Gestão da saúde · Atenção primária

O papel da atenção básica nos indicadores de saúde

Por que os países com atenção básica forte, contínua e resolutiva têm melhores indicadores — evidências, comparação internacional, o caso de Cuba e lições para o Brasil.

Da evidência científica ao painel de indicadores do gestor: o que a atenção básica faz pela saúde da população, e por que o Brasil ainda depende tanto do pronto-socorro. 📄 Baixar em PDF

1.Por que falar de atenção básica

Quando se comparam os sistemas de saúde do mundo, um padrão se repete: os países com melhores indicadores — menor mortalidade infantil e materna, maior expectativa de vida, menos internações evitáveis — não são necessariamente os que mais gastam, mas os que organizaram uma atenção básica forte, com porta de entrada definida, equipe responsável por um território e seguimento contínuo das pessoas ao longo da vida.

Este documento reúne a evidência científica sobre esse papel, compara o Brasil com outros oito países das Américas e da Europa (Cuba, Argentina, Colômbia, México, Estados Unidos, Itália, Reino Unido e França) e propõe um conjunto de indicadores e medidas para gestores. É um complemento ao levantamento Financiamento e gestão dos sistemas de saúde no mundo, publicado nesta mesma área.

Neste texto, atenção básica, atenção primária à saúde (APS) e atenção de seguimento são usados como sinônimos: o cuidado ambulatorial contínuo prestado por médicos de família, pediatras, clínicos, enfermeiros e equipes multiprofissionais em unidades básicas, consultórios e clínicas, em oposição ao atendimento episódico de urgência (pronto-socorro, UPA, pronto-atendimento).

2.O que é uma atenção básica forte

A Declaração de Alma-Ata (1978) definiu a atenção primária como o primeiro nível de contato das pessoas com o sistema de saúde, e a Declaração de Astana (2018) renovou esse compromisso como base da cobertura universal. A pediatra e pesquisadora Barbara Starfield (Johns Hopkins) descreveu os quatro atributos essenciais que distinguem uma APS de verdade de um simples ambulatório:

Atributo O que significa na prática O que acontece quando falta
Primeiro contato A equipe de APS é a porta de entrada habitual para cada problema novo, com acesso fácil e rápido A população procura o pronto-socorro ou o especialista diretamente
Longitudinalidade A mesma equipe acompanha a mesma pessoa ao longo do tempo; o foco é a pessoa, não a doença Cada atendimento começa do zero; ninguém conhece a história do paciente
Integralidade A equipe resolve a maior parte das necessidades: prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação Encaminhamentos excessivos e fragmentação
Coordenação A equipe organiza o caminho do paciente pelos outros níveis e recebe a contrarreferência O paciente circula sozinho entre serviços que não se comunicam

Starfield acrescentou três atributos derivados: orientação familiar, orientação comunitária e competência cultural. Um sistema pode ter muitas unidades básicas e, ainda assim, uma APS fraca, se esses atributos não estiverem presentes.

Seis mecanismos pelos quais a APS melhora a saúde (Starfield, Shi e Macinko, 2005)

1) Maior acesso aos serviços, especialmente para grupos desfavorecidos; 2) melhor qualidade clínica; 3) foco em prevenção; 4) manejo precoce dos problemas; 5) efeito cumulativo dos atributos ao longo do tempo; 6) redução de cuidado especializado desnecessário ou potencialmente danoso.

3.O que mostra a evidência internacional

Mais médicos de atenção primária, menos mortes

  • Starfield, Shi e Macinko (Milbank Quarterly, 2005) revisaram décadas de estudos: nos Estados Unidos, um médico de atenção primária a mais por 10.000 habitantes associou-se a uma redução média de 5,3% da mortalidade — o equivalente a até cerca de 127 mil mortes evitadas por ano no país.
  • Basu e colaboradores (JAMA Internal Medicine, 2019), em 3.142 condados americanos entre 2005 e 2015: cada 10 médicos de APS a mais por 100.000 habitantes associou-se a 51,5 dias a mais de expectativa de vida, contra 19,2 dias para o mesmo acréscimo de especialistas. Ou seja, o efeito da atenção primária foi cerca de 2,7 vezes maior. No período, a densidade de médicos de APS caiu de 46,6 para 41,4 por 100.000, com perdas maiores nas áreas rurais.
  • Macinko, Starfield e Shi (Health Services Research, 2003) compararam 18 países ricos da OCDE entre 1970 e 1998: sistemas com APS mais forte tiveram menor mortalidade prematura por todas as causas, mesmo após ajuste para renda e estilo de vida.
  • Kringos e colaboradores (Health Affairs, 2013), em 31 países europeus: APS forte associou-se a melhor saúde da população, menos internações evitáveis e menor desigualdade socioeconômica em saúde — mas também a gasto total em saúde algo maior. A atenção básica forte não é necessariamente "barata"; o gasto maior vem acompanhado de melhores resultados.

