Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF
A imunoterapia oncológica é indicada e aplicada só no centro de oncologia pediátrica, mas a criança volta para casa e para o pediatra. Os agentes principais são o blinatumomabe (CD19/CD3) e o inotuzumabe (CD22) na leucemia linfoblástica aguda (LLA) B, as células CAR-T anti-CD19 (tisagenlecleucel, na Anvisa desde 2022, até 25 anos), o rituximabe (CD20) no linfoma B maduro, o brentuximabe (CD30) e os anti-PD-1 no Hodgkin, o dinutuximabe beta e o naxitamabe (GD2) no neuroblastoma e o gemtuzumabe (CD33) na leucemia mieloide aguda. O SUS incorporou o blinatumomabe (1ª recidiva medular de alto risco, até 18 anos) e o dinutuximabe beta (manutenção do neuroblastoma de alto risco); a CAR-T nacional está em estudo. O pediatra cuida das vacinas (sem vivas), do crescimento e das intercorrências leves. Evento adverso grave não se trata em casa: febre (axilar ≥ 37,5 °C), hipotensão, hipoxemia, confusão, sonolência, tremor, dificuldade de falar ou escrever e convulsão após CAR-T ou blinatumomabe são síndrome de liberação de citocinas ou neurotoxicidade até prova em contrário (🔴): pronto-socorro, com contato imediato com o centro que aplicou.
1.O que é e como se apresenta
São anticorpos que marcam a célula tumoral (rituximabe, dinutuximabe), anticorpos conjugados a quimioterápico (inotuzumabe, gemtuzumabe, brentuximabe), biespecíficos que aproximam o linfócito T do tumor (blinatumomabe), inibidores de checkpoint (nivolumabe, pembrolizumabe) e células CAR-T, linfócitos T do próprio paciente modificados contra o CD19.
- Blinatumomabe: LLA B CD19+, Philadelphia negativo. Na 1ª recidiva de alto risco, no lugar do 3º bloco de consolidação, melhorou a sobrevida livre de eventos com menos toxicidade (Locatelli, JAMA 2021); na LLA B de risco padrão, 2 ciclos somados à quimioterapia aumentaram a sobrevida livre de doença (AALL1731; Gupta, NEJM 2025). Anvisa: indicação pediátrica a partir de 1 mês na DRM positiva e, desde 05/11/2024, na consolidação (estudos com crianças de 28 dias a 18 anos).
- Inotuzumabe: LLA B CD22+ recidivada ou refratária. Bula brasileira de adulto (04/2022); FDA (03/2024) e EMA a partir de 1 ano.
- Tisagenlecleucel (CAR-T): LLA B refratária, recidivada após transplante ou em 2ª recidiva ou mais, até 25 anos (Anvisa, RE nº 560/2022; FDA; EMA; NICE TA975). Só em centros qualificados (equipe treinada, aférese, criopreservação, UTI experiente) (Anvisa, 2022); a ABRALE (2023) cita A.C. Camargo e Complexo Hospitalar de Niterói. Não incorporado ao SUS.
- CAR-T nacionais: CARTHEDRALL (NCT06101381), anti-CD19 do Hemocentro de Ribeirão Preto (USP) e Butantan, financiado pelo Ministério da Saúde: fase 1/2, 3 a 70 anos, 81 participantes, 5 centros em SP; 2ª etapa liberada pela Anvisa em 12/2024, com meta de oferta no SUS. CARTHIAE-1 (NCT05705570, Einstein): fase 1, 2 a 70 anos.
- Rituximabe: com quimioterapia LMB no linfoma B maduro avançado (Burkitt, difuso de grandes células B) reduziu eventos (Inter-B-NHL ritux 2010; Minard-Colin, NEJM 2020). FDA e EMA a partir de 6 meses; a bula brasileira consultada não traz essa indicação (fora da bula).
- Brentuximabe: Hodgkin de alto risco em 1ª linha com AVEPC (AHOD1331; Castellino, NEJM 2022); FDA a partir de 2 anos (10/11/2022; o estudo incluiu 2 a 21 anos); bulas brasileira e europeia de adulto (ver Linfoma de Hodgkin, Oncologia).
- Pembrolizumabe e nivolumabe: a bula brasileira do pembrolizumabe inclui Hodgkin clássico refratário ou recidivado após 2 ou mais linhas a partir de 3 anos; nivolumabe com bula de adulto (no S1826, a partir de 12 anos, nivolumabe-AVD superou brentuximabe-AVD — Herrera, NEJM 2024). A SBP (DC nº 166/2024) cita brentuximabe, pembrolizumabe e nivolumabe nas recidivas.
