Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF
A cólica clássica só aparece no escolar maior e no adolescente; abaixo de 5 anos predominam dor abdominal mal localizada, hematúria (em até 90%), sintomas urinários e infecção urinária, e no lactente, irritabilidade confundida com cólica. A hipercalciúria idiopática é a alteração metabólica mais comum e causa, mesmo sem cálculo, hematúria isolada, disúria e dor abdominal recorrente: relação cálcio/creatinina acima do limite para a idade (> 0,21 mg/mg a partir de 2 anos) ou calciúria ≥ 4 mg/kg/dia, confirmada em duas amostras. A ultrassonografia é o primeiro exame; tomografia de baixa dose, sem contraste, só se a dúvida persistir. Dor controlada com analgesia oral, sem febre e bebendo bem permite tratamento em casa com reavaliação em 24–48 h (🟡). Febre com cálculo obstrutivo, rim único obstruído, anúria, dor refratária ou vômitos incoercíveis = pronto-socorro (🔴). Todo primeiro cálculo na criança exige investigação metabólica e encaminhamento ao nefrologista pediátrico. Prevenção: muita água, menos sal e cálcio da dieta normal para a idade — não restringir.
1.O que é e como se apresenta
Litíase (urolitíase) é a presença de cálculos no trato urinário. Há história familiar em cerca de 79%; cerca de 80% dos cálculos são de cálcio, 10% de estruvita e 9% de ácido úrico (Manual de Uropediatria SBP/SBU 2019). Há alteração metabólica em 30–84% e anomalia do trato urinário em até 30% (AEP 2022); sem tratar a causa, a recorrência é alta.
Quadro clínico por idade (SBP/SBU 2019; AEP 2022):
- Adolescente e escolar maior: cólica típica — dor lombar em crises irradiada para a virilha, agitação, vômitos, hematúria.
- Criança < 5 anos: dor abdominal inespecífica, disúria, enurese, febre, vômitos; a infecção urinária pode ser a primeira manifestação.
- Lactente: irritabilidade confundida com cólica, manipulação dos genitais, retenção urinária.
- Assintomática em 15–20% (SBP 2020).
Hipercalciúria idiopática (HI) — cálcio urinário aumentado com cálcio sérico normal e sem causa secundária; genética, piorada pelo excesso de sal e de proteína animal (AEP 2022). A maioria não tem sintomas; nas sintomáticas: hematúria persistente (a mais comum), disúria, polaciúria ou enurese com urocultura negativa, dor abdominal recorrente (mesmo sem cálculo), infecção urinária de repetição, litíase e osteopenia (AEP 2022).
Relação cálcio/creatinina urinária (amostra de jejum, mg/mg) — hipercalciúria se:
| Idade | SBP/SBU 2019 (adotado) | AEP 2022 |
|---|---|---|
| 0–6 meses | > 0,80 | ≥ 0,80 |
| 6–12 meses | > 0,60 | ≥ 0,60 |
| 1–2 anos | > 0,40 | ≥ 0,50 |
| 2–18 anos | > 0,21 | > 0,21 |
| Urina de 24 h (criança continente) | ≥ 4 mg/kg/dia | > 4 mg/kg/dia |
Confirmar em pelo menos duas amostras (AEP 2022).
Outras causas metabólicas (SBP/SBU 2019; AEP 2022):
- Hipocitratúria — acidose tubular distal, diarreia crônica, excesso de proteína animal, dieta cetogênica; falsamente baixa na infecção urinária.
- Hiperoxalúria — primária (nefrocalcinose, doença renal crônica) ou secundária: doença do íleo, excesso de oxalato ou de vitamina C, dieta pobre em cálcio.
- Cistinúria — autossômica recessiva, 2–10% das litíases infantis; recorrente; investigar os irmãos. Hiperuricosúria — rara (4–8%); pH urinário < 5,5.
- Estruvita — germes produtores de urease (Proteus); cálculo coraliforme.
- Hipercalciúria secundária — hipercalcemia (excesso de vitamina D, hiperparatireoidismo, imobilização), doença de Dent, síndrome de Bartter, acidose tubular distal.
