Da evidência científica ao painel de indicadores do gestor: o que a atenção básica faz pela saúde da população, e por que o Brasil ainda depende tanto do pronto-socorro. 📄 Baixar em PDF
1.Por que falar de atenção básica
Quando se comparam os sistemas de saúde do mundo, um padrão se repete: os países com melhores indicadores — menor mortalidade infantil e materna, maior expectativa de vida, menos internações evitáveis — não são necessariamente os que mais gastam, mas os que organizaram uma atenção básica forte, com porta de entrada definida, equipe responsável por um território e seguimento contínuo das pessoas ao longo da vida.
Este documento reúne a evidência científica sobre esse papel, compara o Brasil com outros oito países das Américas e da Europa (Cuba, Argentina, Colômbia, México, Estados Unidos, Itália, Reino Unido e França) e propõe um conjunto de indicadores e medidas para gestores. É um complemento ao levantamento Financiamento e gestão dos sistemas de saúde no mundo, publicado nesta mesma área.
Neste texto, atenção básica, atenção primária à saúde (APS) e atenção de seguimento são usados como sinônimos: o cuidado ambulatorial contínuo prestado por médicos de família, pediatras, clínicos, enfermeiros e equipes multiprofissionais em unidades básicas, consultórios e clínicas, em oposição ao atendimento episódico de urgência (pronto-socorro, UPA, pronto-atendimento).
2.O que é uma atenção básica forte
A Declaração de Alma-Ata (1978) definiu a atenção primária como o primeiro nível de contato das pessoas com o sistema de saúde, e a Declaração de Astana (2018) renovou esse compromisso como base da cobertura universal. A pediatra e pesquisadora Barbara Starfield (Johns Hopkins) descreveu os quatro atributos essenciais que distinguem uma APS de verdade de um simples ambulatório:
| Atributo | O que significa na prática | O que acontece quando falta |
|---|---|---|
| Primeiro contato | A equipe de APS é a porta de entrada habitual para cada problema novo, com acesso fácil e rápido | A população procura o pronto-socorro ou o especialista diretamente |
| Longitudinalidade | A mesma equipe acompanha a mesma pessoa ao longo do tempo; o foco é a pessoa, não a doença | Cada atendimento começa do zero; ninguém conhece a história do paciente |
| Integralidade | A equipe resolve a maior parte das necessidades: prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação | Encaminhamentos excessivos e fragmentação |
| Coordenação | A equipe organiza o caminho do paciente pelos outros níveis e recebe a contrarreferência | O paciente circula sozinho entre serviços que não se comunicam |
Starfield acrescentou três atributos derivados: orientação familiar, orientação comunitária e competência cultural. Um sistema pode ter muitas unidades básicas e, ainda assim, uma APS fraca, se esses atributos não estiverem presentes.
1) Maior acesso aos serviços, especialmente para grupos desfavorecidos; 2) melhor qualidade clínica; 3) foco em prevenção; 4) manejo precoce dos problemas; 5) efeito cumulativo dos atributos ao longo do tempo; 6) redução de cuidado especializado desnecessário ou potencialmente danoso.
3.O que mostra a evidência internacional
Mais médicos de atenção primária, menos mortes
- Starfield, Shi e Macinko (Milbank Quarterly, 2005) revisaram décadas de estudos: nos Estados Unidos, um médico de atenção primária a mais por 10.000 habitantes associou-se a uma redução média de 5,3% da mortalidade — o equivalente a até cerca de 127 mil mortes evitadas por ano no país.
- Basu e colaboradores (JAMA Internal Medicine, 2019), em 3.142 condados americanos entre 2005 e 2015: cada 10 médicos de APS a mais por 100.000 habitantes associou-se a 51,5 dias a mais de expectativa de vida, contra 19,2 dias para o mesmo acréscimo de especialistas. Ou seja, o efeito da atenção primária foi cerca de 2,7 vezes maior. No período, a densidade de médicos de APS caiu de 46,6 para 41,4 por 100.000, com perdas maiores nas áreas rurais.
- Macinko, Starfield e Shi (Health Services Research, 2003) compararam 18 países ricos da OCDE entre 1970 e 1998: sistemas com APS mais forte tiveram menor mortalidade prematura por todas as causas, mesmo após ajuste para renda e estilo de vida.
