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Doença mão-pé-boca e herpangina

Como aliviar a dor na boca, manter a criança bebendo e reconhecer os sinais de alerta

Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF

Em poucas palavras

A doença mão-pé-boca e a herpangina são causadas por vírus da família dos enterovírus e são muito comuns em crianças menores de 5 anos, principalmente em creches. Dão febre e feridinhas doloridas na boca; na mão-pé-boca, também bolinhas nas mãos, nos pés e no bumbum. Melhoram sozinhas em 7 a 10 dias e não precisam de antibiótico nem de antiviral. O mais importante é aliviar a dor em horários certos e manter a criança bebendo, porque a dor na boca faz a criança recusar líquidos e pode levar à desidratação. Vá ao pronto-socorro se ela não aceitar nada para beber, ficar sem xixi, ficar muito sonolenta, tiver "sustos" ou tremores repetidos, andar cambaleando, vomitar muito ou respirar rápido, com pele fria e manchada.

1.O que é

  • Doença mão-pé-boca: febre baixa a moderada, mal-estar, feridas (aftas) doloridas na língua, na parte de dentro das bochechas e no céu da boca, e bolinhas ou manchinhas vermelhas nas palmas das mãos, nas solas dos pés, no bumbum e ao redor da boca.
  • Herpangina: começa de repente, com febre mais alta, dor forte para engolir, baba e recusa alimentar; as feridas ficam no fundo da boca e na garganta, sem lesões na pele.
  • Como passa: pelas fezes (troca de fraldas, mãos), pela saliva e pelas gotículas da tosse, e pelo líquido das bolinhas. O vírus continua saindo nas fezes por até 4 semanas depois da melhora — por isso a lavagem das mãos é tão importante.
  • Formas diferentes: um dos vírus (coxsackievírus A6) pode causar bolhas maiores e espalhadas nos cotovelos, joelhos, bumbum e rosto, às vezes sobre áreas de dermatite atópica. Semanas depois, a pele das mãos e dos pés pode descascar e as unhas podem cair — isso não é grave, e elas voltam a crescer.
  • Raramente, um tipo desse vírus (enterovírus A71) pode atingir o sistema nervoso, o coração e o pulmão, e piorar rapidamente. Os sinais de alerta abaixo servem para reconhecer isso cedo.

2.Como aparece (sinais e sintomas)

  • Febre (temperatura na axila de 37,5 °C ou mais), irritação, dor de garganta.
  • Baba, recusa para comer e beber, choro ao engolir.
  • Feridas na boca e bolinhas na pele (na mão-pé-boca).
  • Sinais de desidratação: boca seca, choro sem lágrimas, xixi pouco e escuro, criança abatida.
  • Sinais de alerta no sistema nervoso: muito sonolenta ou irritada demais, "sustos" ou abalos repetidos, principalmente dormindo, tremores, andar cambaleante, fraqueza em braço ou perna, olhos que "tremem", convulsão.

Quando pode ser outra coisa: gengiva muito inchada, vermelha e sangrando, com feridas nos lábios, sugere herpes (gengivoestomatite herpética), que pode precisar de antiviral. Bolinhas espalhadas sobre a pele com dermatite atópica, com a criança abatida, também podem ser herpes e precisam de avaliação urgente.

3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro

Cor O que você observa O que fazer
🟢 Cuidar em casa Criança bem-disposta nos intervalos; febre baixa a moderada; aceita líquidos e faz xixi normalmente; dor controlada com o analgésico; sem sinais de alerta Analgésico em horários certos, líquidos frios e comida pastosa. Retorno se não melhorar ou aparecerem sinais de alerta
🟡 Procure o pediatra Bebe pouco, mas ainda faz xixi; feridas na boca muito extensas; febre por mais de 3 dias ou de 39 °C ou mais; bolhas espalhadas pelo corpo; bebê pequeno; dificuldade de manejar a dor em casa Consulta em até 24 horas. O pediatra ajusta o alívio da dor e pode observar se a criança consegue beber
🔴 Pronto-socorro agora Não aceita nenhum líquido ou sem xixi por 8 horas ou mais; muito sonolenta, difícil de acordar ou irritação intensa; "sustos" ou tremores repetidos, andar cambaleante, fraqueza em braço ou perna, convulsão, pescoço duro; dor de cabeça forte com vômitos; vômitos repetidos; respiração rápida ou com esforço, coração muito acelerado, suor frio, pele pálida, fria ou manchada; febre acima de 39 °C por mais de 48 h com a criança largada; recém-nascido com suspeita Pronto-socorro agora — esses sinais podem piorar rapidamente. SAMU 192 se muito sonolenta, com convulsão, falta de ar ou pele fria e manchada

Crianças que merecem mais atenção

  • Menores de 5 anos, principalmente bebês (desidratam mais rápido).
  • Recém-nascidos — o enterovírus pode ser grave nessa idade.
  • Febre alta e prolongada, sonolência ou vômitos nos primeiros dias.
  • Dermatite atópica extensa.
  • Imunidade baixa.
  • Surtos na creche ou na cidade com casos graves.

