Hematologia pediátrica · Hemoglobinopatias

Doença falciforme na criança — cuidado integral pelo pediatra

Do teste do pezinho à transição, com prevenção, hidroxiureia, Doppler e as crises que levam ao pronto-socorro, segundo o PCDT (MS 2024) e os manuais do MS 2009 e 2012

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A doença falciforme (DF) é diagnosticada no teste do pezinho e confirmada por HPLC ou focalização isoelétrica; o tratamento começa antes de 4 meses (PCDT 2024). HbSS e HbSβ⁰ são as formas mais graves. O pediatra cuida da prevenção junto com o centro de referência: penicilina profilática dos 3 meses aos 5 anos (PCDT 2024), vacinas do CRIE, hidroxiureia a partir de 9 meses nas formas graves (PCDT 2024, prescrita pelo hematologista), Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos e família treinada para palpar o baço. Dor leve a moderada, sem febre e sem sinais de risco, é tratada em casa com hidratação oral e dipirona 15 mg/kg/dose em horário fixo. Pronto-socorro na hora (🔴): febre (axilar ≥ 37,5 °C), palidez súbita, prostração ou baço que cresce (sequestro), tosse, dor torácica, taquipneia ou queda da SpO2 (síndrome torácica aguda), qualquer sinal neurológico (AVC), priapismo que não cede, dor intensa ou que não melhora com a analgesia oral. Anemia basal não é indicação de transfusão.

1.O que é e como se apresenta

Doença genética autossômica recessiva em que a hemoglobina S polimeriza na desoxigenação e deforma a hemácia em foice, causando hemólise crônica e vaso-oclusão (dor, lesão de órgãos e asplenia funcional). Cerca de 4% dos brasileiros têm o traço (HbAS), mais no Norte, no Nordeste e na população negra (PCDT 2024).

Genótipos (PCDT 2024):

Genótipo Gravidade Comentário
HbSS (anemia falciforme) Grave O mais comum; Hb basal de 6 a 9 g/dL
HbSβ⁰-talassemia Grave Curso semelhante ao SS
HbSC Moderada Baço aumentado por mais tempo; retinopatia
HbSβ⁺-talassemia Variável, em geral mais leve HbA de 1 a 30%
HbSD Punjab Grave Como SS no PCDT
HbAS (traço) Não é doença Sem anemia; orientação genética da família

Manifestações: infecção é a principal causa de morte na criança (asplenia funcional), com meningite pneumocócica 600 vezes mais frequente, 90% nos 3 primeiros anos (PCDT 2024). A primeira crise costuma ser a dactilite (mãos e pés inchados e dolorosos) no lactente. Seguem-se dor, sequestro esplênico (desde os 5 meses; raro após 2 anos no SS — MS 2012), síndrome torácica, AVC, priapismo, crise aplástica, litíase biliar, enurese, atraso puberal, retinopatia e osteonecrose.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve DF estável em seguimento; dor leve a moderada (1–6) em membros ou dorso, sem febre, sem fator de risco, aceitando líquidos Casa: hidratação oral, analgésico em horário fixo, calor local; reavaliação no dia seguinte (MS 2012)
🟡 Moderada Diagnóstico novo no teste do pezinho; Doppler alterado ou condicional; penicilina, vacinas ou Doppler atrasados; dor moderada que responde à analgesia oral; icterícia maior sem palidez nem febre Diagnóstico novo: encaminhar com prioridade ao centro de referência e iniciar penicilina; Doppler alterado: hematologista com urgência; dor: reavaliação em 24 h
🔴 Grave Febre (axilar ≥ 37,5 °C); palidez súbita, prostração, baço maior que o habitual ou distensão abdominal; dor torácica, tosse, taquipneia, desconforto respiratório ou SpO2 em queda; qualquer sinal neurológico; priapismo que não cede; dor intensa (≥ 7) ou sem melhora com a analgesia oral (MS 2012: 8 horas); dor abdominal aguda, lombar ou com articulação edemaciada; vômitos ou desidratação Pronto-socorro já, avisando o centro de referência; febre: ceftriaxona antes da remoção, se ela demorar; oxigênio para SpO2 94–98%; SAMU 192 se choque, sinal neurológico ou insuficiência respiratória

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Genótipo SS ou Sβ⁰; idade < 3 anos; sepse, sequestro ou síndrome torácica prévios; AVC ou Doppler alterado.
  • Penicilina ou vacinas atrasadas; família longe de serviço de urgência; Hb basal muito baixa; dor com febre, sintoma respiratório, letargia, cefaleia ou edema articular (MS 2012).

