Imunoterapias em pediatria · Imunoglobulinas, doenças raras e prevenção

Imunoglobulinas em pediatria (IgIV, IgSC e imunoglobulinas hiperimunes)

Reposição nos erros inatos (PCDT de defeitos de anticorpos), imunomodulação em Kawasaki, PTI, Guillain-Barré, MIS-C, encefalites e miocardite, imunoglobulinas hiperimunes do CRIE (antitetânica, anti-hepatite B, antirrábica, antivaricela-zóster) e anti-CMV, doses, reações à infusão e intervalo com as vacinas vivas

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A imunoglobulina humana normal (IgG de milhares de doadores) tem dois usos: reposição nos erros inatos com defeito de anticorpos, por via intravenosa (IgIV) a cada 3–4 semanas ou subcutânea (IgSC) semanal, pelo PCDT do Ministério da Saúde (Portaria nº 495/2007); e imunomodulação em dose alta (1–2 g/kg) na doença de Kawasaki, na PTI com sangramento, na síndrome de Guillain-Barré, na MIS-C e nas encefalites autoimunes. Na miocardite, o benefício não está comprovado. As imunoglobulinas hiperimunes (antitetânica, anti-hepatite B, antirrábica, antivaricela-zóster) são dadas pelo CRIE ou pelo serviço de referência após exposição, dentro de janelas de tempo. O pediatra reconhece a indicação, colhe sorologias e imunoglobulinas antes da dose, encaminha e adia as vacinas vivas pelo tempo do Manual dos CRIE 2023 (até 11 meses após 2 g/kg). A reação leve à infusão melhora com a redução da velocidade. São 🔴: anafilaxia, dispneia, hipotensão, cefaleia com rigidez de nuca, urina escura, oligúria ou sinais de trombose após a infusão, e as doenças que pedem imunoglobulina com urgência (Kawasaki, Guillain-Barré, MIS-C, exposição de risco do imunossuprimido).

1.O que é e como se apresenta

Produtos: IgIV a 5% ou 10% (frascos de 0,5 a 10 g); IgSC a 20% (Hizentra, registrada na Anvisa; a via subcutânea não foi avaliada pela Conitec, e o PCDT de 2007 preconiza a IgIV — NatJus-RJ, Parecer nº 0097/2024); imunoglobulinas hiperimunes IM (IGHAT, IGHAHB, IGHAR e IGHAVZ, siglas do Manual dos CRIE 2023), distribuídas pelos CRIE e pelos serviços de referência. Os soros heterólogos de origem equina (antitetânico e antirrábico) protegem menos tempo e podem causar anafilaxia. Por isso a imunoglobulina humana é preferida no imunodeprimido e em quem já reagiu a soro (Manual dos CRIE 2023).

Mecanismos: na reposição, a IgG infundida tem meia-vida de 21–28 dias e protege contra bactérias encapsuladas, enterovírus e outros agentes. Na imunomodulação, a dose alta bloqueia receptores Fc, neutraliza autoanticorpos e citocinas e inibe o complemento. A hiperimune traz título alto de anticorpo contra um agente ou toxina.

Indicações pediátricas e onde estão no site:

  • Erros inatos com defeito de anticorpos (agamaglobulinemia ligada ao X, imunodeficiência comum variável, hiper-IgM, imunodeficiências combinadas): reposição decidida pelo imunologista, pelas infecções e pela falta de produção de anticorpos, e não só pelo nível de IgG (PCDT 2007). Na hipogamaglobulinemia transitória, reposição temporária se IgG < −2 DP (sobretudo < 100 mg/dL) ou infecções graves (SBP; ver Erros inatos da imunidade e Hipogamaglobulinemia no lactente).
  • Hipogamaglobulinemia secundária: após CAR-T e rituximabe, na síndrome nefrótica e na enteropatia perdedora de proteína, conforme o especialista.
  • Imunomodulação: Kawasaki (SBP, DC nº 6/2019); PTI só com sangramento que exige tratamento (SBP, DC nº 135/2024; PCDT 2026; anti-D sem aprovação da Anvisa na PTI); Guillain-Barré, com IgIV ou plasmaférese equivalentes em 2 semanas e corticoide contraindicado (PCDT, Portaria Conjunta nº 6/2020); MIS-C (ACR 2022, adotado pelo site); encefalites autoimunes graves e rombencefalite grave por enterovírus (ver Encefalites).
  • Miocardite: benefício não comprovado, a critério do centro (AHA 2021, no documento do site); o NHS England (2025) e Cambridge (2026) não a financiam de rotina.
  • Sarampo: imunoglobulina humana normal até o 6º dia para quem não pode ser vacinado, pela vigilância ou pelo CRIE, com dose do protocolo local (ver Profilaxia pós-exposição).
  • Anti-CMV: fora do Manual dos CRIE e de PCDT; sem registro vigente localizado na Anvisa (importação excepcional); restrita a protocolos de transplante.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Criança em reposição estável, sem infecções graves; reação leve na infusão (cefaleia leve, calafrios, rubor, mialgia), que cede ao reduzir a velocidade; reação local da IgSC (edema, eritema no local) Seguimento com o imunologista; orientar hidratação; registrar o produto, a dose e a data para o calendário vacinal
🟡 Moderada Suspeita de erro inato com indicação provável de reposição (sinais de alerta, IgG baixa para a idade, sem resposta vacinal) em bom estado; infecções de repetição apesar da reposição; cefaleia persistente após a IgIV sem sinal neurológico; exposição de risco em imunocompetente que precisa de hiperimune (ferimento, mordedura, contato com varicela no grupo de risco, RN de mãe HBsAg positiva) Encaminhar ao imunologista com prioridade; contato com o centro sobre a dose e o vale de IgG; exposição: no mesmo dia ao CRIE, ao serviço antirrábico ou à maternidade, dentro da janela
🔴 Grave Anafilaxia (urticária com sintoma respiratório, estridor, sibilância, hipotensão); dispneia e hipoxemia durante ou após a infusão; cefaleia intensa com vômitos, fotofobia ou rigidez de nuca (meningite asséptica, que exige excluir a bacteriana); urina escura, palidez e icterícia (hemólise); oligúria (lesão renal); dor torácica, déficit focal, edema e dor em membro (trombose); suspeita de Kawasaki, Guillain-Barré, MIS-C, encefalite; PTI com sangramento ativo importante; imunossuprimido exposto a varicela ou sarampo Pronto-socorro/hospital; anafilaxia: adrenalina IM antes de tudo; na exposição do imunossuprimido, imunoglobulina com urgência pelo CRIE

Fatores que elevam o risco de reação grave: primeira infusão ou troca de produto; infusão rápida; infecção ativa no momento da dose; desidratação; dose alta (1–2 g/kg); grupo sanguíneo A, B ou AB (hemólise); doença renal ou produto com sacarose; obesidade, imobilidade, cateter central ou trombofilia (trombose); deficiência de IgA com anti-IgA (anafilaxia — AEP 2019. O NHS England 2025 considera esse papel controverso e não pede a dosagem prévia).

3.Diagnóstico no consultório

Antes da primeira dose (o pediatra pode adiantar):

  • IgG, IgA e IgM pela idade. Na PTI, a SBP (2024) pede a dosagem antes da IgIV, porque depois dela o nível não interpreta a imunodeficiência.
  • Sorologias antes da IgIV (HIV, hepatites B e C, sarampo, varicela, citomegalovírus e Epstein-Barr, quando indicadas). Os anticorpos passivos tornam as sorologias positivas por semanas a meses.
  • Resposta vacinal (tétano, difteria, hepatite B, sarampo), que só tem valor antes da reposição. Hemograma, creatinina, tipagem ABO.
  • Na suspeita de erro inato: o primeiro degrau do documento Erros inatos da imunidade (hemograma com linfócitos absolutos, IgG, IgA e IgM, sorologias vacinais, anti-HIV, albumina e urina). Imunoglobulina "de prova" sem diagnóstico não se faz.

Diferencial que não pode passar: febre com cefaleia e rigidez após a IgIV não é só meningite asséptica, porque a meningite bacteriana deve ser excluída. Palidez com icterícia após 2 g/kg não é só hemólise pela imunoglobulina (ver Anemias hemolíticas). Na suspeita de PTI, excluir leucemia antes de corticoide. No Kawasaki incompleto, não atrasar a IgIV à espera de todos os critérios (ver Doença de Kawasaki).

4.Tratamento e seguimento

Do pediatra: suspeitar da indicação, colher os exames antes da dose, encaminhar, adiar as vivas pelo intervalo do CRIE, vacinar os conviventes, tratar cada infecção cedo e em dose plena e reconhecer as reações tardias. Do especialista e do hospital: indicação, produto, dose, velocidade, vale de IgG e troca de via.

