De onde vem o dinheiro da saúde e como cada sistema é organizado e gerido: modelo, financiamento, gestão, cobertura, saúde da criança e reformas recentes. 📄 Baixar em PDF
1.Como ler este levantamento
Este documento descreve, país a país, de onde vem o dinheiro da saúde e como o sistema é organizado e gerido. Foram incluídos 31 países: 8 das Américas (Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina, Chile, México, Colômbia e Cuba), 8 da Europa (Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Países Baixos e Suécia), 8 da Ásia e Oceania (Japão, Coreia do Sul, China, Índia, Singapura, Tailândia, Israel e Austrália) e 7 da África (África do Sul, Nigéria, Quênia, Ruanda, Gana, Egito e Etiópia).
Cada ficha segue a mesma ordem: modelo do sistema, financiamento (fontes e números), gestão e organização (quem compra, quem presta, como se paga), cobertura, saúde da criança (com a mortalidade infantil como indicador de resultado), reformas recentes (2020–2026) e fontes.
Os grandes modelos
| Modelo | Como funciona | Exemplos neste levantamento |
|---|---|---|
| Beveridge (serviço nacional de saúde) | Financiado por impostos gerais; o Estado é o principal comprador e, em geral, também prestador; acesso universal e gratuito no ponto de uso | Reino Unido, Itália, Espanha, Portugal, Suécia, Cuba; Brasil (SUS) em desenho |
| Bismarck (seguro social) | Financiado por contribuições sobre salários de empregados e empregadores, geridas por caixas/fundos de seguro; prestadores públicos e privados | Alemanha, França, Japão, Países Baixos (versão com seguradoras privadas reguladas) |
| Seguro nacional único (NHI) | Um pagador público único, financiado por impostos e/ou contribuições, comprando de prestadores majoritariamente privados | Canadá, Coreia do Sul, Taiwan (não incluído), Austrália (Medicare) |
| Misto ou segmentado | Subsistemas paralelos para grupos diferentes (formais, pobres, servidores, planos privados), com cobertura e qualidade desiguais | Brasil (SUS + saúde suplementar), Argentina, Chile, México, Colômbia, China, Índia, Estados Unidos, África do Sul |
| Predominantemente do bolso | A maior parte do gasto é paga diretamente pelas famílias no momento do uso | Nigéria, Egito, Índia, Etiópia (em transição para seguros) |
Os indicadores de gasto
- Gasto corrente em saúde (% do PIB) e per capita (US$ correntes): Organização Mundial da Saúde, Global Health Expenditure Database (GHED), consultada por meio dos indicadores do Banco Mundial; anos 2023 ou 2024, conforme a última atualização disponível.
- % público: gasto doméstico do governo geral, incluindo a seguridade social compulsória. Em países onde parte do seguro obrigatório é gerida por seguradoras privadas (França, Países Baixos, Chile com as ISAPRE), esse indicador subestima o financiamento compulsório; as fichas explicam cada caso.
- % do bolso: pagamentos diretos das famílias no momento do uso (inclui copagamentos e compras de medicamentos).
- Mortalidade infantil: óbitos antes de 1 ano por 1.000 nascidos vivos, estimativas do UN IGME (ONU) para 2024, salvo indicação.
Os anos dos dados variam entre países e indicadores; o ano está sempre indicado. Dados que não puderam ser confirmados na fonte primária aparecem marcados como (a confirmar) e devem ser lidos com cautela.
2.Tabela-resumo dos 31 países
| País | Modelo | Gasto % PIB (ano) | Per capita US$ (ano) | % público | % do bolso | Mortalidade infantil ‰ (2024) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Américas | ||||||
| Estados Unidos | Misto, predominantemente privado (+ Medicare/Medicaid) | 16,7 (2023) | 13.473 (2023) | 54,0 | 10,9 | 5,5 |
| Canadá | Seguro nacional único provincial, por impostos | 11,3 (2024) | 6.378 (2024) | 70,2 | 15,3 | 4,7 |
| Brasil | SUS (serviço nacional) + saúde suplementar — misto | 9,7 (2023) | 1.010 (2023) | 44,1 | 26,2 | 12,3 |
| Argentina | Misto segmentado (público / obras sociales-PAMI / prepagas) | 10,3 (2023) | 1.457 (2023) | 60,2 | 24,5 | 8,0 |
| Chile | Seguro social com escolha FONASA (público) / ISAPRE (privado) | 10,5 (2024) | 1.760 (2024) | 48,5* | 39,1 | 5,8 |
| México | Misto segmentado (IMSS/ISSSTE + IMSS-Bienestar) | 5,5 (2023) | 761 (2023) | 48,6 | 41,2 | 12,1 |
| Colômbia | Seguro social universal com competição regulada (EPS) | 8,1 (2024) | 644 (2024) | 69,8 | 14,7 | 10,5 |
| Cuba | Serviço nacional estatal | 9,4 (2023) | 1.199 (2020)** | 83,4 | 16,6 | 6,8*** |
| Europa | ||||||
| Reino Unido | Beveridge (NHS; 4 sistemas) | 11,1 (2024) | 5.860 (2024) | 81,8 | 14,6 | 4,1 |
| Itália | Beveridge regionalizado (SSN/ASL) | 8,4 (2024) | 3.398 (2024) | 73,1 | 22,3 | 2,3 |
| França | Bismarck + financiamento fiscal (CSG) + complementar | 11,5 (2024) | 5.327 (2024) | 68,4† | 9,2 | 3,4 |
| Alemanha | Bismarck (GKV/PKV, Gesundheitsfonds) | 12,3 (2024) | 6.849 (2024) | 79,1 | 10,7 | 3,1 |
| Espanha | Beveridge descentralizado (SNS/comunidades autônomas) | 9,2 (2023) | 3.107 (2023) | 73,2 | 20,9 | 2,6 |
| Portugal | Beveridge (SNS/ULS) | 10,2 (2024) | 2.971 (2024) | 61,4 | 28,2 | 2,7 |
| Países Baixos | Seguro obrigatório privado regulado (Zvw/Wlz) | 10,0 (2024) | 6.845 (2024) | 68,4† | 11,8 | 3,4 |
| Suécia | Beveridge descentralizado (regiões) | 11,2 (2024) | 6.485 (2024) | 86,1 | 13,4 | 2,0 |
| Ásia e Oceania | ||||||
| Japão | Bismarck, múltiplos fundos, tabela nacional de preços | 10,7 (2023) | 3.638 (2023) | 84,8 | 12,2 | 1,8 |
| Coreia do Sul | Seguro nacional pagador único (NHIS) | 8,7 (2024) | 3.137 (2024) | 56,6 | 33,7 | 2,3 |
| China | Misto: seguro social básico (UEBMI/URRBMI) | 5,9 (2023) | 763 (2023) | 57,1 | 32,2 | 4,1 |
| Índia | Misto e fragmentado, predominantemente do bolso (PM-JAY) | 3,3 (2023) | 85 (2023) | 39,0 | 43,9 | 23,3 |
| Singapura | Poupança compulsória + seguro catastrófico (3M) | 4,5 (2023) | 3.922 (2023) | 58,5 | 25,4 | 2,2 |
| Tailândia | Cobertura universal por impostos (UCS) + seguro social | 4,5 (2023) | 327 (2023) | 77,9 | 9,9 | 7,7 |
| Israel | Seguro nacional com 4 fundos competitivos (lei de 1995) | 7,1 (2023) | 3.928 (2023) | 65,2 | 20,5 | 2,7 |
| Austrália | Medicare por impostos + setor privado forte | 10,4 (2023) | 6.980 (2023) | 73,7 | 15,8 | 3,1 |
| África | ||||||
| África do Sul | Público por impostos + medical schemes; lei do NHI (2024) suspensa por litígio | 8,9 (2023) | 537 (2023) | 61,6 | 6,7 | 24,2 |
| Nigéria | Misto, predominantemente do bolso (NHIA 2022) | 4,2 (2023) | 67 (2023) | 14,3 | 71,9 | 69,8 |
| Quênia | Seguro social (SHA/SHIF desde 2024) + serviços descentralizados | 4,4 (2023) | 85 (2023) | 44,9 | 24,2 | 34,2 |
| Ruanda | Seguro comunitário quase universal (Mutuelles de Santé) | 5,1 (2023) | 53 (2023) | 47,0 | 4,1‡ | 29,4 |
| Gana | Seguro nacional único (NHIS, 2003) financiado por imposto | 3,0 (2023) | 70 (2023) | 63,2 | 26,7 | 27,5 |
| Egito | Seguro social universal em implantação por fases (lei de 2018) | 4,9 (2023) | 141 (2023) | 32,2 | 57,2 | 20,8 |
| Etiópia | Misto: público + seguro comunitário; muito dependente de doadores | 2,8 (2023) | 35 (2023) | 21,9 | 46,3 | 34,5 |
* Chile: não inclui a cotização obrigatória de 7% destinada às ISAPRE. * Cuba: valor em dólares nominais distorcido pelo câmbio oficial (em US$ PPP: 2.575 em 2023). ** Cuba: valor oficial do MINSAP para 2025 é 9,9‰. † França e Países Baixos: o indicador da OMS subestima o financiamento compulsório; pela classificação da OCDE (governo + seguro obrigatório) a proporção fica em torno de 80–85% (a confirmar). ‡ Ruanda: valor baixo, mas confirmado na GHED via Banco Mundial (4,1% em 2023; 4,2% em 2022; 5,0% em 2021). Os valores de gasto dos países africanos, obtidos inicialmente em bases que reproduzem a GHED (Our World in Data, TheGlobalEconomy), foram conferidos na API do Banco Mundial (GHED) e a mortalidade infantil no UN IGME/OMS em 25/09/2026. % público de Reino Unido, Itália, Alemanha, Portugal, Países Baixos e Suécia refere-se a 2023 (último ano disponível).
3.Síntese comparativa
1. Gastar mais não garante melhores resultados
Os Estados Unidos gastam 16,7% do PIB e US$ 13.473 por habitante — mais que o dobro de quase todos os países europeus —, mas têm mortalidade infantil de 5,5‰, acima de Japão (1,8), Suécia (2,0), Singapura (2,2), Itália e Coreia (2,3). O Japão alcança a menor mortalidade infantil do levantamento gastando cerca de um quarto do valor norte-americano por habitante. No outro extremo, Cuba e Chile obtêm mortalidade infantil próxima à norte-americana com uma fração do gasto, enquanto a Tailândia, com US$ 327 por habitante, oferece cobertura universal com o menor gasto do bolso da Ásia (9,9%). O que distingue os sistemas com melhores resultados é menos o volume de recursos e mais a combinação de financiamento predominantemente público e compulsório, atenção primária organizada e baixo pagamento direto das famílias.
2. O peso do gasto do bolso
O pagamento direto no momento do uso é o indicador mais sensível de proteção financeira. Nos sistemas europeus de base pública ele fica entre 9% (França) e 15% (Reino Unido), com exceções no Sul — Itália (22%), Espanha (21%) e Portugal (28%) —, onde medicamentos, odontologia e acesso privado para fugir das filas pesam no orçamento familiar. Na América Latina o gasto do bolso é alto em quase todos os sistemas segmentados: México (41%), Chile (39%), Brasil (26%) e Argentina (25%); a Colômbia é a exceção (15%), graças ao seguro universal com cesta ampla. Nos países africanos de menor renda o problema é dramático — Nigéria (72%), Egito (57%), Etiópia (46%) —, enquanto Ruanda, com seu seguro comunitário, e a África do Sul, com rede pública financiada por impostos, mostram que é possível reduzi-lo mesmo com recursos escassos. A OMS considera que o gasto do bolso acima de 15–20% do gasto total expõe as famílias a gastos catastróficos.
3. O Brasil no contexto
O Brasil gasta 9,7% do PIB em saúde — percentual comparável ao de países europeus —, mas apenas 44% é público, uma das menores proporções entre os países com sistema universal de direito. O SUS é, no desenho constitucional, um sistema do tipo Beveridge (universal, gratuito, financiado por impostos das três esferas de governo), mas o financiamento real é predominantemente privado: planos de saúde (cerca de 53 milhões de beneficiários em 2026) e gasto do bolso (26%). O resultado é um sistema misto e segmentado, mais parecido na estrutura de gasto com Chile, México e Argentina do que com Reino Unido, Itália ou Espanha. A mortalidade infantil brasileira (12,3‰ em 2024) é a mais alta das Américas neste levantamento, junto com a do México (12,1‰), e bem acima da de Argentina (8,0‰), Cuba (6,8‰) e Chile (5,8‰).
4. Como os sistemas são geridos
- Descentralização: Itália (regiões e ASL), Espanha (17 comunidades autônomas), Suécia (21 regiões), Canadá (13 províncias e territórios) e Brasil (estados e 5.570 municípios) descentralizam a gestão; a descentralização aproxima a gestão da população, mas amplia as desigualdades regionais — problema citado em todos esses países.
- Separação entre comprador e prestador: o Reino Unido (Inglaterra), com os Integrated Care Boards, e a Alemanha, com as caixas de seguro, separam quem paga de quem presta; Escócia, Gales, Portugal (ULS) e Suécia integram as duas funções em organizações territoriais únicas.
- Porta de entrada (gatekeeping): médico de família como filtro obrigatório para o especialista no Reino Unido, Países Baixos, Espanha, Itália e Portugal; acesso livre a especialistas na Alemanha, no Japão e na Coreia, com mais consultas por habitante e mais fragmentação.
- Formas de pagamento: capitação para a atenção primária (Reino Unido, Itália, Tailândia) e grupos diagnósticos (DRG) para hospitais são o padrão europeu; o Japão paga por serviço, mas com tabela nacional única de preços revista a cada dois anos, o que controla custos; os Estados Unidos combinam múltiplos pagadores e preços negociados, com alto custo administrativo.