- Kringos e colaboradores (Health Affairs, 2013), em 31 países europeus: APS forte associou-se a melhor saúde da população, menos internações evitáveis e menor desigualdade socioeconômica em saúde — mas também a gasto total em saúde algo maior. A atenção básica forte não é necessariamente "barata"; o gasto maior vem acompanhado de melhores resultados.
Resultados de reformas concretas
- Costa Rica (Rosero-Bixby, Revista Panamericana de Salud Pública, 2004): a implantação das equipes básicas de atenção integral (EBAIS), a partir de 1995, associou-se a redução de 8% na mortalidade de crianças e de 2% na de adultos, estimando-se 120 vidas de crianças e 350 de adultos salvas apenas em 2001. Nas áreas pioneiras, a proporção da população sem acesso equitativo à atenção de primeiro nível caiu 15% entre 1994 e 2000, contra 3% nas áreas que ainda não tinham adotado a reforma.
- Organização Mundial da Saúde: ampliar as intervenções de APS nos países de baixa e média renda poderia salvar 60 milhões de vidas e aumentar a expectativa de vida média em 3,7 anos até 2030; cerca de 75% dos ganhos em saúde previstos nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável poderiam vir da atenção primária.
A Comissão da Lancet Global Health sobre sistemas de saúde de alta qualidade (Kruk e colaboradores, 2018) estimou mais de 8 milhões de mortes por ano, em países de baixa e média renda, por condições tratáveis pelo sistema de saúde — 60% delas por cuidado de má qualidade, e não por falta de acesso. Unidade aberta sem resolutividade não produz resultado.
4.Continuidade do cuidado: o "tratamento" mais subestimado
A longitudinalidade — ser acompanhado pelo mesmo médico ou pela mesma equipe — tem efeito mensurável e dose-dependente:
| Estudo | População | Principal resultado |
|---|---|---|
| Pereira Gray e colaboradores, BMJ Open 2018 (revisão sistemática) | 22 estudos de 9 países | 18 estudos (82%, todos de alta qualidade) mostraram menor mortalidade com maior continuidade |
| Sandvik e colaboradores, Br J Gen Pract 2022 | 4,55 milhões de noruegueses | Vínculo de mais de 15 anos com o mesmo médico de família, comparado a 1 ano: chance 30% menor de usar o pronto-atendimento, 28% menor de internação aguda e 25% menor de morrer; com 2–3 anos de vínculo, reduções já de 13%, 12% e 8% |
| Barker e colaboradores, BMJ 2017 | 230.472 idosos (62–82 anos), Inglaterra | Aumento modesto da continuidade reduziria em 6,2% as internações por condições sensíveis à atenção primária |
| Huntley e colaboradores, BMJ Open 2014 (revisão) | 48 artigos (44 estudos) | Continuidade com o mesmo profissional reduziu idas ao pronto-socorro e internações de emergência |
A troca frequente de médicos nas equipes de saúde da família — por contratos precários, rotatividade ou falta de carreira — destrói justamente o atributo que mais protege a população. Fixar o profissional no território é uma intervenção de saúde, não apenas uma questão de recursos humanos.
5.A evidência brasileira: a Estratégia Saúde da Família
O Brasil tem uma das maiores experiências de expansão de atenção primária do mundo, e ela foi extensamente estudada.
Mortalidade infantil e na infância
- Macinko, Guanais e Souza (J Epidemiol Community Health, 2006): entre 1990 e 2002, cada 10% de aumento na cobertura do então Programa Saúde da Família associou-se a 4,5% de redução da mortalidade infantil. No mesmo modelo, 10% a mais de acesso a água associou-se a 3% de queda, e a alfabetização feminina também teve efeito expressivo.
- Aquino, Oliveira e Barreto (Am J Public Health, 2009): em 771 municípios (1996–2004), a mortalidade infantil caiu 13%, 16% e 22% conforme a cobertura do PSF era incipiente, intermediária ou consolidada — com efeito maior onde a mortalidade inicial era mais alta e o IDH mais baixo.
- Rasella, Aquino e Barreto (Pediatrics, 2010): a cobertura consolidada associou-se a menor mortalidade de menores de 5 anos por diarreia e infecções respiratórias baixas — exatamente as causas mais sensíveis à puericultura, ao aleitamento, à hidratação oral e ao diagnóstico precoce.