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação e referência
IgIV — reposição (erros inatos) 300–400 mg/kg a cada 3 semanas ou 400–500 mg/kg a cada 4 semanas; máx. 600 mg/kg (3 sem) ou 800 mg/kg (4 sem) 3–4 semanas Contínua PCDT, Portaria SAS/MS nº 495/2007; meta de vale > 500 mg/dL e controle das infecções; AEP 2019: vale > 700 (> 900 se bronquiectasias)
IgSC 20% — reposição Dose mensal equivalente de 0,4–0,8 g/kg, dividida em doses semanais (0,2–0,4 g/kg/semana) ou quinzenais Semanal ou a cada 2 semanas Contínua Bula europeia (Hizentra); ataque 0,2–0,5 g/kg se necessário; fora do PCDT, opção na anafilaxia ou na intolerância à IgIV
IgIV — doença de Kawasaki 2 g/kg Dose única Até o 10º dia (e depois, se houver atividade) SBP, DC nº 6/2019; obeso: peso ajustado (AHA 2024, no documento do site); com AAS 3–5 mg/kg/dia (máx. 80 mg/dia — SBP 2020)
IgIV — PTI com sangramento 0,8–1 g/kg Dose única; repetir se persistir o sangramento 1 (até 2) dias SBP, DC nº 135/2024; PCDT 2026; pré-hidratação com SF 0,9% 10–20 mL/kg e infusão lenta
IgIV — Guillain-Barré 0,4 g/kg/dia (total 2 g/kg) Diária 2–5 dias PCDT, Portaria Conjunta nº 6/2020; interromper se houver perda de função renal ou anafilaxia; sem corticoide
IgIV — MIS-C 2 g/kg pelo peso ideal (máx. 100 g) Dose única, em cerca de 12 h; 1 g/kg/dia se houver disfunção cardíaca 1–2 dias ACR 2022 (exceção formal do site); com corticoide; vigiar sobrecarga de volume
IgIV — encefalite autoimune grave 2 g/kg (dose total) Dividida em 2–5 dias Ciclo Documento Encefalites do site (Nosadini 2021)
IGHAT (antitetânica) 250 UI IM Dose única — Manual dos CRIE 2023: imunodeprimido (mesmo vacinado), reação prévia a soro, RN de mãe não vacinada em risco, prematuro com lesão tetanogênica
IGHAHB (anti-hepatite B) RN 0,5 mL IM; demais 0,06 mL/kg IM (máx. 5 mL) Dose única RN: nas primeiras 12–24 h, até o 7º dia; sexual e violência: até 14 dias Manual dos CRIE 2023; com a vacina, em coxas diferentes; aleitamento mantido
IGHAR (antirrábica) 20 UI/kg (SAR 40 UI/kg), o máximo infiltrado na lesão e o restante IM longe da vacina Dose única Até o 7º dia após a 1ª dose da vacina Manual dos CRIE 2023; imunocomprometido, reação a soro, contato frequente com equídeos
IGHAVZ (antivaricela-zóster) 125 UI/10 kg IM (mín. 125, máx. 625 UI) Dose única Até 96 h do contato Manual dos CRIE 2023: suscetível + contato significativo + risco especial; só profilática

IGHAVZ exige ao mesmo tempo suscetibilidade, contato significativo (domiciliar contínuo ou ≥ 1 h em ambiente fechado ou no mesmo quarto) e risco especial: imunodeprimidos, menores de 9 meses em contato hospitalar, gestantes, RN de mãe com varicela de 5 dias antes a 48 h após o parto e prematuros (Manual dos CRIE 2023; lista completa em Profilaxia pós-exposição).

Reações à infusão e como prevenir (AEP 2019; PCDT 2020; NHS England 2025):

  • Até 20% das infusões de IgIV têm reação, quase sempre leve e nas primeiras doses: cefaleia, calafrios, febre, rubor, taquicardia, mialgia. Reduzir ou pausar a infusão, hidratar e usar analgésico (paracetamol 10–15 mg/kg/dose, máx. 75 mg/kg/dia — SBP; ou dipirona 15 mg/kg/dose — padrão do site). Se a reação se repetir, pré-medicar conforme o centro. Os anti-histamínicos sedativos não são rotina (padrão do site).
  • Graves e raras: anafilaxia; meningite asséptica (nas horas ou dias seguintes); hemólise (dose alta, grupos não O); lesão renal (produtos com sacarose, desidratação); trombose. A IgSC tem menos efeitos sistêmicos (< 0,43% — AEP 2019) e mais reação local.
  • Anafilaxia: adrenalina IM 1 mg/mL 0,01 mg/kg (máx. 0,3 mg na criança e 0,5 mg no adolescente), conforme o Protocolo de Anafilaxia do site.