Fatores de risco (SBP/SBU 2019): baixa ingestão de água; dieta rica em sal e ultraprocessados; obesidade; topiramato, furosemida, corticoide, vitamina D em excesso; dieta cetogênica; prematuridade (furosemida: nefrocalcinose); uropatias.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Hipercalciúria idiopática sem cálculo (hematúria isolada, disúria ou dor abdominal recorrente), com pressão arterial, função renal, proteinúria e ultrassonografia normais | Seguimento pelo pediatra: água, menos sal, cálcio normal na dieta; urina e cálcio/creatinina de controle; encaminhar se surgir cálculo, nefrocalcinose ou sintoma persistente |
| 🟡 Moderada | Cólica com dor controlada por analgesia oral, sem febre, bebendo bem, rim contralateral normal, cálculo < 5 mm sem hidronefrose importante; cálculo renal assintomático; nefrocalcinose; litíase recorrente; suspeita de causa genética (cistinúria, hiperoxalúria, acidose tubular) | Casa com analgesia, hidratação e reavaliação em 24–48 h; ultrassonografia, urina e urocultura; encaminhar ao nefrologista pediátrico e ao urologista pediátrico se o cálculo for ureteral, obstrutivo ou ≥ 5 mm — com prioridade na nefrocalcinose, na suspeita genética ou na função renal alterada |
| 🔴 Grave | Febre ou infecção urinária com obstrução ou hidronefrose (pielonefrite obstrutiva); rim único ou transplantado obstruído; obstrução bilateral; anúria ou oligúria; creatinina elevada; dor refratária; vômitos incoercíveis ou desidratação; retenção urinária; sepse; lactente < 3 meses com infecção urinária | Pronto-socorro/hospital com urologia pediátrica: analgesia e hidratação venosas, antibiótico parenteral e desobstrução urgente (cateter duplo J ou nefrostomia) |
Fatores de risco que elevam a gravidade: idade < 1 ano; rim único, transplante, doença renal crônica; uropatia; cálculo coraliforme, ≥ 10 mm, bilateral ou de cistina; infecção urinária associada (SBP/SBU 2019); imunossupressão.
3.Diagnóstico no consultório
Anamnese: dor, hematúria, sintomas miccionais, febre; quanto de água bebe, sal, ultraprocessados; vitamina D, cálcio, vitamina C, topiramato, dieta cetogênica; prematuridade; história familiar. Exame: pressão arterial, crescimento (baixa estatura sugere tubulopatia), hidratação, punho-percussão lombar, massa, bexiga, genitália.
Fase aguda (SBP/SBU 2019):
- Urina tipo 1 (cristais — a cistina hexagonal é sempre patológica), Gram de gota, urocultura, ureia e creatinina; se pielonefrite, hemograma, PCR e hemocultura.
- Ultrassonografia de rins e vias urinárias — primeiro exame (SBP/SBU 2019; SBP 2020; AEP 2022; NICE 2019): cálculos a partir de 2 mm, hidronefrose, nefrocalcinose; vê mal o ureter médio. Radiografia simples complementa.
- Tomografia de baixa dose, sem contraste, apenas se a ultrassonografia for inconclusiva com suspeita alta, ou para planejar a cirurgia (SBP 2020; NICE 2019). Urografia excretora não é exame da fase aguda (SBP/SBU 2019).
Investigação metabólica — sempre após o primeiro cálculo (SBP/SBU 2019; AEP 2022), fora da fase aguda, em dieta habitual e sem infecção:
- Sangue: creatinina, cálcio, fósforo, magnésio, ácido úrico, eletrólitos, gasometria venosa; PTH e 25(OH)D se cálcio alto.
- Urina de 24 h (duas coletas): volume, creatinina, cálcio, ácido úrico, citrato, oxalato, magnésio, sódio, potássio e cistina; sem controle esfincteriano, amostras de jejum (pH e relações com a creatinina).
- Análise do cálculo sempre que eliminado ou retirado — coar a urina em filtro de papel de café (SBP/SBU 2019).
- Alterado (SBP/SBU 2019): cálcio ≥ 4 mg/kg/dia; citrato < 400 mg/g de creatinina; oxalato > 50 e ácido úrico > 815 mg/1,73 m²/dia (a tabela do Manual traz "ácido cítrico", provável erro de impressão); volume < 1 mL/kg/h; sódio/potássio > 3,5.
Diagnóstico diferencial que não pode passar: apendicite, invaginação, torção de testículo ou ovário, estenose da JUP, glomerulonefrite, tumor de Wilms, gravidez ectópica. Hipercalciúria com cálcio sérico alto não é idiopática.
