Em junho de 2026 o PRN-SBP publicou dois documentos novos — Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas e Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto — substituindo as Diretrizes de maio de 2022. Esta revisão organiza o que permaneceu, o que mudou e por quê.
1.Por que uma nova diretriz
As Diretrizes 2026 incorporam os consensos científicos do ILCOR publicados entre 2021 e 2025, as diretrizes norte-americana (AHA/AAP-NRP) e europeia (ERC) e, de forma inédita, uma base de dados nacional robusta: a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais (RBPN, 2014-2024), com 12.870 nascidos vivos de 23-31 semanas, que informa a frequência de massagem cardíaca (6%), o uso de CPAP em sala de parto (39% dos RN de 23-27 semanas; 71% dos de 28-31 semanas) e a sobrevida por idade gestacional.
Três evidências novas puxaram as principais mudanças: o ensaio TORPIDO 30/60 (2025; 1.469 RN de 23-28 semanas) sobre a FiO₂ inicial da VPP; as metanálises de dados individuais sobre clampeamento tardio e ordenha do cordão (incluindo o sinal de HPIV grave com ordenha em <28 semanas); e os estudos de curvas de SpO₂ pré-ductal minuto a minuto, que levaram à adoção da tabela de alvos usada pelo NRP e pela ERC.
2.Resumo executivo: as 10 mudanças principais
- Clampeamento ≥60 segundos para todo RN com boa vitalidade, inclusive prematuros (antes ≥30 s no <34 semanas).
- Estímulo tátil dorsal por ~15 s com o cordão intacto no RN que não respira; se responder, clampeamento tardio; se não, clampear e ventilar.
- Ordenha do cordão passa a ser uma opção no RN ≥28 semanas que não respira após o estímulo (3 compressões de ~20 cm em 2 s cada, clampeamento em <30 s). Contraindicada em <28 semanas.
- Pele a pele no prematuro moderado (32⁰/⁷-33⁶/⁷ semanas) com boa vitalidade, sob monitorização contínua.
- SpO₂ alvo minuto a minuto: 65-70% (2 min), 70-75% (3), 75-80% (4), 80-85% (5), 85-95% (10).
- FiO₂ inicial da VPP no <34 semanas: 60% (antes 30%); no ≥34 semanas segue 21%. Titular ±20% a cada 30 s com blender.
- VMM-Peça-T preferencial também no RN ≥34 semanas (antes equivalente ao balão); balão sempre pronto como reserva. Frequência da VPP 30-60 mpm.
- Máscara laríngea valorizada no ≥34 semanas (pode ser primeira opção ou alternativa à máscara facial); não indicada em <34 semanas.
- Adrenalina com dose prática única: 0,02 mg/kg IV/IO (0,2 mL/kg da diluição 1:10.000) e 0,1 mg/kg traqueal (1 mL/kg), uso traqueal único; via intraóssea formalizada como alternativa.
- Processo e ética: briefing obrigatório com roteiro, debriefing estruturado, indicadores de qualidade; zona cinzenta de 22-23 semanas; interrupção discutida ao redor de 20 min; presença da família admitida.
3.Preparo: equipe, material e briefing
Em todo parto deve estar presente ao menos um profissional treinado; em partos de risco e em todo nascimento <34 semanas, 2-3 profissionais com dedicação exclusiva ao RN, incluindo pediatra (de preferência neonatologista) apto a intubar, indicar massagem e medicações. Em gestações múltiplas, uma equipe e um conjunto de material por criança (a gestação múltipla aumenta 13 vezes a chance de nascimento <32 semanas).
O briefing deixa de ser sugestão e passa a ser a primeira ação da equipe perinatal: anamnese materna, preparo de ambiente e equipamentos com lista de verificação padronizada (Anexo 4 da diretriz), divisão de funções e definição do líder, e — no prematuro — decisão prévia sobre estímulo tátil, manejo do cordão e medidas térmicas antes do clampeamento. A diretriz fornece um roteiro prático de briefing e debriefing (Anexo 5). Sala a 23-25 °C, portas fechadas, fonte de calor radiante ligada antes do nascimento, parturiente normotérmica.