Vacinas após imunoglobulina (Manual dos CRIE 2023, Tabela 5) — vivas injetáveis (tríplice e tetraviral, varicela): IGHAT e IGHAHB 3 meses; IGHAR 4; IGHAVZ 5; imunoglobulina IM 0,5 mL/kg 6; IgIV de reposição 300–400 mg/kg 8 meses; 1 g/kg 10 meses; 1,6–2 g/kg 11 meses. Vacinas não vivas: qualquer intervalo (CRIE); a tabela vale para as vivas injetáveis. Na deficiência humoral grave, o CRIE contraindica só a BCG, mas a resposta às vivas aplicadas durante a reposição é comprometida (ver Erros inatos da imunidade). Se a imunoglobulina for dada antes de 2 semanas após uma vacina viva injetável, a vacina é repetida depois do intervalo da tabela (CRIE).

Não fazer: imunoglobulina "de prova" sem diagnóstico; sorologia logo após a IgIV para "investigar imunidade"; vacina viva sem saber a dose e a data da última imunoglobulina; IgIV rápida na primeira dose ou em criança desidratada; corticoide na Guillain-Barré; anti-D na PTI; soro heterólogo sem material para anafilaxia.

Tabela-resumo

Medicamento Alvo Indicação pediátrica Idade mínima (Anvisa / FDA / EMA) SUS Via e intervalo Fonte
IgIV (imunoglobulina humana normal) IgG policlonal (reposição; bloqueio de FcR) Erros inatos; Kawasaki; PTI; Guillain-Barré; MIS-C Conforme o produto (bula) CEAF (PCDT 2007) e uso hospitalar (PCDT SGB 2020, PTI 2026) IV, 3–4 semanas (reposição) ou dose única/curso PCDT; SBP 2019 e 2024
IgSC 20% IgG policlonal Reposição nos erros inatos Conforme bula (EMA: estudada de 2 a < 18 anos) Não avaliada pela Conitec SC semanal ou quinzenal Bula europeia; NatJus-RJ 2024
IGHAT Toxina tetânica Profilaxia do tétano em grupos especiais Qualquer idade CRIE IM, dose única Manual dos CRIE 2023
IGHAHB HBsAg RN de mãe HBsAg+; exposições Qualquer idade CRIE e maternidade IM, dose única Manual dos CRIE 2023
IGHAR Vírus da raiva Pós-exposição grave em grupos especiais Qualquer idade CRIE e serviço antirrábico Infiltração + IM, dose única Manual dos CRIE 2023
IGHAVZ Vírus varicela-zóster Pós-exposição em risco especial Qualquer idade CRIE IM, até 96 h Manual dos CRIE 2023
Imunoglobulina anti-CMV Citomegalovírus Protocolos de transplante Sem registro vigente localizado / — / — Não incorporada IV —

Em estudo (fase 3 e 4)

Consulta ao ClinicalTrials.gov em 03/10/2026:

  • KIDCARE (NCT03065244): fase 3, 105 crianças com Kawasaki resistente à IgIV, infliximabe versus 2ª dose de IgIV. Desfecho: fim da febre em 24 h sem recidiva em 7 dias. Concluído. O desfecho foi atingido por 77% com infliximabe e 51% com a 2ª IgIV; houve menos dias de febre, internação mais curta e menos anemia hemolítica, sem diferença coronariana (Burns, Lancet Child Adolesc Health 2021;5:852-61).
  • BP-SCIG 20% (NCT07346859): fase 3, 56 participantes a partir de 0 anos com erro inato. Desfechos: vale de IgG e infecções bacterianas graves por ano. Recrutando.
  • Newnorm, IgSC (NCT04640142): fase 3, 50 participantes de 2 a 75 anos com erro inato. Desfechos: infecções bacterianas graves e IgG total. Ativo, sem recrutar.
  • IgIV 10% com AAS no Kawasaki (NCT04003844): fase 4, 45 participantes de 3 meses a 12 anos. Desfecho: incidência de lesão coronariana. Concluído, sem resultados no registro.
  • Anti-CMV no transplante de medula pediátrico (NCT07013370): 150 participantes de 1 mês a 18 anos, com Megalotect. Recrutando. É registrado sem fase, portanto não é ensaio de fase 3 ou 4.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Durante ou após a infusão: anafilaxia, dispneia, hipoxemia, hipotensão; cefaleia intensa com vômitos, fotofobia ou rigidez de nuca; urina escura, palidez, icterícia; oligúria; dor torácica, déficit neurológico focal, dor e edema em membro.
  • Suspeita de Kawasaki (febre ≥ 5 dias com critérios, ou lactente < 6 meses com febre prolongada), Guillain-Barré (fraqueza ascendente, arreflexia, dificuldade de deglutir ou respirar), MIS-C ou encefalite.
  • PTI com sangramento mucoso ativo, visceral ou do sistema nervoso central (ver Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança).
  • Imunossuprimido exposto a varicela ou sarampo, ou já doente.
  • Ferimento grave ou exposição grave à raiva (cabeça, mãos, pés, mucosas, morcego); trismo ou espasmos (ver Profilaxia pós-exposição).

