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A criança que não come (dificuldades alimentares)

Quando o pouco apetite é normal, como tornar as refeições tranquilas e quando procurar ajuda

Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF

Em poucas palavras

"Meu filho não come" é uma das preocupações mais comuns dos pais. De 25 a 40% das crianças saudáveis têm alguma dificuldade alimentar, principalmente entre 1 e 3 anos, mas só 1 a 5% têm um problema mais sério. O primeiro passo é olhar a curva de crescimento: se a criança cresce na sua linha, é ativa e se desenvolve bem, está recebendo o que precisa. O que ajuda é rotina e refeições sem pressão: os pais decidem o quê, quando e onde; a criança decide se come e quanto. Remédio para abrir o apetite não é indicado. Procure o pediatra se ela "cair" na curva, aceitar muito poucos alimentos ou tiver medo de comer. Vá ao pronto-socorro se recusar também líquidos e fizer pouco xixi, se engasgar e ficar roxa ao comer, vomitar sempre ou estiver muito magra e molinha.

1.O que é

  • Menos apetite a partir de 1 ano é esperado: no segundo ano a criança cresce mais devagar do que no primeiro e precisa de menos comida para o tamanho dela.
  • Neofobia (medo do novo): recusar alimentos novos, e até alguns que já comia, é normal entre 18 meses e 3 anos; atinge 25 a 50% das crianças e melhora aos poucos entre 3 e 6 anos.
  • Os três tipos de dificuldade (classificação usada pela Sociedade Brasileira de Pediatria):
    • Apetite limitado: muitas vezes, é a criança que come pouco, mas cresce bem — a preocupação é maior que o problema. Às vezes há uma doença por trás.
    • Seletividade: come poucos alimentos. Pode ser leve (a criança "enjoada") ou grave (menos de 20 alimentos aceitos, recusa de grupos inteiros, forte aversão a texturas, cheiros ou cores).
    • Medo de comer: depois de um engasgo, de vômitos, de dor ao engolir ou de procedimentos na boca; a criança chora ou se afasta ao ver a colher ou a mamadeira.
  • Transtorno alimentar restritivo/evitativo (TARE): restrição importante por pouco interesse, aversão sensorial ou medo, que leva a perda de peso, falta de nutrientes ou prejuízo na vida social — sem preocupação com o corpo ou com engordar. É mais comum em crianças com autismo ou ansiedade.

2.Como aparece (sinais e sintomas)

O que costuma ser normal: come bem em algumas refeições e quase nada em outras; recusa alimentos novos; prefere sempre os mesmos; cresce na sua linha da curva, brinca e se desenvolve bem.

Sinais de alerta:

  • Engasgos, tosse ou dificuldade para engolir; dor ao comer; vômitos frequentes; diarreia; sangue nas fezes.
  • Queda na curva de peso ou de altura; cansaço; palidez.
  • Aceita cada vez menos alimentos; pânico ou vômito diante de comida nova.
  • Atraso ou perda de habilidades do desenvolvimento.
  • Refeições viraram batalha, com muita angústia da família.

3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro

Cor O que você observa O que fazer
🟢 Cuidar em casa Cresce na sua linha da curva, é ativa, desenvolvimento adequado; come pouco ou é seletiva de forma leve Rotina e alimentação sem pressão (abaixo). Converse sobre a alimentação na consulta de rotina
🟡 Procure o pediatra Caiu de linha na curva ou o peso ficou parado em 2 consultas; muito magra, mas bem; aceita menos de 20 alimentos ou recusa grupos inteiros (todas as carnes, todos os legumes); forte aversão a texturas; medo de comer; suspeita de autismo, refluxo com dor ou alergia alimentar; brigas intensas nas refeições; palidez ou rachaduras no canto da boca Consulta nas próximas 1–2 semanas. O pediatra investiga, pode pedir um registro do que a criança come e encaminhar a nutricionista, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo ou gastroenterologista
🔴 Pronto-socorro agora Recusa também líquidos, faz pouco xixi, boca seca; engasga com tosse, falta de ar ou fica roxa ao comer, ou tem pneumonias repetidas; vomita sempre, vômito verde ou com sangue, barriga inchada; muito magra, com inchaço, molinha ou fria; adolescente que restringe a comida e tem desmaio, tontura ao levantar ou fala em morrer; emagrecimento rápido Pronto-socorro agora. SAMU 192 se houver engasgo com falta de ar que não passa ou se a criança ficar muito mole

Crianças que merecem mais atenção

  • Prematuros, crianças com doença pulmonar, cardíaca ou neurológica, ou síndromes genéticas.
  • Bebês que ficaram muito tempo com sonda ou aparelho para respirar; cirurgias na boca, garganta ou intestino.
  • Autismo, ansiedade, atraso no desenvolvimento da mastigação e da fala.
  • Mãe com depressão, dificuldade de acesso a alimentos.
  • Dietas de exclusão por alergia sem acompanhamento de nutricionista.

4.Como cuidar em casa

A divisão de tarefas: os pais decidem o que, quando e onde a criança come; a criança decide se come e quanto come.