4.Clampeamento e ordenha do cordão
A fisiologia orienta a mudança: é hemodinamicamente importante que a respiração comece antes do clampeamento. Se o cordão é clampeado antes da aeração pulmonar, interrompe-se o retorno venoso placentário sem que o fluxo pulmonar tenha sido estabelecido, criando um estado de baixo fluxo sistêmico.
RN com boa vitalidade (respira/chora e tônus em flexão)
Clampear o cordão no mínimo 60 segundos após o nascimento, qualquer que seja a idade gestacional. Metanálise de dados individuais (20 ensaios, 3.260 RN <37 semanas) mostra redução de 32% na chance de morte com clampeamento ≥60 s (OR 0,68; IC 95% 0,51-0,91). Enquanto se aguarda, o RN fica sobre a mãe; no prematuro, seca-se apenas a cabeça, cobre-se o corpo com plástico de polietileno estéril e, por cima, campo aquecido (sem inserir o RN no saco nesse momento).
RN sem boa vitalidade
Fazer estímulo tátil no dorso, delicado, em movimentos circulares, por cerca de 15 segundos, ainda com cordão intacto (em RN <32 semanas, o estímulo reduziu a intubação em 60%). Se o RN começa a respirar, manter o clampeamento ≥60 s. Se não respira, clampear e levar à mesa de reanimação: o manejo do cordão nunca deve atrasar a VPP. Descolamento prematuro de placenta, placenta prévia sangrante e nó verdadeiro de cordão são indicações de clampeamento imediato.
Ordenha do cordão intacto
Para o RN que não inicia respiração após o estímulo, a ordenha é uma opção quando não é possível aguardar 60 s: comprimir cerca de 20 cm do cordão, da placenta em direção ao RN, ao longo de 2 segundos; repetir 3 vezes, deixando o cordão se reencher a cada vez; clampear em seguida (<30 s). No RN ≥34 semanas, a ordenha associou-se a menos suporte cardiorrespiratório, menos encefalopatia moderada/grave e menos hipotermia terapêutica. No prematuro ≥28 semanas, eleva a hemoglobina e reduz transfusão em 31%. É contraindicada em <28 semanas por aumento de HPIV grave (ensaio com 540 RN de 23-31 semanas).
| Situação | Conduta |
|---|---|
| Boa vitalidade, qualquer IG | Clampeamento ≥60 s, RN sobre a mãe com cuidado térmico |
| Sem boa vitalidade → estímulo tátil ~15 s → respirou | Clampeamento ≥60 s |
| Sem boa vitalidade, não respirou, ≥28 semanas (inclui ≥34) | Ordenha (3 × 20 cm / 2 s) e clampeamento <30 s → mesa de reanimação |
| Sem boa vitalidade, não respirou, <28 semanas | Clampeamento <30 s, sem ordenha → mesa de reanimação |
| Interrupção da circulação placentária | Clampeamento imediato |
| Reanimação com cordão intacto (VPP ligado à placenta) | Restrita ao ambiente de pesquisa (VentFirst e outros: sem benefício demonstrado) |
5.Contato pele a pele
No RN ≥34 semanas com boa vitalidade, o contato pele a pele deve começar nos primeiros 10 minutos, sem interrupções, e ser mantido até a transferência: aumenta a temperatura corporal (+0,32 °C), reduz hipoglicemia (−84%) e admissões (−66%); com cobertura plástica adicional, reduz hipotermia em 43%.
O RN de 32⁰/⁷ a 33⁶/⁷ semanas com boa vitalidade pode permanecer em pele a pele com os pais após o clampeamento, desde que haja monitorização contínua obrigatória: temperatura axilar a cada 10 min (alvo 36,5-37,5 °C), permeabilidade de vias aéreas, FC por ausculta precordial, padrão respiratório, tônus e SpO₂ no pulso radial direito. Cabeça seca com touca dupla (plástica + tecido), corpo coberto por plástico e campo aquecido, boca e narinas visíveis. Até 20% dos prematuros moderados apresentam morbidade respiratória — o pediatra deve acompanhar de perto. Todo RN <32 semanas vai direto à mesa de reanimação.