Como encaminhar: na anafilaxia, adrenalina IM 0,01 mg/kg antes de tudo; oxigênio para manter SpO2 entre 94% e 98%; acesso venoso e expansão se houver choque (ver Sepse e choque séptico na criança); SAMU (192) se instável; na Guillain-Barré com fraqueza respiratória ou bulbar, transporte monitorizado para hospital com UTI pediátrica; relatório com o produto, o lote, a dose, a velocidade e o horário da infusão, as sorologias colhidas antes e a data da exposição. Notificação obrigatória (compulsória) da paralisia flácida aguda, do tétano, do atendimento antirrábico, do sarampo e da hepatite B, e do evento adverso grave ao hemoderivado.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "A imunoglobulina repõe as defesas, mas não substitui as vacinas da família: irmãos e adultos com calendário em dia, inclusive gripe."
  • "Depois da imunoglobulina, algumas vacinas (sarampo, catapora) precisam esperar alguns meses. Leve a data e a dose a toda vacinação."
  • "Dor de cabeça leve no dia da infusão é comum. Ofereça água."
  • "Contato com catapora ou sarampo, mordida de animal ou ferimento sujo: ligue no mesmo dia, porque a proteção tem prazo."
  • Pronto-socorro se: falta de ar, inchaço da boca, manchas pelo corpo com chiado, desmaio; dor de cabeça forte com vômitos ou nuca dura; xixi escuro ou pouco xixi; pele amarela; dor no peito ou perna inchada e dolorida; fraqueza nas pernas que sobe.

7.Comparação com as referências

Item SBP Ministério da Saúde AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Versão consultada DC nº 6 (Kawasaki), 11/2019; DC nº 135 (PTI), 29/02/2024 PCDT nº 495/2007; PCDT SGB nº 6/2020; Manual dos CRIE, 6ª ed., 2023 Sem posição específica localizada Sem diretriz própria; NHS England, política de Ig, v2.0, 03/2025 Protocolo de imunodeficiências (SEICAP), 2019 Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada NHS England 2025; Cambridge (painel do East of England), v7.7, 09/2026
Reposição Temporária na HTI com IgG < −2 DP ou infecções graves 300–500 mg/kg a cada 3–4 semanas; vale > 500 — 0,4–0,6 g/kg/mês, por imunologista 400 mg/kg/mês; vale > 700 Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Cambridge: 0,4–0,6 g/kg/mês pelo peso ajustado
Kawasaki 2 g/kg até o 10º dia — — 2 g/kg; 2ª dose se não houver resposta — Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada 2 g/kg em 8–12 h; 2ª dose se não houver resposta
MIS-C 1–2 g/kg (2020) — — Corticoide em 1ª linha (≥ 6 anos sem Kawasaki); IgIV na dúvida — Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NHS England
Miocardite — — — Não financiada de rotina — Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Cambridge: classe IV, não financiada de rotina
Hiperimunes e vacinas vivas Remete ao CRIE CRIE: indicações, janelas e Tabela 5 (3 a 11 meses) — — — Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NHS