Resultados de reformas concretas

  • Costa Rica (Rosero-Bixby, Revista Panamericana de Salud Pública, 2004): a implantação das equipes básicas de atenção integral (EBAIS), a partir de 1995, associou-se a redução de 8% na mortalidade de crianças e de 2% na de adultos, estimando-se 120 vidas de crianças e 350 de adultos salvas apenas em 2001. Nas áreas pioneiras, a proporção da população sem acesso equitativo à atenção de primeiro nível caiu 15% entre 1994 e 2000, contra 3% nas áreas que ainda não tinham adotado a reforma.
  • Organização Mundial da Saúde: ampliar as intervenções de APS nos países de baixa e média renda poderia salvar 60 milhões de vidas e aumentar a expectativa de vida média em 3,7 anos até 2030; cerca de 75% dos ganhos em saúde previstos nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável poderiam vir da atenção primária.
Acesso não basta: qualidade também mata

A Comissão da Lancet Global Health sobre sistemas de saúde de alta qualidade (Kruk e colaboradores, 2018) estimou mais de 8 milhões de mortes por ano, em países de baixa e média renda, por condições tratáveis pelo sistema de saúde — 60% delas por cuidado de má qualidade, e não por falta de acesso. Unidade aberta sem resolutividade não produz resultado.

4.Continuidade do cuidado: o "tratamento" mais subestimado

A longitudinalidade — ser acompanhado pelo mesmo médico ou pela mesma equipe — tem efeito mensurável e dose-dependente:

Estudo População Principal resultado
Pereira Gray e colaboradores, BMJ Open 2018 (revisão sistemática) 22 estudos de 9 países 18 estudos (82%, todos de alta qualidade) mostraram menor mortalidade com maior continuidade
Sandvik e colaboradores, Br J Gen Pract 2022 4,55 milhões de noruegueses Vínculo de mais de 15 anos com o mesmo médico de família, comparado a 1 ano: chance 30% menor de usar o pronto-atendimento, 28% menor de internação aguda e 25% menor de morrer; com 2–3 anos de vínculo, reduções já de 13%, 12% e 8%
Barker e colaboradores, BMJ 2017 230.472 idosos (62–82 anos), Inglaterra Aumento modesto da continuidade reduziria em 6,2% as internações por condições sensíveis à atenção primária
Huntley e colaboradores, BMJ Open 2014 (revisão) 48 artigos (44 estudos) Continuidade com o mesmo profissional reduziu idas ao pronto-socorro e internações de emergência
Mensagem para o gestor

A troca frequente de médicos nas equipes de saúde da família — por contratos precários, rotatividade ou falta de carreira — destrói justamente o atributo que mais protege a população. Fixar o profissional no território é uma intervenção de saúde, não apenas uma questão de recursos humanos.

5.A evidência brasileira: a Estratégia Saúde da Família

O Brasil tem uma das maiores experiências de expansão de atenção primária do mundo, e ela foi extensamente estudada.

Mortalidade infantil e na infância

  • Macinko, Guanais e Souza (J Epidemiol Community Health, 2006): entre 1990 e 2002, cada 10% de aumento na cobertura do então Programa Saúde da Família associou-se a 4,5% de redução da mortalidade infantil. No mesmo modelo, 10% a mais de acesso a água associou-se a 3% de queda, e a alfabetização feminina também teve efeito expressivo.
  • Aquino, Oliveira e Barreto (Am J Public Health, 2009): em 771 municípios (1996–2004), a mortalidade infantil caiu 13%, 16% e 22% conforme a cobertura do PSF era incipiente, intermediária ou consolidada — com efeito maior onde a mortalidade inicial era mais alta e o IDH mais baixo.
  • Rasella, Aquino e Barreto (Pediatrics, 2010): a cobertura consolidada associou-se a menor mortalidade de menores de 5 anos por diarreia e infecções respiratórias baixas — exatamente as causas mais sensíveis à puericultura, ao aleitamento, à hidratação oral e ao diagnóstico precoce.
  • Bastos e colaboradores (PLoS One, 2017), revisão sistemática: 13 de 14 estudos associaram maior cobertura da ESF a menor mortalidade pós-neonatal e na infância.