3.Diagnóstico no consultório

Teste do pezinho (Programa Nacional de Triagem Neonatal): coletado entre o 3º e o 5º dia; o laudo lista as hemoglobinas em ordem de quantidade:

  • FS: HbSS ou HbSβ⁰ (às vezes HbS com persistência de HbF); FSC: HbSC; FSA: HbSβ⁺; FSD ou outras variantes: HbSD.
  • FAS: traço falciforme — não é doença; orientar a família e oferecer estudo dos pais.
  • FA com Hb Bart's: alfatalassemia (ver o documento de talassemias, nesta área).

Confirmação por HPLC ou focalização isoelétrica e estudo da família (PCDT 2024). Sem triagem neonatal: eletroforese diante de anemia hemolítica, dactilite ou crise dolorosa; após transfusão, adiar o teste (AAP 2024).

Em toda consulta: crescimento, palidez e icterícia comparadas ao basal, baço em centímetros abaixo do rebordo costal, SpO2 basal, pressão arterial, ronco, enurese, desenvolvimento e escola.

Exames (com o centro de referência): hemograma com reticulócitos em estado estável (valores basais); fenotipagem eritrocitária (ABO, Rh, Kell) pelo hemocentro; função renal com EAS e microalbuminúria anual (MS 2012); oftalmologia anual a partir de 10 anos e saúde óssea com vitamina D (PCDT 2024). Na intercorrência, Hb e reticulócitos são comparados ao basal: Hb > 2 g/dL abaixo do basal com reticulócitos altos e baço maior = sequestro (AAP 2024); com reticulócitos baixos = crise aplástica.

Diferenciais que não podem passar: osteomielite e artrite séptica × crise vaso-oclusiva; pneumonia × síndrome torácica (na DF, toda pneumonia é tratada como síndrome torácica); abdome agudo e colecistite × crise abdominal; meningite × AVC; ferropenia associada (HbSC).

4.Tratamento e seguimento

Prevenção — papel do pediatra:

  • Penicilina profilática dos 3 meses aos 5 anos, todos os dias, por idade ou peso (PCDT 2024; tabela); benzatina só se a via oral for impossível; conferir adesão; após 5 anos, só em casos selecionados, pelo hematologista.
  • Vacinas: calendário SBP e PNI e esquemas do CRIE — VPC20, MenACWY 2 doses + reforço a cada 5 anos, meningocócica B (rede privada), Hib, influenza anual, hepatites A e B, varicela, COVID-19. Vivas permitidas; com hidroxiureia, febre amarela só se neutrófilos > 1.500/mm³ (CRIE, como no site; o PCDT 2024 libera as vivas sem exigir contagem); detalhes em "Vacinação da criança imunocomprometida".
  • Ácido fólico: só com folato sérico baixo; sem dosagem, esquema do PCDT 2024 (tabela) e orientação alimentar.
  • Ferro: a anemia da DF não é ferropriva; sem suplementação universal — ferro só com ferropenia comprovada (ferritina, ferro ou saturação baixos) ou desnutrição, pelo tempo da correção; transfundidos: avaliar sobrecarga, sem suplementar (PCDT 2024).
  • Hidratação frequente; evitar frio e esforço extenuante. Plano escrito com genótipo, valores basais (Hb, reticulócitos, SpO2, baço) e telefone do centro de referência.

Do especialista (o pediatra cuida da adesão):

  • Hidroxiureia: reduz dor, síndrome torácica, internações, transfusões e em 40% o risco de óbito (PCDT 2024). HbSS, HbSβ⁰, HbSβ⁺ grave e HbSD Punjab a partir de 9 meses; HbSC, HbSD e HbSβ-talassemia a partir de 2 anos (ou 9 meses se dactilite no 1º ano, Hb < 7 g/dL ou leucócitos > 20.000/mm³) (PCDT 2024). Contracepção eficaz na adolescente.
  • Doppler transcraniano anual dos 2 aos 16 anos (SS e Sβ⁰); velocidade alta indica transfusão crônica (PCDT 2024) — ver "AVC na infância".
  • Transfusão só com indicação (sequestro, crise aplástica, síndrome torácica, AVC, cirurgia, programa crônico), com hemácias fenotipadas e desleucocitadas. Não transfundir pela Hb basal (MS 2009); na crise dolorosa, só com queda > 20% da Hb basal (MS 2012).
  • Transplante de células-tronco (HLA dos irmãos no SS e Sβ⁰ em hidroxiureia com complicação grave), quelação pelo PCDT de Sobrecarga de Ferro e avaliação cardíaca, renal e oftalmológica (PCDT 2024).

