Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
A infecção urinária acontece quando bactérias, quase sempre do próprio intestino, sobem pela uretra e infectam a bexiga (cistite) ou os rins (pielonefrite). Na criança maior, dá ardência para urinar, xixi muitas vezes e escapes; no bebê, muitas vezes o único sinal é a febre, sem outra causa aparente. O diagnóstico precisa de urina colhida do jeito certo antes do antibiótico. Na maioria das vezes, o tratamento é por via oral, em casa, com reavaliação em 48–72 horas. Vá ao pronto-socorro se um bebê com menos de 3 meses tiver febre, ou se a criança estiver muito sonolenta, gemendo, com vômitos que impedem o remédio, fazendo pouco xixi ou ainda com febre depois de 2–3 dias de antibiótico.
1.O que é
- Cistite: infecção da bexiga. Dá sintomas ao urinar, sem febre.
- Pielonefrite (infecção urinária com febre): a infecção chegou aos rins. Dá febre, às vezes dor nas costas e mal-estar. Precisa de tratamento rápido e completo para proteger os rins.
- Causa: na maioria das vezes, a bactéria E. coli, que vive no intestino.
- Quem tem mais: bebês no primeiro ano de vida (meninos nos primeiros meses) e, depois, meninas.
- O que favorece: intestino preso, segurar o xixi por muito tempo, refluxo de urina da bexiga para os rins (refluxo vesicoureteral), alterações do trato urinário, fimose com inflamações repetidas, sinéquia de pequenos lábios.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
No bebê:
- Febre (temperatura axilar de 37,5 °C ou mais) sem outra causa aparente.
- Irritação, recusa das mamadas, vômitos, pouco ganho de peso.
- No recém-nascido, icterícia (pele amarelada) que demora a passar.
Na criança maior:
- Ardência ou dor para urinar, xixi muitas vezes e em pouca quantidade, urgência.
- Escapes de xixi durante o dia ou voltar a molhar a cama depois de já ter parado.
- Dor na parte baixa da barriga ou nas costas, do lado.
- Urina com cheiro forte (sozinho, esse sinal não confirma infecção).
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Infecção já diagnosticada pelo pediatra, em criança com mais de 3 meses, bem-disposta, bebendo, sem vômitos, tomando o antibiótico | Antibiótico nos horários, líquidos, antitérmico se precisar. Retorno em 48–72 h, com o resultado da cultura |
| 🟡 Procure o pediatra | Ardência ou dor para urinar, xixi muitas vezes ou escapes novos, sem febre; febre sem causa aparente em criança com mais de 3 meses em bom estado; febre alta, dor nas costas ou vômitos ocasionais; bebê de 3 a 6 meses com febre, bem-disposto; criança que já teve infecção urinária e está com febre | Consulta no mesmo dia se houver febre (inclusive para colher urina antes do antibiótico); em até 24 h se não houver febre. Reavaliação obrigatória em 24–48 h |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Bebê com menos de 3 meses com febre; muito sonolenta, gemendo, molinha, pele fria, pálida ou manchada; vômitos que não param ou não consegue tomar o remédio; boca seca e pouco xixi; criança com alteração conhecida nos rins ou nas vias urinárias (rim único, refluxo de grau alto, obstrução) com febre; imunidade baixa; febre que continua depois de 48–72 h de antibiótico ou piora da dor nas costas | Pronto-socorro agora: pode precisar de antibiótico na veia e exames. SAMU 192 se muito sonolenta, com pele fria e manchada ou respiração difícil |
Crianças que merecem mais atenção
- Bebês com menos de 3 meses, principalmente no primeiro mês de vida.
- Alterações conhecidas nos rins ou nas vias urinárias (hidronefrose vista no pré-natal, refluxo vesicoureteral, válvula de uretra), rim único, doença renal, bexiga neurogênica.
- Infecções urinárias com febre que se repetem.
- Antibiótico nos últimos 1–3 meses ou internação recente.
- Imunidade baixa; família com dificuldade de voltar para reavaliação.
4.Como cuidar em casa
Coleta da urina — o passo mais importante
- A urina é colhida antes da primeira dose do antibiótico. Não comece antibiótico que você tem em casa: ele pode mascarar o exame.
- Criança que já usa o vaso: lave a região genital só com água, deixe sair o primeiro jato no vaso e colha o jato do meio no frasco estéril.
- Bebê de fralda: o saquinho coletor serve apenas para mostrar que não há infecção. Se o exame der alterado, o pediatra precisa colher de novo por um método confiável — sonda fina na uretra, punção na bexiga ou coleta "no voo" (esperar o bebê urinar e aparar o jato no frasco). Não trate com base na cultura de saquinho.
- Leve o frasco ao laboratório logo; se demorar, guarde na geladeira (não no congelador).
Cuidados
- Ofereça líquidos com frequência; mantenha o peito.
- Trate a febre e a dor para deixar a criança confortável.
