Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
Dificuldade para dormir sozinho, acordar várias vezes chamando os pais e resistir na hora de deitar são queixas muito comuns e, na maioria das vezes, vêm de hábitos, não de doença. Quase sempre melhoram em casa, com horários regulares, um ritual curto antes de dormir e nenhuma tela 1 a 2 horas antes de deitar. Terror noturno e sonambulismo assustam, mas são benignos. Procure o pediatra se a criança ronca em 3 ou mais noites por semana com pausas na respiração, sono agitado ou cansaço de dia. Vá ao pronto-socorro se o bebê tiver pausa na respiração com lábios roxos ou ficar mole, se houver dificuldade para respirar também acordado ou convulsão durante o sono.
1.O que é
Quanto sono cada idade precisa (Sociedade Brasileira de Pediatria, em 24 horas, contando os cochilos):
| Idade | Horas de sono em 24 h |
|---|---|
| 4 a 12 meses | 12 a 16 horas |
| 1 a 2 anos | 11 a 14 horas |
| 3 a 5 anos | 10 a 13 horas |
| 6 a 12 anos | 9 a 12 horas |
| 13 a 18 anos | 8 a 10 horas |
Nos primeiros meses o sono é picado, sem diferença entre dia e noite — é normal. Na adolescência, o corpo "atrasa" a hora de sentir sono; com celular à noite e escola cedo, o adolescente acaba dormindo pouco.
- Insônia comportamental: a criança só adormece mamando, no colo ou com um adulto ao lado — e precisa disso de novo a cada despertar; ou resiste a ir para a cama. Mais comum dos 6 meses aos 5 anos.
- Terror noturno e sonambulismo: no início da noite, mais entre 3 e 8 anos; costumam ter casos na família.
- Apneia obstrutiva do sono: a respiração "trava" durante o sono, geralmente por amígdalas e adenoide grandes. Atinge cerca de 1 em cada 30 crianças, mais entre 2 e 8 anos.
- Pernas inquietas: vontade de mexer as pernas ao anoitecer, com alívio ao movimentar; pode estar ligada à falta de ferro.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
| Como diferenciar | Terror noturno | Pesadelo |
|---|---|---|
| Quando | Primeiras horas de sono | Segunda metade da noite |
| Como é | Grita de repente, olhos abertos, suada; não reconhece os pais e não se acalma com colo | Acorda assustada, reconhece os pais e procura conforto |
| Lembra depois? | Não | Sim, conta o sonho |
Sinais de apneia do sono: ronco alto e frequente, pausas na respiração, engasgos, respiração pela boca, sono muito agitado, xixi na cama que tinha parado e voltou, sonolência ou cansaço de dia, desatenção, irritação, queda no rendimento escolar, ganho de peso fraco.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Dificuldade para adormecer sozinha, despertares chamando os pais, resistência para deitar; pesadelos de vez em quando; terror noturno ou sonambulismo esporádicos; ronco sem pausas e sem cansaço de dia | Rotina de sono e técnicas de casa (abaixo); proteger o ambiente. Anote um diário de sono por 1–2 semanas e leve ao retorno, em 4–8 semanas |
| 🟡 Procure o pediatra | Ronco em 3 ou mais noites por semana com pausas, esforço para respirar, sono agitado, xixi na cama que voltou, desatenção, sonolência de dia ou pouco ganho de peso; terror noturno ou sonambulismo frequentes ou com risco de se machucar; pernas inquietas; insônia que não melhora com a rotina e atrapalha escola ou família | Consulta nos próximos dias (não precisa ser no mesmo dia). O pediatra pode pedir exames e encaminhar ao otorrinolaringologista ou ao especialista em sono |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Bebê com pausa na respiração de mais de 20 segundos, lábios roxos, muito mole ou sem reagir; dificuldade para respirar também acordada, com barulho ao respirar; amigdalite com dificuldade de respirar; convulsão durante o sono que dura 5 minutos ou mais ou depois da qual a criança demora a voltar ao normal; adolescente que não dorme e fala em se matar, com plano | Pronto-socorro agora. SAMU 192 se o bebê parou de respirar, está roxo ou mole, ou se há convulsão |
Crianças que merecem mais atenção
- Para a apneia: menores de 3 anos, crianças com obesidade, prematuros, síndrome de Down, alterações do rosto e do crânio, doenças neuromusculares.
- Bebês prematuros, que dormem de bruços, em superfície macia, na cama dos adultos ou em casa com fumaça de cigarro (risco de morte súbita).
- Crianças com TDAH, autismo ou deficiência intelectual (insônia mais persistente).
- Adolescentes tristes, ansiosos ou isolados — a insônia pode ser o primeiro sinal.
4.Como cuidar em casa
Rotina que funciona
- Mesmo horário para deitar e acordar, inclusive no fim de semana.
- Ritual curto (até 30 minutos): banho, escovar os dentes, história, luz baixa.
- Coloque o bebê no berço sonolento, mas acordado, para que aprenda a adormecer sozinho.
- Quarto escuro, silencioso e com temperatura agradável.
- Telas: nenhuma antes dos 2 anos; de 2 a 5 anos até 1 hora por dia com um adulto junto; de 6 a 10 anos 1 a 2 horas; de 11 a 18 anos 2 a 3 horas, nunca à noite. Desligue tudo 1 a 2 horas antes de dormir e deixe os aparelhos fora do quarto.
