Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
Tosse é uma defesa do corpo para limpar as vias respiratórias. Depois de um resfriado, ela pode durar 3 a 4 semanas e, na maioria das vezes, some sozinha. Na criança, a tosse que passa de 4 semanas é chamada de crônica e precisa de consulta: o pediatra examina, pede em geral uma radiografia do tórax e procura sinais de alerta. Uma causa comum no bebê e no pré-escolar é a tosse "com catarro" (úmida) por bronquite bacteriana, que melhora com antibiótico receitado. Xaropes para tosse não ajudam e podem fazer mal. Vá ao pronto-socorro se houver falta de ar, lábios roxos, sangue na tosse, engasgo com objeto ou alimento, ou, no bebê, crises de tosse que deixam roxo ou pausas na respiração.
1.O que é
A tosse é classificada pelo tempo de duração:
| Duração | Nome | O que costuma ser |
|---|---|---|
| Até 2 semanas | Aguda | Resfriado ou outra infecção por vírus |
| 2 a 4 semanas | Persistente | Quase sempre a "tosse que sobra" depois de uma virose; melhora aos poucos |
| Mais de 4 semanas | Crônica | Precisa de avaliação pelo pediatra |
A criança não é um adulto pequeno: as causas de tosse demorada são diferentes, e o pediatra usa roteiros próprios para crianças.
Causas mais comuns
- Tosse pós-viral — depois de resfriados, gripe, micoplasma ou coqueluche; vai melhorando sozinha.
- Bronquite bacteriana persistente — tosse úmida ("com catarro", mesmo que a criança não cuspa) todos os dias, por mais de 4 semanas, em criança que está bem. É a principal causa de tosse úmida demorada no bebê e no pré-escolar.
- Asma — em geral com chiado, cansaço ao correr e alergias; tosse sozinha, sem outros sinais, raramente é asma.
- Rinite e sinusite (secreção escorrendo do nariz para a garganta), fumaça de cigarro (inclusive eletrônico) e poluição.
- Tosse de hábito (tique) — tosse alta, "de buzina", que some durante o sono; mais comum em escolares e adolescentes.
Causas que o pediatra não pode deixar passar: objeto aspirado para o pulmão (corpo estranho), tuberculose, problemas ao engolir (o alimento vai para o pulmão), doenças que danificam os brônquios (como fibrose cística), problemas de imunidade e malformações.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Tosse úmida: tem som de catarro. Criança pequena quase nunca cospe — engole a secreção.
- Tosse seca: sem som de secreção; às vezes em crises, à noite ou com exercício.
- Sinais de alerta (que o pediatra procura em toda tosse demorada):
- Ponta dos dedos arredondada e unhas curvas ("dedos em baqueta").
- Criança que não ganha peso ou não cresce bem.
- Tosse ou engasgo durante as mamadas ou refeições; tosse desde o nascimento.
- Sangue na tosse.
- Pneumonias repetidas ou infecções graves.
- Cansaço para respirar, mesmo em repouso ou com pouco esforço.
- Engasgo com objeto ou alimento, mesmo que a tosse tenha melhorado depois.
- Contato com pessoa com tuberculose; febre prolongada, perda de peso ou suor à noite.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Tosse de 2 a 4 semanas depois de uma virose, melhorando; criança bem-disposta, comendo, crescendo, sem falta de ar e sem os sinais de alerta | Cuidados em casa, casa sem fumaça e observação. Se passar de 4 semanas, marque consulta |
| 🟡 Procure o pediatra | Tosse por mais de 4 semanas; tosse úmida todos os dias; qualquer sinal de alerta sem falta de ar (dedos em baqueta, não ganha peso, engasga ao comer, tosse desde o nascimento, pneumonias repetidas, contato com tuberculose); tosse que não melhorou com o antibiótico receitado | Consulta agendada nos próximos dias; com sinal de alerta, não demore. O pediatra pode pedir radiografia, exame do sopro (espirometria) e encaminhar ao pneumologista pediátrico |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Falta de ar, respiração rápida ou com esforço; lábios ou pele arroxeados; ruído forte ao puxar o ar (estridor); engasgo com objeto ou alimento seguido de tosse, chiado ou falta de ar; sangue na tosse (mais que raias); bebê com crises de tosse que deixam roxo, guincho ao puxar o ar ou pausas na respiração; criança muito abatida, com febre e emagrecimento | Pronto-socorro agora. SAMU 192 se lábios roxos, pausas na respiração ou engasgo com dificuldade para respirar |
Crianças que merecem mais atenção
- Bebês com menos de 1 ano (risco de coqueluche, malformações e engasgo).
- Prematuros; crianças com doença neurológica ou muscular (o alimento pode ir para o pulmão); imunidade baixa, HIV ou desnutrição.
- Contato com tuberculose ou moradia em região com muitos casos.
- Fumaça de cigarro em casa; moradia com umidade, mofo ou pouca ventilação.
4.Como cuidar em casa
- Casa e carro sem fumaça — cigarro comum, eletrônico, narguilé, fogão a lenha. Fumar "na janela" ou em outro cômodo não protege.
- Ambiente arejado, sem mofo; líquidos ao longo do dia e lavagem nasal com soro se houver secreção.
- Mel pode aliviar a tosse acima de 1 ano de idade. Nunca dê mel a bebês com menos de 1 ano (risco de botulismo).