- Bastos e colaboradores (PLoS One, 2017), revisão sistemática: 13 de 14 estudos associaram maior cobertura da ESF a menor mortalidade pós-neonatal e na infância.
Doenças crônicas e desigualdade
- Rasella e colaboradores (BMJ, 2014): com cobertura consolidada, a mortalidade por doenças cerebrovasculares foi 18% menor e por doenças cardíacas 21% menor; com 8 anos de cobertura consolidada, 31% e 36% menor. Não houve efeito sobre mortes por acidentes — um "teste de falsificação" que reforça a especificidade da associação.
- Hone e colaboradores (PLoS Medicine, 2017): entre 2000 e 2013, a expansão da ESF de 0 para 100% associou-se a redução de 15,4% da mortalidade por condições sensíveis à APS entre pretos e pardos, contra 6,8% entre brancos — a expansão da atenção básica associou-se à redução das desigualdades raciais em saúde.
Internações evitáveis (ICSAP)
A Lista Brasileira de Internações por Condições Sensíveis à Atenção Primária (Portaria SAS/MS nº 221/2008) reúne 19 grupos de causas — como doenças preveníveis por vacina, gastroenterites, pneumonias bacterianas, asma, hipertensão, insuficiência cardíaca, diabetes, infecção urinária e condições ligadas ao pré-natal — cuja internação uma APS efetiva deveria, em boa parte, evitar.
- Macinko e colaboradores (Health Affairs, 2010): entre 1999 e 2007, as internações por condições crônicas sensíveis à APS caíram quase duas vezes mais rápido que as demais; municípios com alta adesão ao PSF tiveram taxas 13% menores.
- Santos e colaboradores (Rev Bras Epidemiol, 2022): as taxas padronizadas de ICSAP caíram de cerca de 120 por 10.000 habitantes em 2010 para 88,2 em 2019 (−29% nas mulheres, −26% nos homens), mas a queda desacelerou em 2015–2019, período associado pelos autores às políticas de austeridade.
- PROADESS/Fiocruz (2022): em 2020, as ICSAP ainda representavam 17,2% das internações do SUS (excluídas as obstétricas); entre idosos com 70 anos ou mais, a proporção caiu de 50,6% em 2000 para 24,9% em 2021. Cinco diagnósticos — insuficiência cardíaca, infecção urinária, AVC, pneumonia e angina — somaram 38% dessas internações.
O que não funcionou tão bem
A evidência também mostra limites. O Programa Mais Médicos ampliou o acesso, mas parte dos médicos contratados substituiu profissionais já existentes (acréscimo líquido de 5,7 por 100.000, e não de 15,1), e os estudos divergem sobre seu impacto: redução modesta da mortalidade evitável em municípios prioritários (Hone e colaboradores, 2020) contra efeito médio nacional próximo de zero sobre internações e mortalidade sensíveis à APS (Thomas e colaboradores, 2024). Colocar médico na unidade é necessário, mas não suficiente — sem vínculo, resolutividade e retaguarda, o ganho é pequeno.
Uma modelagem publicada na PLoS Medicine (Rasella e colaboradores, 2018) estimou que manter a proteção social e a ESF, em vez de medidas de austeridade, evitaria cerca de 19.700 mortes de menores de 5 anos e 124 mil internações de menores de 5 anos entre 2017 e 2030 no Brasil. Os ganhos da APS são reversíveis.
A mortalidade infantil no Brasil
| Ano | Mortalidade infantil (‰) | Mortalidade neonatal (‰) | Contexto da APS |
|---|---|---|---|
| 1990 | 51,9 | 25,1 | Antes do SUS pleno e do PSF |
| 2000 | 29,1 | 18,1 | PSF em expansão (criado em 1994) |
| 2010 | 16,0 | 11,1 | ESF como modelo prioritário |
| 2019 | 12,9 | 9,2 | Cobertura da ESF: 62,6% da população (PNS 2019) |
| 2024 | 12,3 | 7,1 | Cerca de 52,7 mil equipes; meta de 80% de cobertura em 2026 |
Fonte: UN IGME/Banco Mundial (estimativas modeladas, atualizadas em julho de 2026); cobertura: PNS/IBGE e Ministério da Saúde. As estimativas do UN IGME podem diferir dos dados do SIM/Ministério da Saúde.