Medicamentos:

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação e referência
Penicilina V oral (profilaxia) < 3 anos ou até 15 kg: 125 mg; > 3 anos ou 15–25 kg: 250 mg 12/12 h Até 5 anos PCDT 2024 (MS 2012: 125 mg até 2 anos)
Penicilina G benzatina IM (se a via oral for impossível) Até 10 kg: 300.000 UI; 10–20 kg: 600.000 UI; > 20 kg: 1.200.000 UI A cada 4 semanas Até 5 anos; retomar a via oral logo que possível PCDT 2024
Estolato de eritromicina oral (alergia à penicilina) 20 mg/kg/dose (40 mg/kg/dia) 12/12 h Até 5 anos PCDT 2024 (MS 2012: 20 mg/kg/dia)
Ácido fólico Até 1 ano ou 10 kg: 2,5 mg; a partir de 1 ano ou 10 kg: 5 mg 3 vezes por semana Contínuo, se indicado PCDT 2024, sem dosagem de folato disponível
Hidroxiureia Início 15 mg/kg/dia; aumentar 5 mg/kg/dia a cada 4 semanas; máx. 35 mg/kg/dia 1 vez ao dia Indeterminada PCDT 2024; prescrição pelo hematologista
Dipirona (dor) 15 mg/kg/dose 6/6 h, em horário fixo (máx. 4 doses/dia) Até 24 h sem dor Padrão do site; não usar < 3 meses ou < 5 kg (bula); MS 2012: 4/4 h
Paracetamol (dor) 10–15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia) 4–6 h (máx. 5 doses/dia) Reavaliar após 48–72 h Padrão do site
Ibuprofeno (dor, associado) 5–10 mg/kg/dose 6–8 h Curta Padrão do site (≥ 6 meses); evitar na desidratação e na dengue; uso curto (rim — SEHOP 2019)
Ceftriaxona IV/IM (febre, antes de remoção demorada) Sepse, meningite ou púrpura: 100 mg/kg (máx. 4 g); sem esses sinais: 50–80 mg/kg Dose única antes da remoção Manutenção pelo serviço Padrão do site (Infectologia)

Febre — conduta no serviço (PCDT 2024): febre é urgência; > 38,2 °C abaixo de 3 anos pode indicar bacteremia. Hemograma com reticulócitos, urina tipo 1, PCR, hemocultura e urocultura e radiografia de tórax; líquor se toxemia ou suspeita de infecção do SNC. Sem foco: cobrir pneumococo e Hib — amoxicilina IV 50–100 mg/kg/dia 8/8 h abaixo de 5 anos; penicilina G cristalina 100.000–250.000 U/kg/dia IV 6/6 h acima de 5 anos; alternativa ceftriaxona 50–75 mg/kg/dia IV 12/12 h (máx. 4 g/dia). Síndrome torácica: associar macrolídeo; meningite: ceftriaxona 100 mg/kg/dia por no mínimo 10 dias; osteomielite: cobrir S. aureus e Salmonella, IV por 4–6 semanas.

Dor no hospital: morfina IV 0,05–0,1 mg/kg/dose, monitorizada (SBP 2024, como em "Analgesia e sedação"), com dipirona ou paracetamol e anti-inflamatório; hidratação venosa de 1,5 vez as necessidades hídricas (MS 2012), sem hiper-hidratar; espirometria de incentivo contra a síndrome torácica (PCDT 2024).

Não usar: codeína (SBP 2024); tramadol < 12 anos; petidina (NICE CG143); transfusão pela Hb basal; ferro sem deficiência; restrição hídrica.

Escola: relatório com o plano de crise; garrafa de água e livre acesso ao banheiro; proteção contra o frio; educação física com pausas; tolerância a faltas. Queda do rendimento pode indicar infarto cerebral silencioso: avisar o hematologista (AAP 2024). Atenção ao estigma e ao racismo (PCDT 2024).