- Competição regulada: Países Baixos, Israel, Colômbia e o Chile (ISAPRE) usam seguradoras que competem sob regras públicas (cesta mínima, proibição de seleção de risco, fundo de compensação de riscos); o modelo funciona melhor onde a regulação é forte (Países Baixos, Israel) e gera crises onde é frágil (Colômbia, com 7 EPS sob intervenção; Chile, com a crise das ISAPRE resolvida pela Lei Curta de 2024).
5. A saúde da criança e o lugar do pediatra
Os países se dividem em dois modelos de atenção primária à criança. No modelo com pediatra na atenção primária — Itália (pediatra de livre escolha, obrigatório de 0 a 6 anos e pago por capitação), Espanha (pediatra nos centros de saúde até 14 anos), Alemanha (pediatras ambulatoriais com o programa de consultas preventivas U1–U9), França (pediatras e clínicos, com a Proteção Materno-Infantil), Israel (pediatras nos fundos de saúde e centros materno-infantis), Argentina, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul (pediatras em clínicas privadas) — a criança é acompanhada por pediatra desde o nascimento. O Chile tem modelo intermediário, com equipes de enfermagem, médico geral e, em alguns centros, pediatra, organizadas pelo programa Chile Crece Contigo. No modelo com médico de família — Reino Unido (GP e health visitors), Países Baixos (huisarts e os postos municipais de saúde infantil), Portugal, Suécia (centros de saúde infantil liderados por enfermagem), Canadá, México, Colômbia, Cuba, Tailândia e o SUS brasileiro (Estratégia Saúde da Família) —, o pediatra atua sobretudo no hospital, em ambulatórios de referência ou, no Brasil, na saúde suplementar. Ambos os modelos alcançam mortalidade infantil muito baixa na Europa; o que eles têm em comum é acompanhamento sistemático do crescimento e desenvolvimento, vacinação gratuita com alta cobertura e ausência de barreira financeira para a criança (nos Países Baixos, por exemplo, menores de 18 anos não pagam prêmio nem franquia). Vários países tornaram vacinas obrigatórias para a escola — Itália (10 vacinas desde 2017), França (11 vacinas para nascidos desde 2018, com meningococos ACWY e B a partir de 2025) e Alemanha (sarampo, desde 2020).
6. Tendências de 2020 a 2026
- Reorganização da gestão pública: abolição do NHS England e redução dos ICBs de 42 para 26 (Reino Unido, 2025–2027); lei espanhola que torna a gestão direta pública a regra (2026); consolidação das Unidades Locais de Saúde em Portugal (2024); reforma hospitalar alemã com efeito pleno em 2030.
- Atenção primária como prioridade, com dificuldades de execução: as Casas da Comunidade italianas financiadas pelo plano de recuperação europeu estão em grande parte sem funcionar, e a reforma dos médicos de família foi suspensa em 2026.
- Expansão da cobertura em países de renda média e baixa: IMSS-Bienestar no México, Tailândia com o "30 baht em qualquer lugar" (2025), Quênia com a nova autoridade de seguro social (2024), Egito com a implantação por fases do seguro universal, Nigéria com a lei do seguro obrigatório (2022).
- Retrações e crises: fim dos subsídios ampliados do ACA nos Estados Unidos (31/12/2025) e mudanças no Medicaid (lei de julho de 2025); reforma colombiana arquivada em 2025 com as maiores EPS sob intervenção; cortes da cooperação internacional (USAID, 2025) afetando Ruanda, Etiópia e Quênia; a lei do NHI sul-africano suspensa por decisões judiciais.
7. Lições para o debate brasileiro
- Financiamento público insuficiente é o principal ponto fraco do SUS: nenhum país europeu com sistema universal consolidado funciona com menos de 60% de gasto público (Portugal, o menor, tem 61%), e mesmo na Ásia os sistemas universais com menor participação pública (Coreia do Sul 57%, China 57%, Singapura 58%) ficam bem acima dos 44% do Brasil.
- O gasto do bolso brasileiro (26%) é alto para um sistema universal e concentra-se em medicamentos — área em que países como Canadá (Pharmacare, 2024) e a própria Europa vêm ampliando a cobertura pública.
- Atenção primária forte e com porta de entrada organizada é o denominador comum dos sistemas com melhores resultados; para a criança, o modelo europeu com pediatra na atenção primária (Itália, Espanha, Alemanha) é uma referência direta para a discussão brasileira sobre o papel do pediatra na Estratégia Saúde da Família.
- A descentralização exige mecanismos de equalização entre regiões — lição de Itália, Espanha e Suécia, relevante para os 5.570 municípios brasileiros.
- A regulação do setor privado importa: as crises das ISAPRE no Chile e das EPS na Colômbia mostram os riscos de seguros privados pouco regulados; Países Baixos e Israel mostram que a competição regulada pode funcionar quando há cesta obrigatória e compensação de riscos.
4.Fichas por país
Américas
Pesquisa em 25/09/2026. Fonte dos indicadores de gasto: Banco Mundial, World Development Indicators (WDI), que reproduz a base Global Health Expenditure Database (GHED) da OMS. Consulta via API em 25/09/2026. Mortalidade infantil: UN IGME, via Banco Mundial (SP.DYN.IMRT.IN), ano de 2024.
Notas de método (valem para todos os países)
- "% público" = gasto doméstico do governo geral em saúde (GGHE-D), em % do gasto corrente em saúde (CHE). Esse indicador inclui a seguridade social compulsória pública (Medicare nos EUA, EPS/ADRES na Colômbia, IMSS no México, obras sociales na Argentina). Não inclui o seguro privado compulsório, como as ISAPRE no Chile.
- "% seguro voluntário": não consegui confirmar o indicador da OMS para seguro privado voluntário (o site bloqueou a consulta). Em cada ficha informo apenas o resíduo privado não-bolso (100 − % público − % do bolso). Esse resíduo é um limite superior do seguro voluntário, porque também inclui ONGs, empresas e recursos externos. Os valores exatos da OMS ficam (a confirmar).
- Os dados 2024 de Canadá, Chile e Colômbia vêm da série do Banco Mundial/OMS. Para os países da OCDE (EUA, Canadá, Chile, México, Colômbia), a OECD Health Statistics 2025 pode trazer valores um pouco diferentes. Não os usei.
1. Estados Unidos
1. Modelo. Misto e predominantemente privado. O seguro vem do emprego e é privado. Há programas públicos para grupos específicos: Medicare e Medicaid (Social Security Amendments, 1965), CHIP para crianças (1997) e o Affordable Care Act (ACA, 2010), com marketplaces subsidiados e expansão opcional do Medicaid.
2. Financiamento. Impostos federais e estaduais. Contribuição sobre salários para o Medicare Parte A: 2,9% (1,45% empregado + 1,45% empregador), mais 0,9% adicional para rendas altas. Prêmios do seguro de emprego, em geral divididos entre empregador e empregado. Franquias e copagamentos altos.
- Gasto corrente: 16,7% do PIB (2023).
- Per capita: US$ 13.473 (2023).
- Público (inclui Medicare/Medicaid): 54,0% (2023).
- Do bolso: 10,9% (2023).
- Resíduo privado não-bolso: ≈35% (principalmente seguro privado).
3. Gestão. Quem compra os serviços está fragmentado. Os CMS (federal) administram o Medicare. Os estados administram o Medicaid e o CHIP, com cofinanciamento federal. Milhares de seguradoras e planos autofinanciados por empregadores completam o quadro. Os prestadores são majoritariamente privados. O gatekeeping é variável (existe em HMOs). Formas de pagamento: DRG no Medicare hospitalar (criado nos EUA em 1983), pagamento por serviço, capitação no Medicare Advantage e no Medicaid gerenciado, e modelos de valor (ACOs).
4. Cobertura. Não é universal. A taxa de não segurados fica em torno de 8% (cerca de 26–27 milhões de pessoas, Census 2023/2024) (a confirmar). Não existe cesta nacional única. O setor privado domina.
5. Criança. O pediatra é o médico de atenção primária típico da criança. Medicaid e CHIP cobrem cerca de 4 em cada 10 crianças (a confirmar). O programa Vaccines for Children (VFC) fornece vacinas gratuitas a crianças elegíveis (Medicaid, sem seguro, indígenas). O ACA obriga os planos a cobrir as vacinas recomendadas sem copagamento. Mortalidade infantil: 5,5‰ (2024).
6. Reformas e desafios (2020–2026).
- Os subsídios ampliados do ACA (ARPA 2021/IRA 2022) venceram em 31/12/2025.
- O One Big Beautiful Bill Act (H.R. 1), sancionado em julho de 2025, criou exigência de trabalho no Medicaid de expansão e novas restrições de elegibilidade. Segundo o CBO, até 10 milhões de pessoas a mais ficarão sem seguro até 2034. Somado ao fim dos subsídios, o aumento passa de 14 milhões.
- O IRA (2022) passou a permitir que o Medicare negocie preços de medicamentos.
- Desafios: custo, cobertura e dívida médica.
7. Fontes.
- WDI/GHED: https://data.worldbank.org/indicator/SH.XPD.CHEX.GD.ZS
- AMA sobre o H.R. 1: https://www.ama-assn.org/health-care-advocacy/federal-advocacy/4-big-beautiful-bill-changes-will-reshape-care-2026
- CRS: https://www.congress.gov/crs-product/R48569
- Commonwealth Fund, perfil dos EUA: https://www.commonwealthfund.org/international-health-policy-center/countries/united-states
- GHED/OMS: https://apps.who.int/nha/database
2. Canadá
1. Modelo. Seguro nacional único (NHI) financiado por impostos e administrado por cada província ("Medicare"). Marcos legais: Hospital Insurance and Diagnostic Services Act (1957), Medical Care Act (1966) e Canada Health Act (1984).
2. Financiamento. Impostos gerais provinciais, mais transferência federal (Canada Health Transfer). Algumas províncias cobram "prêmios" vinculados ao imposto de renda, como o Ontario Health Premium. Não há copagamento nos serviços hospitalares e médicos cobertos. Medicamentos ambulatoriais, odontologia e visão ficam fora, pagos por seguro privado (em geral do emprego) ou pelo próprio paciente.
- Gasto corrente: 11,3% do PIB (2024).
- Per capita: US$ 6.378 (2024).
- Público: 70,2%.
- Do bolso: 15,3%.
- Resíduo privado não-bolso: ≈14,5% (principalmente seguro complementar).
3. Gestão. As províncias e territórios compram os serviços, com autoridades regionais de saúde na maioria delas. É um sistema muito descentralizado. Os médicos são em geral autônomos: recebem majoritariamente por serviço, com capitação e salário em modelos de equipe (por exemplo, Family Health Teams em Ontário). Os hospitais são sem fins lucrativos e recebem orçamento global com componentes por atividade. O médico de família funciona como porta de entrada, de fato.
4. Cobertura. Universal para residentes nos serviços "medicamente necessários" de hospital e médico. A cobertura de medicamentos é um mosaico de planos provinciais e privados.
5. Criança. A maior parte da atenção primária infantil é feita pelo médico de família. O pediatra atua sobretudo como consultor, em especial fora dos grandes centros. As vacinas são gratuitas pelos programas provinciais. Mortalidade infantil: 4,7‰ (2024).
6. Reformas e desafios.
- O Canadian Dental Care Plan (2023–2025) cobre, de forma escalonada, famílias sem seguro odontológico e com renda abaixo de CAD 90 mil, incluindo crianças.
- Pharmacare Act (lei C-64, aprovada em outubro de 2024): primeira fase com contraceptivos e medicamentos para diabetes, por meio de acordos bilaterais com as províncias (por exemplo, Colúmbia Britânica em março de 2025).
- Desafios: falta de médicos de família (milhões sem médico regular) e filas para cirurgias eletivas.
7. Fontes.
- WDI/GHED (link acima).
- Health Canada sobre o Pharmacare: https://www.canada.ca/en/health-canada/news/2024/10/government-of-canada-passes-legislation-for-a-first-phase-of-national-universal-pharmacare.html
- Acordo com a Colúmbia Britânica: https://www.canada.ca/en/health-canada/news/2025/03/government-of-canada-signs-pharmacare-agreement-with-british-columbia-to-improve-universal-access-to-free-medications.html
- Commonwealth Fund, perfil do Canadá: https://www.commonwealthfund.org/international-health-policy-center/countries/canada
3. Brasil (SUS + saúde suplementar/ANS)
1. Modelo. Serviço nacional de saúde (Beveridge), universal e financiado por impostos: o SUS, criado pela Constituição de 1988 e pelas Leis 8.080/1990 e 8.142/1990. Ao lado dele há um grande setor privado suplementar, regulado pela Lei 9.656/1998 e pela ANS (Lei 9.961/2000). Na prática, o sistema é misto e segmentado.
2. Financiamento. O SUS é pago com impostos e contribuições sociais das três esferas. Há pisos mínimos: EC 29/2000 e LC 141/2012, com estados aplicando 12% e municípios 15% das receitas. Não existe contribuição específica sobre salário para a saúde. Os planos de saúde são pagos por mensalidades, na maioria coletivas empresariais, e há dedução no imposto de renda.
- Gasto corrente: 9,7% do PIB (2023).
- Per capita: US$ 1.010 (2023); US$ PPP 2.070.
- Público: 44,1%.
- Do bolso: 26,2%.
- Resíduo privado não-bolso: ≈29,6% (principalmente planos de saúde).
- Mais da metade do gasto total é privado, apesar de o sistema ser universal.