- Na criança maior, incentive fazer xixi a cada 3 horas, sem segurar, e trate o intestino preso.
- Higiene da região genital com água, sempre de frente para trás nas meninas.
- Escola ou creche: pode voltar quando estiver sem febre há 24 horas e bem-disposta. Infecção urinária não passa de uma criança para outra.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Antibiótico — só com receita, depois da coleta da urina:
- Na maioria das crianças com mais de 3 meses em bom estado, o antibiótico por via oral funciona tão bem quanto na veia.
- O pediatra escolhe o remédio conforme as bactérias mais comuns da região e revê em 2–3 dias, quando sai a cultura com o antibiograma; pode ser preciso trocar.
- Tempo de tratamento: em geral 7 a 10 dias na infecção com febre (10 dias nos bebês e quando a melhora é lenta) e 3 a 5 dias na cistite. Dê nos horários certos e complete o tempo, mesmo que a febre passe antes. Não guarde sobras.
- A febre deve ceder em 48–72 horas. Se continuar, volte — pode ser preciso trocar o remédio ou fazer exames.
- Em alguns casos (vômitos, dúvida), o pediatra aplica a primeira dose como injeção e continua por via oral.
- Remédio "preventivo" contínuo não é feito depois da primeira infecção; só em situações específicas, decididas pelo pediatra ou nefrologista.
Para febre ou dor — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 10–12 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima, em criança comendo pouco ou somado a outros produtos com paracetamol, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite se houver desidratação ou doença nos rins, na suspeita de dengue e na catapora.
- Não alterne antitérmicos.
O que evitar: chás, "remédios para urina" e antibiótico sem receita; repetir exame de urina "de controle" em criança que melhorou, sem pedido do pediatra.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Bebê com menos de 3 meses com febre.
- Muito sonolenta, gemendo, molinha, com pele fria, pálida ou manchada.
- Vômitos que não param ou que impedem o antibiótico; boca seca e pouco xixi.
- Febre que continua após 48–72 horas de antibiótico, ou piora da dor nas costas.
- Criança com alteração conhecida nos rins ou nas vias urinárias, ou com imunidade baixa, com febre.
Como levar
- Se estiver acordada e engolindo bem, dê o antitérmico e ofereça líquidos.
- Se estiver muito sonolenta ou vomitando, não dê nada pela boca e transporte-a deitada de lado.
- Sonolência intensa, pele fria e manchada ou respiração difícil: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta, os exames de urina, o nome do antibiótico e os horários das doses.
7.Como prevenir
- Beber água ao longo do dia e não segurar o xixi.
- Tratar o intestino preso.
- Higiene genital com água, de frente para trás; tratar inflamações do prepúcio e sinéquias.
- Em qualquer febre futura sem causa aparente, procure atendimento nas primeiras 48 horas e lembre o pediatra da infecção anterior — ele pedirá exame de urina.
- Depois da primeira infecção com febre em menores de 2 anos, o pediatra pede ultrassom dos rins e das vias urinárias; outros exames só em casos selecionados.
8.Dúvidas e mitos comuns
Urina com cheiro forte é infecção? Não necessariamente. Muitas vezes é só urina concentrada, por pouca água.
O saquinho coletor deu positivo. É infecção? Não dá para confirmar: o saquinho contamina com facilidade. O pediatra repete por método confiável.
Posso parar o antibiótico quando a febre passar? Não. Complete o tempo receitado.
Precisa repetir o exame de urina depois do tratamento? Não, se a criança melhorou. O pediatra só pede novo exame se houver sintomas ou outro motivo.
- No bebê, a febre sem causa pode ser o único sinal de infecção urinária.
- A urina é colhida do jeito certo, antes do antibiótico; saquinho positivo não confirma.
- Antibiótico nos horários e até o fim; a febre deve ceder em 48–72 h.
- Nas próximas febres, lembre o pediatra da infecção anterior.
- Bebê menor de 3 meses com febre, sonolência, vômitos que impedem o remédio ou febre após 48–72 h de antibiótico: pronto-socorro.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Fimose, testículo fora da bolsa, hérnias, hidrocele e dor no testículo
- Vulvovaginites (irritação e corrimento) e sinéquia de pequenos lábios
- Enurese noturna (xixi na cama)
- Intestino preso (constipação intestinal)
- Convulsão febril e primeira crise
Versão para profissionais: Infecção urinária (Patologias do consultório).
10.Fontes
Baseado no documento profissional Infecção urinária desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Infecção do trato urinário em pediatria — atualização, 2021; Infecção urinária: diagnóstico, investigação e prevenção, 2023.
- American Academy of Pediatrics. Urinary Tract Infection — Clinical Practice Guideline, 2011 (reafirmada em 2016).
- NICE. Urinary tract infection in under 16s (NG224), atualizado em 2022.
- Guia de prática clínica espanhola sobre infecção do trato urinário em pediatria, Anales de Pediatría, 2024.