- Dinutuximabe beta: neuroblastoma de alto risco a partir de 12 meses, na manutenção após transplante autólogo e na doença recidivada ou refratária (EMA; Anvisa 2021); a eflornitina (DFMO) depois da imunoterapia reduz a recaída (SBP, DC nº 207/2025).
- Naxitamabe: com GM-CSF, neuroblastoma recidivado ou refratário de osso ou medula, a partir de 1 ano (Anvisa, 22/05/2023; FDA); sem autorização na EMA.
- Gemtuzumabe: com quimioterapia na LMA CD33+ recém-diagnosticada; bula brasileira a partir de 1 mês (EMA: a partir de 15 anos); melhorou a sobrevida livre de eventos no AAML0531 (Gamis, J Clin Oncol 2014).
Toxicidades. A síndrome de liberação de citocinas (SLC) começa com febre e evolui com hipotensão e hipoxemia: com tisagenlecleucel na LLA, 77% dos pacientes, início mediano no 3º dia (1 a 22). A neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS) — encefalopatia, afasia, tremor, sonolência, convulsão, edema cerebral — atingiu 71%, mediana de 6 dias, 84% nas 8 primeiras semanas, com ou sem SLC (FDA, bula de 06/2025). O blinatumomabe causa ambas com menor frequência. Os anti-GD2 causam dor neuropática intensa, extravasamento capilar, hipotensão e alterações oculares (midríase, acomodação); os conjugados, doença veno-oclusiva hepática; os anti-PD-1, eventos imunomediados (tireoidite, pneumonite, colite, hepatite, hipofisite, diabetes). Após CAR-T: aplasia de células B com hipogamaglobulinemia (53% na LLA), citopenias prolongadas e, raramente, neoplasia de células T secundária (alerta da FDA).
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Seguimento após imunoterapia, estável e sem febre; rotina, crescimento e vacinas; hipotireoidismo compensado sob anti-PD-1 | Pediatra com o centro; registrar medicamento e data da última dose; não vivas com o CRIE; influenza anual da família |
| 🟡 Moderada | Indicação em discussão e família com dúvidas; infecções leves repetidas, sem febre, com hipogamaglobulinemia após CAR-T ou rituximabe; diarreia leve, tosse seca ou exantema sob anti-PD-1 em bom estado; dor controlada após anti-GD2 | Contato no mesmo dia com o centro; encaminhar ao centro com prioridade; dosar IgG |
| 🔴 Grave | Febre (axilar ≥ 37,5 °C) após CAR-T, durante ou após blinatumomabe, em quimioterapia ou nos meses após rituximabe, mesmo em bom estado (como em Febre e infecção na criança imunocomprometida e com dispositivos); hipotensão, taquicardia desproporcional, SpO2 < 94%, desconforto respiratório; confusão, sonolência, agitação, tremor, dificuldade de falar, escrever ou compreender, convulsão; icterícia, ascite ou ganho de peso rápido após inotuzumabe ou gemtuzumabe; diarreia com sangue, dispneia ou distúrbio glicêmico sob anti-PD-1; dor intensa, hipotensão ou edema durante anti-GD2; anafilaxia; varicela ou sarampo no imunossuprimido | Pronto-socorro ou hospital de referência, de preferência o centro que aplicou, avisado antes |
Graduação ASTCT (Lee, 2019), usada pelo centro e útil ao pediatra para descrever o quadro:
| Grau | SLC: febre ≥ 38 °C + o pior entre hipotensão e hipoxemia | ICANS: o pior entre os itens |
|---|---|---|
| 1 | Só febre | ICE 7–9 (≥ 12 anos) ou CAPD 1–8 (< 12 anos); desperta sozinho |
| 2 | Hipotensão sem vasopressor e/ou O2 de baixo fluxo ou blow-by | ICE 3–6 ou CAPD 1–8; desperta à voz |
| 3 | 1 vasopressor (± vasopressina) e/ou O2 em alto fluxo, máscara, reservatório ou Venturi | ICE 0–2 ou CAPD ≥ 9; desperta só ao toque; convulsão breve ou crise no EEG que cede; edema cerebral focal |
| 4 | Vários vasopressores e/ou CPAP, BiPAP ou ventilação mecânica | ICE ou CAPD impossíveis; estupor ou coma; crise ≥ 5 min; edema difuso, decorticação ou descerebração, paralisia do VI par, papiledema, tríade de Cushing; fraqueza motora focal grave |
O ICE (orientação, nomear 3 objetos, comando, escrever uma frase, contar de 10 a 0) vale a partir de 12 anos; abaixo disso, ou com atraso do desenvolvimento, usa-se o CAPD (Cornell Assessment of Pediatric Delirium; ≥ 9 = delirium = grau 3) (Lee, 2019; MD Anderson, 2021). A ASTCT define febre como ≥ 38 °C; no site, a criança imunossuprimida com axilar ≥ 37,5 °C vai ao pronto-socorro, e a graduação fica com o centro.