4.Tratamento e seguimento
Pediatra: dor, infecção, imagem, urina, prevenção e encaminhamento de todo primeiro cálculo. Especialista: estudo metabólico, citrato, tiazídico, tansulosina e cirurgia (urologista pediátrico).
Cólica renal:
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação e referência |
|---|---|---|---|---|
| Dipirona | 15 mg/kg/dose | 6/6 h (máx. 4 doses/dia) | Enquanto houver dor | Não usar < 3 meses ou < 5 kg (bula); "1 gota/kg" leva a superdosagem; padrão do site (decisão de 30/09/2026); SBP 2024 e MS: 15–25 mg/kg |
| Paracetamol | 10–15 mg/kg/dose | 4–6 h (máx. 5 doses/dia) | Reavaliar em 48–72 h | Máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia; máx. 500 mg/dose < 12 anos (bula; padrão do site) |
| Ibuprofeno | 5–10 mg/kg/dose | 6–8 h | Enquanto houver dor | A partir de 6 meses (padrão do site; documento Infecção urinária); não usar com desidratação, vômitos persistentes, oligúria ou creatinina elevada |
| Hioscina (butilbrometo de escopolamina) | 0,5 mg/kg/dose, máx. 10 mg (SBP/SBU 2019) | 6–8 h | Enquanto houver cólica | Só associada ao analgésico; bula (Buscopan® gotas): 1–6 anos 0,3–0,5 mg/kg/dose 3x/dia; NICE não recomenda |
| Morfina | IV 0,05–0,1 mg/kg/dose (SBP, Diretriz nº 177/2024), máx. 10 mg/dose (MS, Protocolo SAMU 192) | 4/4 h | Dor refratária | Só no hospital, monitorizada; o Manual SBP/SBU 2019 citava 0,1–0,2 mg/kg SC ou VO (máx. 15 mg); adotada a dose da diretriz de dor da SBP (padrão do site para morfina IV) |
| Tansulosina | 0,4 mg/dia (> 4 anos); 0,2 mg/dia em ≤ 4 anos (esquema pediátrico citado por Tasian et al., J Urol 2014) | 1x/dia | Até a eliminação | Ureteral distal ≤ 10 mm, indicação do urologista pediátrico; fora da bula (NICE 2019: sem autorização para esta indicação) |
- Não alternar analgésicos. Vômitos: ondansetrona em dose única, nas doses do documento Diarreia aguda e desidratação (MS/SBP: 6 meses–2 anos 2 mg; 2–10 anos 4 mg; > 10 anos 8 mg); dimenidrinato, citado no Manual SBP/SBU, não é usado (anti-histamínico sedativo, padrão do site). Vômitos que impedem a hidratação oral = 🔴. Hidratação oral normal, sem forçar volumes na obstrução (SBP/SBU 2019).
Expulsão espontânea: provável nos cálculos < 5 mm (AEP 2022: < 4 mm no escolar, 5–7 mm no adolescente; > 7 mm pouco provável). Enquanto desce: analgesia, água, coar a urina, urocultura e ultrassonografia seriada (SBP/SBU 2019). Cálculo que não progride, obstrui ou volta a doer: urologista pediátrico (litotripsia, ureteroscopia ou percutânea).
Prevenção — toda criança com cálculo ou hipercalciúria:
- Água em abundância, inclusive na escola, até a urina ficar clara: pelo menos 30–40 mL/kg/dia de líquidos, distribuídos nas 24 h, sem exceder 2 L (SBP/SBU 2019); AEP 2022: 2–3 L/1,73 m² ou 30 mL/kg/dia, > 2,5 L no adolescente; NICE: 1–2 L/dia.
- Menos sal — o fator dietético mais ligado à calciúria (salgadinhos, embutidos, enlatados).
- Cálcio da dieta normal para a idade — NÃO restringir: a restrição não reduz a recorrência, aumenta a absorção de oxalato e prejudica o osso (AEP 2022; NICE 2019: 350–1.000 mg/dia na criança; SBP/SBU 2019: a baixa ingestão de cálcio favorece a hiperoxalúria). Também não exagerar nos laticínios.
- Proteína sem excesso, mais frutas e verduras, menos refrigerantes. Vitamina D só na dose do site (SBP 2024: 400 UI/dia no 1º ano; 600 UI/dia de 1 a 18 anos), nada de doses altas manipuladas.