- Anote: há quanto tempo tosse, se é úmida ou seca, se piora à noite, com exercício, ao comer ou ao deitar, se some durante o sono. Um vídeo curto da tosse ajuda muito o pediatra.
- Tratamento da bronquite bacteriana: dê o antibiótico pelo tempo receitado e volte ao final de 2 semanas — a tosse deve ter desaparecido; se só melhorou, o pediatra pode prolongar.
- Escola ou creche: tosse que sobra depois de uma virose não impede a escola, se a criança está sem febre e bem-disposta. Na suspeita de coqueluche ou tuberculose, o pediatra orienta o afastamento.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
- Antibiótico: só na tosse úmida com diagnóstico de bronquite bacteriana persistente. Em geral é a amoxicilina com clavulanato, por 2 semanas (às vezes 4). Só com receita; siga os horários, complete o tempo e não guarde sobras. Antibiótico não ajuda na tosse seca, e repetir antibiótico sem diagnóstico não é indicado.
- Bombinha com corticoide (corticoide inalatório): usada quando há sinais de asma. Às vezes o pediatra propõe um teste curto, de 2 a 4 semanas, com reavaliação obrigatória — se não melhorar, o remédio é suspenso.
- Remédio para refluxo: não deve ser usado "para ver se melhora a tosse" em criança sem sintomas de refluxo.
- Para febre ou dor (quando houver) — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 10–12 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia); não use por mais de 48–72 h sem reavaliação.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Não alterne antitérmicos.
O que não usar: xaropes para tosse (com codeína, dextrometorfano ou outros), expectorantes e mucolíticos — não funcionam em crianças e podem ter efeitos graves; não são recomendados abaixo de 12 anos. Antialérgicos que dão sono (como dexclorfeniramina, hidroxizina e prometazina) — não use, salvo indicação do médico. Corticoide pela boca, bombinha ou antibiótico "de prova" só com receita e critério do pediatra.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Falta de ar, respiração com esforço, lábios arroxeados ou ruído forte ao puxar o ar.
- Engasgo com objeto pequeno ou alimento (amendoim, grãos, peças de brinquedo), seguido de tosse, chiado ou falta de ar — mesmo que a tosse melhore depois, a criança precisa ser examinada.
- Sangue na tosse.
- Bebê com crises de tosse que deixam roxo, guincho ao puxar o ar ou pausas na respiração.
- Criança muito abatida, com febre persistente, perda de peso ou suor noturno.
Como levar
- Deixe a criança sentada no colo, na posição em que respira melhor.
- Na suspeita de objeto aspirado, não tente tirar com os dedos às cegas e não ofereça comida nem bebida.
- Lábios roxos, pausas na respiração ou engasgo com dificuldade para respirar: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta de saúde e os remédios em uso.
7.Como prevenir
- Vacinas em dia, principalmente contra coqueluche (pentavalente ou hexavalente e reforços; dTpa na gestação), pneumocócica, gripe todo ano e BCG. Confira a caderneta.
- Ambiente sem fumaça de nenhum tipo.
- Mantenha amendoim, pipoca, grãos, balas duras e objetos pequenos longe de crianças menores de 4 anos; ofereça alimentos cortados em pedaços pequenos, com a criança sentada.
- Lavar as mãos e evitar contato de bebês com pessoas gripadas.
8.Dúvidas e mitos comuns
Tosse de mais de um mês é sempre alergia ou asma? Não. Muitas vezes é a tosse que sobra de viroses seguidas, ou uma bronquite bacteriana. Asma costuma vir com chiado e cansaço.
Xarope ajuda a criança a dormir melhor? Não. Xaropes não aliviam a tosse na criança e podem causar sonolência excessiva e até dificuldade para respirar.
Preciso "cortar" a tosse? Não. A tosse limpa as vias respiratórias. O certo é descobrir e tratar a causa.
Por que a radiografia, se a criança está bem? Porque toda tosse que passa de 4 semanas merece radiografia do tórax, para afastar causas que não podem passar despercebidas.
- Tosse depois de resfriado pode durar 3 a 4 semanas; passou de 4 semanas, consulte o pediatra.
- Sinais de alerta (dedos em baqueta, não ganha peso, engasgo ao comer, sangue na tosse) pedem avaliação sem demora.
- Engasgo com objeto ou alimento seguido de tosse ou chiado: pronto-socorro, mesmo que melhore.
- Não use xaropes para tosse, nem mel em bebês com menos de 1 ano.
- Casa e carro sem fumaça.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Resfriado comum e infecções de vias aéreas superiores
- Coqueluche
- Rinite alérgica
- Asma na criança — crise e controle
- Pneumonia na criança
- Acidentes em casa — intoxicação, baterias e ímãs, engasgo, queimaduras, mordidas e afogamento
- Vacinação
Versão para profissionais: Tosse persistente e crônica (Patologias do consultório).
10.Fontes
Baseado no documento profissional Tosse persistente e crônica desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- CHEST (American College of Chest Physicians). Managing chronic cough as a symptom in children, 2020; Chronic wet cough and protracted bacterial bronchitis, 2017.
- European Respiratory Society. Guidelines on the diagnosis and treatment of chronic cough in adults and children, 2020.
- NICE. Cough (acute): antimicrobial prescribing (NG120), 2019.
- Associação Espanhola de Pediatria. Tos húmeda: bronquitis bacteriana persistente, 2017.