6.Passos iniciais e cuidado térmico
Os passos iniciais continuam a ser executados em no máximo 30 segundos: manter normotermia, assegurar vias aéreas pérvias (pescoço em leve extensão, coxim sob os ombros), colocar os eletrodos do monitor cardíaco e o sensor do oxímetro. No ≥34 semanas, secar cabeça e corpo, desprezar campos úmidos e colocar touca. A aspiração de boca e narinas não é rotina em nenhuma idade gestacional — RN aspirados evoluem com SpO₂ mais baixa; se houver obstrução, sonda 6-8, pressão máxima 80-100 mmHg, boca antes das narinas, sem atingir a hipofaringe.
Prematuro <34 semanas
Hipotermia à admissão aumenta a mortalidade em 55%, DBP em 13%, HPIV em 37%, ROP em 55% e sepse em 32%. Medidas: saco plástico de polietileno (corpo dentro, sem secar, face de fora, retirado apenas na unidade neonatal após estabilização térmica), touca dupla, gases umidificados e aquecidos, temperatura axilar a cada 10 min e colchão térmico químico — sugerido no texto principal para IG <30 semanas (o anexo e a lista de material mantêm a redação "<1000 g"), com limite de 40 °C e um campo de algodão entre colchão e RN. Evitar temperatura axilar >38 °C, que agrava a lesão cerebral; no ≥34 semanas asfixiado, não desligar a fonte de calor na sala de parto para "iniciar hipotermia".
7.FC, respiração e SpO₂ alvo
A FC continua sendo o principal parâmetro de decisão. A primeira avaliação é por ausculta precordial (6 s × 10), com o valor dito em voz alta, enquanto se posicionam os eletrodos. O monitor cardíaco é recomendado para todo RN <34 semanas levado à mesa e sempre que houver VPP: palpação do cordão e ausculta subestimam a FC em 15-25 bpm; a oximetria é mais lenta. Eletrodos convencionais (mamilo direito, mamilo esquerdo, flanco direito) ou alternativa prática (um em cada braço e um na coxa); os eletrodos secos em tiara torácica diferem em média 3,8 bpm do convencional. FC adequada: ≥100 bpm.
A respiração é avaliada pela expansão torácica e pelo choro; a frequência respiratória não entra na decisão inicial. Apneia, respiração irregular ou gasping indicam VPP. Volume corrente ideal na VPP é de 6-8 mL/kg; acima disso, a lesão pulmonar começa nos 2 primeiros minutos. Ainda assim, monitores de função respiratória e detectores de CO₂ exalado não têm recomendação para monitorar a ventilação na prática clínica.
| Minutos após o nascimento | SpO₂ alvo | Referência 2022 (para comparação) |
|---|---|---|
| 2 | 65-70% | Até 5 min: 70-80% |
| 3 | 70-75% | |
| 4 | 75-80% | |
| 5 | 80-85% | |
| 10 | 85-95% | 5-10 min: 80-90%; >10 min: 85-95% |
A leitura confiável demora 1-2 minutos; aos 2 minutos o oxímetro não exibe valor em 28% dos prematuros (9% aos 3 minutos). RN de menor IG e nascidos de cesárea atingem os alvos mais lentamente. A falha em atingir SpO₂ ≥80% aos 5 minutos associa-se consistentemente a maior risco de morte e lesão cerebral no prematuro.
8.CPAP no prematuro
Indicado no RN <34 semanas com FC ≥100 bpm e respiração espontânea, mas com desconforto respiratório e/ou SpO₂ abaixo do alvo após os passos iniciais. Reduz morte ou DBP em 11% vs intubação em RN de 24-30 semanas (NNT 20 para sobrevida sem DBP) e é ainda mais eficaz quando iniciado com pressão mínima de 5 cmH₂O.
Aplicar com VMM-Peça-T (ou CPAP de bolhas/ventilador), fluxo ~10 L/min, pressão 5-6 cmH₂O, gases aquecidos e umidificados, O₂ titulado pela SpO₂. Interface habitual é a máscara facial, com atenção à região nasotrigeminal (reflexo trigêmeo-cardíaco: bradicardia, apneia, fechamento de glote); a máscara nasal mostrou possível vantagem (58% sem necessidade de VPP vs 39%). Não é possível fornecer CPAP com balão autoinflável, mesmo com válvula de PEEP. Se prolongado, considerar sonda orogástrica.
Estudos observacionais mostram risco de pneumotórax 5,5 vezes maior com CPAP em sala de parto no RN ≥35 semanas; usar com critério e apenas com indicação clara.
