Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
Dor abdominal crônica é a dor de barriga que se repete ou persiste por pelo menos 2 meses. Na grande maioria das crianças e adolescentes ela é funcional: a dor é real, mas o intestino é saudável — ele está mais sensível e reage ao estresse, às emoções e a mudanças na rotina. O pediatra chega a esse diagnóstico pela conversa, pelo exame e pelo crescimento normal, com poucos exames. O tratamento começa com explicação, volta à rotina e, quando necessário, apoio psicológico. Procure o pediatra se a dor acordar a criança à noite, se houver perda de peso, sangue nas fezes, diarreia à noite ou febre sem explicação. Vá ao pronto-socorro se a dor ficar forte e diferente da habitual, com vômitos verdes, barriga inchada e dura ou sangramento.
1.O que é
- Dor abdominal crônica: dor de barriga que vai e volta (ou fica contínua) há pelo menos 2 meses e atrapalha as atividades. Afeta cerca de 1 em cada 10 escolares e adolescentes.
- Dor funcional (distúrbio da interação intestino-cérebro): o intestino fica mais sensível e "conversa" de forma exagerada com o cérebro. Estresse, ansiedade, uma virose intestinal anterior e a forma como a família lida com a dor influenciam. Não é invenção nem "manha".
- Tipos que o pediatra pode descrever:
- Dispepsia funcional: dor ou queimação na "boca do estômago", sensação de estômago cheio logo depois de comer.
- Síndrome do intestino irritável: dor ligada à evacuação, com fezes que mudam de consistência ou de frequência.
- Enxaqueca abdominal: crises de dor forte em volta do umbigo, de 1 hora ou mais, com palidez, enjoo, vômitos ou dor de cabeça, separadas por semanas ou meses de bem-estar.
- Dor abdominal funcional: dor frequente que não se encaixa nos outros tipos.
- Intestino preso é uma causa comum de dor crônica e precisa ser tratado antes de se falar em dor funcional.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Dor em volta do umbigo, vaga, difícil de descrever, sem relação clara com um alimento.
- Criança que cresce bem e tem exame normal.
- Muitas vezes vem junto com dor de cabeça, ansiedade, sono ruim e faltas na escola.
- Pode piorar antes da escola ou em momentos de tensão — o que não quer dizer que seja fingida.
Sinais de alerta (pedem investigação):
- Perda de peso, criança que parou de crescer ou puberdade atrasada.
- Dor que acorda a criança à noite.
- Sangue nas fezes, fezes pretas, vômito com sangue ou palidez (anemia).
- Dificuldade ou dor para engolir; vômitos que se repetem.
- Diarreia que dura semanas ou que acorda a criança à noite.
- Febre sem explicação, dor ou inchaço nas juntas, feridas ou fissuras em volta do ânus.
- Dor sempre no mesmo lugar, do lado direito da barriga.
- Parentes próximos com doença inflamatória intestinal (doença de Crohn ou retocolite), doença celíaca ou úlcera.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Dor que vai e volta, já avaliada pelo pediatra, sem sinais de alerta; criança cresce bem, come, brinca e vai à escola | Rotina normal, diário da dor e das evacuações, cuidados abaixo. Retorno combinado em 4–8 semanas. Se ainda não passou pelo pediatra, marque uma consulta |
| 🟡 Procure o pediatra | Qualquer sinal de alerta em criança que está bem (dor que acorda à noite, perda de peso, sangue nas fezes, diarreia noturna, febre sem explicação); faltas frequentes na escola; ansiedade ou tristeza; sem melhora com as medidas iniciais | Consulta em 24–48 horas (não é caso de pronto-socorro). O pediatra pede os exames dirigidos e pode encaminhar ao gastroenterologista pediátrico e ao psicólogo |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Dor forte, contínua ou diferente da habitual, que piora ao andar ou pular, barriga dura; vômitos verdes ou que não param; barriga inchada, sem evacuar nem soltar gases; vômito com sangue, fezes pretas ou muito sangue nas fezes; palidez intensa; desidratação; febre alta com criança abatida ou com dor nas costas, do lado; tristeza intensa, falas sobre não querer viver ou autoagressão | Pronto-socorro agora. SAMU 192 se estiver muito pálida, desmaiando ou com sangramento importante |
Crianças que merecem mais atenção
- Com qualquer sinal de alerta da lista acima.
- Com ansiedade, depressão, bullying, conflitos em casa ou suspeita de qualquer forma de violência.
- Que faltam muito à escola por causa da dor.
- Que tiveram uma gastroenterite forte ou cirurgia na barriga recentemente.
- Adolescentes com cólica menstrual forte ou dor na parte baixa da barriga.
4.Como cuidar em casa
- Acredite na dor e acolha, mas sem transformar a dor no centro da vida da família. Diga: "eu sei que dói, e vai passar".
- O objetivo é voltar à vida normal — escola, esporte, amigos, sono — mesmo com um pouco de dor. Ficar em casa costuma piorar o quadro.
