Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
A dermatite atópica (eczema) é uma doença de pele crônica, que não passa de uma criança para outra. A pele é seca, coça muito e tem fases boas e crises. Costuma começar nos primeiros 2 anos e muitas crianças melhoram na idade escolar. O tratamento tem três pilares: hidratante todos os dias, em bastante quantidade, mesmo sem crise; pomada de corticoide receitada nas crises, na potência certa para a idade e o local; e, nas crianças com crises frequentes, manutenção 2 dias por semana nas áreas que costumam voltar. Quase sempre o cuidado é feito em casa. Procure o pediatra se houver casquinhas amareladas, pus ou coceira que impede o sono. Vá ao pronto-socorro no mesmo dia se aparecerem bolhinhas agrupadas ou feridas redondas que doem e se espalham rápido, febre com piora da pele, lesões perto dos olhos ou criança muito abatida.
1.O que é
- É uma inflamação crônica da pele, que tem uma barreira mais frágil: perde água com facilidade e reage a irritantes. Faz parte da família das alergias (asma, rinite, alergia alimentar), mas a maioria das crises não é causada por alimentos.
- Não é contagiosa.
- A pele de quem tem dermatite atópica costuma ter uma bactéria (estafilococo) na superfície. Isso não é infecção; só é tratada quando há sinais de infecção.
- Eczema herpético: complicação rara e grave, quando o vírus do herpes (o mesmo do "herpes labial") se espalha sobre a pele com eczema. É uma emergência.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Coceira — sempre presente, piora à noite e atrapalha o sono.
- Pele seca, áspera, com placas vermelhas que descamam; feridinhas de tanto coçar; pele mais grossa nas áreas coçadas há muito tempo.
- Onde aparece, conforme a idade:
- Bebês: bochechas, testa, couro cabeludo e parte de fora de braços e pernas (costuma poupar a área da fralda).
- Crianças: dobras dos cotovelos e dos joelhos, punhos, tornozelos e pescoço.
- Adolescentes: dobras, rosto, pescoço e mãos.
- Sinais de infecção: casquinhas amareladas (cor de mel), pus, secreção, piora rápida.
- Sinais de eczema herpético: bolhinhas agrupadas, feridas pequenas e redondinhas ("em saca-bocado"), dor, piora rápida, febre e abatimento.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Pele seca, poucas áreas de eczema, coceira de vez em quando, dorme bem, pouca interferência nas atividades | Hidratante todos os dias; pomada de corticoide fraca receitada nas crises; evitar gatilhos; retorno programado |
| 🟡 Procure o pediatra | Coceira frequente, vermelhidão, feridinhas ou pele grossa em algumas áreas; sono e atividades atrapalhados; casquinhas amareladas, pus ou secreção em uma área; piora apesar do tratamento. Eczema grave e extenso que não melhora após 1 semana de tratamento bem feito | Consulta em até 24–48 h se houver sinais de infecção; nos demais casos, nos próximos dias. Reavaliação em 1–2 semanas. No eczema grave sem resposta, o pediatra encaminha com urgência ao especialista |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Bolhinhas agrupadas ou feridas redondas que doem e se espalham rápido, principalmente com febre, abatimento, perto dos olhos ou em bebê; pele vermelha em quase todo o corpo, com a criança fria, desidratada ou muito abatida; infecção extensa com febre, prostração ou área quente, inchada e dolorida que cresce; bebê com eczema grave perdendo peso, desidratado ou recusando mamar | Hospital ou pronto-socorro no mesmo dia, sem esperar. Lesões perto dos olhos precisam de avaliação do oftalmologista |
Crianças que merecem mais atenção
- Bebês com início muito cedo e eczema extenso.
- Criança que também tem alergia alimentar, asma ou rinite.
- Crises frequentes (4 ou mais por ano), sobretudo quando o tratamento é feito com receio de usar a pomada.
- Infecções de pele repetidas e contato com pessoas com herpes labial ativo.
- Eczema grave com infecções graves ou repetidas, diarreia prolongada ou que não cresce bem (o pediatra investiga a imunidade).
4.Como cuidar em casa
- Banho diário ou frequente, curto, com água morna (nunca quente) e sabonete suave, sem perfume. Seque com toques leves, sem esfregar.
- Hidratante logo após o banho e pelo menos 2 vezes ao dia, mesmo quando a pele parece boa. Prefira cremes espessos ou pomadas sem perfume. Use em bastante quantidade: o NICE recomenda de 250 a 500 g por semana para uma criança.
- Unhas curtas e limpas, para reduzir as feridas ao coçar.
- Roupas de algodão; evite lã e tecidos sintéticos em contato com a pele. Lave as roupas com sabão suave e sem amaciante perfumado.
- Evite calor e suor excessivo, fumaça de cigarro e produtos perfumados. Observe e anote o que parece piorar a pele do seu filho.
- Alimentação normal: não retire alimentos por conta própria. Só se exclui um alimento quando o pediatra ou o alergista confirma a alergia.
- Evite beijos e contato próximo de pessoas com herpes labial ("bolhinha na boca").
- Escola ou creche: a criança frequenta normalmente; eczema não passa para os colegas.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Pomada de corticoide — só com receita. O pediatra escolhe a potência pela gravidade, pela idade e pelo local:
- No rosto, pescoço, dobras e em bebês, usam-se as mais fracas e por pouco tempo.