Doenças crônicas e desigualdade

  • Rasella e colaboradores (BMJ, 2014): com cobertura consolidada, a mortalidade por doenças cerebrovasculares foi 18% menor e por doenças cardíacas 21% menor; com 8 anos de cobertura consolidada, 31% e 36% menor. Não houve efeito sobre mortes por acidentes — um "teste de falsificação" que reforça a especificidade da associação.
  • Hone e colaboradores (PLoS Medicine, 2017): entre 2000 e 2013, a expansão da ESF de 0 para 100% associou-se a redução de 15,4% da mortalidade por condições sensíveis à APS entre pretos e pardos, contra 6,8% entre brancos — a expansão da atenção básica associou-se à redução das desigualdades raciais em saúde.

Internações evitáveis (ICSAP)

A Lista Brasileira de Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (Portaria SAS/MS nº 221/2008) reúne 19 grupos de causas — como doenças preveníveis por vacina, gastroenterites, pneumonias bacterianas, asma, hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes, infecção urinária e condições ligadas ao pré-natal — cuja internação uma APS efetiva deveria, em boa parte, evitar.

  • Macinko e colaboradores (Health Affairs, 2010): entre 1999 e 2007, as internações por condições crônicas sensíveis à APS caíram quase duas vezes mais rápido que as demais; municípios com alta adesão ao PSF tiveram taxas 13% menores.
  • Santos e colaboradores (Rev Bras Epidemiol, 2022): as taxas padronizadas de ICSAP caíram de cerca de 120 por 10.000 habitantes em 2010 para 88,2 em 2019 (−29% nas mulheres, −26% nos homens), mas a queda desacelerou em 2015–2019, período associado pelos autores às políticas de austeridade.
  • PROADESS/Fiocruz (2022): em 2020, as ICSAP ainda representavam 17,2% das internações do SUS (excluídas as obstétricas); entre idosos com 70 anos ou mais, a proporção caiu de 50,6% em 2000 para 24,9% em 2021. Cinco diagnósticos — insuficiência cardíaca, infecção urinária, AVC, pneumonia e angina — somaram 38% dessas internações.

O que não funcionou tão bem

A evidência também mostra limites. O Programa Mais Médicos ampliou o acesso, mas parte dos médicos contratados substituiu profissionais já existentes (acréscimo líquido de 5,7 por 100.000, e não de 15,1), e os estudos divergem sobre seu impacto: redução modesta da mortalidade evitável em municípios prioritários (Hone e colaboradores, 2020) contra efeito médio nacional próximo de zero sobre internações e mortalidade sensíveis à APS (Thomas e colaboradores, 2024). Colocar médico na unidade é necessário, mas não suficiente — sem vínculo, resolutividade e retaguarda, o ganho é pequeno.

Quando a atenção básica é cortada

Uma modelagem publicada na PLoS Medicine (Rasella e colaboradores, 2018) estimou que manter a proteção social e a ESF, em vez de medidas de austeridade, evitaria cerca de 19.700 mortes de menores de 5 anos e 124 mil internações de menores de 5 anos entre 2017 e 2030 no Brasil. Os ganhos da APS são reversíveis.

A mortalidade infantil no Brasil

Ano Mortalidade infantil (‰) Mortalidade neonatal (‰) Contexto da APS
1990 51,9 25,1 Antes do SUS pleno e do PSF
2000 29,1 18,1 PSF em expansão (criado em 1994)
2010 16,0 11,1 ESF como modelo prioritário
2019 12,9 9,2 Cobertura da ESF: 62,6% da população (PNS 2019)
2024 12,3 7,1 Cerca de 52,7 mil equipes; meta de 80% de cobertura em 2026

Fonte: UN IGME/Banco Mundial (estimativas modeladas, atualizadas em julho de 2026); cobertura: PNS/IBGE e Ministério da Saúde. As estimativas do UN IGME podem diferir dos dados do SIM/Ministério da Saúde.

A queda da mortalidade infantil brasileira foi uma das maiores do mundo, e a atenção básica foi um de seus motores, ao lado do saneamento, da escolaridade materna, da vacinação e do Bolsa Família. Mas, a partir de 2010, a queda ficou mais lenta, e a maior parte dos óbitos passou a ser neonatal (entre 60% e 70%, conforme a fonte) — dependente da qualidade do pré-natal, do parto e da assistência ao recém-nascido. Aqui, a APS continua essencial (captação precoce da gestante, pré-natal de qualidade, identificação do risco, vinculação à maternidade, visita ao recém-nascido na primeira semana), mas precisa estar articulada a uma rede perinatal regionalizada e de qualidade.