- Topiramato e dieta cetogênica: avisar o neuropediatra; a Johns Hopkins usa citrato de potássio empírico na dieta cetogênica (McNally et al., Pediatrics 2009), decisão da equipe especializada.
Medicamentos preventivos — prescrição do nefrologista pediátrico (a SBP não traz dose; o site segue a AEP 2022):
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação e referência |
|---|---|---|---|---|
| Citrato de potássio | 1–2 mEq/kg/dia | 2–3 tomas, nas refeições | Prolongada | Hipocitratúria, hipercalciúria com litíase, hiperuricosúria, cistinúria; pH urinário ≤ 6,5 (AEP 2022) |
| Hidroclorotiazida | 1,5–2,5 mg/kg/dia (AEP 2022) | 1–2x/dia | Prolongada | Hipercalciúria com litíase ou osteopenia; dieta pobre em sal; monitorar potássio e sódio; fotoproteção (AEP 2022). Sem dose na SBP e no MS; a dose anti-hipertensiva do site é outra (documento Hipertensão: 1 mg/kg/dia, máx. 2 mg/kg/dia, até 37,5 mg) |
- Normalizar a calciúria não é objetivo universal (AEP 2022).
Não fazer: restringir cálcio; ibuprofeno na criança desidratada ou oligúrica; alta com febre e hidronefrose; tomografia antes da ultrassonografia; dispensar a investigação porque o cálculo saiu.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Febre com cálculo obstrutivo ou hidronefrose — pielonefrite obstrutiva, emergência com risco de sepse que exige desobstrução rápida (SBP/SBU 2019).
- Rim único ou transplantado obstruído; obstrução bilateral; anúria, oligúria ou creatinina elevada.
- Dor refratária à analgesia oral; vômitos incoercíveis ou desidratação; retenção urinária; lactente < 3 meses com infecção urinária.
Como encaminhar
- Analgesia antes da remoção (dipirona ou paracetamol; sem ibuprofeno se desidratação ou oligúria).
- Com febre: colher urocultura sem atrasar e seguir o documento Infecção urinária para a primeira dose de antibiótico se a remoção for demorada.
- Acesso venoso se possível; corrigir a desidratação sem hiper-hidratar a criança obstruída.
- Sepse ou choque: oxigênio para manter SpO2 ≥ 94%, expansão com cristaloide e SAMU (192).
- Contato prévio com serviço que tenha urologia pediátrica.
- Relatório: evolução, diurese, analgésicos, exames e imagens.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "A água é o principal remédio: seu filho deve beber água o dia todo, inclusive na escola, até a urina ficar clarinha."
- "Diminua o sal e os ultraprocessados. Não corte o leite e os derivados: o cálcio da comida protege os ossos, e cortá-lo aumenta o risco de novas pedras."
- "Coe a urina num filtro de papel e guarde a pedra; mesmo que ela saia, os exames são necessários. Não dê vitaminas ou suplementos por conta própria."
- Procurar o pronto-socorro se houver: febre ou prostração; dor que não passa com o remédio; vômitos que não deixam beber; pouca ou nenhuma urina; dificuldade para urinar; bebê muito irritado ou abatido.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Hipercalciúria | Ca/Cr > 0,80; 0,60; 0,40; 0,21 por idade; ≥ 4 mg/kg/dia | Sem posição específica localizada | Sem diretriz específica localizada | Sem valores pediátricos | Igual, mas 0,50 de 1 a 2 anos | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Imagem | Ultrassonografia; tomografia se inconclusiva | Sem posição específica localizada | Sem diretriz específica localizada | Ultrassonografia urgente; tomografia de baixa dose se dúvida | Ultrassonografia; tomografia se inconclusiva | Sem posição específica localizada | Ultrassonografia; tomografia se inconclusiva | Segue o NICE |
| Analgesia e expulsão | Analgésico, antiespasmódico; tansulosina citada | Sem posição específica localizada | Sem diretriz específica localizada | Anti-inflamatório 1ª linha; sem antiespasmódico; alfabloqueador < 10 mm | Hospitalizar a maioria; expulsão < 4–7 mm | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Segue o NICE |