A queda da mortalidade infantil brasileira foi uma das maiores do mundo, e a atenção básica foi um de seus motores, ao lado do saneamento, da escolaridade materna, da vacinação e do Bolsa Família. Mas, a partir de 2010, a queda ficou mais lenta, e a maior parte dos óbitos passou a ser neonatal (entre 60% e 70%, conforme a fonte) — dependente da qualidade do pré-natal, do parto e da assistência ao recém-nascido. Aqui, a APS continua essencial (captação precoce da gestante, pré-natal de qualidade, identificação do risco, vinculação à maternidade, visita ao recém-nascido na primeira semana), mas precisa estar articulada a uma rede perinatal regionalizada e de qualidade.
6.A atenção básica e a saúde da criança
Para a pediatria, a atenção básica é o lugar onde se decide boa parte do futuro da criança:
- Pré-natal: no mínimo seis consultas, com a primeira até a 12ª semana; rastreamento de sífilis, HIV, diabetes gestacional e hipertensão; vacinação da gestante.
- Primeira semana de vida: visita ou consulta precoce do recém-nascido e da puérpera, apoio à amamentação, verificação das triagens neonatais.
- Puericultura: acompanhamento de crescimento e desenvolvimento, vigilância nutricional, prevenção de acidentes, orientação aos pais — com o calendário de consultas recomendado pela SBP e pelo Ministério da Saúde.
- Vacinação: a queda das coberturas vacinais a partir de 2016 e o retorno do sarampo mostraram o que acontece quando a busca ativa e o vínculo enfraquecem; a recuperação recente (93% para a primeira dose da vacina contra sarampo em 2024) acompanhou a retomada da busca ativa e das ações de vacinação nas unidades básicas e nas escolas.
- Doenças agudas comuns: diarreia, pneumonia, asma e infecções de pele são as causas clássicas de internação evitável na infância — e as mais sensíveis ao atendimento oportuno e resolutivo.
- Crianças com condições crônicas e complexas: a APS coordena o cuidado com os especialistas e evita que a família dependa do pronto-socorro.
A Sociedade Brasileira de Pediatria defende a presença do pediatra na atenção primária, integrado às equipes de saúde da família e às equipes multiprofissionais (eMulti) como referência e apoio matricial. A experiência internacional é variada: na Itália e na Espanha, o pediatra di libera scelta e o pediatra de atenção primária acompanham as crianças até cerca de 14 anos; no Reino Unido e em Portugal, esse papel é do médico de família. Em qualquer modelo, o que protege a criança é o seguimento contínuo por uma equipe responsável.
7.O Brasil comparado a outros países
Indicadores de resultado
| País | Mortalidade infantil (‰, 2024) | Mortalidade materna (/100 mil NV, 2023) | Expectativa de vida (anos, 2024) | Vacina sarampo 1ª dose (%, 2024) | Médicos /1.000 hab. | Gasto em saúde (% do PIB) | Gasto por habitante (US$) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Brasil | 12,3 | 67 | 76,0 | 93 | 2,4 | 9,7 | 1.010 |
| Cuba | 6,8 (9,9 em 2025*) | 35 | 78,3 | 99 | 9,5 | 9,4 | ~1.200** |
| Argentina | 8,0 | 33 | 77,5 | 82 | 5,1 | 10,3 | 1.457 |
| Colômbia | 10,5 | 59 | 77,9 | 93 | 2,5 | 8,1 | 644 |
| México | 12,1 | 42 | 75,3 | 80 | 2,6 | 5,5 | 761 |
| Estados Unidos | 5,5 | 17 | 78,9 | 92 | 3,7 | 16,7 | 13.473 |
| Itália | 2,3 | 6 | 84,0 | 95 | 4,2 | 8,4 | 3.398 |
| Reino Unido | 4,1 | 8 | 81,4 | 89 | 3,3 | 11,1 | 5.860 |
| França | 3,4 | 7 | 83,0 | 95 | 3,3 | 11,5 | 5.327 |
Fontes: Banco Mundial (UN IGME, OMS/GHED, OMS/UNICEF WUENIC); anos mais recentes disponíveis (médicos: 2021–2023; gasto: 2023–2024). * Dado oficial do Ministério da Saúde Pública de Cuba (MINSAP) para 2025. ** Calculado no câmbio oficial de 1 peso = 1 dólar (2020), o que superestima muito o gasto real.