6.A atenção básica e a saúde da criança

Para a pediatria, a atenção básica é o lugar onde se decide boa parte do futuro da criança:

  • Pré-natal: no mínimo seis consultas, com a primeira até a 12ª semana; rastreamento de sífilis, HIV, diabetes gestacional e hipertensão; vacinação da gestante.
  • Primeira semana de vida: visita ou consulta precoce do recém-nascido e da puérpera, apoio à amamentação, verificação das triagens neonatais.
  • Puericultura: acompanhamento de crescimento e desenvolvimento, vigilância nutricional, prevenção de acidentes, orientação aos pais — com o calendário de consultas recomendado pela SBP e pelo Ministério da Saúde.
  • Vacinação: a queda das coberturas vacinais a partir de 2016 e o retorno do sarampo mostraram o que acontece quando a busca ativa e o vínculo enfraquecem; a recuperação recente (93% para a primeira dose da vacina contra sarampo em 2024) acompanhou a retomada da busca ativa e das ações de vacinação nas unidades básicas e nas escolas.
  • Doenças agudas comuns: diarreia, pneumonia, asma e infecções de pele são as causas clássicas de internação evitável na infância — e as mais sensíveis ao atendimento oportuno e resolutivo.
  • Crianças com condições crônicas e complexas: a APS coordena o cuidado com os especialistas e evita que a família dependa do pronto-socorro.
Pediatra na atenção básica

A Sociedade Brasileira de Pediatria defende a presença do pediatra na atenção primária, integrado às equipes de saúde da família e às equipes multiprofissionais (eMulti) como referência e apoio matricial. A experiência internacional é variada: na Itália e na Espanha, o pediatra di libera scelta e o pediatra de atenção primária acompanham as crianças até cerca de 14 anos; no Reino Unido e em Portugal, esse papel é do médico de família. Em qualquer modelo, o que protege a criança é o seguimento contínuo por uma equipe responsável.

7.O Brasil comparado a outros países

Indicadores de resultado

País Mortalidade infantil (‰, 2024) Mortalidade materna (/100 mil NV, 2023) Expectativa de vida (anos, 2024) Vacina sarampo 1ª dose (%, 2024) Médicos /1.000 hab. Gasto em saúde (% do PIB) Gasto por habitante (US$)
Brasil 12,3 67 76,0 93 2,4 9,7 1.010
Cuba 6,8 (9,9 em 2025*) 35 78,3 99 9,5 9,4 ~1.200**
Argentina 8,0 33 77,5 82 5,1 10,3 1.457
Colômbia 10,5 59 77,9 93 2,5 8,1 644
México 12,1 42 75,3 80 2,6 5,5 761
Estados Unidos 5,5 17 78,9 92 3,7 16,7 13.473
Itália 2,3 6 84,0 95 4,2 8,4 3.398
Reino Unido 4,1 8 81,4 89 3,3 11,1 5.860
França 3,4 7 83,0 95 3,3 11,5 5.327

Fontes: Banco Mundial (UN IGME, OMS/GHED, OMS/UNICEF WUENIC); anos mais recentes disponíveis (médicos: 2021–2023; gasto: 2023–2024). * Dado oficial do Ministério da Saúde Pública de Cuba (MINSAP) para 2025. ** Calculado no câmbio oficial de 1 peso = 1 dólar (2020), o que superestima muito o gasto real.

Dois contrastes chamam a atenção. Os Estados Unidos gastam 13 vezes mais por habitante que o Brasil e mais que o dobro de França e Reino Unido, mas têm mortalidade infantil e materna piores e expectativa de vida menor que a europeia — um sistema forte em especialidades e tecnologia, mas com atenção primária fragmentada e acesso desigual. Itália, França e Reino Unido, com APS universal e porta de entrada organizada, têm os melhores resultados gastando menos da metade.