| Estudo metabólico | Sempre; encaminhar ao especialista | Sem posição específica localizada | Sem diretriz específica localizada | Considerar nefrologista ou urologista pediátrico | Sempre, repetido duas vezes | Sem posição específica localizada | Urina, sangue e análise do cálculo | Segue o NICE |
| Prevenção | Água ≥ 30–40 mL/kg (até 2 L); menos sal; pouco cálcio eleva o oxalato | Sem posição específica localizada | Sem diretriz específica localizada | Água 1–2 L; sal 2–6 g; cálcio normal; citrato na recorrência | Água 2–3 L/1,73 m²; citrato; tiazídico | Citrato empírico na dieta cetogênica | Água, menos sal, não restringir cálcio | Segue o NICE |
Leitura: SBP (SBP/SBU 2019), AEP (2022), NICE (NG118, 2019) e Boston Children's (Harvard) convergem: apresentação atípica na criança pequena, ultrassonografia antes da tomografia, estudo metabólico com o especialista, água e pouco sal; AEP e NICE dizem explicitamente para não restringir o cálcio, e a SBP lembra que a dieta pobre em cálcio favorece a hiperoxalúria. Divergências: cálcio/creatinina de 1 a 2 anos (0,40 na SBP; 0,50 na AEP); meta de água (30–40 mL/kg/dia, até 2 L, na SBP; > 2,5 L no adolescente na AEP; 1–2 L no NICE); analgesia (o NICE prioriza o anti-inflamatório e desaconselha o antiespasmódico que a SBP inclui; o site segue a SBP na hioscina e não usa o dimenidrinato, sedativo); citrato (NICE só na recorrência; Johns Hopkins empírico na dieta cetogênica); tiazídico (dose na AEP, sem indicação pediátrica no NICE); e local da cólica (a AEP hospitaliza a maioria; a SBP pondera dor, tolerância oral e hidratação). MS e AAP: sem documento pediátrico localizado; Oxford e Cambridge seguem o NICE. O site adota a posição da SBP, com os analgésicos do padrão do site e, nos preventivos (sem dose na SBP), as doses da AEP 2022.
- Na criança pequena, cálculo aparece como hematúria, infecção urinária, dor abdominal vaga ou irritabilidade — pense em litíase e peça ultrassonografia.
- Hipercalciúria idiopática explica hematúria isolada, disúria com urocultura negativa e dor abdominal recorrente: cálcio/creatinina por idade (> 0,21 a partir de 2 anos) ou ≥ 4 mg/kg/dia, em duas amostras.
- Cólica controlada por via oral, sem febre e bebendo bem: casa, com reavaliação em 24–48 h; ibuprofeno só na criança hidratada e com função renal normal.
- Febre com obstrução, rim único obstruído, anúria, dor refratária ou vômitos incoercíveis: pronto-socorro com urologia pediátrica.
- Todo primeiro cálculo exige investigação metabólica e nefrologista pediátrico — mesmo que a pedra tenha saído.
- Água, menos sal, cálcio normal na dieta e nenhuma vitamina D ou suplemento fora das doses recomendadas.
Veja também, nesta Biblioteca: Hematúria, proteinúria e edema, Dor abdominal aguda, Infecção urinária e Diarreia aguda e desidratação (Patologias do consultório); Refluxo Vesicoureteral e ITU em Crianças (Nefrologia e Urologia); Tubulopatias e acidose tubular renal (nesta área); Epilepsias na infância — classificação ILAE e escolha do anticonvulsivante (Neurologia pediátrica); Cálcio, vitamina D e raquitismo (Endocrinologia pediátrica).
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria e Sociedade Brasileira de Urologia. Bresolin NL, Lima GRM. Urolitíase em crianças. Manual de Uropediatria — Guia para pediatras, cap. 23, 2019. PDF
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Urolitíase na criança, 2020. sbp.com.br
- AEP/AENP. Rodrigo Jiménez MD, Sáez-Torres Barroso MC, Vicente Calderón C. Litiasis renal e hipercalciuria idiopática. Protocolos de Nefrología Pediátrica, 2022. PDF
- NICE. Renal and ureteric stones: assessment and management (NG118), 2019 — texto integral hospedado pela British Association of Urological Surgeons. PDF
- Johns Hopkins. McNally MA et al. Empiric use of potassium citrate reduces kidney-stone incidence with the ketogenic diet. Pediatrics, 2009. pure.johnshopkins.edu
- Harvard. Boston Children's Hospital. Kidney stones. childrenshospital.org
- Tasian GE et al. Tamsulosin and the spontaneous passage of ureteral stones in children: a multi-institutional cohort study. J Urol, 2014. PMC