- Evite cafeína (refrigerante de cola, chá mate e preto, chimarrão, energéticos) e refeição pesada à noite; atividade física todos os dias, longe da hora de deitar.
Sono seguro do bebê: sempre de barriga para cima até 12 meses; berço próprio, colchão firme, sem travesseiro, protetor, bichinhos ou edredom; quarto compartilhado, cama não (berço no quarto dos pais pelo menos nos primeiros 6 meses); sem excesso de roupa; casa sem cigarro.
Para a criança que só dorme com você
- Espera gradual: quando ela chorar, espere um pouco antes de ir ao quarto e aumente esse tempo aos poucos; console rápido, sem tirar do berço.
- Cadeira que se afasta: fique sentado ao lado da cama e, a cada poucas noites, afaste a cadeira até sair do quarto.
- Todos os cuidadores agem do mesmo jeito. Os resultados aparecem em 1 a 3 semanas.
No terror noturno e no sonambulismo: não tente acordar a criança; fique por perto e proteja. Tranque portas e janelas, portão na escada, sem beliche. Evite que ela durma pouco. Se os episódios têm horário certo, o pediatra pode orientar despertá-la de leve 15 a 30 minutos antes, por 2 a 4 semanas.
No pesadelo: acolha e evite conteúdos assustadores. Se forem frequentes, converse com o pediatra sobre medos ou estresse.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
O principal tratamento é a rotina. Remédio para dormir não é o primeiro passo.
- Melatonina: não é remédio para dormir e não deve ser comprada por conta própria. A Sociedade Brasileira de Pediatria alerta contra o uso sem orientação médica, e a Anvisa não autoriza suplementos de melatonina para crianças e adolescentes. O médico só a considera em situações específicas, depois de ajustar a rotina. Se houver em casa, guarde fora do alcance das crianças.
- Ferro: nas pernas inquietas e no sono muito agitado, o pediatra pode pedir a dosagem da reserva de ferro (ferritina) e, se estiver baixa, receitar ferro por alguns meses.
- Apneia com amígdalas e adenoide grandes: a cirurgia é o tratamento principal, indicada pelo otorrinolaringologista; em casos leves, o médico pode receitar spray nasal de corticoide.
Não use: antialérgicos que dão sono (hidroxizina, dexclorfeniramina, prometazina) para "fazer dormir" — pioram a qualidade do sono; só o médico pode indicá-los, por pouco tempo, em situações como coceira noturna que impede o sono da família. Nada de calmantes, chás ou fitoterápicos "para dormir".
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Bebê com pausa na respiração de mais de 20 segundos, lábios roxos, muito mole ou sem reagir.
- Dificuldade para respirar também acordada.
- Convulsão durante o sono que dura 5 minutos ou mais (SAMU 192), ou criança que demora a voltar ao normal depois.
- Adolescente que fala em se matar, principalmente com um plano (CVV: 188).
Como levar
- Bebê que parou de respirar, roxo ou mole: SAMU 192, seguindo as orientações por telefone.
- Depois de uma convulsão, deite a criança de lado e não coloque nada na boca.
- Com dificuldade para respirar, deixe-a sentada ou no colo.
- Leve a caderneta, os remédios em uso e, se possível, um vídeo do episódio.
7.Como prevenir
- Rotina de sono desde bebê e sono seguro no primeiro ano.
- Telas fora do quarto e desligadas 1 a 2 horas antes de dormir.
- Conte ao pediatra, em toda consulta, se a criança ronca.
- Tratar a rinite e manter hábitos saudáveis ajudam a prevenir a apneia.
8.Dúvidas e mitos comuns
Deixar chorar faz mal? As técnicas graduais, com consolo breve e presença, são seguras e funcionam.
Devo acordar meu filho no terror noturno? Não. Fique por perto e proteja.
Ronco de criança é normal? De vez em quando, no resfriado, sim. Frequente, com pausas ou cansaço de dia, precisa ser avaliado.
Melatonina é natural, então não faz mal? É um hormônio e age como remédio. Só com orientação médica.
- Mesmo horário, ritual curto e nada de telas 1 a 2 horas antes de dormir.
- Bebê dorme de barriga para cima, no berço dele, sonolento mas acordado.
- No terror noturno, não acorde a criança: proteja.
- Ronco em 3 ou mais noites por semana com pausas ou cansaço de dia: pediatra.
- Melatonina e antialérgicos que dão sono não são para usar por conta própria.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Prevenção da Morte Súbita do Lactente
- Enurese noturna (xixi na cama)
- TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade)
- Ansiedade e depressão na infância e adolescência
- Anemia por falta de ferro (anemia ferropriva)
Versão para profissionais: Distúrbios do sono na infância (Patologias do consultório).
10.Fontes
Baseado no documento profissional Distúrbios do sono na infância desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Medicina do Sono. Higiene do sono — atualização, 2021.
- Sociedade Brasileira de Pediatria. A apneia do sono na população pediátrica (Pediatria para Famílias), 2024.
- American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org). Melatonin and children's sleep, 2026.
- American Academy of Pediatrics. Diagnosis and Management of Childhood Obstructive Sleep Apnea Syndrome, 2012.