Surfactante: continua sem indicação em sala de parto; a técnica minimamente invasiva (LISA) na sala de parto está em investigação. Indicar após a estabilização, preferencialmente nas primeiras 2 horas, conforme evolução.
9.VPP: oxigênio, equipamento e interfaces
A VPP segue como o procedimento mais importante da reanimação, indicada se apneia, respiração irregular e/ou FC <100 bpm, e deve começar nos primeiros 60 segundos (Minuto de Ouro) — cada 30 s de atraso aumenta em 16% o risco de morte ou morbidade. Praticamente todo RN <28 semanas necessita CPAP ou VPP.
Concentração inicial de O₂
| Idade gestacional | 2022 | 2026 | Titulação |
|---|---|---|---|
| ≥34 semanas | 21% | 21% — "não iniciar a VPP com O₂ a 100%" | Se SpO₂ fora do alvo, aumentar ou diminuir 20% a cada 30 s (atraso médio de 30 s entre o blender e o RN). Blender O₂/ar obrigatório. |
| <34 semanas | 30% | 60% |
A base é o ensaio TORPIDO 30/60: FiO₂ 0,60 vs 0,30 em RN de 23-28 semanas não alterou o desfecho primário (morte ou lesão cerebral: 47% vs 48%), mas o grupo 0,60 atingiu com mais frequência SpO₂ alvo e FC ≥100 bpm aos 5 minutos, teve menos hipóxia/bradicardia e precisou menos de massagem e adrenalina. A metanálise em rede NETMOTION (1.055 RN <32 semanas) sugeriu menor mortalidade com FiO₂ alta vs baixa. A SBP ressalva que o HiLo trial (0,30 vs 0,60, desfecho neurodesenvolvimento aos 18-24 meses) está em andamento e pode modificar a recomendação.
Equipamento
O VMM-Peça-T (controlado a fluxo, limitado a pressão; requer gás comprimido) passa a ser o equipamento de escolha em todas as idades gestacionais, com o balão autoinflável sempre montado e pronto como reserva. Ele oferece Pinsp constante, PEEP/CPAP confiáveis e FiO₂ intermediária pelo blender. Metanálises: menos intubação em sala de parto, menos ventilação mecânica, menos surfactante e menos DBP, sem mais pneumotórax; em 1.962 RN brasileiros de 23-33 semanas, mais sobrevida sem DBP. O balão autoinflável tem Pinsp variável, PEEP não confiável e FiO₂ imprevisível.
Parâmetros: limite de pressão 30-40 cmH₂O, Pinsp ~20-25 cmH₂O (reajustar após 3-5 ventilações para expansão torácica leve e ausculta), PEEP 5-6 cmH₂O, frequência 30-60 mpm ("ocluuui/solta/solta" na peça-T; "aperta/solta/solta" no balão). O objetivo é criar e manter a capacidade residual funcional com volume corrente adequado, minimizando a lesão pulmonar.
Interfaces
Máscara facial: cobrir ponta do queixo, boca e nariz; técnica em "C" e "E"; evitar pressão excessiva. No prematuro, o escape pode chegar a 70% do volume e não é percebido por quem ventila — daí a importância de rever técnica antes de aumentar pressão ou O₂.
Máscara laríngea (nº 1, para 2-5 kg): no RN ≥34 semanas pode ser usada como primeira opção ou como alternativa quando a máscara facial é inefetiva, com inserção em ~15 s após treinamento mínimo; reduz a falha da VPP em 76% e a intubação em 66%. Em <34 semanas, sua eficácia e segurança não são conhecidas, e não é indicada. Cânula traqueal em posição faríngea (supraglótica) é contraindicada.