Urgência × seguimento: onde a população é atendida

Uma forma direta de avaliar a força da atenção básica é ver quanto dos atendimentos médicos acontece na urgência e quanto no seguimento programado:

País Seguimento (APS, consultórios, clínicas) Urgência (PS, UPA, pronto-atendimento) Confiabilidade do dado
Brasil (SUS + planos) 75% 25% baixa a média
Brasil — só planos de saúde (ANS, 2022) 77% 23% alta
Cuba 77% 23% média
Argentina ~81% ~19% baixa
Colômbia 88% 12% baixa a média
México 88% 12% baixa a média
Estados Unidos 88% (80–85% com clínicas de urgent care) 12% (15–20%) alta / estimativa
Reino Unido (Inglaterra) 91% 9% alta
França 95% 5% alta
Itália 96–97% 3–4% média

Consultas médicas por ano, 2022–2024. Fontes: ANS (Mapa Assistencial), DATASUS (estimativa), MINSAP, CDC/NCHS, NHS Digital, DREES, Ministero della Salute/Eurostat, IMSS/INEGI, SISPRO/RIPS. As definições variam entre países; os números indicam ordem de grandeza.

No Brasil, cerca de 1 em cada 4 atendimentos médicos acontece na urgência — o dobro de Estados Unidos, México e Colômbia e três a oito vezes os níveis europeus. E isso vale tanto para o SUS quanto para os planos de saúde: não é apenas um problema de falta de unidades básicas, mas de um modelo de uso do sistema em que o pronto-atendimento virou porta de entrada.

Cuba: o exemplo e os seus limites

O que Cuba mostra. Com gasto por habitante baixo, Cuba alcançou expectativa de vida semelhante à dos Estados Unidos e, durante décadas, a menor mortalidade infantil da América Latina (cerca de 4 por mil em 2018, pelos dados oficiais). A base é uma APS organizada por território: médico e enfermeira de família para cada 1.000 a 1.500 pessoas, muitas vezes morando na comunidade; dispensarização — toda a população classificada por risco, com frequência mínima de consultas e visitas domiciliares; policlínicos que integram especialistas, exames e a urgência de baixa complexidade à própria APS (57% dos atendimentos de urgência cubanos acontecem na atenção primária); prioridade materno-infantil com pré-natal intensivo e hogares maternos; e alta escolaridade feminina.

Os limites. Há indícios, na literatura (González, Cuban Studies, 2015; Berdine, Geloso e Powell, Health Policy and Planning, 2018), de que parte dos óbitos neonatais precoces foi registrada como óbito fetal tardio, sob pressão para cumprir metas — e a mortalidade materna (35 por 100 mil pela estimativa da ONU; 40,6 em 2024 pelo dado oficial cubano) é cinco vezes a europeia, incoerente com uma mortalidade infantil "europeia". Com a crise econômica, a falta de medicamentos e a emigração de médicos, a mortalidade infantil oficial subiu para 7,1 em 2024 e 9,9 em 2025. O modelo também depende de forte controle estatal sobre profissionais e pacientes.

A lição. Uma APS organizada por território e por risco, com seguimento ativo, produz indicadores de país rico com gasto de país pobre — mas só se sustenta com financiamento, insumos e profissionais fixos.

8.Por que o Brasil ainda depende tanto da urgência

A leitura dos dados, somada à experiência de gestão municipal, aponta para causas que se reforçam mutuamente:

No SUS — oferta e resolutividade da atenção básica

  • Cobertura desigual (maior no Nordeste, menor no Sudeste e nas grandes cidades), equipes incompletas e alta rotatividade de médicos.
  • Unidades com horário restrito ao expediente comercial, incompatível com a rotina de quem trabalha.
  • Baixa resolutividade: demora para exames, especialistas e medicamentos. A população aprende que na UPA "sai atendida no mesmo dia", com exame e medicação.
  • A UPA trata a crise, mas não trata a pessoa: sem contrarreferência para a equipe, o hipertenso, o diabético e a criança asmática voltam descompensados — e acabam internados.
  • Incentivos políticos: inaugurar uma UPA tem mais visibilidade do que fortalecer uma equipe de saúde da família.

Na saúde suplementar — modelo de pagamento e ausência de coordenação

  • O pagamento por procedimento (fee-for-service) remunera o volume, não a resolução do problema.
  • Não há médico de referência coordenando o cuidado: o beneficiário escolhe o especialista na lista e, sem vaga, vai ao pronto-atendimento — que, para muitos prestadores, é um negócio rentável.
  • Consultas mal remuneradas estimulam atendimentos rápidos, com pouco tempo para o seguimento.

Na cultura de uso

  • A valorização do atendimento imediato e da "consulta com exame" e a percepção do pronto-socorro como o serviço "mais completo". Esse comportamento, porém, foi em grande parte aprendido com o próprio sistema: onde a APS acolhe a demanda aguda no mesmo dia e resolve, a urgência cai para 5% a 9% dos atendimentos.