Transição: na adolescência o jovem aprende genótipo, medicamentos e sinais de alerta; contracepção (progestágeno preferido), álcool e tabaco; transferência planejada para a equipe de adultos (PCDT 2024; AAP 2024).

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Febre (axilar ≥ 37,5 °C), mesmo em bom estado geral.
  • Sequestro esplênico: palidez súbita, fraqueza, baço maior que o habitual, distensão abdominal, taquicardia.
  • Síndrome torácica aguda: dor torácica, tosse, febre, taquipneia, desconforto, SpO2 abaixo da basal.
  • AVC: fraqueza de um lado, fala enrolada, boca torta, convulsão, cefaleia intensa, sonolência — mesmo que já tenha passado.
  • Priapismo que não cede com as medidas caseiras (o PCDT 2024 considera emergência após 2 a 4 horas).
  • Crise aplástica: palidez e cansaço progressivos com baço habitual, sobretudo após virose (parvovírus B19).
  • Dor intensa ou sem melhora com a analgesia oral; dor abdominal, lombar ou articular com edema; vômitos.

Como encaminhar

  1. Avisar o centro de referência e o destino; enviar o plano com os valores basais.
  2. Oxigênio para manter SpO2 94–98% na hipoxemia, sintoma respiratório, choque ou sinal neurológico.
  3. Febre com remoção demorada: 1ª dose de ceftriaxona IV ou IM (tabela); hemocultura só se não atrasar.
  4. Sequestro ou choque: acesso venoso e cristaloide 10–20 mL/kg se houver má perfusão, reavaliando a cada bolus ("Sepse e choque séptico"); SAMU 192; a transfusão é hospitalar.
  5. Sinal neurológico: hora do início, glicemia capilar e SAMU 192 para hospital com imagem e hemoterapia ("AVC na infância").
  6. Dor: analgesia antes de transportar; manter aquecida.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "A penicilina é todos os dias até os 5 anos, e as vacinas especiais são feitas no CRIE."
  • "Aprenda a palpar o baço da sua criança. Se ele crescer, se a criança ficar muito pálida, mole ou com a barriga inchada, vá ao pronto-socorro na hora."
  • "Febre de 37,5 °C ou mais na axila é emergência: vá ao pronto-socorro na hora, com o plano escrito, mesmo que a criança pareça bem."
  • "Dor leve: mais água, analgésico no horário e compressa morna. Dor forte, que não melhora, ou com febre, falta de ar, dor no peito ou na barriga: pronto-socorro."
  • "Fraqueza de um lado, boca torta, fala enrolada, convulsão ou dor de cabeça muito forte: ligue 192."
  • "Ereção dolorosa: urinar, beber água, banho morno; se não passar, pronto-socorro."

7.Comparação com as referências

Item SBP Ministério da Saúde AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Penicilina Sem posição aberta (DC 2025 restrito a sócios) 3 meses a 5 anos; 125 mg < 3 anos ou 15 kg; benzatina por peso (PCDT 2024) Aos 2 meses; 250 mg aos 3 anos; até 5 anos Sem diretriz pediátrica específica SEHOP 2019: aos 2 meses; 125 mg < 3 anos; até ≥ 5 anos Sem posição específica localizada Diária até pelo menos 5 anos Segue o NICE
Hidroxiureia Sem posição localizada SS, Sβ⁰ e Sβ⁺ grave ≥ 9 meses; SC ≥ 2 anos (PCDT 2024) Oferecer a todo SS e Sβ⁰ aos 9 meses Sem diretriz específica SEHOP: SS e Sβ⁰ desde 9 meses Sem posição específica localizada Citada, sem idade Segue o NICE
Doppler transcraniano Reconhecimento precoce (2017) Anual, 2–16 anos (PCDT 2024); 2–17 (2012) Anual, 2–16 anos Sem diretriz específica Anual, 2–16 anos Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Febre Sem posição localizada > 38,2 °C < 3 anos sugere bacteremia; amoxicilina IV ou penicilina cristalina (PCDT 2024) ≥ 38–38,5 °C: hemocultura e ceftriaxona Sepse (NG254), sem critério próprio ≥ 38,5 °C central (≈ 38 axilar) Sem posição específica localizada > 38,5 °C: avaliação imediata Segue o NICE
Dor Escada da OMS; codeína proscrita (2024) Dipirona, diclofenaco e codeína em casa (2012) Casa: AINE e opioide fraco; hospital: opioide IV CG143: analgesia em 30 min; opioide forte na dor intensa; sem petidina Paracetamol, ibuprofeno, metamizol; morfina no hospital Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Ácido fólico e ferro Sem posição localizada; ferro profilático universal no lactente (2026) Ácido fólico só com folato baixo; ferro só com ferropenia (PCDT 2024) Ácido fólico dispensável — Ácido fólico não sistemático — — —