10.Intubação traqueal
Cerca de 1% dos RN a termo é intubado. Indicações: VPP com máscara inefetiva após correção da técnica, VPP prolongada, necessidade de massagem cardíaca, aspiração traqueal de mecônio comprovadamente obstrutivo e suspeita de hérnia diafragmática. É ato médico. A diretriz aceita o videolaringoscópio como alternativa (sucesso na primeira tentativa RR 1,43, sobretudo para menos experientes), com o laringoscópio convencional sempre disponível.
| Idade gestacional / peso | Cânula (DI) | Lâmina |
|---|---|---|
| <28 semanas / <1000 g | 2,5 mm | 00 ou 0 |
| 28-34 semanas / 1000-2000 g | 3,0 mm | 0 |
| 35-38 semanas / 2000-3000 g | 3,5 mm | 1 |
| >38 semanas / >3000 g | 3,5-4,0 mm | 1 |
A confirmação clínica da posição tem baixa acurácia e pode levar 30-60 s; o detector colorimétrico de CO₂ exalado (entre o conector da cânula e o VMM) confirma em menos de 10 s e é recomendado — lembrando o falso-negativo quando não há fluxo pulmonar (débito cardíaco muito baixo).
11.Massagem cardíaca
Indicada se a FC permanece <60 bpm após 30 segundos de VPP com técnica adequada, sempre acompanhada de VPP por cânula traqueal com O₂ a 100%. Técnica dos dois polegares no terço inferior do esterno, comprimindo 1/3 do diâmetro anteroposterior, relação 3:1 (90 compressões + 30 ventilações por minuto), com o reanimador posicionado atrás da cabeça para liberar o acesso umbilical e revezamento a cada 2-5 minutos. Reavaliar após 60 segundos: se FC >60 bpm, suspender compressões e manter VPP; se FC <60 bpm, considerar falha e verificar a sequência do Quadro 6 (posição/obstrução da cânula, pressão insuficiente, O₂ a 100%, técnica da massagem) antes de indicar medicações.
Na RBPN, 6% dos RN de 23-31 semanas recebem massagem (11% dos de 23-27 semanas). A reanimação avançada é fator de risco independente para óbito e sequelas do neurodesenvolvimento — motivo a mais para garantir uma VPP eficaz antes de comprimir o tórax.
12.Medicações e vias de acesso
Indicadas se a FC permanece <60 bpm após VPP por cânula com O₂ 100% e massagem adequada por pelo menos 60 segundos. A via de eleição é a veia umbilical (cateter de lúmen único 3,5 ou 5 F, preenchido com SF, introduzido 3-4 cm até refluir sangue, mantido periférico). A via intraóssea é formalizada como alternativa quando o cateterismo umbilical não é factível (ponto de punção 1 cm abaixo da tuberosidade tibial; experiência escassa no prematuro). Bicarbonato de sódio e naloxona continuam não recomendados.
| Intravascular (EV ou IO) | Endotraqueal | |
|---|---|---|
| Apresentação e diluição | Ampola 1 mg/mL: 1 mL + 9 mL de SF → 0,1 mg/mL (obrigatório diluir para qualquer via) | |
| Dose recomendada (faixa) | 0,01-0,03 mg/kg | 0,05-0,10 mg/kg |
| Dose prática | 0,02 mg/kg = 0,2 mL/kg | 0,10 mg/kg = 1,0 mL/kg |
| Exemplo 1 / 2 / 3 kg | 0,2 / 0,4 / 0,6 mL (seringa de 1 mL) | 1 / 2 / 3 mL (seringa de 5 mL) |
| Administração | Rápida, seguida de flush de 3 mL de SF | No interior da cânula, seguida de VPP — uso único, enquanto se obtém o acesso |
| Repetição | A cada 3-5 minutos, se FC <60 bpm | Não repetir |
| Limite | Doses >0,10 mg/kg são contraindicadas por qualquer via (hipertensão grave, disfunção miocárdica, piora neurológica) | |
A adrenalina diluída pode ser preparada na hora, para o plantão (validade 12-24 h) ou, preferencialmente, pela farmácia em ambiente estéril (~10 dias a 25 °C); proteger da luz e descartar se rosada ou marrom.
Expansor de volume: indicado se não há resposta às demais medidas e há perda sanguínea ou sinais de choque hipovolêmico (palidez, má perfusão, pulsos débeis). SF 0,9% 10 mL/kg em 5-10 minutos; segunda dose de 10 mL/kg apenas após revisar cânula, O₂, técnica de VPP/massagem, acesso e dose da adrenalina. Concentrado de hemácias O negativo na suspeita de anemia fetal grave. Albumina e Ringer lactato não são indicados. Volume em RN asfixiado euvolêmico pode precipitar edema pulmonar e HPIV.