Fatores que elevam a gravidade: carga tumoral alta antes da CAR-T ou do blinatumomabe; SLC precoce; doença no sistema nervoso central; neutropenia prolongada; hipogamaglobulinemia; cateter central; distância do centro (a bula do tisagenlecleucel pede ficar perto do centro por pelo menos 2 semanas e não dirigir por 2 semanas; o Boston Children's pede 1 mês).
3.Diagnóstico no consultório
- Antes do início: cartão vacinal, varicela e sarampo; HBsAg, anti-HBc, anti-HBs, anti-HCV e anti-HIV (as bulas do tisagenlecleucel e do rituximabe alertam para reativação da hepatite B); história de tuberculose.
- Depois: hemograma (citopenias), IgG após CAR-T e rituximabe, TSH, T4 livre e glicemia sob anti-PD-1, transaminases e bilirrubinas após conjugados.
- Diferencial na criança tratada com febre: sepse e neutropenia febril (tratadas junto com a SLC, nunca no lugar dela); lise tumoral; linfo-histiocitose hemofagocítica associada às células efetoras; doença veno-oclusiva; recidiva no sistema nervoso central.
4.Tratamento e seguimento
Do centro: indicação, aplicação, manejo da SLC (tocilizumabe, corticoide), da ICANS e da dor do anti-GD2, reposição de imunoglobulina e suspensão. Do pediatra: vacinas, crescimento, nutrição, escola, saúde mental, intercorrências leves e reconhecimento das emergências.
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação e referência |
|---|---|---|---|---|
| Blinatumomabe IV contínuo (1ª recidiva de alto risco) | < 45 kg: 15 mcg/m²/dia (máx. 28 mcg/dia); ≥ 45 kg: 28 mcg/dia | Infusão contínua, bomba programável, lúmen exclusivo | 28 dias + 14 sem infusão | Protocolo de Uso do MS, Portaria Conjunta nº 33/2023; hospitalar; SLC em 3–12%; sem vivas de 2 semanas antes até a recuperação dos linfócitos B |
| Tisagenlecleucel IV | ≤ 50 kg: 0,2–5,0 × 10⁶ células CAR+/kg; > 50 kg: 0,1–2,5 × 10⁸ células | Dose única, após linfodepleção | — | Bula (FDA 06/2025; Anvisa 2022); centro qualificado |
| Tocilizumabe IV (SLC, só no centro) | < 30 kg 12 mg/kg; ≥ 30 kg 8 mg/kg (máx. 800 mg), em 1 h | Repetir a cada 8 h se não melhorar, no limite da bula | Até o controle | Bula do tisagenlecleucel; metilprednisolona 2 mg/kg/dia se não melhorar em 24 h |
| Rituximabe IV (linfoma B maduro) | 375 mg/m²/dose | Com os blocos de quimioterapia | 6 doses (Inter-B-NHL) | EMA (≥ 6 meses); vivas ≥ 6 meses após (Manual dos CRIE 2023) |
| Dinutuximabe beta IV | 100 mg/m²/ciclo: 10 mg/m²/dia contínuo por 10 dias ou 20 mg/m²/dia em 8 h por 5 dias | Ciclos de 35 dias | 5 ciclos | Bula europeia (≥ 12 meses); gabapentina e morfina; sem vacinas até 10 semanas após o último ciclo |
Inotuzumabe (1,8 mg/m² por ciclo, nos dias 1, 8 e 15 — FDA 2024), pembrolizumabe (2 mg/kg, máx. 200 mg, a cada 3 semanas — bula brasileira), gemtuzumabe (3 mg/m², ou 0,1 mg/kg se ASC < 0,6 m², na indução — bula brasileira), brentuximabe, nivolumabe e naxitamabe seguem a bula e o protocolo do centro.