3. Gestão. Descentralização tripartite: União, estados e municípios, com comissões intergestores (CIT e CIB). O município é o principal gestor da atenção primária. Prestadores públicos e privados: filantrópicos e privados contratados respondem por grande parte dos leitos. A Estratégia Saúde da Família é a porta de entrada preferencial, com regulação de acesso. Formas de pagamento:
- Atenção primária federal: financiamento misto per capita/desempenho (Previne Brasil 2019, substituído em 2024 por novo cofinanciamento com componente de equidade e vínculo) [não verificado quanto aos detalhes].
- Hospitais: tabela SUS por procedimento (AIH), incentivos e orçamentação.
- Planos: sobretudo pagamento por serviço.
4. Cobertura. Universal e gratuita no ponto de atendimento. A saúde suplementar cobre cerca de 53,1 milhões de beneficiários em planos médico-hospitalares (1º semestre de 2026, ANS), cerca de 25% da população, com o Rol da ANS como cesta mínima. A Lei 14.454/2022 tornou o Rol exemplificativo, com critérios. Há dupla cobertura, e os planos devem ressarcir o SUS pelo atendimento de seus beneficiários.
5. Criança. No SUS, a puericultura é feita sobretudo por médicos de família/generalistas e enfermeiros nas UBS/ESF. O pediatra atua nas policlínicas e hospitais e, na saúde suplementar, é o médico de referência da criança. O Programa Nacional de Imunizações (PNI, 1973) oferece um calendário amplo e gratuito. Mortalidade infantil: 12,3‰ (2024).
6. Reformas e desafios.
- Programa Agora Tem Especialistas: criado por medida provisória em 2025 e convertido em lei em outubro de 2025 (número da lei (a confirmar)). Busca reduzir as filas de atenção especializada. Inclui a troca de dívidas de ressarcimento dos planos de saúde por atendimentos ao SUS.
- Reajustes e cancelamentos de planos.
- Subfinanciamento federal e as regras fiscais.
- Desigualdades regionais e dependência de emendas parlamentares.
7. Fontes.
- WDI/GHED (link acima).
- ANS, dados gerais: https://www.gov.br/ans/pt-br/acesso-a-informacao/perfil-do-setor/dados-gerais
- Beneficiários 2026: https://xvifinance.com.br/2026/08/05/beneficiarios-planos-de-saude-julho-2026/
- Ministério da Saúde sobre o Agora Tem Especialistas: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/setembro/congresso-nacional-aprova-medida-provisoria-que-criou-o-agora-tem-especialistas-com-ampla-maioria
- Senado: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/09/10/comissao-aprova-mp-que-acelera-atendimento-de-especialidades-no-sus
- Futuro da Saúde: https://futurodasaude.com.br/agora-tem-especialistas-planos-de-saude-ressarcimento/
4. Argentina (público, obras sociales, PAMI, prepagas)
1. Modelo. Misto e segmentado em três subsistemas:
- Público: gratuito e universal, financiado por impostos nacionais, provinciais e municipais.
- Seguridade social: cerca de 300 obras sociales nacionais, organizadas por sindicato ou atividade (Leis 23.660 e 23.661/1988, esta última criando o Sistema Nacional del Seguro de Salud); obras sociales provinciais para servidores; e o PAMI/INSSJP para aposentados (Lei 19.032/1971).
- Privado: empresas de medicina prepaga (Lei 26.682/2011).
2. Financiamento.
- Obras sociales nacionais: 3% do salário pago pelo empregado + 6% pelo empregador. Uma parte vai ao Fondo Solidario de Redistribución, administrado pela Superintendencia de Servicios de Salud (SSS).
- PAMI: contribuições de ativos e aposentados, mais recursos do Tesouro.
- Prepagas: mensalidades, muitas vezes pagas desviando a contribuição da obra social para a prepaga.
Indicadores:
- Gasto corrente: 10,3% do PIB (2023).
- Per capita: US$ 1.457 (2023); US$ PPP 3.089.
- Público (inclui obras sociales e PAMI): 60,2%.
- Do bolso: 24,5%.
- Resíduo privado não-bolso: ≈15,3% (sobretudo prepagas).
3. Gestão. Muito fragmentada. As províncias são responsáveis pelos hospitais públicos: o sistema é federal e descentralizado, e o Ministério da Saúde nacional tem papel normativo e de programas. Cada obra social e o PAMI compram serviços, em geral de prestadores privados, com pagamento por capitação a redes ou por serviço/módulos. A SSS regula as obras sociales e as prepagas. Não há gatekeeping sistemático.
4. Cobertura. Todos têm direito ao setor público. A seguridade social cobre cerca de 60% da população e as prepagas cerca de 15% (valores aproximados (a confirmar)). O Programa Médico Obligatorio (PMO) é a cesta mínima para obras sociales e prepagas.
5. Criança. Existe forte tradição de pediatras na atenção primária, tanto em centros de saúde públicos quanto nas obras sociales e prepagas. O Calendário Nacional de Vacinação é obrigatório e gratuito (Lei 27.491/2018). Mortalidade infantil: 8,0‰ (2024).
6. Reformas e desafios.
- O DNU 70/2023 (governo Milei) desregulou os preços das prepagas, abriu às prepagas o sistema de livre escolha e acabou com a triangulação obligatoria via obras sociales (2025).
- A Justiça Federal Civil e Comercial nº 8 declarou nulos os artigos 267 e 269 do DNU em novembro de 2025. A decisão está em recurso e vale para um caso individual.
- Ajuste fiscal, redução de programas nacionais e atrasos no PAMI.
- Inflação e crise financeira das obras sociales.
7. Fontes.
- WDI/GHED (link acima).
- Governo argentino: https://www.argentina.gob.ar/noticias/reglamentacion-del-dnu-7023
- El Cronista: https://www.cronista.com/economia-politica/la-justicia-anulo-la-desregulacion-de-las-prepagas-que-cambia-para-los-usuarios/
- Infobae: https://www.infobae.com/politica/2025/02/06/tras-el-fin-de-la-triangulacion-con-las-obras-sociales-el-gobierno-espera-que-las-prepagas-reduzcan-sus-cuotas/
- ISG: https://isg.org.ar/seguimiento-de-las-propuestas-de-salud-anunciadas-en-2023-por-lla-milei/
5. Chile (FONASA/ISAPRE)
1. Modelo. Misto de seguro social com escolha entre um seguro público e seguros privados. O Servicio Nacional de Salud foi criado em 1952. A reforma de 1979–1981 criou o FONASA (1979) e as ISAPRE (DFL 3/1981). O AUGE/GES (Lei 19.966/2004) estabeleceu garantias explícitas: primeiro para 56 problemas de saúde, hoje cerca de 87 [não verificado quanto ao número atual].
2. Financiamento.
- 7% do salário, pago pelo trabalhador (a cotização obrigatória), vai para o FONASA ou para a ISAPRE escolhida.
- Aporte fiscal ao FONASA, cobrindo os indigentes e o subsídio.
- Planos ISAPRE podem cobrar prêmio adicional acima dos 7%.
- Copagamentos relevantes.
Indicadores:
- Gasto corrente: 10,5% do PIB (2024).
- Per capita: US$ 1.760 (2024); US$ PPP 3.612.
- Governo geral: 48,5%. Esse número não inclui as ISAPRE, classificadas como seguro privado compulsório.
- Do bolso: 39,1%, um dos mais altos da OCDE.
- Resíduo ≈12,4% (sobretudo ISAPRE e seguros complementares).
3. Gestão.
- O FONASA compra de prestadores públicos (29 Servicios de Salud e a atenção primária municipal, paga por per capita) e privados (Modalidad Libre Elección, por serviço).
- Hospitais públicos: GRD/DRG, implantado desde 2020.
- As ISAPRE contratam principalmente clínicas privadas.
- A Superintendencia de Salud regula o setor. A atenção primária é municipalizada (CESFAM).
4. Cobertura. Quase universal. O FONASA cobre a grande maioria, cerca de 80%, e as ISAPRE cerca de 15% (aproximado (a confirmar)). O GES garante acesso, prazo, proteção financeira e qualidade para as condições incluídas. Há a Lei Ricarte Soto (2015) para tratamentos de alto custo.
5. Criança. O programa Chile Crece Contigo (Lei 20.379/2009) organiza o acompanhamento do desenvolvimento infantil. O controle de saúde infantil na APS é feito por equipes com enfermeira, médico geral e pediatra em alguns centros. O Programa Nacional de Inmunizaciones é gratuito. Mortalidade infantil: 5,8‰ (2024).
6. Reformas e desafios.
- A Suprema Corte (2022) mandou aplicar a tabela de fatores única e devolver cobranças excessivas.
- A Lei Curta das ISAPRE foi aprovada em 13/05/2024 e está vigente desde 24/05/2024. Ela prevê:
- planos de pagamento da dívida em até 13 anos;
- tabela única de fatores;
- controle do preço GES pela Superintendencia;
- criação da Modalidad de Cobertura Complementaria (MCC) do FONASA, com seguros privados complementares para afiliados ao FONASA.
- Tramita a reforma estrutural para um Fondo Universal / seguro único [estado em 2026 não verificado].
- A reforma de universalização da APS está em piloto desde 2023.
7. Fontes.
- WDI/GHED (link acima).
- Cuatrecasas: https://www.cuatrecasas.com/es/latam/litigacion/art/principales-aspectos-plazos-ultimos-hitos-implementacion-ley-corta-isapres
- Gob.cl: https://www.gob.cl/noticias/ley-corta-isapres-fonasa-que-es-detalles-proyecto-ley-cobros-indebidos-devolucion-planes/
- Senado do Chile: https://www.senado.cl/comunicaciones/noticias/ley-corta-de-isapres-informe-de-comision-mixta-se-votara-el-lunes-13-en
6. México (IMSS, ISSSTE, IMSS-Bienestar)
1. Modelo. Misto e segmentado. A seguridade social de tipo Bismarck atende quem tem emprego formal:
- IMSS (1943), para o setor privado formal;
- ISSSTE (1959), para servidores federais;
- PEMEX e SEDENA/SEMAR.
Para quem não tem seguridade social, os serviços são públicos e financiados por impostos:
- Seguro Popular (2003), substituído pelo INSABI (2020);
- IMSS-Bienestar, organismo público descentralizado desde 2022–2023, que absorveu o INSABI em 2023.
2. Financiamento. O IMSS tem contribuições tripartites (empregador, empregado e governo), com fórmula complexa de cotas fixas e proporcionais ao salário no seguro de enfermidade e maternidade. As alíquotas detalhadas não foram verificadas aqui. O IMSS-Bienestar é financiado com impostos federais e estaduais.
- Gasto corrente: 5,5% do PIB (2023), o menor do grupo.
- Per capita: US$ 761 (2023); US$ PPP 1.368.
- Público: 48,6%.
- Do bolso: 41,2%, o mais alto do grupo.
- Resíduo ≈10% (seguro privado, sobretudo seguro de gastos médicos mayores).
3. Gestão. Cada instituição é ao mesmo tempo financiadora e prestadora, com redes próprias, verticalmente integradas e com orçamento histórico e salários. Na população sem seguridade social houve recentralização: os estados aderentes transferiram serviços ao IMSS-Bienestar. São 24 estados aderidos (2026). Há muito atendimento privado fora do sistema, em farmácias com consultório anexo.
4. Cobertura. Por lei (reforma da Lei Geral de Saúde, 2019–2020), a atenção é gratuita para quem não tem seguridade social. Na prática, há carências de acesso e medicamentos. A população com "carência de acesso a serviços de saúde" subiu muito entre 2018 e 2022, segundo o CONEVAL (cerca de 39% em 2022 (a confirmar)).
5. Criança. A atenção primária é feita por médicos gerais/familiares nas Unidades de Medicina Familiar (IMSS) e centros de saúde. Os pediatras atuam no segundo nível. O Programa de Vacunación Universal é gratuito, mas houve quedas de cobertura e desabastecimento em 2019–2023. Mortalidade infantil: 12,1‰ (2024).
6. Reformas e desafios.
- Extinção do Seguro Popular (2020) e depois do INSABI (2023), com a centralização no IMSS-Bienestar.
- Servicio Universal de Salud (governo Sheinbaum): credencial única e intercâmbio de serviços entre IMSS, ISSSTE, PEMEX e IMSS-Bienestar. O registro começou em 2026 e o intercâmbio está previsto para 1º/01/2027, começando por urgências, gravidez de alto risco, infarto, AVC e câncer de mama.
- Desafios: subfinanciamento, desabastecimento de medicamentos e gasto do bolso elevado.
7. Fontes.
- WDI/GHED (link acima).
- Expansión: https://politica.expansion.mx/mexico/2026/08/18/credencial-unica-salud-imss-bienestar-para-quien-son
- Segundo Informe de Governo: https://www.segundoinformedegobierno.gob.mx/indice/822/servicio-universal-de-salud
- Consultor Salud: https://consultorsalud.com.mx/mexico-registro-universal-de-salud-2026-imss/
7. Colômbia (EPS, regimes contributivo e subsidiado)
1. Modelo. Seguro social universal com competição regulada ("pluralismo estruturado"), criado pela Lei 100/1993 (Sistema General de Seguridad Social en Salud, SGSSS). A Lei Estatutária 1751/2015 definiu a saúde como direito fundamental.
2. Financiamento.
- Regime contributivo: cotização de 12,5% do salário (8,5% empregador + 4% empregado). Empregadores ficam isentos da parte patronal para trabalhadores que ganham menos de 10 salários mínimos (Lei 1607/2012) [não verificado quanto à vigência atual].
- Regime subsidiado: impostos gerais e recursos territoriais.
Todos os recursos são concentrados na ADRES (fundo único, 2017), que paga às EPS uma UPC, prêmio per capita ajustado por risco.