Dois contrastes chamam a atenção. Os Estados Unidos gastam 13 vezes mais por habitante que o Brasil e mais que o dobro de França e Reino Unido, mas têm mortalidade infantil e materna piores e expectativa de vida menor que a europeia — um sistema forte em especialidades e tecnologia, mas com atenção primária fragmentada e acesso desigual. Itália, França e Reino Unido, com APS universal e porta de entrada organizada, têm os melhores resultados gastando menos da metade.
Urgência × seguimento: onde a população é atendida
Uma forma direta de avaliar a força da atenção básica é ver quanto dos atendimentos médicos acontece na urgência e quanto no seguimento programado:
| País | Seguimento (APS, consultórios, clínicas) | Urgência (PS, UPA, pronto-atendimento) | Confiabilidade do dado |
|---|---|---|---|
| Brasil (SUS + planos) | 75% | 25% | baixa a média |
| Brasil — só planos de saúde (ANS, 2022) | 77% | 23% | alta |
| Cuba | 77% | 23% | média |
| Argentina | ~81% | ~19% | baixa |
| Colômbia | 88% | 12% | baixa a média |
| México | 88% | 12% | baixa a média |
| Estados Unidos | 88% (80–85% com clínicas de urgent care) | 12% (15–20%) | alta / estimativa |
| Reino Unido (Inglaterra) | 91% | 9% | alta |
| França | 95% | 5% | alta |
| Itália | 96–97% | 3–4% | média |
Consultas médicas por ano, 2022–2024. Fontes: ANS (Mapa Assistencial), DATASUS (estimativa), MINSAP, CDC/NCHS, NHS Digital, DREES, Ministero della Salute/Eurostat, IMSS/INEGI, SISPRO/RIPS. As definições variam entre países; os números indicam ordem de grandeza.
No Brasil, cerca de 1 em cada 4 atendimentos médicos acontece na urgência — o dobro de Estados Unidos, México e Colômbia e três a oito vezes os níveis europeus. E isso vale tanto para o SUS quanto para os planos de saúde: não é apenas um problema de falta de unidades básicas, mas de um modelo de uso do sistema em que o pronto-atendimento virou porta de entrada.
O que Cuba mostra. Com gasto por habitante baixo, Cuba alcançou expectativa de vida semelhante à dos Estados Unidos e, durante décadas, a menor mortalidade infantil da América Latina (cerca de 4 por mil em 2018, pelos dados oficiais). A base é uma APS organizada por território: médico e enfermeira de família para cada 1.000 a 1.500 pessoas, muitas vezes morando na comunidade; dispensarização — toda a população classificada por risco, com frequência mínima de consultas e visitas domiciliares; policlínicos que integram especialistas, exames e a urgência de baixa complexidade à própria APS (57% dos atendimentos de urgência cubanos acontecem na atenção primária); prioridade materno-infantil com pré-natal intensivo e hogares maternos; e alta escolaridade feminina.
Os limites. Há indícios, na literatura (González, Cuban Studies, 2015; Berdine, Geloso e Powell, Health Policy and Planning, 2018), de que parte dos óbitos neonatais precoces foi registrada como óbito fetal tardio, sob pressão para cumprir metas — e a mortalidade materna (35 por 100 mil pela estimativa da ONU; 40,6 em 2024 pelo dado oficial cubano) é cinco vezes a europeia, incoerente com uma mortalidade infantil "europeia". Com a crise econômica, a falta de medicamentos e a emigração de médicos, a mortalidade infantil oficial subiu para 7,1 em 2024 e 9,9 em 2025. O modelo também depende de forte controle estatal sobre profissionais e pacientes.
A lição. Uma APS organizada por território e por risco, com seguimento ativo, produz indicadores de país rico com gasto de país pobre — mas só se sustenta com financiamento, insumos e profissionais fixos.
8.Por que o Brasil ainda depende tanto da urgência
A leitura dos dados, somada à experiência de gestão municipal, aponta para causas que se reforçam mutuamente:
No SUS — oferta e resolutividade da atenção básica
- Cobertura desigual (maior no Nordeste, menor no Sudeste e nas grandes cidades), equipes incompletas e alta rotatividade de médicos.