Vacinas (Manual dos CRIE 2023, bulas e o documento Vacinação da criança imunocomprometida): vivas contraindicadas durante o tratamento, por 3 meses ou mais após a quimioterapia e ≥ 6 meses após o rituximabe; a bula do tisagenlecleucel pede vivas ≥ 6 semanas antes da linfodepleção e só após a recuperação imune (CRIE: ≥ 4 semanas antes de qualquer imunossupressão) — prevalece a data mais restritiva das duas, definida com o centro (padrão do site). Após CAR-T, revacinação como no pós-transplante, no tempo do centro e do CRIE (a NT nº 52/2026 traz esquema próprio da VPC20 para TCTH e CAR-T). Influenza inativada anual quando o centro liberar; conviventes com calendário completo.
Não fazer: antitérmico em casa para "ver se melhora" a febre após CAR-T ou blinatumomabe; corticoide sem o centro (pode comprometer a CAR-T); vacina viva sem liberação; AINE com plaquetopenia; atribuir sonolência ou confusão "ao cansaço".
Tabela-resumo
| Medicamento | Alvo | Indicação pediátrica | Idade mínima (Anvisa / FDA / EMA) | SUS | Via e intervalo | Fonte |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Blinatumomabe | CD19 × CD3 | LLA B CD19+ Ph−: recidiva, DRM+, consolidação | 1 mês / 1 mês / 1 mês | 1ª recidiva medular de alto risco até 18 anos (Portaria SCTIE nº 51/2022) | IV contínua, ciclos de 28 dias | Anvisa 2024; MS 2023 |
| Inotuzumabe | CD22 | LLA B recidivada ou refratária | Adulto / 1 ano / 1 ano | Não incorporado | IV, dias 1, 8 e 15 | Bula BR 2022; FDA 2024 |
| Tisagenlecleucel | CD19 (CAR-T) | LLA B refratária ou recidivada | Até 25 anos nas três | Não incorporado | IV, dose única | Anvisa 2022; NICE 2024 |
| Rituximabe | CD20 | Linfoma B maduro avançado | Fora da bula / 6 meses / 6 meses | Uso hospitalar oncológico | IV, com a quimioterapia | EMA; Minard-Colin 2020 |
| Brentuximabe | CD30 | Hodgkin de alto risco | Adulto / 2 anos / adulto | Não incorporado na pediatria | IV a cada 3 semanas | FDA 2022 |
| Pembrolizumabe | PD-1 | Hodgkin refratário ou recidivado | 3 anos / pediátrico / 3 anos | Não incorporado na pediatria | IV a cada 3 semanas | Bula BR |
| Dinutuximabe beta | GD2 | Neuroblastoma de alto risco | 12 meses / sem registro / 12 meses | Manutenção (Portaria SECTICS nº 7/2025) | IV, 5 ciclos | EMA; MS 2025 |
| Naxitamabe | GD2 | Neuroblastoma recidivado ou refratário | 1 ano / 1 ano / sem autorização | Não incorporado | IV, 3×/semana a cada 4 semanas | Anvisa 2023 |
| Gemtuzumabe | CD33 | LMA CD33+ recém-diagnosticada | 1 mês / 1 mês / 15 anos | Não incorporado | IV na indução | Bula BR |
Em estudo (fase 3 e 4)
Consulta ao ClinicalTrials.gov em 03/10/2026:
- AALL1731 (NCT03914625): fase 3, 6.720 participantes de 1 a 31 anos, LLA B de risco padrão, sobrevida livre de doença com blinatumomabe; ativo, publicado (Gupta 2025). AALL1732 (NCT03959085): fase 3, 5.951 de 1 a 25 anos, alto risco, inotuzumabe; recrutando.
- Blinatumomabe na 1ª recidiva (NCT02393859; EudraCT 2014-002476-92): fase 3; 111 participantes de 0 a 17 anos, com centro no Brasil; concluído e publicado (Locatelli, JAMA 2021).
- AHOD1331 (NCT02166463) e S1826 (NCT03907488): fase 3 no Hodgkin (brentuximabe; nivolumabe), publicados (Castellino 2022; Herrera 2024).
- HR-NBL2/SIOPEN (NCT04221035; EudraCT 2019-001068-31): fase 3; 800 participantes até 21 anos, neuroblastoma de alto risco, dinutuximabe beta em todos os braços; sobrevida livre de eventos; recrutando.