9.Como medir a força da atenção básica

Painel sugerido para o gestor municipal, com dados disponíveis no DATASUS, no SISAB e nos sistemas locais:

Indicador O que revela Fonte
Cobertura e vinculação (% da população cadastrada e acompanhada por equipe) Alcance da APS e-Gestor/SISAB
Internações por condições sensíveis à APS (taxa e % das internações) Resolutividade da APS SIH/SUS
Razão urgência / consultas programadas Se a população usa a APS ou o pronto-atendimento como porta de entrada SIA/SUS, sistemas locais
Retorno ao PS/UPA em 72 horas e usuários frequentes Falha de seguimento e de contrarreferência Sistemas locais
Índice de continuidade (% de consultas com o mesmo médico ou equipe) Longitudinalidade Prontuário eletrônico
Pré-natal: ≥ 6 consultas, 1ª até a 12ª semana, sífilis e HIV testados Qualidade do cuidado materno SISAB, SINASC
Coberturas vacinais da criança Busca ativa e vínculo SI-PNI
Controle de hipertensão e diabetes (pressão aferida e hemoglobina glicada no semestre) Seguimento de crônicos SISAB
Mortalidade infantil, neonatal e pós-neonatal; óbitos evitáveis Resultado final SIM, SINASC
Tempo de espera para consulta na APS e para especialista Acesso Regulação, sistemas locais

10.O que fazer: lições para o Brasil

  1. Porta de entrada coordenada. Equipe de família (médico de família, pediatra, clínico, enfermagem) como referência obrigatória, responsável por uma lista nominal de pessoas.
  2. Acolher a demanda aguda na própria APS. Acesso avançado (agenda com vagas no mesmo dia), horário estendido (programa Saúde na Hora) e teleatendimento, para que o problema simples não precise ir à UPA.
  3. Estratificação de risco e seguimento ativo. Classificar a população por risco — a "dispensarização" cubana, a gestão de listas britânica — e definir a frequência de acompanhamento de gestantes, crianças, hipertensos, diabéticos e idosos frágeis.
  4. Fixar o profissional no território. Carreira, vínculo estável e formação em medicina de família e comunidade e em pediatria na APS. A continuidade associa-se a menor mortalidade.
  5. Retaguarda resolutiva. Exames, especialistas e medicamentos com acesso ágil a partir da APS — no modelo de policlínicos ou ambulatórios de especialidades integrados, com matriciamento e teleconsultoria.
  6. Integrar a urgência à APS. Toda alta de UPA ou PS deve gerar contrarreferência para a equipe do paciente; usuários frequentes da urgência devem ser identificados e acompanhados.
  7. Financiamento que remunere vínculo e resultado. O novo cofinanciamento federal da APS (Portaria GM/MS nº 3.493/2024), com componentes de vínculo e acompanhamento territorial e de qualidade, vai nessa direção; os municípios podem reproduzir a lógica em seus contratos.
  8. Atenção primária também na saúde suplementar. Médico de família ou pediatra coordenador do cuidado, com pagamento por pessoa acompanhada e por desempenho, em vez de pagamento apenas por procedimento.
  9. Informação para gerir. Prontuário eletrônico compartilhado entre APS, especialidades e urgência, e monitoramento regular do painel de indicadores acima.
Conclusão

A evidência é consistente em diferentes países e décadas: onde a atenção básica é forte, contínua e resolutiva, a população vive mais, as crianças morrem menos, as internações evitáveis diminuem e o pronto-socorro volta a ser o lugar da emergência verdadeira. O Brasil já demonstrou esse efeito com a Estratégia Saúde da Família. O desafio agora é qualidade, continuidade e integração — no SUS e na saúde suplementar.

11.Limitações

  • A maior parte dos estudos citados é observacional (painéis de municípios ou países); os efeitos são associações ajustadas, embora consistentes e com testes de robustez.
  • Os indicadores internacionais usam estimativas modeladas (UN IGME, OMS) que podem diferir dos dados nacionais.
  • A distribuição urgência × seguimento combina dados verificados (Inglaterra, França, Estados Unidos, planos de saúde no Brasil) com estimativas (SUS, Argentina, Colômbia, México); deve ser lida como ordem de grandeza.
  • O gasto em saúde de Cuba não é comparável pelo câmbio oficial.

12.Referências

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  10. Barker I, Steventon A, Deeny SR. Association between continuity of care in general practice and hospital admissions for ambulatory care sensitive conditions. BMJ. 2017;356:j84. doi:10.1136/bmj.j84
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