- Unidades com horário restrito ao expediente comercial, incompatível com a rotina de quem trabalha.
- Baixa resolutividade: demora para exames, especialistas e medicamentos. A população aprende que na UPA "sai atendida no mesmo dia", com exame e medicação.
- A UPA trata a crise, mas não trata a pessoa: sem contrarreferência para a equipe, o hipertenso, o diabético e a criança asmática voltam descompensados — e acabam internados.
- Incentivos políticos: inaugurar uma UPA tem mais visibilidade do que fortalecer uma equipe de saúde da família.
Na saúde suplementar — modelo de pagamento e ausência de coordenação
- O pagamento por procedimento (fee-for-service) remunera o volume, não a resolução do problema.
- Não há médico de referência coordenando o cuidado: o beneficiário escolhe o especialista na lista e, sem vaga, vai ao pronto-atendimento — que, para muitos prestadores, é um negócio rentável.
- Consultas mal remuneradas estimulam atendimentos rápidos, com pouco tempo para o seguimento.
Na cultura de uso
- A valorização do atendimento imediato e da "consulta com exame" e a percepção do pronto-socorro como o serviço "mais completo". Esse comportamento, porém, foi em grande parte aprendido com o próprio sistema: onde a APS acolhe a demanda aguda no mesmo dia e resolve, a urgência cai para 5% a 9% dos atendimentos.
9.Como medir a força da atenção básica
Painel sugerido para o gestor municipal, com dados disponíveis no DATASUS, no SISAB e nos sistemas locais:
| Indicador | O que revela | Fonte |
|---|---|---|
| Cobertura e vinculação (% da população cadastrada e acompanhada por equipe) | Alcance da APS | e-Gestor/SISAB |
| Internações por condições sensíveis à APS (taxa e % das internações) | Resolutividade da APS | SIH/SUS |
| Razão urgência / consultas programadas | Se a população usa a APS ou o pronto-atendimento como porta de entrada | SIA/SUS, sistemas locais |
| Retorno ao PS/UPA em 72 horas e usuários frequentes | Falha de seguimento e de contrarreferência | Sistemas locais |
| Índice de continuidade (% de consultas com o mesmo médico ou equipe) | Longitudinalidade | Prontuário eletrônico |
| Pré-natal: ≥ 6 consultas, 1ª até a 12ª semana, sífilis e HIV testados | Qualidade do cuidado materno | SISAB, SINASC |
| Coberturas vacinais da criança | Busca ativa e vínculo | SI-PNI |
| Controle de hipertensão e diabetes (pressão aferida e hemoglobina glicada no semestre) | Seguimento de crônicos | SISAB |
| Mortalidade infantil, neonatal e pós-neonatal; óbitos evitáveis | Resultado final | SIM, SINASC |
| Tempo de espera para consulta na APS e para especialista | Acesso | Regulação, sistemas locais |
10.O que fazer: lições para o Brasil
- Porta de entrada coordenada. Equipe de família (médico de família, pediatra, clínico, enfermagem) como referência obrigatória, responsável por uma lista nominal de pessoas.
- Acolher a demanda aguda na própria APS. Acesso avançado (agenda com vagas no mesmo dia), horário estendido (programa Saúde na Hora) e teleatendimento, para que o problema simples não precise ir à UPA.
- Estratificação de risco e seguimento ativo. Classificar a população por risco — a "dispensarização" cubana, a gestão de listas britânica — e definir a frequência de acompanhamento de gestantes, crianças, hipertensos, diabéticos e idosos frágeis.
- Fixar o profissional no território. Carreira, vínculo estável e formação em medicina de família e comunidade e em pediatria na APS. A continuidade associa-se a menor mortalidade.
- Retaguarda resolutiva. Exames, especialistas e medicamentos com acesso ágil a partir da APS — no modelo de policlínicos ou ambulatórios de especialidades integrados, com matriciamento e teleconsultoria.
- Integrar a urgência à APS. Toda alta de UPA ou PS deve gerar contrarreferência para a equipe do paciente; usuários frequentes da urgência devem ser identificados e acompanhados.