- Gasto corrente: 8,1% do PIB (2024).
- Per capita: US$ 644 (2024); US$ PPP 1.758.
- Público: 69,8%.
- Do bolso: 14,7%, baixo para a região.
- Resíduo ≈15,5% (medicina prepagada e planos complementares).
3. Gestão. As EPS (Entidades Promotoras de Salud) atuam como seguradoras e gestoras: recebem a UPC e contratam as IPS (prestadores públicos e privados) por capitação, evento ou pacotes. A Superintendencia Nacional de Salud (Supersalud) regula. Os municípios e departamentos cuidam da saúde pública e da rede pública (ESE). O gatekeeping é pela APS da EPS.
4. Cobertura. Quase universal: cerca de 99% dos afiliados, divididos aproximadamente meio a meio entre contributivo e subsidiado (a confirmar). O Plan de Beneficios (PBS) é único para os dois regimes desde 2012, com exclusões explícitas desde 2017. As cuotas moderadoras e copagos são baixos.
5. Criança. A atenção é feita por médicos gerais nas IPS de atenção primária, com pediatras no nível especializado. A Ruta Integral de Atención para la Primera Infancia faz parte do sistema. O Programa Ampliado de Inmunizaciones (PAI) é gratuito. Mortalidade infantil: 10,5‰ (2024).
6. Reformas e desafios (crise 2024–2026).
- O governo Petro propôs transformar as EPS em "gestoras", tornar a ADRES pagadora direta e criar Centros de Atención Primaria (CAPS). O projeto foi arquivado no Senado em abril de 2024.
- A segunda versão ("reforma 2.0") foi arquivada pela Comissão Sétima do Senado em 17/12/2025, por 8 votos a 3.
- A Supersalud interveio em várias EPS grandes a partir de 2024: Sanitas, Nueva EPS, Famisanar, Emssanar, entre outras. A Sanitas foi devolvida por ordem judicial em 2025 (a confirmar).
- As sete EPS intervenidas somam cerca de 22,4 milhões de afiliados. O governo definirá até 31/12/2026 quais serão saneadas e quais serão liquidadas.
- Desafios: suficiência da UPC, dívidas com hospitais e falta de medicamentos.
7. Fontes.
- WDI/GHED (link acima).
- Portafolio: https://www.portafolio.co/economia/gobierno/alta-cirugia-para-las-eps-intervenidas-el-gobierno-decidira-cuales-pueden-salvarse-y-cuales-iran-a-liquidacion-502228
- Infobae: https://www.infobae.com/colombia/2025/12/17/comision-septima-del-senado-archivo-la-reforma-a-la-salud-estos-son-los-8-senadores-que-votaron-en-contra/
- Senado da Colômbia: https://www.senado.gov.co/index.php/el-senado/noticias/7062-proyecto-de-reforma-de-la-salud-fue-archivado-en-comision-septima-de-senado
- Razón Pública: https://razonpublica.com/la-reforma-la-salud-cae-segunda-vez/
8. Cuba
1. Modelo. Serviço nacional estatal (Beveridge/modelo "Semashko"), integralmente público. O Sistema Nacional de Saúde foi unificado nos anos 1960 (nacionalização e fim da prática privada). A Lei 41/1983 é a Lei de Saúde Pública. O programa do Médico e Enfermeira da Família começou em 1984. Uma nova Lei de Saúde Pública foi aprovada em 2023 (a confirmar).
2. Financiamento. Orçamento do Estado. Não há contribuições específicas nem seguro, e o setor privado de saúde é praticamente inexistente. Exportar serviços médicos (missões no exterior) é uma fonte importante de divisas para o país.
- Gasto corrente: 9,4% do PIB (2023).
- Per capita em US$: último dado US$ 1.199 (2020), distorcido pela unificação cambial de 2021. Em US$ PPP: 2.575 (2023).
- Público: 83,4% (2023).
- Do bolso: 16,6% (2023), sobretudo medicamentos e mercado informal.
3. Gestão. Centralizada no MINSAP, com execução pelas direções provinciais e municipais. Todos os prestadores são estatais:
- consultórios do médico de família (primeiro contato);
- policlínicos (APS ampliada, com pediatras e obstetras de apoio);
- hospitais.
Os profissionais são assalariados e os hospitais recebem orçamento.
4. Cobertura. Universal e gratuita por lei. Na prática, há escassez grave de medicamentos, insumos e energia (apagões). Mais de 100 mil pessoas aguardam cirurgia (2026, segundo relato oficial divulgado pela imprensa).
5. Criança. O Programa Materno-Infantil (PAMI cubano) tem seguimento intensivo feito pelo médico de família, com interconsulta do pediatra no policlínico. A vacinação é gratuita e inclui vacinas de produção nacional. Mortalidade infantil: 6,8‰ (2024, UN IGME). O dado oficial do MINSAP para 2025 é 9,9‰, divulgado pela imprensa independente. Isso mostra uma alta importante em relação aos cerca de 4‰ da década de 2010.
6. Reformas e desafios. A crise econômica desde 2020 (pandemia, sanções dos EUA, "Tarea Ordenamiento" 2021) trouxe escassez de medicamentos, emigração maciça de médicos e deterioração da infraestrutura. Há questionamentos metodológicos antigos sobre a mortalidade infantil (classificação de óbitos neonatais).
7. Fontes.
- WDI/GHED (link acima).
- Diario de Cuba: https://diariodecuba.com/cuba/1767441225_64645.html
- Pontificia Universidad Javeriana Cali: https://www.javerianacali.edu.co/noticias/la-crisis-del-sistema-de-salud-cubano-se-profundiza-menos-cirugias-escasez-de-medicamentos
- CiberCuba: https://www.cibercuba.com/noticias/2026-07-04-u1-e208574-s27061-nid334161-regimen-admite-indicadores-salud-han-caido-niveles
- OPS/PAHO: https://hia.paho.org/es/paises-2022/perfil-cuba
Europa
Pesquisa atualizada em 25/09/2026. Texto para pediatra brasileiro.
Nota metodológica (leia antes)
- Dados de gasto: OMS Global Health Expenditure Database (GHED), extraídos via API do Banco Mundial (indicadores SH.XPD.), consulta em 25/09/2026. A série já traz 2023 e 2024* para a maioria dos países (não 2021/2022); o ano de cada dado está indicado. Atenção: os anos não coincidem entre indicadores (ex.: % do bolso = 2024, % público = 2023).
- "% público" = indicador GHED Domestic general government health expenditure (% do gasto corrente), que inclui a seguridade social. Em França e Países Baixos esse valor (≈68%) é bem menor que o "governo + seguro compulsório" publicado pela OCDE (≈80–85%, segundo Health at a Glance: Europe), porque a GHED classifica parte do financiamento compulsório via seguradoras/complementares como privado. Valor OCDE exato para 2023/2024 (a confirmar).
- "% privado doméstico" (GHED) = do bolso + seguro voluntário + ONGs + empresas. O % de seguro privado voluntário (VHI) isolado não pôde ser extraído — (a confirmar).
- Per capita em US$ PPP: consulta bloqueada (limite de acesso) — (a confirmar); apresento apenas US$ correntes.
- Mortalidade infantil (<1 ano/1.000 nascidos vivos): estimativas UN IGME via Banco Mundial (SP.DYN.IMRT.IN), ano 2024.
1. Reino Unido
Modelo: Beveridge (serviço nacional financiado por impostos). NHS criado pelo NHS Act 1946, em funcionamento desde 5/7/1948. Saúde é competência devolvida: quatro sistemas distintos (Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte).
Financiamento: impostos gerais (maior parte) + parcela das contribuições de National Insurance; copagamentos mínimos (medicamentos com prescrição apenas na Inglaterra; odontologia e óptica). GHED: gasto corrente 11,1% do PIB (2024); US$ 5.860 per capita (2024); público 81,8% (2023); do bolso 14,6% (2024); privado doméstico total 18,2% (2023).
Gestão: na Inglaterra, o Health and Care Act 2022 extinguiu os CCGs e criou 42 Integrated Care Systems/Integrated Care Boards (ICBs) (1/7/2022), que compram serviços para sua população. Em 13/03/2025 o governo anunciou a abolição do NHS England e sua fusão com o Department of Health and Social Care (DHSC) (meta: abril de 2027), com corte de ~50% do pessoal de NHSE/DHSC e dos custos administrativos dos ICBs, e consolidação de 42 para 26 ICBs (fusões em 2026–2027). O Health Bill 2026-27 (apresentado em 14/05/2026) concluiu a Câmara dos Comuns em 08/09/2026 e segue para a Câmara dos Lordes; também transfere o comissionamento da atenção primária aos ICBs e extingue a Healthwatch England. Escócia: 14 Health Boards territoriais integrados, sem separação comprador-prestador. Gales: 7 Local Health Boards integrados. Irlanda do Norte: saúde e assistência social integradas, 5 HSC Trusts; o Health and Social Care Board foi substituído (2022) pelo Strategic Planning and Performance Group dentro do Departamento de Saúde. Prestadores majoritariamente públicos (NHS Trusts); GPs são contratados independentes. Gatekeeping forte pelo GP. Pagamento: GP por capitação (Global Sum) + desempenho (QOF); hospitais pelo NHS Payment Scheme (pagamento misto com tarifas HRG, tipo DRG).
Cobertura: universal para residentes, gratuita no ponto de uso. Receitas gratuitas na Escócia, Gales e Irlanda do Norte; na Inglaterra, isenção para <16 anos (e 16–18 em educação). Seguro privado complementar (~10% da população (a confirmar)) para acesso mais rápido.
Saúde da criança: atenção primária pelo GP (não pelo pediatra); health visitors (Healthy Child Programme) acompanham 0–5 anos; pediatras atuam em hospitais e serviços comunitários. Vacinação gratuita (calendário do NHS). Mortalidade infantil: 4,1/1.000 (2024), a mais alta do grupo.
Reformas e desafios: filas eletivas longas, crise de urgência, déficit de pessoal; 10 Year Health Plan (2025) — do hospital para a comunidade, do analógico para o digital, do tratamento para a prevenção; prontuário único via NHS App previsto a partir de 2028.
2. Itália
Modelo: Beveridge regionalizado. Servizio Sanitario Nazionale (SSN) criado pela Lei 833/1978, substituindo as antigas caixas de seguro (mutue). Reformas de 1992–93 (aziendalização) e reforma constitucional de 2001 (competência concorrente Estado-regiões).
Financiamento: impostos (IRAP, adicional regional do IRPEF, parcela do IVA) distribuídos às regiões pelo Fondo Sanitario Nazionale com critérios de capitação ponderada; copagamentos (ticket) em consultas especializadas, exames e alguns medicamentos. GHED: 8,4% do PIB (2024) — o menor do grupo; US$ 3.398 per capita (2024); público 73,1% (2023); do bolso 22,3% (2024); privado doméstico 26,9% (2023).
Gestão: o Estado define os LEA (Livelli Essenziali di Assistenza, atualizados em 2017) e o financiamento; 21 regiões/províncias autônomas organizam e gerem os serviços por meio das ASL (Aziende Sanitarie Locali) e Aziende Ospedaliere. Forte variação Norte-Sul; regiões em déficit ficam sob Piani di rientro. Prestadores públicos e privados credenciados (accreditati). Gatekeeping pelo medico di medicina generale (MMG), contratado por convênio nacional e pago principalmente por capitação; hospitais por DRG + orçamentos.
Cobertura: universal para residentes; isenções de ticket por renda, idade, doenças crônicas/raras. Gasto do bolso elevado e seguros/fundos complementares em crescimento.
Saúde da criança: modelo com pediatra na atenção primária — o pediatra di libera scelta (PLS) é obrigatório de 0 a 6 anos e opcional até 14 anos, pago por capitação. Vacinação gratuita; o Decreto Lorenzin (2017) tornou 10 vacinas obrigatórias para o ingresso escolar. Mortalidade infantil: 2,3/1.000 (2024).
Reformas e desafios: o PNRR (2021–2026) financiou Case della Comunità, Ospedali di Comunità e telemedicina (DM 77/2022). A reforma da medicina geral do ministro Schillaci (MMG com horas obrigatórias nas Casas da Comunidade, parte como assalariados) foi suspensa em junho de 2026 por divergências na coalizão e oposição sindical; próximo ao prazo de 30/06/2026, apenas ~4% das 1.715 Casas previstas estavam plenamente operacionais (segundo a imprensa). Faltam médicos e enfermeiros, há listas de espera e mobilidade sanitária Sul→Norte.
3. França
Modelo: Bismarck (seguro social) com crescente financiamento fiscal. A Sécurité sociale foi criada pelas ordonnances de 1945; a CMU (1999) foi substituída pela PUMa – Protection Universelle Maladie (2016), que garante cobertura por residência.
Financiamento: contribuições sobre salários (patronais; a contribuição do empregado para doença foi praticamente substituída pela CSG em 2018), CSG sobre todas as rendas, impostos afetados e transferências. Seguro complementar (mutuelles, instituições de previdência, seguradoras) cobre o ticket modérateur; é obrigatório para empregadores oferecerem aos assalariados do setor privado desde 2016 (ANI). O Parlamento vota anualmente o ONDAM (teto de gasto). GHED: 11,5% do PIB (2024); US$ 5.327 per capita (2024); público (GHED) 68,4% (2024); do bolso 9,2% (2024) — o menor do grupo; privado doméstico 31,6% (2024) (inclui complementares).
Gestão: Estado (Ministério e Parlamento) define orçamento e preços; Assurance Maladie (CNAM, com caixas primárias CPAM) é o principal pagador; ARS (Agências Regionais de Saúde, 2010) planejam regionalmente. Prestadores: hospitais públicos, privados sem e com fins lucrativos; médicos ambulatoriais liberais pagos por ato (com complementos por capitação/metas — ROSP). Hospitais por T2A (tipo DRG). Parcours de soins com médecin traitant (gatekeeping "suave": reembolso menor sem encaminhamento).
