (ASBAI/SBP 2025); o consenso GA²LEN/EFA 2025 defende essa política.
  • Incluir a criança e combater o bullying; pulseira de identificação.

Vacinas na alergia ao ovo (ASBAI/SBP 2025; Eventos adversos pós-vacinação do site): tríplice e tetraviral: vacinar normalmente, mesmo após anafilaxia ao ovo. Influenza: vacinar; com história de anafilaxia ao ovo, observar 30–60 min. Febre amarela: contém mais ovoalbumina; criança sem história de alergia ao ovo não precisa ter comido ovo nem dosar IgE antes; anafilaxia ao ovo → CRIE (ambiente preparado; observar ≥ 60 min). Raiva em cultivo de embrião de galinha: preferir a de células diploides em quem teve anafilaxia ao ovo. Propofol com lecitina de ovo pode ser usado.

Com o especialista: reavaliação periódica da tolerância (IgE seriada, TPO), TPO com assados (leite e ovo — 1,3 g de proteína do leite e 2 g de proteína do ovo por porção, a 180 °C por 30 min — ASBAI/SBP 2025), escada do ovo no serviço nas formas IgE mediadas, imunoterapia oral (amendoim, leite, ovo) e omalizumabe (aprovado pela FDA em 02/2024 para reduzir reações a exposições acidentais na alergia alimentar IgE mediada, a partir de 1 ano), que exigem centro especializado.

O que não fazer: anti-histamínico ou corticoide no lugar da adrenalina; esperar "ver se melhora" com sintoma respiratório; excluir todas as castanhas, todos os peixes ou leguminosas sem orientação do alergista; pedir IgE para alimentos que a criança come sem sintomas; dar amendoim ou castanhas inteiros à criança pequena (engasgo).

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Qualquer anafilaxia, mesmo que tenha melhorado com o autoinjetor (risco de reação bifásica em cerca de 10%, sobretudo 8–12 h depois — SBP 2021).
  • Angioedema de língua, úvula ou glote; rouquidão, estridor, dispneia, sibilância.
  • Hipotensão, palidez, hipotonia, síncope ou sonolência após alimento.
  • Vômitos repetidos com urticária ou sintomas respiratórios.
  • Reação em criança com asma não controlada ou que precisou de mais de uma dose de adrenalina.

Como encaminhar: adrenalina IM imediatamente, sem esperar; posição (deitado com pernas elevadas; sentado se dispneia; lateral se vomitando; nunca levantar bruscamente); oxigênio para manter SpO2 entre 94% e 98%; acesso venoso e soro fisiológico se hipotensão, conforme o Protocolo de Anafilaxia; repetir adrenalina em 5–15 min se necessário; SAMU 192 e contato com o serviço. Observação após a resolução (SBP 2021, adotada pelo site): leve, mínimo de 6–8 h; grave, 24–48 h (internação).

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "Leve sempre os dois autoinjetores e o plano de ação, inclusive para a escola, festas e viagens."
  • "Na dúvida entre aplicar ou não a adrenalina, aplique: ela é segura e salva vidas."
  • "Antialérgico ajuda na coceira, mas não trata a falta de ar nem a pressão baixa."
  • "Leia o rótulo de todo produto, toda vez que comprar; 'pode conter' significa risco."
  • "Exercício, febre e anti-inflamatório podem tornar uma reação mais forte."
  • Retorno com o alergista para reavaliar a tolerância; o pediatra revisa o plano e o peso a cada consulta.
  • Pronto-socorro (SAMU 192) imediatamente se: falta de ar, chiado, tosse persistente, rouquidão, inchaço na língua ou na garganta, palidez, moleza, desmaio ou vômitos repetidos após comer — aplique a adrenalina primeiro.

7.Comparação com as referências

Item SBP Ministério da Saúde AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Versão consultada ASBAI/SBP, Atualização 2025; GPA nº 6 Anafilaxia, 31/05/2021 Sem protocolo próprio de alergia IgE a alimentos localizado; Manual dos CRIE (vacinas) Wang e Sicherer, plano de emergência, 03/2017; Sicherer e Wood, testes de IgE, 01/2012 CG116, 23/02/2011 (10/2018); NG258 anafilaxia, 27/05/2026 Protocolo SEICAP/AEP Alergia IgE mediada, 2019 Sem posição específica localizada Boston Children's, página de TPO (sem data) Segue o NICE
Diagnóstico História + IgE ou prick dirigidos; TPO referência — Testes confirmam história; positivo ≠ alergia Prick ou IgE se suspeita IgE; sem TPO na atenção primária História, prick ou IgE, TPO Sem posição específica localizada TPO no hospital, observação 60–90 min Segue o NICE
Encaminhar Reação sistêmica ao alergista — — Reação sistêmica aguda, asma, eczema grave Todos com suspeita; anafilaxia preferente Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Autoinjetor Indicações por especialista; 2 dispositivos Sem registro na Anvisa (importação) Plano escrito + autoinjetor NG258: 2 autoinjetores Prescrever e treinar Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Escola Lei 12.982/2014, Lei Lucas, RDC 26/2015 PNAE: cardápio especial Plano escrito para a escola — — Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Testes não validados Não usar IgG, cinesiologia, biorressonância — — Não usar vega, cinesiologia, cabelo, IgG IgG não indica alergia Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE

Leitura: todas as referências convergem em que o diagnóstico parte da história, que testes de IgE apenas confirmam uma suspeita (sensibilização não é alergia), que o TPO é o padrão de referência e deve ocorrer em ambiente preparado, que a adrenalina IM é o único tratamento da anafilaxia e que a família precisa de plano de ação escrito e autoinjetor. Há divergência na porta de entrada: a AEP manda encaminhar toda suspeita ao alergista, enquanto o NICE permite ao generalista pedir prick ou IgE e encaminhar por critérios (reação sistêmica, asma, eczema grave, alergias múltiplas). Na observação após anafilaxia, o site segue o GPA nº 6 da SBP (2021: 6–8 h nos leves; 24–48 h nos graves), enquanto o NICE NG258 e o próprio posicionamento ASBAI/SBP 2025 citam esquemas mais curtos (alta 2 h após boa resposta a uma dose dada nos primeiros 30 min, com autoinjetor e treino; 6 h com duas doses ou reação bifásica prévia; 12 h nos graves, com asma grave, absorção contínua do alérgeno ou acesso difícil à emergência). No corticoide após a alta, o GPA 2021 prescreve prednisona ou prednisolona por 5–7 dias, mas a ASBAI/SBP 2025 e o Documento Científico nº 220/2025 da própria SBP concluem que não há evidência de que ele previna a reação bifásica. Por ora o site mantém o Protocolo de Anafilaxia (observação 6–8 h / 24–48 h e corticoide por 5–7 dias); a revisão dos dois pontos pelos documentos de 2025 está em decisão. O Ministério da Saúde não tem protocolo para a alergia IgE mediada a alimentos e se manifesta apenas nas vacinas e na alimentação escolar. O site adota a posição da SBP (ASBAI/SBP 2025 e GPA Anafilaxia 2021) e, onde o site já decidiu, o Protocolo de Anafilaxia.

Pontos práticos
  1. Reação em minutos a 2 horas com pele, boca, respiração ou circulação: pense em IgE mediada e peça IgE específica só para o alimento suspeito.
  2. Teste positivo sem sintomas não é alergia; não retire da dieta alimento que a criança come bem.
  3. Toda reação sistêmica vai ao alergista com prioridade; anafilaxia vai ao pronto-socorro depois da adrenalina.
  4. Prescreva plano de ação escrito e, quando indicado, dois autoinjetores; revise a dose aos 30 kg.
  5. Alergia ao ovo não impede tríplice viral nem influenza; anafilaxia ao ovo antes da febre amarela vai ao CRIE.

Veja também, nesta Biblioteca: Alergia alimentar e alergia à proteína do leite de vaca (APLV), Prevenção da alergia alimentar e introdução dos alimentos alergênicos, Testes alérgicos na criança — quando pedir e como interpretar e Síndrome da enterocolite induzida por proteína alimentar (FPIES) (nesta área); Anafilaxia e autoaplicador de adrenalina e Marcha atópica e reações de hipersensibilidade (Alergia e Imunologia); Protocolo de Anafilaxia (Urgências e emergências); Urticária aguda, Dermatite atópica no consultório e Asma na criança — crise e controle (Patologias do consultório); Eventos supostamente atribuíveis à vacinação (ESAVI) e contraindicações verdadeiras e falsas (Imunizações); Esofagite eosinofílica e disfagia na criança (Gastroenterologia).

8.Fontes

  • ASBAI e SBP. Oliveira LCL, Silva LR, Solé D et al. Atualização em Alergia Alimentar 2025: posicionamento conjunto da ASBAI e SBP. Arq Asma Alerg Imunol, 2025;9(1):5-96. aaai-asbai.org.br
  • SBP, Departamento Científico de Alergia. Guia Prático de Atualização nº 6 — Anafilaxia: atualização 2021, 31/05/2021. PDF
  • American Academy of Pediatrics. Wang J, Sicherer SH; Section on Allergy and Immunology. Guidance on completing a written allergy and anaphylaxis emergency plan. Pediatrics, 2017;139(3):e20164005. PubMed
  • American Academy of Pediatrics. Sicherer SH, Wood RA. Allergy testing in childhood: using allergen-specific IgE tests. Pediatrics, 2012;129(1):193-7. PubMed
  • NICE. CG116 — Food allergy in under 19s: assessment and diagnosis, 2011 (atualização 10/2018). nice.org.uk
  • AEP/SEICAP. Valdesoiro Navarrete L, Vila Sexto L. Alergia a alimentos mediada por IgE. Protoc diagn ter pediatr, 2019;2:185-94. PDF
  • NICE. NG258 — Anaphylaxis: assessment and referral after emergency treatment, 27/05/2026. nice.org.uk
  • Santos AF et al. EAACI guidelines on the diagnosis of IgE-mediated food allergy. Allergy, 2023. PubMed
  • Deschildre A et al. Towards a common approach for managing food allergy and serious allergic reactions (anaphylaxis) at school — GA²LEN and EFA consensus statement. Clin Transl Allergy, 2025. PubMed
  • Boston Children's Hospital, Allergy and Asthma Program. Food challenge test. childrenshospital.org