Doses e diluições devem sempre ser confirmadas no protocolo da unidade e nas Diretrizes originais (Anexo 7) antes da prescrição.
13.Líquido amniótico meconial
Mantém-se a orientação de 2016/2022, agora com ênfase maior: não aspirar vias aéreas ao desprendimento do polo cefálico; RN vigoroso fica com a mãe; RN não vigoroso recebe os passos iniciais e VPP com máscara em ar ambiente no primeiro minuto, sem laringoscopia imediata nem aspiração traqueal de rotina. A aspiração traqueal, através da cânula, é feita uma única vez apenas se houver obstrução comprovada que impeça a VPP.
14.Aspectos éticos: viabilidade e interrupção
Quando não iniciar
A diretriz traz a tabela de sobrevida da RBPN e conclui que RN <22 semanas são, em geral, imaturos demais para sobreviver com a tecnologia atual e devem receber conforto e apoio à família; 22 e 23 semanas constituem a "zona cinzenta", em que a decisão de iniciar e de estender a reanimação é compartilhada com a família e depende da infraestrutura; a partir de 24 semanas, a sobrevida significativa e em grande parte sem sequelas graves justifica a reanimação plena. Cerca de metade das gestantes não sabe a data da última menstruação com precisão, o que reforça o valor da ultrassonografia precoce e da decisão individualizada.
| IG (semanas) | Nascidos vivos | Sobrevida hospitalar | Sobrevida sem morbidade maior* |
|---|---|---|---|
| 23 | 567 | 10,1% | 0,7% |
| 24 | 832 | 28,2% | 4,4% |
| 25 | 1.043 | 47,5% | 14,2% |
| 26 | 1.401 | 59,4% | 23,9% |
| 27 | 1.685 | 71,9% | 40,5% |
*DBP, HPIV grave, leucomalácia periventricular e ROP com necessidade de tratamento.
Quando interromper
Apgar zero aos 10 minutos continua sendo forte preditor de morte e morbidade, mas a revisão sistemática do ILCOR mostra que a sobrevida sem sequelas maiores é possível mesmo com Apgar 0-1 aos 10 minutos (28% de sobreviventes em 144 RN <36 semanas; na Suécia, de 3% a 22-24 semanas até 54% a 32-34 semanas). Assim, se o RN requer reanimação avançada continuada apesar de todos os procedimentos corretos, sugere-se discutir a interrupção entre a equipe e com a família ao redor de 20 minutos após o nascimento, individualizando pela IG, anomalias, duração da agressão, adequação da reanimação, desejo da família e recursos para o cuidado pós-reanimação. A presença dos pais durante a reanimação é admitida quando há condições institucionais e desejo da família.
15.Pós-reanimação, transporte e qualidade
Transporte: nunca com FC <100 bpm; em incubadora pré-aquecida a 35-37 °C, mantendo saco plástico, touca dupla e colchão térmico quando indicado; pescoço em leve extensão; suporte respiratório conforme a condição (nada, CPAP ou ventilação) e monitorização de FC, respiração e SpO₂ até a unidade. No RN ≥34 semanas asfixiado, a decisão sobre hipotermia terapêutica é tomada na unidade neonatal nas primeiras 6 horas, não na sala de parto.
Apgar ampliado: 1º e 5º minutos e, se <7 no 5º, a cada 5 min até 20 min, registrado concomitantemente aos procedimentos — nunca usado para indicar conduta. Debriefing estruturado após cada atendimento (roteiro no Anexo 5), comunicação clara com a família e indicadores de qualidade acompanhados em planilha própria (Anexo 8) fecham o ciclo de melhoria contínua.