Cobertura: universal; copagamentos (ticket modérateur, participation forfaitaire, franquias médicas); isenção para doenças crônicas graves (ALD). Complémentaire santé solidaire (2019) para baixa renda; reforma 100% Santé (2019–2021) zerou gastos em óculos, próteses dentárias e auditivas de referência.
Saúde da criança: modelo misto — pediatras e clínicos gerais atuam no ambulatório; PMI (Proteção Materno-Infantil, departamental) faz prevenção e vacinação gratuita. 11 vacinas obrigatórias para nascidos a partir de 2018; meningococos ACWY e B tornaram-se obrigatórios para nascidos a partir de 1/1/2025. Mortalidade infantil: 3,4/1.000 (2024), com tendência de estagnação/aumento discutida no país.
Reformas e desafios: a LFSS 2026 (adotada em 16/12/2025) fixou o ONDAM 2026 em € 274,4 bi (+3,1%), com déficit do ramo doença de € 13,8 bi; plano de € 1 bi para dívidas hospitalares. Desafios: déficit crônico da Sécurité sociale, "desertos médicos", crise nas urgências e na pediatria hospitalar.
4. Alemanha
Modelo: Bismarck — o sistema de seguro social mais antigo do mundo (lei de 1883). Base legal atual: SGB V (Código Social, Livro V, 1988). Seguro-saúde obrigatório desde 2009 (GKV ou PKV).
Financiamento: contribuições sobre salários ao Gesundheitsfonds (fundo central, 2009): alíquota geral de 14,6%, dividida igualmente entre empregado e empregador, + contribuição adicional de cada caixa (média oficial 2,9% em 2026, também dividida), até um teto de renda; subsídio federal. O fundo redistribui às caixas por capitação ajustada ao risco (Morbi-RSA). PKV: prêmios por risco para quem está acima do limite de renda, autônomos e servidores (com Beihilfe). GHED: 12,3% do PIB (2024) — o maior do grupo; US$ 6.849 per capita (2024); público 79,1% (2023); do bolso 10,7% (2024); privado doméstico 20,9% (2023).
Gestão: autogoverno corporativo — cerca de 95 caixas (Krankenkassen) [número exato não verificado] negociam com associações de médicos (KVs) e hospitais; o G-BA (Comitê Federal Conjunto) define a cesta de benefícios; os Länder planejam e investem nos hospitais. Livre escolha de médico, sem gatekeeping obrigatório. Médicos ambulatoriais pagos por tabela (EBM) dentro de orçamentos regionais; hospitais por G-DRG.
Cobertura: ~88–90% na GKV e ~10% na PKV [aprox., não verificado]; praticamente universal. Copagamentos baixos (medicamentos, internação por dia), com teto de 2% da renda (1% para crônicos). Filhos são coassegurados gratuitamente (Familienversicherung).
Saúde da criança: pediatras (Kinder- und Jugendärzte) atuam na atenção primária; programa de consultas preventivas U1–U9 e J1. Vacinação recomendada pela STIKO, gratuita; vacina contra sarampo obrigatória para creche/escola (Masernschutzgesetz, 2020). Mortalidade infantil: 3,1/1.000 (2024).
Reformas e desafios: reforma hospitalar KHVVG (2024), ajustada pela KHAG (aprovada no Bundestag em 06/03/2026): 61 grupos de serviços, financiamento por disponibilidade (Vorhaltevergütung) adiado, com efeito pleno em 2030; fundo de transformação de € 29 bi financiado pelo orçamento federal. Governo planeja um sistema de médico de primeiro contato (Primärarztsystem) [projeto em 2026; status não verificado]. Desafio: alta das contribuições adicionais e déficit das caixas.
5. Espanha
Modelo: Beveridge descentralizado. Lei Geral de Saúde (Lei 14/1986) criou o Sistema Nacional de Salud (SNS), substituindo o seguro social; financiamento por impostos desde 1999; transferência completa às comunidades autônomas em 2002; Lei 16/2003 de coesão e qualidade.
Financiamento: impostos gerais, inseridos no financiamento autonômico geral (as CCAA decidem quanto destinar à saúde). Copagamento de medicamentos ambulatoriais por renda (RDL 16/2012, com isenções ampliadas depois). GHED: 9,2% do PIB (2023); US$ 3.107 per capita (2023); público 73,2% (2023); do bolso 20,9% (2023); privado doméstico 26,8% (2023).
Gestão: o Ministério da Saúde define a cesta comum e coordena pelo Conselho Interterritorial; 17 comunidades autônomas compram e prestam serviços (serviços regionais de saúde, áreas de saúde). Prestadores predominantemente públicos com profissionais assalariados; concessões privadas (modelo Alzira) em algumas regiões. Gatekeeping pelo médico de família em centros de saúde. Hospitais por orçamento global/contratos-programa.
Cobertura: universal para residentes, reforçada pelo RDL 7/2018. Sem copagamento em consultas e internações. Servidores públicos (MUFACE e similares) podem optar por seguradoras privadas; seguro privado duplicado em expansão.
Saúde da criança: pediatra na atenção primária (centros de saúde, 0–14 anos), com carência crescente de pediatras de AP. Calendário vacinal comum do Conselho Interterritorial, gratuito. Mortalidade infantil: 2,6/1.000 (2024).
Reformas e desafios: o Projeto de Lei de Gestão Pública e Integridade do SNS (aprovado pelo Conselho de Ministros em 12/05/2026 e enviado ao Congresso) revoga a Lei 15/1997, torna a gestão direta pública a regra e a gestão indireta excepcional, com avaliação prévia obrigatória. Desafios: listas de espera, desigualdade entre CCAA, crise do modelo MUFACE, falta de médicos de família e pediatras.
6. Portugal
Modelo: Beveridge. SNS criado pela Lei 56/79; nova Lei de Bases da Saúde (Lei 95/2019); novo Estatuto do SNS (2022) e criação da Direção Executiva do SNS (2022/2023).
Financiamento: impostos gerais via Orçamento do Estado; subsistemas (ex.: ADSE para servidores); seguros privados voluntários. As taxas moderadoras foram eliminadas nos cuidados primários (2020) e na maioria dos serviços do SNS (2022), exceto urgência sem referenciação. GHED: 10,2% do PIB (2024); US$ 2.971 per capita (2024); público 61,4% (2023) — o menor do grupo; do bolso 28,2% (2024) — o maior do grupo; privado doméstico 38,5% (2023).
Gestão: centralizado no Ministério da Saúde e Direção Executiva, com ACSS gerindo finanças. Em 1º/1/2024 o SNS foi reorganizado em 39 Unidades Locais de Saúde (ULS), integrando hospitais e centros de saúde (ACES) sob uma mesma gestão e financiamento por capitação ajustada ao risco [modelo de pagamento: não verificado em detalhe]. Atenção primária em USF (Unidades de Saúde Familiar), com generalização do modelo B (pagamento com componente por desempenho). Gatekeeping pelo médico de família. Setor privado forte (hospitais privados, convencionados em exames).
Cobertura: universal; ~1,5 milhão de pessoas sem médico de família atribuído [número não verificado]; gasto do bolso alto (medicamentos, odontologia).
Saúde da criança: o médico de família faz a vigilância de saúde infantil nos centros de saúde (com enfermagem); pediatras sobretudo em hospitais. Programa Nacional de Vacinação gratuito e não obrigatório, com alta cobertura. Mortalidade infantil: 2,7/1.000 (2024).
Reformas e desafios: consolidação das ULS (o governo eleito em 2024 anunciou revisão do modelo das ULS e da Direção Executiva); plano de emergência para urgências de obstetrícia e pediatria; escassez de médicos de família e fuga para o privado/estrangeiro.
7. Países Baixos
Modelo: seguro obrigatório privado regulado (competição gerida), após a Zorgverzekeringswet (Zvw, 2006), que unificou o seguro social e o privado. Cuidados de longa duração pela Wlz (2015); apoio social (Wmo 2015) e cuidados de jovens (Jeugdwet 2015) sob os municípios.
Financiamento (Zvw): (1) prêmio nominal pago à seguradora por todo adulto (≥18 anos); (2) contribuição dependente de renda paga pelo empregador ao fundo de equalização [alíquota 2026 não verificada]; (3) contribuição do Estado pelas crianças; (4) zorgtoeslag (subsídio) para baixa renda. Franquia obrigatória (eigen risico) de € 385/ano (2026); a redução prevista para € 165 em 2027 foi suspensa por falta de apoio político. GHED: 10,0% do PIB (2024); US$ 6.845 per capita (2024); público (GHED) 68,4% (2023) (a OCDE classifica a Zvw como compulsória, resultando em proporção bem maior); do bolso 11,8% (2024); privado doméstico 31,6% (2023).
Gestão: seguradoras privadas (poucos grandes grupos) compram serviços e competem por segurados; aceitação obrigatória e prêmio comunitário; equalização de risco pelo fundo. Regulação: NZa (preços/mercado), Zorginstituut (cesta), IGJ (qualidade). Gatekeeping forte pelo huisarts (médico de família), pago por capitação + consulta + módulos. Hospitais majoritariamente privados sem fins lucrativos, pagos por DBC/DOT (tipo DRG) negociado.
Cobertura: universal (obrigatória para residentes; poucos não segurados); cesta nacional definida em lei; seguro complementar voluntário (odontologia adulta, fisioterapia) muito difundido.
Saúde da criança: crianças <18 anos não pagam prêmio nem franquia. Atenção primária pelo huisarts; pediatras no hospital. A Jeugdgezondheidszorg (consultatiebureau, municipal) faz o acompanhamento preventivo 0–18 anos e aplica o Rijksvaccinatieprogramma (gratuito, não obrigatório). Mortalidade infantil: 3,4/1.000 (2024).
Reformas e desafios: acordo IZA (2022) e GALA sobre cuidado adequado; debate sobre franquia; pressão de custos nos cuidados de longa duração e juvenis; escassez de pessoal.
8. Suécia
Modelo: Beveridge descentralizado. Base: Lei de Saúde e Assistência Médica (HSL 1982; nova HSL 2017:30). Responsabilidade das 21 regiões (antigos condados) e dos 290 municípios (idosos e deficiência).
Financiamento: impostos de renda regionais e municipais (fonte principal) + transferências do Estado; copagamentos pequenos com teto anual (högkostnadsskydd) para consultas e medicamentos. GHED: 11,2% do PIB (2024); US$ 6.485 per capita (2024); público 86,1% (2023) — o maior do grupo; do bolso 13,4% (2024); privado doméstico 13,9% (2023).
Gestão: altamente descentralizado; regiões compram e prestam (hospitais majoritariamente públicos); a reforma Vårdval (2010) exige livre escolha de unidade de atenção primária, com prestadores privados pagos pela região (principalmente capitação ajustada + pagamento por visita/desempenho, variando por região). Sem gatekeeping formal em muitas regiões. Estado regula e supervisiona (Socialstyrelsen, IVO, TLV); "garantia de atendimento" com prazos máximos (0-3-90-90 dias).
Cobertura: universal por residência; seguro privado voluntário pequeno (acesso mais rápido, pago por empregadores).
Saúde da criança: rede de BVC (barnavårdscentral), liderada por enfermeiros na atenção primária, com médico de família e/ou pediatra; saúde escolar (elevhälsan). Consultas para crianças/jovens gratuitas na maioria das regiões; vacinação gratuita e não obrigatória. Mortalidade infantil: 2,0/1.000 (2024), a menor do grupo.
Reformas e desafios: o comitê Vårdansvarskommittén (SOU 2025:62, 02/06/2025) rejeitou a estatização total da saúde (defendida por KD e SD) e propôs mais responsabilidade estatal em seis áreas: força de trabalho, medicamentos, vacinações, rastreamentos, psiquiatria forense e ambulância aérea. Desafios: filas, desigualdade entre regiões, falta de leitos.