- CAR-T pediátrica: o CASSIOPEIA (NCT03876769, 1ª linha na LLA B com DRM positiva) é fase 2; não se localizou estudo de fase 3.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Febre (axilar ≥ 37,5 °C) após CAR-T (sobretudo nos primeiros 30 dias), durante ou após blinatumomabe ou em quimioterapia (ver Neutropenia febril na criança com câncer).
- Hipotensão, extremidades frias, enchimento capilar > 2 s, taquicardia desproporcional, SpO2 < 94%, desconforto respiratório.
- Qualquer alteração neurológica: confusão, sonolência, agitação, tremor, afasia, letra diferente, cefaleia intensa, convulsão.
- Icterícia, dor no hipocôndrio direito, ascite após conjugados; diarreia com sangue, dispneia, vômitos com prostração, poliúria sob anti-PD-1.
- Anafilaxia; varicela, zóster ou sarampo, ou exposição a eles (IGHAVZ até 96 h pelo CRIE).
Como encaminhar: ligar para o centro antes de sair; não dar corticoide sem orientação; no choque, cristaloide 10–20 mL/kg com reavaliação (ver Sepse e choque séptico na criança) e SAMU (192); oxigênio para manter SpO2 entre 94% e 98%; crise ≥ 5 min pelo Protocolo de Estado de Mal Convulsivo (midazolam IN 0,2 mg/kg, máx. 10 mg); nada pelo reto; antitérmico só para conforto (paracetamol 10–15 mg/kg/dose, máx. 75 mg/kg/dia — SBP; sem AINE nem dipirona na neutropenia, como no documento Neutropenia febril); relatório com medicamento, data da infusão, último hemograma e contato do centro.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "Depois da CAR-T, fiquem perto do hospital pelo tempo que a equipe pedir e meçam a temperatura várias vezes ao dia."
- "Axila 37,5 °C ou mais: liguem para a equipe e vão ao hospital onde ela se trata, sem esperar o antitérmico."
- "Observem se ela fala, escreve e responde como sempre: mudança na fala ou na letra, sonolência, tremor ou convulsão são urgência."
- "Nenhuma vacina sem falar com a equipe; irmãos e adultos da casa vacinados, inclusive contra a gripe."
- Pronto-socorro se: febre, falta de ar, lábios roxos, desmaio, confusão, convulsão, olhos amarelos, barriga inchando, diarreia com sangue, dor que não cede, manchas roxas, contato com catapora ou sarampo.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Versão consultada | DC nº 166 (Linfomas), 02/09/2024; DC nº 207 (Neuroblastoma), 20/05/2025 | Portaria Conjunta nº 33, 20/12/2023; Portaria SECTICS nº 7, 09/02/2025 | Sem posição específica localizada | TA975, 15/05/2024; TA538, 22/08/2018 | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Boston Children's, página do Kymriah | Segue o NICE |
| LLA B recidivada | Sem documento sobre o tratamento | Blinatumomabe na 1ª recidiva até 18 anos | — | Tisagenlecleucel até 25 anos | — | Sem posição específica localizada | CAR-T até 25 anos | Segue o NICE |
| Hodgkin | Recidiva: brentuximabe, anti-PD-1, transplante | Sem PCDT pediátrico | — | — | — | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Neuroblastoma de alto risco | Anti-GD2 e DFMO | Dinutuximabe beta incorporado | — | Dinutuximabe beta ≥ 12 meses | — | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| SLC e ICANS | Sem posição específica localizada | Hospitalar; interromper na SLC | — | Centros qualificados | — | Sem posição específica localizada | Internação e proximidade por 1 mês | Segue o NICE |
| Vacinas | Remete ao CRIE | Vivas ≥ 4 semanas antes; ≥ 6 meses após rituximabe | — | — | — | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
Leitura: as referências convergem em que a imunoterapia é decidida e aplicada no centro, em que SLC, ICANS e infecção são emergências hospitalares, em suspender vacinas vivas e em graduar pela ASTCT (2019), com o CAPD abaixo de 12 anos. As diferenças são de registro e acesso: inotuzumabe, brentuximabe e rituximabe têm indicação pediátrica na FDA (inotuzumabe e rituximabe também na EMA), mas não na bula brasileira; o SUS incorporou só o blinatumomabe (1ª recidiva) e o dinutuximabe beta; o NICE recomenda a CAR-T, que no Brasil depende da saúde suplementar, da via judicial ou dos estudos nacionais. A SBP não tem documento sobre CAR-T nem sobre SLC. Nas vacinas, a bula do tisagenlecleucel (vivas ≥ 6 semanas antes) é mais restritiva que o CRIE (≥ 4 semanas). O site segue a SBP no papel do pediatra e no reconhecimento, o Ministério da Saúde no acesso, nas doses do blinatumomabe e nas vacinas, e a ASTCT na graduação, por falta de posição da SBP e do MS; nas vacinas da CAR-T vale a data mais restritiva, definida com o centro.