- Passe uma camada fina só nas áreas com crise, 1 a 2 vezes ao dia, como orientado, e continue até 48 horas depois que a crise controlar.
- Quantidade certa — "ponta de dedo": a pomada espremida da ponta até a primeira dobrinha do dedo indicador de um adulto cobre uma área igual a duas palmas de mão de adulto. Usar pouco demais faz a crise durar mais.
- Manutenção: em crianças com crises frequentes, o pediatra pode orientar aplicar a pomada 2 dias seguidos por semana nas áreas que costumam voltar, mesmo na fase boa.
- Usada na quantidade, no local e pelo tempo certos, a pomada de corticoide é segura.
Outras pomadas — pimecrolimo (pela bula brasileira, a partir de 3 meses) e tacrolimo (a partir de 2 anos) são opções receitadas para rosto, pálpebras e dobras, sobretudo quando o tratamento precisa ser prolongado. Não afinam a pele; podem arder nos primeiros dias. Não use sobre feridas infectadas ou herpes.
Infecção: é tratada junto com a pomada de corticoide, nunca só com antibiótico. Pode ser pomada antibiótica por poucos dias ou antibiótico pela boca, conforme a extensão. Complete o tempo receitado. Durante a infecção, troque os potes de hidratante já abertos.
Antialérgicos (anti-histamínicos): não tratam a dermatite. Os que dão sono (como hidroxizina, dexclorfeniramina e prometazina) não devem ser usados; a exceção é uma situação especial — por exemplo, coceira à noite que impede o sono da criança e da família —, por poucos dias e só se o pediatra indicar para a idade.
Casos graves: o especialista (dermatologista ou alergista) pode indicar remédios pelo corpo todo, como os imunobiológicos.
Para febre ou dor — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 10–12 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia); não use por mais de 48–72 h sem reavaliação, pelo risco para o fígado.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na catapora, na desidratação e na suspeita de dengue.
- Não alterne antitérmicos.
O que não usar: corticoide pela boca por conta própria (a pele piora ao parar); pomada de corticoide forte no rosto, nas dobras e em bebês; cremes que misturam corticoide com antibiótico ou antifúngico de uso contínuo; pomada antibiótica sem infecção; dietas de exclusão sem diagnóstico.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Bolhinhas agrupadas ou feridas redondas que doem e se espalham rápido.
- Febre com piora da pele.
- Lesões perto dos olhos.
- Criança muito abatida, com pele vermelha em quase todo o corpo, fria ou desidratada.
- Área quente, inchada e dolorida que cresce, com febre.
- Bebê com eczema grave que perde peso ou recusa mamar.
Como levar
- Não espere: no eczema herpético, o tratamento com remédio na veia precisa começar no mesmo dia.
- Dê o antitérmico se houver febre (em bebê com menos de 3 meses, não medique antes de ele ser examinado) e ofereça líquidos.
- Cubra as feridas com gaze limpa e mantenha a criança longe de outros bebês.
- Leve a caderneta de saúde e as pomadas e remédios em uso.
7.Como prevenir
- Hidratante diário, mesmo na fase boa, é a melhor forma de evitar crises.
- Manutenção 2 dias por semana nas áreas que costumam voltar, se o pediatra orientar.
- Evite os gatilhos do seu filho (calor, suor, sabonetes perfumados, lã, fumaça).
- Vacinas em dia, conforme o calendário.
8.Dúvidas e mitos comuns
Posso dar banho todos os dias? Sim. Banho curto, morno e seguido do hidratante ajuda a pele.
A pomada de corticoide vai fazer mal? Usada da forma orientada, é segura e eficaz. O problema é o uso sem orientação ou em excesso — e também o uso de menos, que prolonga a crise.
Preciso tirar o leite ou outros alimentos? Não de rotina. A maioria das crises não vem da comida. Só retire um alimento se o pediatra ou o alergista confirmar a alergia.
A dermatite vai passar quando crescer? Muitas crianças melhoram bastante com o tempo, mas ela pode continuar na adolescência. O cuidado correto melhora muito a qualidade de vida.
- Hidratante todos os dias, em bastante quantidade, com ou sem crise.
- Pomada de corticoide receitada, na quantidade certa ("ponta de dedo"), só nas áreas com crise.
- Infecção se trata junto com a pomada de corticoide, com receita.
- Antialérgicos que dão sono não devem ser usados, salvo indicação especial do pediatra.
- Bolhinhas agrupadas, feridas redondas que doem ou febre com piora da pele: pronto-socorro no mesmo dia.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Dermatite Atópica (guia para pais e cuidadores)
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Impetigo, celulite e abscessos (infecções de pele)
- Urticária aguda (placas de alergia na pele)
- Sarna (escabiose) e piolho (pediculose)
Versão para profissionais: Dermatite atópica no consultório (Patologias do consultório).
10.Fontes
Baseado no documento profissional Dermatite atópica no consultório desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria e ASBAI. Guia prático de tratamento da dermatite atópica grave, 2023.
- NICE. CG57 — Atopic eczema in under 12s, atualizado em 2025.
- American Academy of Pediatrics. Treating eczema (HealthyChildren.org), 2025.
- American Academy of Dermatology. Diretriz de dermatite atópica em menores de 18 anos, 2026.
- SEPEAP. Guía de dermatitis atópica, 2023.