Fontes
Dados comparativos
- OMS GHED: https://apps.who.int/nha/database
- Banco Mundial — gasto corrente % PIB (dados GHED): https://api.worldbank.org/v2/country/GBR;ITA;FRA;DEU;ESP;PRT;NLD;SWE/indicator/SH.XPD.CHEX.GD.ZS?format=json&mrnev=1
- Idem — per capita US$: …/indicator/SH.XPD.CHEX.PC.CD ; público: …/SH.XPD.GHED.CH.ZS ; do bolso: …/SH.XPD.OOPC.CH.ZS ; privado doméstico: …/SH.XPD.PVTD.CH.ZS
- Mortalidade infantil (UN IGME via Banco Mundial): https://data.worldbank.org/indicator/SP.DYN.IMRT.IN
- OECD/EU, Health at a Glance: Europe 2024: https://www.oecd.org/en/publications/health-at-a-glance-europe-2024_b3704e14-en.html
- European Observatory — Health Systems in Transition (HiT) e Health Systems and Policy Monitor: https://eurohealthobservatory.who.int/countries
- Commonwealth Fund — International Health Care System Profiles: https://www.commonwealthfund.org/international-health-policy-center
Reino Unido
- House of Commons Library, Health Bill 2026-27: https://commonslibrary.parliament.uk/research-briefings/cbp-11078/
- Institute for Government, "One year on…": https://www.instituteforgovernment.org.uk/comment/one-year-abolish-nhs-england
- NHS England, fusões de ICBs 2026/2027: https://www.england.nhs.uk/long-read/implementing-integrated-care-board-mergers-and-boundary-changes-to-take-effect-in-april-2026-and-2027/
- NHS Confederation: https://www.nhsconfed.org/publications/abolishing-nhs-england-what-you-need-know
Itália
- Il Fatto Quotidiano (11/06/2026): https://www.ilfattoquotidiano.it/2026/06/11/riforma-medici-base-case-comunita-notizie/8416267/
- Il Sole 24 Ore: https://www.ilsole24ore.com/art/medici-famiglia-governo-rinuncia-riforma-rischio-case-comunita-AIQHRUUD
França
- VIDAL, LFSS 2026 adotada: https://www.vidal.fr/actualites/37257-le-plfss-2026-definitivement-adopte.html
- PLFSS 2026, Anexo 5 (ONDAM): https://www.securite-sociale.fr/files/live/sites/SSFR/files/medias/PLFSS/2026/PLFSS2026-Annexe5-2025-10-14_avec%20couverture.pdf
Alemanha
- BMG, contribuições GKV: https://www.bundesgesundheitsministerium.de/beitraege
- Bundestag, KHAG (06/03/2026): https://www.bundestag.de/dokumente/textarchiv/2026/kw10-de-krankenhausreform-1151184
- Bundestag hib, Primärarztsystem: https://www.bundestag.de/presse/hib/kurzmeldungen-1115234
Espanha
- Ministério da Saúde, Projeto de Lei de Gestão Pública e Integridade do SNS: https://www.sanidad.gob.es/en/gabinete/notasPrensa.do?id=6906
Portugal
- Governo de Portugal, reforma das ULS 2024: https://portugal.gov.pt/gc23/comunicacao/noticias/nova-organizacao-dos-cuidados-de-saude-conheca-a-grande-reforma-do-sns-para-2024
- SNS, nova fase da organização: https://www.sns.gov.pt/noticias/2024/01/01/arranca-nova-fase-da-organizacao-do-sns/
- ECO, revisão do modelo das ULS (2024): https://eco.sapo.pt/2024/04/10/governo-quer-rever-modelo-das-uls-e-direcao-executiva-do-sns/
Países Baixos
- Zorginstituut, eigen risico: https://www.zorginstituutnederland.nl/verzekerde-zorg/e/eigen-risico-zvw
- ZorgverzekeringWijzer, redução da franquia suspensa: https://www.zorgverzekeringwijzer.nl/zorgverzekering-2026/verlaging-eigen-risico-van-de-zorgverzekering-voorlopig-van-de-baan/
Suécia
- SOU 2025:62 Ansvaret för hälso- och sjukvården: https://www.riksdagen.se/sv/dokument-och-lagar/dokument/statens-offentliga-utredningar/ansvaret-for-halso-och-sjukvarden_hdb362/html/
- Läkartidningen: https://lakartidningen.se/nyheter/sa-vill-vardansvarskommitten-forandra-varden/
- SVT: https://www.svt.se/nyheter/inrikes/svt-erfar-partierna-splittrade-om-statlig-sjukvard
- European Observatory, Sweden HiT 2023: https://eurohealthobservatory.who.int/publications/i/sweden-health-system-review-2023
Ásia e Oceania
Pesquisa feita em 25/09/2026. Fonte dos números de gasto: OMS Global Health Expenditure Database (GHED), baixados pela API do Banco Mundial (indicadores SH.XPD., atualização de 13/07/2026). O ano de referência é 2023 (Coreia: 2024). Na OMS, "gasto público" (domestic general government) inclui impostos e seguro social compulsório. "Outros privados" = gasto privado doméstico menos gasto do bolso; é um cálculo nosso e junta seguro voluntário, empresas e ONGs. O GHED não separa o seguro privado voluntário (VHI) nessa consulta. Mortalidade infantil* (menores de 1 ano, por 1.000 nascidos vivos): UN IGME via Banco Mundial (SP.DYN.IMRT.IN), 2024.
1. Japão
Modelo: Bismarck (seguro social) com muitos fundos e uma tabela nacional única de preços. A Lei do Seguro-Saúde é de 1922, e a cobertura universal ("kaihoken") chegou em 1961.
Financiamento: contribuições sobre salários, divididas meio a meio entre empregado e empregador. Na Kyokai Kenpo (fundo das pequenas e médias empresas), a alíquota média nacional caiu de 10,0% para 9,9% em 2026 (ano fiscal 2026). O fundo das grandes empresas (kenpo kumiai) tem alíquotas próprias. Impostos gerais cobrem cerca de 40% (a confirmar) e subsidiam o NHI municipal e o seguro dos idosos com 75 anos ou mais. Desde abril/2026 existe a "contribuição de apoio à criança" (kodomo-kosodate shienkin), cobrada junto com o prêmio de saúde. A média prevista é de cerca de ¥450/mês por pessoa quando estiver plena em 2028. GHED 2023: gasto 10,74% do PIB, US$ 3.638 per capita (US$ PPP 5.365), 84,8% público, 12,2% do bolso, outros privados 2,9%.
Gestão: milhares de seguradoras (~3 mil (a confirmar)), entre elas fundos de empresa, Kyokai Kenpo, mútuas de servidores e NHI municipal/provincial. O Ministério da Saúde (MHLW) revisa a tabela de preços a cada 2 anos (+0,88% em 2024). As províncias fazem o planejamento regional. A maioria dos hospitais e clínicas é privada sem fins lucrativos. Não há gatekeeping. O pagamento é por serviço pela tabela, com DPC (pagamento por diária ajustada por diagnóstico) nos hospitais agudos.
Cobertura: universal e compulsória. Copagamento de 30% (20% para menores de 6 anos, 10–30% para idosos), com teto mensal ("kogaku ryoyohi").
Criança: pediatras em clínicas privadas fazem a atenção primária. Municípios e províncias subsidiam o copagamento infantil, frequentemente até zerá-lo. As vacinas de rotina (teiki sesshu) são gratuitas. Existe a Caderneta Materno-Infantil (Boshi Techo) e a Agência da Criança e da Família (2023). Mortalidade infantil: 1,8 (2024).
Reformas 2020–26: carteira de seguro ligada ao cartão My Number (as carteiras antigas deixaram de ser emitidas em dez/2024). Auxílio-parto de ¥500 mil (2023). Reformas de preço de medicamentos (2024–25). Novo apoio à criança (2026). Desafios: envelhecimento, baixa natalidade e sustentabilidade do seguro dos idosos.
Fontes: Commonwealth Fund – Japão (fev/2026); Kyokai Kenpo – alíquotas 2026; Contribuição de apoio à criança; OMS GHED; Banco Mundial.
2. Coreia do Sul
Modelo: seguro nacional único (NHI, pagador único). O seguro compulsório começou em 1977 nas grandes empresas e ficou universal em 1989. Os mais de 300 fundos foram fundidos no NHIS em 2000 (Lei do Seguro Nacional de Saúde, 1999).
Financiamento: contribuição de 7,09% (2024–25) e 7,19% em 2026, dividida meio a meio entre empregado e empregador. Para 2027 a alíquota foi congelada em 7,19%. Autônomos contribuem por pontos de renda e patrimônio (211,5 won/ponto). O Estado dá um subsídio. O Medical Aid (financiado por impostos) cobre os pobres, cerca de 3% da população (a confirmar). GHED 2024: 8,68% do PIB, US$ 3.137 per capita (PPP 5.081), 56,6% público, 33,7% do bolso (acima do número da OCDE; varia com a metodologia), outros privados 9,7%, com seguro privado suplementar muito difundido.
Gestão: o NHIS é o comprador nacional, e o HIRA avalia e revisa as contas e a qualidade. Os prestadores são cerca de 90% privados (a confirmar). Não há gatekeeping formal, mas o copagamento é mais alto em hospitais terciários. O pagamento é por serviço (tabela de valor relativo), com DRG para 7 grupos de procedimentos.
Cobertura: universal. O copagamento é alto: cerca de 20% na internação e 30–60% no ambulatório conforme o nível do serviço, além de muitos itens "não cobertos". Há reduções para crianças (5% para menores de 1 ano, internação de menores de 15 anos) (a confirmar). Para doenças raras e graves, a coparticipação cai de 10% para 5% (aprovado em set/2026).
Criança: pediatras em clínicas privadas; vacinação do NIP gratuita até 12 anos (KDCA). Há crise de residentes de pediatria e fechamento de emergências pediátricas. Mortalidade infantil: 2,3 (2024).
Reformas 2020–26: plano "Moon Care" de cobrir itens não cobertos (2017–22). Crise médica: em fev/2024 o governo anunciou +2.000 vagas de medicina, os residentes pediram demissão em massa e, em abr/2025, as vagas de 2026 voltaram a 3.058. Desafios: gasto do bolso alto, envelhecimento acelerado e a menor fecundidade do mundo.
Fontes: NHIS – alíquota; KoreaBiomed 2026; Kyunghyang, set/2026; Crise médica 2024–26; OMS GHED.
3. China
Modelo: misto/segmentado, com seguro social básico público e prestação predominantemente pública. As etapas foram: UEBMI (1998); NCMS rural (2003); URBMI (2007); fusão rural+urbano no URRBMI (2016); criação da NHSA (Administração Nacional de Segurança em Saúde) em 2018.
Financiamento: no UEBMI (empregados urbanos), o empregador paga 7–10,5% da folha (varia por cidade) e o empregado 2%. O URRBMI (residentes) é voluntário e subsidiado: cerca de 2/3 pelo governo e 1/3 pela família, per capita anual (em 2021, CNY 580 do governo + CNY 320 da família). Há também seguro para doenças catastróficas e assistência médica. GHED 2023: 5,94% do PIB, US$ 763 per capita (PPP 1.487), 57,1% público, 32,2% do bolso, outros privados 10,7%.
Gestão: a NHSA compra serviços, negocia a lista de medicamentos e faz compras centralizadas por volume (reduções médias de mais de 70%). A gestão dos fundos é municipal ou provincial, portanto muito descentralizada. Os hospitais são majoritariamente públicos. Não há gatekeeping, e há superlotação dos hospitais terciários. Existem contratos voluntários com médico de família. O pagamento passou de serviço para DRG/DIP (por pacote diagnóstico) a partir de 2021.
Cobertura: cerca de 95% da população (≈1,3 bilhão, 2023). O seguro reembolsa cerca de 70% da internação e cerca de 50% do ambulatório, com tetos e franquias locais.
Criança: hospitais pediátricos e departamentos de pediatria nos hospitais; déficit de pediatras. O Programa Nacional de Imunização é gratuito. Em jul/2025 o governo anunciou um subsídio nacional de CNY 3.600/ano por criança menor de 3 anos [não verificado nas fontes consultadas]. Mortalidade infantil: 4,1 (2024).
Reformas 2020–26: fundo ambulatorial compartilhado no UEBMI (2021); DRG/DIP nacional; compras por volume; cobrança e liquidação única nos hospitais (2024); fusão do seguro-maternidade. Desafios: desigualdade entre rural e urbano, envelhecimento, sustentabilidade dos fundos e fraqueza da atenção primária.
Fontes: Commonwealth Fund – China 2026 (PDF); OIT – China UHC 2025; OMS GHED.
4. Índia
Modelo: misto e fragmentado, com gasto predominantemente do bolso. A rede pública é financiada por impostos (estados e Missão Nacional de Saúde, 2005/2013) e convive com esquemas de seguro: Ayushman Bharat PM-JAY (2018), ESIS (seguro social de trabalhadores formais, 1948), CGHS (servidores) e seguro privado.
Financiamento: impostos gerais da União e dos estados (PM-JAY dividido 60:40 (a confirmar)); contribuições do ESIS (empregador 3,25%, empregado 0,75% (a confirmar)); prêmios privados. GHED 2023: 3,34% do PIB, US$ 85 per capita (PPP 346), 39,0% público, 43,9% do bolso, outros privados 14,7%. A Política Nacional de Saúde de 2017 tinha como meta gasto público de 2,5% do PIB até 2025.
Gestão: a saúde é competência dos estados. A Autoridade Nacional de Saúde (NHA) administra o PM-JAY por meio de agências estaduais, que compram de hospitais públicos e privados credenciados. O pagamento é por pacote/caso (preços fixos), com transição planejada para DRG. A rede pública tem três níveis: postos e Ayushman Arogya Mandirs (178.154 em jul/2025), centros de saúde comunitários e hospital distrital. Não há gatekeeping efetivo. O setor privado presta 64% do atendimento ambulatorial.
Cobertura: não universal. O PM-JAY cobre os 40% mais pobres (≈120 milhões de famílias, ≈550 milhões de pessoas) com INR 500 mil/família/ano para internação secundária e terciária. Desde out/2024 cobre também todos os maiores de 70 anos (Ayushman Vay Vandana). Estimativa de cobertura: ~50% público, ~20% privado, ~30% sem seguro.
Criança: atenção pública pelas ASHAs, pelos ICDS/Anganwadi e pelo RBSK (triagem infantil). A vacinação do Programa Universal de Imunização (UIP) é gratuita, com registro U-WIN. Nas cidades predomina o pediatra privado. Mortalidade infantil: 23,3 (2024), a mais alta do grupo.
Reformas 2020–26: Missão Digital Ayushman Bharat (ABHA ID); expansão para idosos (2024); Arogya Mandirs. Desafios: gasto do bolso e gastos catastróficos, baixo financiamento público, desigualdade entre estados e déficit de profissionais.
Fontes: Commonwealth Fund – Índia (mai/2026); PMO – expansão 70+; ORF – Vay Vandana; OMS GHED.
5. Singapura
Modelo: misto, baseado em poupança compulsória e seguro público catastrófico ("3M"), com fortes subsídios estatais à oferta e responsabilidade individual. Marcos: MediSave 1984, MediShield 1990, MediFund 1993, MediShield Life 2015 (universal e vitalício), CareShield Life 2020.