- Febre (axilar ≥ 37,5 °C) após CAR-T ou blinatumomabe é pronto-socorro, de preferência no centro que aplicou; não espere o antitérmico.
- Fala, escrita, sonolência ou tremor diferentes nas semanas após CAR-T são neurotoxicidade (ICANS) até prova em contrário.
- Ao ligar para o centro, descreva febre, pressão, oxigênio, nível de consciência e convulsão: é a graduação ASTCT.
- Sem vacinas vivas; após rituximabe, só depois de 6 meses; após CAR-T, revacinação pelo centro e pelo CRIE; conviventes vacinados.
- Infecções repetidas após CAR-T ou rituximabe: dosar IgG e avisar o centro.
- SUS: blinatumomabe na 1ª recidiva de alto risco e dinutuximabe beta no neuroblastoma de alto risco; CAR-T nacional em estudo (CARTHEDRALL).
Veja também, nesta Biblioteca: O que são as imunoterapias e como preparar a criança, Imunoglobulinas em pediatria e Imunoterapias em estudo (fase 3 e 4) (nesta área); Leucemia linfoblástica aguda, Leucemia mieloide aguda, Linfoma de Hodgkin, Linfoma não Hodgkin, Massas abdominais na criança — neuroblastoma e tumor de Wilms, Neutropenia febril na criança com câncer, Emergências oncológicas e Seguimento do sobrevivente do câncer infantil (Oncologia); Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE) (Imunizações); Sepse e choque séptico na criança e Protocolo de Estado de Mal Convulsivo (Urgências).
8.Fontes
- Ministério da Saúde. Protocolo de Uso do Blinatumomabe (LLA B pediátrica, 1ª recidiva medular de alto risco), Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 33, 20/12/2023. gov.br/saude; Conitec, consulta pública nº 90, 2022. PDF
- Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 7, 09/02/2025 (betadinutuximabe). gov.br/conitec
- Anvisa. Kymriah, 23/02/2022. gov.br/anvisa; Blincyto, nova indicação, 05/11/2024. gov.br/anvisa; Danyelza, 22/05/2023. gov.br/anvisa
- Bulas brasileiras: Keytruda, Mylotarg, Adcetris e MabThera (consultaremedios.com.br, 10/2026); Besponsa, 04/2022. bulas.med.br
- FDA. Kymriah, prescribing information, 06/2025. fda.gov; inotuzumabe pediátrico, 03/2024. fda.gov
- EMA. Qarziba, product information. ema.europa.eu; Besponsa, folheto UE. pfizer
- Lee DW et al. ASTCT consensus grading. Biol Blood Marrow Transplant 2019;25:625-38. digitalcommons.wustl.edu; MD Anderson. CARTOX pediátrico, 03/2021. PDF
- SBP, DC de Oncologia. Linfomas (nº 166), 02/09/2024. PDF; Neuroblastoma (nº 207), 20/05/2025. PDF
- NICE. TA975, 15/05/2024. nice.org.uk; TA538, 22/08/2018. nice.org.uk
- Boston Children's/Dana-Farber. Kymriah. childrenshospital.org
- Hemocentro de Ribeirão Preto. CARTHEDRALL, 12/12/2024. hemocentro.fmrp.usp.br; ABRALE, 03/2023. revista.abrale.org.br
- Ensaios: Locatelli 2021 PubMed; Gupta 2025 PubMed; Minard-Colin 2020 PubMed; Castellino 2022 PubMed; Herrera 2024 PubMed; Gamis 2014 PubMed
- ClinicalTrials.gov (03/10/2026): NCT03914625, NCT03959085, NCT02393859, NCT02166463, NCT03907488, NCT04221035, NCT03876769, NCT06101381, NCT05705570; EU CTR 2014-002476-92