4.Como cuidar em casa

  • Alivie a dor em horários certos nos primeiros dias — não só quando houver febre. Dê o analgésico 30 a 60 minutos antes das refeições.
  • Líquidos frios, várias vezes ao dia: água, leite, picolé de fruta não ácida, iogurte. Ofereça de colher, copinho ou seringa, em pequenas quantidades.
  • Soro de reidratação oral (envelope da UBS ou farmácia, preparado como diz a embalagem) se a criança estiver bebendo pouco: ofereça gelado, em pequenos goles, com frequência, conforme ela aceitar.
  • Comida pastosa e fria: purês, sopas mornas ou frias, vitaminas, gelatina, sorvete. Evite alimentos ácidos (laranja, limão, tomate), salgados, crocantes e muito quentes.
  • Continue o peito normalmente.
  • Pele: mantenha as lesões limpas e secas; não fure as bolhas. Observe se alguma fica muito vermelha, quente ou com pus.
  • Higiene: lave bem as mãos, principalmente depois de trocar fraldas, por pelo menos um mês. Limpe brinquedos e superfícies com álcool 70% e não compartilhe copos e talheres.

Escola ou creche: a SBP orienta afastar até as lesões sararem completamente e a criança estar sem febre. Outras referências (AAP) liberam quando está sem febre, bem-disposta e com a maioria das bolinhas secas — em geral cerca de 7 dias. Combine com o pediatra e com a escola. Dois ou mais casos relacionados na mesma creche configuram surto, que a escola ou o serviço de saúde deve notificar.

5.Remédios: o que ajuda e o que evitar

Para a dor e a febre — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:

  • Dipirona: 10–12 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
  • Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima, em criança comendo e bebendo pouco ou somado a antigripais com paracetamol, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
  • Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite se a criança estiver desidratada ou vomitando, e na suspeita de dengue ou catapora.
  • Não alterne antitérmicos.

Produtos para a boca: o pediatra pode indicar uma solução calmante para passar nas feridas em crianças acima de 1 ano. Não use lidocaína viscosa ou outros anestésicos em gel em bebês e crianças pequenas — podem ser tóxicos e atrapalhar a deglutição.

O que não usar: antibióticos, antivirais (aciclovir) e antifúngicos não ajudam nessa virose (SBP 2025). Nunca dê AAS (aspirina) a crianças. Nada de automedicação.

6.Quando ir ao pronto-socorro

  • Não aceita nenhum líquido ou está sem xixi por 8 horas ou mais.
  • Muito sonolenta, difícil de acordar ou irritação intensa.
  • "Sustos" ou tremores repetidos (principalmente dormindo), andar cambaleante, fraqueza em braço ou perna, convulsão, pescoço duro.
  • Vômitos repetidos ou dor de cabeça forte com vômitos.
  • Respiração rápida ou com esforço, coração muito acelerado, suor frio, pele pálida, fria ou manchada.
  • Recém-nascido com suspeita, ou criança com imunidade baixa.

Como levar

  • Se estiver acordada e conseguir engolir, ofereça pequenos goles de líquido frio ou soro no caminho.
  • Se estiver muito sonolenta, não dê nada pela boca e transporte-a deitada de lado.
  • Convulsão, falta de ar, sonolência intensa ou pele fria e manchada: ligue para o SAMU 192.
  • Leve a caderneta de saúde e anote o horário dos remédios, o que ela bebeu e a última vez que fez xixi.

7.Como prevenir

  • Lavar as mãos com água e sabão, principalmente depois de trocar fraldas e antes de preparar alimentos.
  • Limpar brinquedos e superfícies; não compartilhar copos, talheres e chupetas.
  • Manter a criança doente em casa enquanto estiver com febre e lesões, conforme orientação.
  • Não há vacina contra esses vírus no Brasil.

8.Dúvidas e mitos comuns

Precisa de antibiótico? Não. É uma virose; antibiótico não ajuda e pode causar efeitos indesejados.

Meu filho pode pegar de novo? Pode, porque há vários tipos de enterovírus. Cada episódio costuma ser leve.

As unhas do meu filho estão caindo. É grave? Não. Pode acontecer algumas semanas depois da doença; as unhas voltam a crescer normalmente.

Adultos pegam? Raramente, e em geral depois de contato prolongado com a criança doente. Lavar as mãos protege a família.

Lembre-se
  1. Dê o analgésico em horários certos nos primeiros dias, antes das refeições.
  2. O mais importante é manter a criança bebendo: líquidos frios, em pequenas quantidades, muitas vezes.
  3. Não precisa de antibiótico nem de antiviral.
  4. "Sustos" repetidos, tremores, sonolência, andar cambaleante ou respiração rápida: pronto-socorro.
  5. Lave as mãos por pelo menos um mês depois da doença.

9.Veja também

Veja também, nesta Biblioteca:

  • Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
  • Doenças com manchas na pele (sarampo, catapora, roséola e outras)
  • Dor de garganta (faringoamigdalite)
  • Diarreia aguda e desidratação
  • Convulsão febril e primeira crise

Versão para profissionais: Doença mão-pé-boca e herpangina (Patologias do consultório).

10.Fontes

Baseado no documento profissional Doença mão-pé-boca e herpangina desta Biblioteca e nas referências nele citadas:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Síndrome mão-pé-boca (documento científico), 2019.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Tratamento da doença mão-pé-boca em crianças — Nota de Alerta nº 219, 2025.
  • American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org). Hand, Foot & Mouth Disease.
  • NHS. Hand, foot and mouth disease.
  • Associação Espanhola de Pediatria. Enfermedades exantemáticas víricas, 2023.