Leitura: as referências convergem no essencial. A reposição exige diagnóstico de erro inato por imunologista e a resposta clínica pesa mais que um número. A dose de imunomodulação é de 2 g/kg no Kawasaki e na Guillain-Barré e de 0,8–1 g/kg na PTI com sangramento. A hiperimune segue janelas de tempo, e as vacinas vivas são adiadas por meses após a imunoglobulina. Divergências: (1) a meta de vale é > 500 mg/dL no PCDT de 2007 e > 700 na AEP de 2019, e o NHS dosa pelo peso ideal; (2) na MIS-C, o NHS England (2025) passou a preferir corticoide em 1ª linha em quem tem 6 anos ou mais sem Kawasaki, enquanto a SBP (2020) usa IgIV e o site segue o ACR 2022 (IgIV com corticoide); (3) a miocardite não tem IgIV financiada no NHS nem benefício comprovado na AHA; (4) na deficiência de IgA: a AEP indica produto pobre em IgA ou via subcutânea, e o NHS não pede anti-IgA; (5) a IgSC é rotina no NHS e na AEP, mas não está no PCDT brasileiro. O site segue a SBP no Kawasaki, na PTI e na hipogamaglobulinemia transitória, o Ministério da Saúde na reposição (PCDT 2007), na Guillain-Barré (PCDT 2020) e nas hiperimunes e intervalos (Manual dos CRIE 2023), e mantém a exceção já declarada do ACR na MIS-C.

Pontos práticos
  1. Antes da primeira IgIV, colha IgG, IgA e IgM e as sorologias: depois dela, os resultados não se interpretam.
  2. A reação leve à infusão cede ao reduzir a velocidade. Anafilaxia, cefaleia com rigidez de nuca, urina escura, oligúria ou sinais de trombose são pronto-socorro.
  3. Após IgIV de 2 g/kg, tríplice viral e varicela só depois de 11 meses (8 meses na reposição de 300–400 mg/kg; 3 a 5 meses após as hiperimunes IM).
  4. IGHAVZ até 96 h, IGHAHB no RN em 12–24 h (até o 7º dia), IGHAR até o 7º dia da vacina: a proteção tem prazo, e o encaminhamento é no mesmo dia.
  5. Guillain-Barré: IgIV 0,4 g/kg/dia por 2–5 dias, sem corticoide, com notificação obrigatória (compulsória) da paralisia flácida aguda.

Veja também, nesta Biblioteca: O que são as imunoterapias e como preparar a criança e Imunoterapia oncológica pediátrica (nesta área); Erros inatos da imunidade (Alergia e Imunologia); Hipogamaglobulinemia no lactente (Temas SBP); Doença de Kawasaki e Síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (Reumatologia); Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança (Hematologia); Encefalites (Infectologia); Miocardite, pericardite e MIS-C (Cardiologia); Profilaxia pós-exposição e Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE) (Imunizações); Protocolo de Anafilaxia (Urgências).

8.Fontes

  • Ministério da Saúde. PCDT Imunodeficiência primária com predominância de defeitos de anticorpos — imunoglobulina humana, Portaria SAS/MS nº 495, 11/09/2007. gov.br/saude
  • Ministério da Saúde. PCDT da Síndrome de Guillain-Barré, Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 6, 26/03/2020. PDF
  • Ministério da Saúde. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais, 6ª ed., 2023 (capítulos 8, 11, 13 e 18; Tabela 5). PDF
  • SBP, Departamento Científico de Reumatologia. Doença de Kawasaki (DC nº 6), 11/2019. PDF
  • SBP, Departamento Científico de Hematologia e Hemoterapia. Trombocitopenia imune primária (DC nº 135), 29/02/2024. PDF
  • AEP/SEICAP. Seoane Reula ME, de Arriba Méndez S. Diagnóstico y manejo de las inmunodeficiencias primarias en niños. Protoc diagn ter pediatr 2019;2:415-35. PDF
  • NHS England. Clinical Commissioning Policy for the use of therapeutic immunoglobulin (Ig) England, v2.0, 03/2025. PDF
  • Cambridge University Hospitals/East of England Immunoglobulin Assessment Panel. Clinical guideline for immunoglobulin treatment, v7.7, 09/2026. PDF
  • EMA. Hizentra — product information. PDF
  • NatJus Federal/SES-RJ. Parecer técnico nº 0097/2024 — imunoglobulina humana subcutânea (Hizentra), 26/01/2024. PDF
  • Burns JC et al. Infliximab versus second IVIG for resistant Kawasaki disease (KIDCARE). Lancet Child Adolesc Health 2021;5:852-61. PubMed
  • ClinicalTrials.gov (consulta em 03/10/2026): NCT03065244; NCT07346859; NCT04640142; NCT04003844; NCT07013370