- Financiamento que remunere vínculo e resultado. O novo cofinanciamento federal da APS (Portaria GM/MS nº 3.493/2024), com componentes de vínculo e acompanhamento territorial e de qualidade, vai nessa direção; os municípios podem reproduzir a lógica em seus contratos.
- Atenção primária também na saúde suplementar. Médico de família ou pediatra coordenador do cuidado, com pagamento por pessoa acompanhada e por desempenho, em vez de pagamento apenas por procedimento.
- Informação para gerir. Prontuário eletrônico compartilhado entre APS, especialidades e urgência, e monitoramento regular do painel de indicadores acima.
A evidência é consistente em diferentes países e décadas: onde a atenção básica é forte, contínua e resolutiva, a população vive mais, as crianças morrem menos, as internações evitáveis diminuem e o pronto-socorro volta a ser o lugar da emergência verdadeira. O Brasil já demonstrou esse efeito com a Estratégia Saúde da Família. O desafio agora é qualidade, continuidade e integração — no SUS e na saúde suplementar.
11.Limitações
- A maior parte dos estudos citados é observacional (painéis de municípios ou países); os efeitos são associações ajustadas, embora consistentes e com testes de robustez.
- Os indicadores internacionais usam estimativas modeladas (UN IGME, OMS) que podem diferir dos dados nacionais.
- A distribuição urgência × seguimento combina dados verificados (Inglaterra, França, Estados Unidos, planos de saúde no Brasil) com estimativas (SUS, Argentina, Colômbia, México); deve ser lida como ordem de grandeza.
- O gasto em saúde de Cuba não é comparável pelo câmbio oficial.
12.Referências
- Starfield B, Shi L, Macinko J. Contribution of primary care to health systems and health. Milbank Q. 2005;83(3):457-502. doi:10.1111/j.1468-0009.2005.00409.x
- Macinko J, Starfield B, Shi L. The contribution of primary care systems to health outcomes within OECD countries, 1970–1998. Health Serv Res. 2003;38(3):831-65. doi:10.1111/1475-6773.00149
- Basu S, Berkowitz SA, Phillips RL, et al. Association of primary care physician supply with population mortality in the United States, 2005–2015. JAMA Intern Med. 2019;179(4):506-14. doi:10.1001/jamainternmed.2018.7624
- Kringos DS, Boerma W, van der Zee J, Groenewegen P. Europe's strong primary care systems are linked to better population health but also to higher health spending. Health Aff. 2013;32(4):686-94. doi:10.1377/hlthaff.2012.1242
- Rosero-Bixby L. Evaluación del impacto de la reforma del sector de la salud en Costa Rica mediante un estudio cuasiexperimental. Rev Panam Salud Publica. 2004;15(2):94-103.
- World Health Organization. Primary health care — fact sheet; Declaration of Astana (2018); Operational framework for primary health care (WHO/UNICEF, 2020).
- Kruk ME, Gage AD, Arsenault C, et al. High-quality health systems in the Sustainable Development Goals era. Lancet Glob Health. 2018;6(11):e1196-e1252. doi:10.1016/S2214-109X(18)30386-3
- Pereira Gray DJ, Sidaway-Lee K, White E, Thorne A, Evans PH. Continuity of care with doctors — a matter of life and death? A systematic review. BMJ Open. 2018;8(6):e021161. doi:10.1136/bmjopen-2017-021161
- Sandvik H, Hetlevik Ø, Blinkenberg J, Hunskaar S. Continuity in general practice as predictor of mortality, acute hospitalisation, and use of out-of-hours care: a registry-based observational study in Norway. Br J Gen Pract. 2022;72(715):e84-e90. doi:10.3399/BJGP.2021.0340
- Barker I, Steventon A, Deeny SR. Association between continuity of care in general practice and hospital admissions for ambulatory care sensitive conditions. BMJ. 2017;356:j84. doi:10.1136/bmj.j84
- Huntley A, Lasserson D, Wye L, et al. Which features of primary care affect unscheduled secondary care use? A systematic review. BMJ Open. 2014;4:e004746. doi:10.1136/bmjopen-2013-004746
- Macinko J, Guanais FC, Souza MFM. Evaluation of the impact of the Family Health Program on infant mortality in Brazil, 1990–2002. J Epidemiol Community Health. 2006;60(1):13-9. doi:10.1136/jech.2004.031880
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