- Diário por 2 semanas: anote quando a dor aparece, quanto dura, o que estava acontecendo, como foram as fezes e o sono. Leve na consulta.
- Intestino em dia: água ao longo do dia, frutas, verduras, legumes e horário para sentar no vaso depois das refeições.
- Alimentação: refeições em horários regulares, sem pular o café da manhã. Evite excesso de refrigerantes, sucos, cafeína e comidas muito gordurosas ou apimentadas, se pioram a dor.
- Sono e rotina: horários regulares, telas desligadas 1–2 horas antes de dormir.
- Na crise de dor: repouso breve, bolsa morna na barriga, respiração lenta, distração. Depois, retome as atividades.
- Converse com a escola, para que a criança tenha apoio sem precisar voltar para casa a cada dor.
- Apoio psicológico: a terapia cognitivo-comportamental e a hipnoterapia voltada para o intestino são os tratamentos com melhor resultado nas diretrizes atuais. Não significa que a dor "é da cabeça" — elas ensinam o corpo a reagir menos à dor.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Para dor mais forte, de vez em quando — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Use só nos episódios mais intensos, não todos os dias. Uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima, em jejum ou somado a outros produtos com paracetamol, pode fazer mal ao fígado — nesse caso, leve para reavaliação.
- Evite anti-inflamatórios repetidos (como o ibuprofeno), que irritam o estômago.
Com receita, conforme o tipo de dor — óleo de hortelã-pimenta em cápsulas especiais, probióticos específicos, fibra, remédio para acidez por algumas semanas ou, nos casos difíceis, remédios de uso controlado indicados pelo especialista. Siga o tempo combinado.
O que não fazer: dar vermífugo repetidamente "por via das dúvidas"; tirar o glúten da dieta antes do exame de sangue para doença celíaca (o exame fica falso); cortar vários alimentos sem orientação; testes de "intolerância alimentar" vendidos por IgG; repetir exames só para "garantir"; remédios fortes para dor (opioides).
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Dor muito forte, contínua ou diferente da de sempre, barriga dura ou dor ao andar e pular.
- Vômitos verdes ou que não param; barriga inchada, sem evacuar nem soltar gases.
- Vômito com sangue, fezes pretas ou sangramento importante; palidez intensa.
- Sinais de desidratação ou perda de peso rápida.
- Febre alta com criança abatida, ou com dor nas costas, do lado.
- Tristeza intensa, falas sobre não querer viver ou autoagressão — procure ajuda no mesmo momento (pronto-socorro; o CVV atende pelo 188, a qualquer hora).
Como levar
- Na dor forte com suspeita de problema cirúrgico, não dê comida nem bebida até a avaliação.
- Se a criança estiver acordada e engolir bem, pode dar o analgésico antes de sair.
- Muito pálida, desmaiando ou com sangramento importante: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta, o diário da dor, os exames anteriores e os remédios em uso, e conte o que mudou em relação à dor de sempre.
7.Como prevenir
- Rotina com sono, alimentação regular e atividade física.
- Tratar o intestino preso desde cedo.
- Ficar atento ao clima na escola e em casa (bullying, cobranças, conflitos) e conversar abertamente.
8.Dúvidas e mitos comuns
Se os exames estão normais, meu filho está fingindo? Não. A dor é real. O intestino está saudável, mas mais sensível.
Não seria melhor fazer ultrassom e endoscopia para ter certeza? Sem sinais de alerta, esses exames não ajudam e podem aumentar a ansiedade. O pediatra pede os exames certos quando há motivo.
Tirar o leite ou o glúten resolve? Só com indicação. O glúten nunca deve ser retirado antes do exame para doença celíaca.
Ele deve faltar à escola nos dias de dor? O ideal é ir, com apoio da escola. Faltar reforça a dor.
- A dor é real, mas na maioria das vezes o intestino é saudável.
- O objetivo é voltar à escola e às atividades, mesmo com um pouco de dor.
- Dor que acorda à noite, perda de peso, sangue nas fezes ou diarreia noturna: pediatra em 24–48 h.
- Não retire o glúten nem dê vermífugo por conta própria.
- Dor forte e diferente, vômitos verdes, barriga dura ou tristeza intensa: pronto-socorro.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Intestino preso (constipação intestinal)
- Dor de barriga aguda
- Parasitoses intestinais (vermes)
- Infecção urinária
- Ansiedade e depressão na infância e adolescência
Versão para profissionais: Dor abdominal crônica e distúrbios funcionais (Patologias do consultório).
10.Fontes
Baseado no documento profissional Dor abdominal crônica e distúrbios funcionais desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Guia Prático de Atualização — Dor abdominal crônica na infância e adolescência, 2019.
- ESPGHAN/NASPGHAN. Diretriz para síndrome do intestino irritável e dor abdominal funcional em crianças de 4 a 18 anos, 2025.
- AEP/SEGHNP. Protocolos de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica, 2023.
- American Academy of Pediatrics e NASPGHAN. Chronic abdominal pain in children, 2005.