Financiamento: o MediSave recebe 8–10,5% do salário, parte da contribuição do CPF dividida entre empregado e empregador. O MediShield Life cobra prêmios por idade (SGD 148/ano de 1 a 20 anos até SGD 2.093 aos 90+), com subsídios de prêmio. O MediFund é um fundo patrimonial estatal que funciona como rede de segurança (SGD 161 mi a mais de 1,2 mi de pedidos, 2021). Impostos subsidiam 30–80% das contas públicas conforme a renda. GHED 2023: 4,49% do PIB, US$ 3.922 per capita (PPP 6.551), 58,5% público, 25,4% do bolso (48,2% em 2000), outros privados 16,1%, incluindo os planos privados Integrated Shield.
Gestão: o Ministério da Saúde regula e subsidia. Três clusters públicos regionais concentram cerca de 80% dos leitos agudos (a confirmar). Na atenção primária, GPs privados fazem ~80% e 26 policlínicas públicas o resto. Não há gatekeeping formal, mas o subsídio depende de encaminhamento. Hospitais públicos recebem blocos e pagamento por caso; o MediShield Life reembolsa com franquia (SGD 1.500–3.000) e cosseguro de 3–10%.
Cobertura: universal para cidadãos e residentes permanentes. A revisão de 2024 (implantação abr/2025–2027) elevou os tetos: enfermaria de SGD 1.000 para 1.630/dia, teto anual de 150 mil para 200 mil. Os prêmios sobem cerca de 22% em 3 anos, compensados por SGD 4,1 bi em apoio.
Criança: pediatras privados, policlínicas e GPs. As vacinas do calendário nacional são gratuitas em policlínicas e em GPs do CHAS (desde 2020). Há conta de desenvolvimento infantil e crédito de MediSave ao nascer. Mortalidade infantil: 2,2 (2024).
Reformas 2020–26: Healthier SG (2023; mais de 700 mil inscritos com médico de família); revisão do MediShield Life (2025–27); hospital em casa (MIC@Home). Desafios: envelhecimento muito rápido e custos crescentes.
Fontes: Commonwealth Fund – Singapura; MOH – revisão MediShield Life; OMS GHED.
6. Tailândia
Modelo: cobertura universal por impostos, com comprador separado do prestador. É misto em três esquemas: UCS ("cartão dourado", 2002, Lei Nacional de Segurança em Saúde, B.E. 2545; ≈47,5 milhões de pessoas), Seguro Social (SSS, trabalhadores formais, contributivo) e CSMBS (servidores, financiado por impostos).
Financiamento: o UCS é financiado por impostos gerais, sem contribuição. O orçamento do ano fiscal 2026 passa de 265 bi baht, com 4.173,04 baht per capita. O SSS é tripartite (empregado/empregador/governo, 5% cada, com teto salarial (a confirmar)). GHED 2023: 4,54% do PIB, US$ 327 per capita (PPP 1.067), 77,9% público, 9,9% do bolso (um dos mais baixos do mundo para renda média), outros privados 12,1%.
Gestão: o NHSO (Escritório Nacional de Segurança em Saúde) compra os serviços do UCS. O pagamento é por capitação no ambulatório e na prevenção, via unidades contratantes de atenção primária (CUP) centradas no hospital distrital, e por DRG com orçamento global na internação. Os prestadores são majoritariamente públicos (Ministério da Saúde). Há gatekeeping por registro obrigatório na unidade de referência. O CSMBS paga por serviço, o que é mais caro.
Cobertura: universal (cerca de 99% (a confirmar)) com pacote amplo, incluindo TARV, diálise e alto custo. O copagamento simbólico de 30 baht tem muitos isentos.
Criança: atenção primária por médicos de família e equipes de saúde distrital com agentes voluntários (VHVs). O pediatra fica nos hospitais provinciais. O PAI (EPI) é gratuito. Mortalidade infantil: 7,7 (2024).
Reformas 2020–26: "30 baht, tratamento em qualquer lugar": piloto em 4 províncias em jan/2024, nacional desde 01/01/2025, com uso do documento de identidade em qualquer unidade credenciada. Houve ainda telemedicina e cobertura ampliada de serviços. Desafios: iniquidade entre os 3 esquemas, envelhecimento, pressão fiscal e sobrecarga dos hospitais.
Fontes: PRD Thailand – 30 baht anywhere; NHSO; Thai PBS – orçamento ano fiscal 2026; Tangcharoensathien et al., compra estratégica; OMS GHED.
7. Israel
Modelo: seguro nacional compulsório (Lei do Seguro Nacional de Saúde, 1995) com competição regulada entre 4 fundos sem fins lucrativos (kupot holim): Clalit (o maior), Maccabi, Meuhedet e Leumit. É um híbrido de Bismarck e financiamento por impostos.
Financiamento: imposto-saúde pago só pelo empregado, recolhido pelo Instituto Nacional de Seguro: 3,23% até 60% do salário médio e 5,17% acima disso (2025), mínimo de NIS 123/mês (2026). A cesta é financiada por imposto-saúde (45,1%), orçamento do Estado (48,5%) e copagamentos (6,5%) (2022). Cerca de 80% da população tem seguro complementar dos próprios fundos (Shaban) e cerca de 40% tem também seguro comercial. GHED 2023: 7,10% do PIB, US$ 3.928 per capita (PPP 4.033), 65,2% público, 20,5% do bolso, outros privados 12,8%.
Gestão: o Ministério da Saúde define a cesta nacional, atualizada anualmente por comitê, e é dono de 11 hospitais. Os fundos recebem capitação ajustada (idade, sexo, periferia) e prestam a atenção primária. Há livre escolha e troca de fundo. Hospitais: 45 gerais, de propriedade do governo, da Clalit, de ONGs e privados. Os fundos fazem gatekeeping parcial.
Cobertura: universal, sem seleção de risco. Os fundos são proibidos de recusar membros. Há copagamentos por consulta de especialista e medicamentos, com tetos.
Criança: pediatras na atenção primária dos fundos. As Tipot Halav (centros materno-infantis do Ministério da Saúde e municípios) fazem puericultura e vacinação gratuita. Mortalidade infantil: 2,7 (2024).
Reformas 2020–26: impacto da guerra desde 7/10/2023 (saúde mental, reabilitação); o imposto-saúde subiu em 2025; déficit de enfermagem (5,5/1.000). Desafios: participação crescente do financiamento privado, desigualdade entre centro e periferia e populações árabe e ultraortodoxa, falta de profissionais.
Fontes: Bituah Leumi – alíquotas; Associação Médica de Israel – visão geral 2025 (PDF); Commonwealth Fund – Israel; OMS GHED.
8. Austrália (Oceania — referência adicional)
Modelo: misto, com Medicare universal financiado por impostos, no estilo Beveridge para os hospitais públicos e NHI para o pagamento de médicos. O Medibank foi criado em 1975 e o Medicare em 1984. O seguro privado é forte (~55% da população).
Financiamento: impostos gerais mais a Medicare levy de 2% da renda tributável. Existe uma sobretaxa de até 1,5% para quem tem renda alta e não tem seguro privado. Os prêmios privados são subsidiados (rebate). Governos pagam 74% do gasto total (2022–23). GHED 2023: 10,40% do PIB, US$ 6.980 per capita (PPP 7.691), 73,7% público, 15,8% do bolso, outros privados 10,5%.
Gestão: a Commonwealth financia o MBS (tabela de pagamento por serviço para médicos) e o PBS (medicamentos). Estados e territórios administram os hospitais públicos, cofinanciados via ABF (financiamento por atividade, AR-DRG, preço nacional eficiente). Os GPs são privados e recebem por serviço. O "bulk billing" é atendimento sem cobrança ao paciente. Não há gatekeeping formal para o GP, mas é preciso encaminhamento para o especialista receber reembolso. As Primary Health Networks coordenam a atenção primária.
Cobertura: universal para residentes. Hospital público gratuito; odontologia e óculos de adultos em geral ficam de fora.
Criança: GP como porta de entrada, com pediatra por encaminhamento. Enfermeiras estaduais de saúde materno-infantil fazem a puericultura. O National Immunisation Program é gratuito. Há um esquema dental infantil (CDBS). Mortalidade infantil: 3,1 (2024).
Reformas 2020–26: MyMedicare, com vínculo voluntário ao GP (2023); Medicare Urgent Care Clinics (2023+); incentivos de bulk billing triplicados para menores de 16 anos e titulares de cartão de benefício (nov/2023) e estendidos a todos a partir de 01/11/2025, com incentivo de 12,5% às clínicas 100% bulk billing; copagamento do PBS reduzido para AUD 25 (jan/2026) (a confirmar). Desafios: custos do bolso com especialistas, filas eletivas, saúde indígena e áreas rurais.
Fontes: Commonwealth Fund – Austrália (mai/2026); Governo – Bulk Billing Incentive Program; MBS Online – mudanças 1/11/2025; OMS GHED.
África
Pesquisa feita em 25/09/2026. Fonte dos números de gasto: OMS Global Health Expenditure Database (GHED), ano de referência 2023. Os valores foram inicialmente lidos em bases que reproduzem GHED/WDI (Our World in Data, TheGlobalEconomy) e depois conferidos na API do Banco Mundial em 25/09/2026.
- "% público" = gasto doméstico do governo (GGHE-D), que inclui impostos e seguro social compulsório.
- "Externo" = doadores. É um cálculo nosso a partir do gasto per capita por fonte (OWID "Health spending per person by source", 2023).
- "Outros privados" = 100 − público − externo − do bolso. Junta seguro voluntário, empresas e ONGs. O GHED não separa o seguro voluntário nessa consulta.
- Per capita PPP: soma das fontes na série OWID (dólares internacionais PPP).
- Mortalidade infantil (<1 ano/1.000 nascidos vivos): UN IGME via OWID, 2024.
Contexto regional: meta de Abuja e dependência externa
A Declaração de Abuja (abril/2001) comprometeu os governos da União Africana a destinar ≥15% do orçamento público à saúde. Em 2023 (GHED, gasto doméstico do governo em saúde como % do gasto geral do governo), só a África do Sul (16,9%) passa da meta; o valor de 2023 é idêntico ao de 2021 na série, o que deve ser conferido. Os demais ficam abaixo: Gana 10,1%, Ruanda 8,9%, Quênia 8,7%, Egito 6,9%, Etiópia 5,7% e Nigéria 3,9%.
O financiamento externo (doadores) pesou, em % do gasto corrente em saúde de 2023 (cálculo nosso):
| Faixa | Países |
|---|---|
| Muito alto | Ruanda ~37%, Etiópia ~27% |
| Alto | Quênia ~20% |
| Moderado | Nigéria ~11%, Gana ~8,5% |
| Marginal | Egito ~3,5%, África do Sul ~2% |
Em termos absolutos, porém, a África do Sul tem o maior programa de HIV do mundo, com apoio do PEPFAR. O corte da ajuda dos EUA em 2025 (desmonte da USAID e revisão do PEPFAR) abriu lacunas em HIV, TB, malária, nutrição e logística de vacinas. Um exemplo é o orçamento de Gana, que em 2025 passou a cobrir "lacunas da USAID". O efeito ainda não aparece nos dados do GHED, cujo ano mais recente é 2023.
1. África do Sul
Modelo: misto e segmentado. Um setor público financiado por impostos atende cerca de 84% da população (a confirmar). Os medical schemes (seguros privados sem fins lucrativos, regulados pelo Medical Schemes Act 1998) cobrem cerca de 16% (a confirmar). A Lei do NHI (seguro nacional único, fundo comprador único) foi sancionada em 15/05/2024.
Financiamento: impostos gerais repassados às 9 províncias por equitable share e conditional grants. Nos medical schemes, os prêmios são pagos por empregado e empregador, com crédito fiscal. GHED 2023: 8,91% do PIB; US$ 537 per capita (PPP ~1.354); 61,6% público; 6,7% do bolso; outros privados ~29,6%, quase tudo medical schemes; externo ~2%. É o país que mais gasta na região e está bem dividido entre os setores público e privado.
Gestão: as províncias gerem hospitais e o sistema distrital de saúde. O setor privado é hospitalar e especializado e paga por serviço. O Council for Medical Schemes regula os seguros, e há exigência de Benefícios Mínimos Prescritos (PMB).
Cobertura: atenção primária pública gratuita desde 1996. Nos hospitais públicos há taxa por renda (means test). Dois sistemas de qualidade muito desigual convivem.
Criança: a atenção primária é feita por enfermeiros (AIDPI/IMCI) nas clínicas. O pediatra fica no hospital. Atendimento gratuito para menores de 6 anos e gestantes desde 1994. As vacinas do EPI-SA são gratuitas. Mortalidade infantil: 24,2 (2024).
Reformas 2020–26 / litígios: o NHI foi sancionado em 2024, mas é contestado por BHF, Western Cape, Solidarity e outros.
- Em 18–21/05/2026, o Tribunal Constitucional ([2026] ZACC 19) derrubou por unanimidade o "certificado de necessidade" (arts. 36–40 da National Health Act). Esse certificado era o instrumento para redistribuir prestadores privados.
- Os casos sobre participação pública na tramitação do NHI foram ouvidos de 5 a 7/05/2026, e o julgamento ficou reservado. Se já houve decisão até set/2026: (a confirmar).
- Em fev/2026 o governo comprometeu-se a não promulgar dispositivos do NHI até a decisão. Na prática, a implementação está suspensa.
Desafios: desigualdade público/privado, falta de recursos fiscais para o NHI e HIV/TB.
Fontes: Moonstone – suspensão; EWN – julgamento reservado; Daily Maverick – certificado de necessidade; IRR; OMS GHED.