  • Rotina: 4 a 6 refeições e lanches por dia, em horários regulares, com só água entre elas. Nada de "beliscar", nem leite, suco ou biscoito para compensar a refeição recusada.
  • Refeições de 20 a 30 minutos, à mesa, sem telas e sem brinquedos. Terminou o tempo, retire o prato sem comentários.
  • Sem pressão: não force, não ameace, não barganhe ("se comer tudo, ganha sobremesa"), não elogie nem castigue pela quantidade.
  • Ofereça de novo: o alimento recusado pode precisar aparecer 10 a 15 vezes, em preparações diferentes, em pequena quantidade, ao lado de um alimento de que ela gosta.
  • Comam juntos a mesma comida, adaptando só a textura. O exemplo dos pais é o que mais ensina. Não prepare um cardápio separado.
  • Deixe a criança participar: servir-se, comer com as mãos, ajudar a lavar e preparar os alimentos. A sujeira faz parte.
  • Porções pequenas: prato cheio assusta; se quiser mais, ela pede.
  • Leite: na criança pequena que troca a comida pela mamadeira, o volume de leite precisa ser limitado — combine com o pediatra.
  • Cuide do clima da refeição: a mesa é lugar de conversa, não de briga.

5.Remédios: o que ajuda e o que evitar

Tratar a dificuldade alimentar não é dar remédio para abrir o apetite, e sim encontrar a causa e mudar o jeito das refeições.

  • Vitamina D preventiva faz parte dos cuidados de toda criança, na dose que o pediatra indica para a idade.
  • Ferro: preventivo nos bebês, conforme a orientação do pediatra; se o exame mostrar anemia, o pediatra receita o tratamento.
  • Outros suplementos (zinco, cálcio e outros) só quando o registro alimentar ou os exames mostrarem falta.

Não use:

  • Estimulantes de apetite (ciproeptadina, "fortificantes", misturas com vitaminas e aminoácidos): não são indicados. A ciproeptadina é um antialérgico que dá sono.
  • Polivitamínicos para "abrir o apetite": não funcionam e o excesso de vitamina A pode fazer mal.
  • Suplementos calóricos na criança que cresce bem: tiram ainda mais a fome das refeições.
  • Forçar, distrair com tela, "aviãozinho" insistente, alimentar a criança dormindo.

6.Quando ir ao pronto-socorro

  • Recusa também líquidos, faz pouco xixi, está com a boca seca.
  • Engasga com tosse, falta de ar ou fica roxa ao comer.
  • Vomita sempre, vômito verde ou com sangue, barriga inchada.
  • Está muito magra, com inchaço, molinha, fria ou muito sonolenta.
  • Adolescente que restringe a comida e tem desmaio, tontura ou fala em morrer.

Como levar

  • Se estiver acordada e aceitar, ofereça água ou soro de reidratação oral em pequenos goles no caminho.
  • Engasgo com falta de ar que não melhora: faça as manobras de desengasgo para a idade e ligue para o SAMU 192.
  • Criança muito magra e molinha: mantenha-a agasalhada.
  • Leve a caderneta com a curva de crescimento e os exames.

7.Como prevenir

  • Aleitamento materno e introdução de alimentos a partir de 6 meses, com texturas que avançam conforme a idade.
  • Refeições em família, sem telas, desde cedo.
  • Variedade de alimentos e muitas oportunidades de experimentar, sem pressão.
  • Sem açúcar até os 2 anos; poucos ultraprocessados.
  • Consultas de rotina para acompanhar a curva.

8.Dúvidas e mitos comuns

Meu filho come muito pouco. Vai ficar desnutrido? Se cresce na sua linha da curva e é ativo, está comendo o suficiente para ele.

Posso dar leite ou biscoito quando ele não come a refeição? Não. Isso ensina a trocar a comida por lanches e tira a fome da próxima refeição.

Vale a pena insistir no legume que ele recusa? Vale oferecer de novo, muitas vezes, sem obrigar a comer.

Tablet na mesa ajuda ele a comer? Faz a criança comer sem perceber a fome e a saciedade. Refeição é sem telas.

Lembre-se
  1. Olhe a curva: criança crescendo bem, ativa e saudável está comendo o que precisa.
  2. Você decide o que, quando e onde; ela decide se come e quanto.
  3. Rotina, só água entre as refeições, 20 a 30 minutos à mesa e sem telas.
  4. Remédio para abrir o apetite não resolve e pode fazer mal.
  5. Queda na curva ou poucos alimentos aceitos: pediatra. Recusa de líquidos, engasgos com falta de ar ou vômitos repetidos: pronto-socorro.

9.Veja também

Veja também, nesta Biblioteca:

  • Orientações para Lactentes de 12 a 18 Meses e Orientações 2 a 3 Anos
  • Anemia por falta de ferro (anemia ferropriva)
  • Baixa estatura
  • Alergia à proteína do leite de vaca
  • Como as Crianças Crescem

Versão para profissionais: A criança que não come (dificuldades alimentares) (Patologias do consultório).

10.Fontes

Baseado no documento profissional A criança que não come (dificuldades alimentares) desta Biblioteca e nas referências nele citadas:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Nutrologia. Guia de Orientações — Dificuldades Alimentares, 2022.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Dificuldades alimentares (Pediatria para Famílias), 2023.
  • Goday PS et al. Pediatric Feeding Disorder — Consensus Definition and Conceptual Framework, 2019.
  • NICE. Faltering growth (NG75), 2017.