Leitura: convergem no diagnóstico neonatal, na penicilina até 5 anos, nas vacinas, na hidroxiureia a partir de 9 meses, no Doppler anual e na febre como urgência. Divergem no limiar de febre (AAP 38–38,5 °C; SEHOP e Boston Children's 38,5 °C; PCDT 2024 > 38,2 °C abaixo de 3 anos; site 37,5 °C axilar para ir ao serviço), no antibiótico (AAP ceftriaxona; PCDT 2024 amoxicilina IV abaixo de 5 anos e penicilina cristalina acima, ceftriaxona como alternativa), no ácido fólico (PCDT 2024 só com folato baixo; SEHOP não sistemático; AAP dispensável), no ferro (a SBP 2026 indica profilaxia universal no lactente, sem tratar da DF; o PCDT 2024, específico da DF, só com ferropenia comprovada), nas vivas com hidroxiureia (PCDT sem exigir neutrófilos; CRIE > 1.500/mm³ para febre amarela) e na analgesia domiciliar (codeína no MS 2012, proscrita pela SBP 2024). O MS 2012, versão anterior, usava penicilina e benzatina por idade, eritromicina 20 mg/kg/dia e internação abaixo de 3 anos com > 38,3 °C com cefuroxima. Sem posição aberta da SBP na maioria dos itens, pela regra SBP → MS o site segue a SBP na analgesia (sem codeína) e o PCDT 2024 no restante — penicilina, eritromicina, febre no serviço, ferro, ácido fólico, hidroxiureia, Doppler e transfusão —, mantendo o encaminhamento com febre axilar ≥ 37,5 °C e, nas vacinas vivas com hidroxiureia, o critério do CRIE.

Pontos práticos
  1. Teste do pezinho com FS, FSC ou FSA: encaminhar com prioridade ao centro de referência e começar a penicilina antes de 4 meses.
  2. Febre axilar ≥ 37,5 °C na DF é 🔴: pronto-socorro na hora; ceftriaxona antes de sair se a remoção demorar.
  3. Ensine a família a palpar o baço; palidez súbita com baço maior é sequestro.
  4. Tosse, dor torácica ou taquipneia é síndrome torácica até prova em contrário: oxigênio para SpO2 94–98% e hospital.
  5. Hidroxiureia a partir de 9 meses (SS e Sβ⁰) e Doppler anual dos 2 aos 16 anos.
  6. Dor leve em casa com água e dipirona em horário fixo; sem codeína; não transfundir pela Hb basal.

Veja também, nesta Biblioteca: AVC na infância (Neurologia); Infecções no imunocomprometido e dispositivos e Osteomielite e artrite séptica (Infectologia); Vacinação do imunocomprometido (CRIE) (Imunizações); Sepse e choque séptico e Analgesia e sedação (Urgências); Doenças exantemáticas (Patologias do consultório); Simulado ENAMED — Anemia.

8.Fontes

  • Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Doença Falciforme (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 16, de 01/11/2024). gov.br/conitec
  • Ministério da Saúde. Doença falciforme — condutas básicas para tratamento, 2012. PDF
  • Ministério da Saúde. Doença falciforme — manual de eventos agudos, 2009. PDF
  • SBP, Departamento de Hematologia e Hemoterapia. Documentos científicos (Vacinação na doença falciforme, 2025; Doença cerebrovascular na doença falciforme, 2017 — restritos a sócios). sbp.com.br; apresentação de 2017
  • AAP, Section on Hematology/Oncology. Yates AM et al. Health Supervision for Children and Adolescents With Sickle Cell Disease — Clinical Report. Pediatrics, 2024;154(2):e2024066842. publications.aap.org
  • NICE. Sickle cell disease — managing acute painful episodes in hospital (CG143), 2012. nice.org.uk
  • SEHOP (AEP). Cela E et al. Enfermedad de células falciformes — Guía de práctica clínica SEHOP, 2019. PDF
  • Boston Children's Hospital (Harvard Medical School). Sickle cell disease. childrenshospital.org