2. Nigéria
Modelo: misto e fragmentado, predominantemente pago do bolso. O antigo NHIS (1999, voluntário) foi substituído pela NHIA Act 2022 (maio/2022), que torna o seguro obrigatório para todos e cria o Fundo para Grupos Vulneráveis. Os estados operam seus próprios esquemas (SSHIA).
Financiamento: o BHCPF (National Health Act 2014) recebe no mínimo 1% da Receita Consolidada Federal, mais doações. Pela divisão original, a NHIA recebe cerca de 50%, a NPHCDA 45% e emergências 5% [não verificado nesta pesquisa]. Setor formal: 15% do salário-base, sendo 10% do empregador e 5% do empregado (regra histórica) (a confirmar). GHED 2023: 4,19% do PIB; US$ 67 per capita (PPP ~260); 14,3% público; 71,9% do bolso, um dos mais altos do mundo; externo ~11%; outros privados ~2,5%.
Gestão: sistema federal com três níveis. O governo federal cuida dos hospitais terciários, os estados dos secundários e os governos locais da atenção primária (PHC). A NHIA credencia HMOs e esquemas estaduais. Pagamento por capitação na atenção primária e por serviço na secundária e terciária.
Cobertura: cerca de 9% com seguro público e 2% com privado em 2024 (Commonwealth Fund). A NHIA informa >23 milhões de inscritos (set/2026), cerca de 10% da população, e 2,7 milhões de vulneráveis atendidos pelo BHCPF.
Criança: menores de 5 anos são grupo prioritário do Fundo para Vulneráveis. A atenção primária é feita por agentes de saúde comunitários (CHEWs) e enfermeiros; o pediatra fica nos hospitais. Vacinas do NPI gratuitas. Mortalidade infantil: 69,8 (2024), a maior do grupo.
Reformas 2020–26: NHIA Act 2022; "Health Sector Renewal Investment Initiative" (2023–); desembolsos do BHCPF aos estados; cobertura de câncer, HIV e TB pela NHIA (2026). Desafios: seguro obrigatório sem fiscalização efetiva, informalidade, gasto do bolso elevado e fuga de médicos (japa).
Fontes: Commonwealth Fund – Nigéria; NHIA – BHCPF; NHIA 23 milhões (set/2026); BudgIT; OMS GHED.
3. Quênia
Modelo: seguro social em transição para um fundo nacional único. O NHIF (1966) foi substituído pela Social Health Authority (SHA) em 1º/10/2024, com base na Social Health Insurance Act 2023. O pacote legal inclui ainda a Primary Health Care Act, a Digital Health Act e a Facility Improvement Financing Act (todas de 2023).
Financiamento: SHIF = 2,75% da renda bruta dos assalariados, com mínimo de KSh 300/mês. Não assalariados pagam 2,75% da renda familiar estimada por teste de meios. O Estado subsidia os indigentes. A SHA tem três fundos:
- Primary Healthcare Fund: atenção primária gratuita, financiada por impostos.
- SHIF: internação e especialidades.
- ECCIF: emergências e doenças crônicas ou críticas.
GHED 2023: 4,35% do PIB; US$ 85 per capita (PPP ~274); 44,9% público; 24,2% do bolso; externo ~20%; outros privados ~11%.
Gestão: sistema descentralizado. Desde a Constituição de 2010, os 47 condados gerem a prestação de serviços. A SHA é a compradora nacional e contrata prestadores públicos, religiosos e privados. Na atenção primária, o pagamento é por capitação.
Cobertura: mais de 27 milhões de registrados (2025–26), mas só cerca de 3,9 milhões contribuíam ativamente em mar/2025.
Criança: a atenção primária é feita por clinical officers, enfermeiros e agentes comunitários (CHPs), com pediatras nos hospitais de condado e de referência. Vacinas do KEPI gratuitas. O programa Linda Mama (materno) foi absorvido pela SHA. Mortalidade infantil: 34,2 (2024).
Desafios: atraso nos pagamentos aos prestadores, dívidas herdadas do NHIF, falhas de TI, litígios constitucionais e a retirada de doadores em 2025.
Fontes: Streamlinefeed – SHA 27 milhões; MoH – SHA; EY – SHIF; OMS GHED.
4. Ruanda
Modelo: seguro comunitário (Mutuelles de Santé/CBHI) quase universal, com pilotos em 1999 e expansão nacional nos anos 2000 (lei do CBHI de 2008 (a confirmar)). Desde 2015 é gerido pela RSSB. Coexiste com o RAMA/RSSB para servidores e assalariados, o MMI para militares e seguros privados.
Financiamento: prêmios anuais por categoria socioeconômica (Ubudehe). Em fev/2026 o prêmio passou a ser progressivo:
| Faixa de renda | Prêmio anual por pessoa |
|---|---|
| Mais pobres | Rwf 0 (pago pelo Estado) |
| Faixas intermediárias | Rwf 3.000, 5.000, 8.000 e 10.000 |
| Faixa mais alta | Rwf 20.000 |
Há copagamento de cerca de 10% por episódio (a confirmar). Transferências do governo e dos doadores complementam o fundo.
GHED 2023: 5,13% do PIB; US$ 53 per capita (PPP ~177); 47,0% público; 4,1% do bolso; externo ~37%, a maior dependência de doadores do grupo; outros privados ~12%. O gasto do bolso de 4,1% foi conferido na GHED via API do Banco Mundial (4,2% em 2022; 5,0% em 2021).
Gestão: centralizada no MoH e na RSSB, com prestação por distrito (hospital distrital, centros de saúde e postos). Há gatekeeping por nível e agentes comunitários (3 por aldeia). O pagamento era por serviço com performance-based financing, e há piloto de capitação (2026).
Cobertura: mais de 90% da população segurada; o CBHI cobre cerca de 93% dos segurados. Criança: o manejo integrado de doenças da infância na comunidade é feito por agentes comunitários. Vacinação gratuita, com cobertura acima de 95% (a confirmar). Mortalidade infantil: 29,4 (2024).
Desafios: sustentabilidade financeira do CBHI e dependência externa.
Fontes: KT Press – prêmios 2026; RRA – contribuição CBHI; PMC – sustentabilidade do CBHI; OMS GHED.
5. Gana
Modelo: seguro nacional de saúde (NHIS), criado pela Act 650 (2003) e substituído pela Act 852 (2012). A NHIA é o comprador único nacional.
Financiamento:
| Fonte | Participação no NHIS |
|---|---|
| NHIL (imposto de 2,5% sobre bens e serviços, junto com o IVA) | ~70% |
| Desconto de 2,5% das contribuições previdenciárias (SSNIT) | ~23% |
| Prêmios pagos pelos informais | ~5% |
Em 2025 o NHIL foi "descapado": revogou-se o teto da Act 947/2017 que desviava a arrecadação do NHIS, e o orçamento de 2025 destinou GHS 9,93 bilhões ao NHIS.
GHED 2023: 2,95% do PIB; US$ 70 per capita (PPP ~234); 63,2% público; 26,7% do bolso; externo ~8,5%; outros privados ~1,6%.
Gestão: o Ghana Health Service presta a atenção primária pelos CHPS (Community-based Health Planning and Services). Prestadores públicos, religiosos (CHAG) e privados são credenciados pela NHIA. Pagamento por G-DRG (desde 2008) mais tabela de medicamentos, com pilotos de capitação.
Cobertura: a filiação ativa ficou em torno de 55% (a confirmar). São isentos de prêmio os menores de 18 anos, gestantes (atenção materna gratuita desde 2008), maiores de 70 anos, indigentes e contribuintes do SSNIT. Crônicos atrasos no pagamento aos prestadores levam à cobrança informal dos pacientes.
Criança: a atenção primária é feita por enfermeiros comunitários dos CHPS; pediatras só nos hospitais regionais e de ensino. Vacinas do EPI gratuitas. Mortalidade infantil: 27,5 (2024).
Reformas 2025–26: descapamento do NHIL; "Free Primary Healthcare"; MahamaCares (doenças crônicas e saúde materno-infantil); fim da carência de 1 mês (nov/2025). Desafios: dívidas do NHIS e falta de pessoal.
Fontes: ARHR – descapamento 2025; NHIS – sobre; AllAfrica – carência; PMC – retenção no NHIS; OMS GHED.
6. Egito
Modelo: em transição de um sistema segmentado para seguro social universal. A Universal Health Insurance Law nº 2/2018 substitui o antigo HIO (1964) e é implantada por fases, província a província, em cerca de 15 anos. A lei separa três funções:
- UHIA: comprador.
- GAHP: rede pública prestadora.
- GAHAR: acreditação e regulação.
Financiamento: contribuições sobre salários. Pelo que se encontrou, são 1% do empregado e 4% do empregador, com adicionais por dependente (a confirmar). Os informais pagam uma contribuição própria. O Tesouro paga pelos "incapazes de pagar" (~30% da população). Há ainda impostos vinculados e empréstimos do Banco Mundial (US$ 400 milhões) e da AFD (€150 milhões em 2026).
GHED 2023: 4,88% do PIB; US$ 141 per capita (PPP ~905); 32,2% público; 57,2% do bolso; externo ~3,5%; outros privados ~7%.
Gestão: o Ministério da Saúde opera a rede. O setor privado é grande, sobretudo em ambulatório e farmácia. No novo sistema há porta de entrada pelo médico de família (unidades de família) e a UHIA contrata serviços públicos e privados acreditados.
Cobertura:
- Fase 1: 6 províncias (Port Said 2019, Ismailia, Luxor, Suez, Sinai do Sul e Assuã), com ~5,2–6 milhões inscritos e 82% de registro.
- Fase 2 (em preparação em 2026): Minya, Matrouh, Damietta, Kafr El Sheikh e Sinai do Norte, com meta de 12–13 milhões de pessoas.
- Cairo e Giza ficam na última fase. Fora das províncias já cobertas, o sistema continua segmentado.
Criança: seguro dos escolares (1992) e dos menores de idade escolar (1997) no HIO. Iniciativas presidenciais de triagem neonatal (auditiva e metabólica) e o programa "100 Milhões de Vidas Saudáveis". Vacinação obrigatória e gratuita. Mortalidade infantil: 20,8 (2024), a menor do grupo.
Desafios: gasto do bolso muito alto, ritmo lento da implantação e falta de médicos.
Fontes: EnterpriseAM (ago/2026); Daily News Egypt – Minya; EgyptToday – 82%; Presidência – UHI; OMS GHED.
7. Etiópia
Modelo: misto. Um sistema público financiado por impostos e doadores convive com o seguro comunitário (CBHI) para o setor informal, com pilotos em 2011 e expansão a partir de 2016. O CBHI é gerido pelo Ethiopian Health Insurance Service. O seguro social obrigatório para o setor formal (3% do empregado e 3% do empregador) nunca foi implementado por resistência dos trabalhadores.
Financiamento: impostos, doadores e prêmios do CBHI (ETB 500 por família por ano em 2022), com subsídio do governo às famílias indigentes (~10%). GHED 2023: 2,80% do PIB; US$ 35 per capita (PPP ~86), o menor do grupo; 21,9% público; 46,3% do bolso; externo ~27%; outros privados ~5%.
Gestão: federalismo étnico. As regiões e os distritos (woredas) gerem os serviços. O sistema tem três níveis (centro de saúde mais postos, hospital primário, hospital geral e especializado). O Health Extension Program (2003) usa agentes de extensão em saúde, mulheres assalariadas, com 2 por kebele. O pagamento é por serviço, com pilotos de capitação.
Cobertura: o CBHI tem 11,1 milhões de famílias, cerca de 51 milhões de pessoas (~46% da população, 2024). Há isenção universal para saúde materno-infantil, imunização, TB, malária e antirretrovirais, e um sistema de isenção de taxas para os pobres.
Criança: os agentes de extensão fazem o manejo comunitário de doenças da infância (iCCM) e a vacinação, e os pediatras são escassos (hospitais). Mortalidade infantil: 34,5 (2024). A série UN IGME (OMS/GHO) confirma 34,5 em 2024 e mostra pico de 49,9 em 2021 e 48,3 em 2022, seguido de 38,7 em 2023 — não é erro de digitação: o pico coincide com o período do conflito no norte do país.
Desafios: conflitos armados (Tigray 2020–22, Amhara e Oromia), corte da USAID em 2025 e baixa prioridade fiscal (5,7% do orçamento).
Fontes: Commonwealth Fund – Etiópia; EHIS; R4D – desafios do CBHI; OMS GHED.
Fontes de dados gerais
- OMS GHED
- OWID – % do bolso
- OWID – % público
- OWID – saúde % do gasto do governo (Abuja)
- OWID – gasto por fonte (externo)
- OWID – mortalidade infantil (UN IGME)
- TheGlobalEconomy – gasto % PIB e per capita (Banco Mundial)
- Banco Mundial – SH.XPD.EHEX.CH.ZS
- OMS AFRO – proteção financeira
5.Notas metodológicas e limitações
- Os números de gasto vêm da base da OMS (GHED), consultada por meio dos indicadores do Banco Mundial; a mortalidade infantil, das estimativas do UN IGME (OMS/ONU). Os valores da tabela-resumo foram conferidos na fonte primária em 25/09/2026 por uma checagem independente.
- O indicador "% público" da OMS não é idêntico ao "governo + seguro compulsório" da OCDE; as diferenças estão explicadas nas fichas (França, Países Baixos, Chile).
- A participação do seguro privado voluntário não pôde ser extraída isoladamente para a maioria dos países; onde aparece, foi calculada por diferença e está indicada.
- As informações sobre reformas de 2025–2026 vêm de fontes oficiais e da imprensa especializada e podem mudar rapidamente.
- Itens marcados (a confirmar) nas fichas não foram confirmados na fonte primária e devem ser lidos com cautela.