16.Tabela comparativa 2022 × 2026
| Tema | Diretrizes 2022 | Diretrizes 2026 |
|---|---|---|
| Clampeamento — boa vitalidade | ≥60 s (≥34 sem); ≥30 s (<34 sem) | ≥60 s para todos |
| RN sem boa vitalidade | Estímulo delicado (máx. 2×) e clampeamento imediato | Estímulo dorsal ~15 s com cordão intacto; se respira → ≥60 s; se não → clampear e ventilar |
| Ordenha do cordão | Não recomendada | Opção em ≥28 sem que não respira (3 × 20 cm / 2 s, clampeamento <30 s); contraindicada <28 sem |
| Reanimação com cordão intacto | Não abordada | Restrita à pesquisa |
| Pele a pele no prematuro | Não previsto | 32⁰/⁷-33⁶/⁷ sem com boa vitalidade e monitorização contínua |
| SpO₂ alvo | 70-80% até 5 min; 80-90% de 5-10; 85-95% >10 | 65-70 / 70-75 / 75-80 / 80-85 / 85-95% aos 2 / 3 / 4 / 5 / 10 min |
| FiO₂ inicial — ≥34 sem | 21% | 21% ("nunca 100%") |
| FiO₂ inicial — <34 sem | 30% | 60% |
| Titulação do O₂ | Conforme SpO₂ | ±20% a cada 30 s; blender obrigatório |
| Equipamento de VPP — ≥34 sem | Balão autoinflável ou peça-T | VMM-Peça-T preferencial; balão de reserva |
| Equipamento de VPP — <34 sem | Peça-T preferida | Peça-T; balão só em situação excepcional |
| Frequência da VPP | 40-60 mpm | 30-60 mpm |
| Pressões | Pinsp 20-25, PEEP ~5, máx. 30-40 cmH₂O | Pinsp 20-25, PEEP 5-6, máx. 30-40; reajustar após 3-5 ventilações |
| Máscara laríngea | Alternativa antes da intubação (≥34 sem / ≥2000 g) | ≥34 sem: 1ª opção ou alternativa (−76% falha de VPP, −66% intubação); não indicada <34 sem |
| Aspiração de vias aéreas | Não rotineira | Não rotineira (reafirmado; aspirados têm SpO₂ menor) |
| Mecônio, RN não vigoroso | VPP no 1º min; sem aspiração traqueal de rotina | Igual; sem laringoscopia imediata; aspiração traqueal única só se obstrução comprovada |
| Avaliação da FC | Monitor cardíaco recomendado no <34 | Ausculta inicial (6 s × 10) + monitor em todo <34 na mesa e sempre que houver VPP; eletrodos secos citados |
| Monitor de função respiratória / CO₂ para ventilação | Não abordado | Sem recomendação de uso rotineiro |
| Confirmação da intubação | Clínica | Detector colorimétrico de CO₂ recomendado (<10 s) |
| Laringoscópio | Convencional | Convencional ou videolaringoscópio |
| CPAP <34 sem | FC >100 + desconforto; PEEP 5; ~10 L/min | Mantido; 5-6 cmH₂O; máscara nasal com possível vantagem; nunca com balão |
| CPAP ≥35 sem | Pouco enfatizado | Cautela: pneumotórax 5,5× |
| Colchão térmico químico | Peso estimado <1000 g | IG <30 sem (texto) / <1000 g (anexos); limite 40 °C |
| Surfactante em sala de parto | Sem indicação | Sem indicação; LISA em investigação; indicar nas primeiras 2 h se necessário |
| Massagem cardíaca | FC <60 após 30 s de VPP por cânula e O₂ 100%; 3:1; reavaliar em 60 s | Mantida; checklist (Quadro 6) antes das medicações |
| Adrenalina IV/IO | 0,01-0,03 mg/kg (0,1-0,3 mL/kg) | Faixa mantida; dose prática 0,02 mg/kg = 0,2 mL/kg + flush 3 mL; a cada 3-5 min |
| Adrenalina traqueal | 0,05-0,1 mg/kg, dose única | Prática 0,10 mg/kg = 1 mL/kg, uso único; >0,10 mg/kg proibido |
| Via de acesso | Veia umbilical | Veia umbilical; intraóssea como alternativa formal |
| Expansor | SF 10 mL/kg | SF 10 mL/kg em 5-10 min; 2ª dose após revisar falhas; O− se anemia fetal grave |
| Bicarbonato / naloxona | Não recomendados | Não recomendados (mantido) |
| Limites de viabilidade | Zona cinzenta ~23-24 sem | <22 sem: conforto; 22-23 sem: zona cinzenta; ≥24 sem: reanimação plena; dados RBPN |
| Interrupção | ~20 min | ~20 min, discutida com equipe e família; sobrevida possível com Apgar 0-1 aos 10 min |
| Presença da família | Não abordada | Admitida se condições e desejo da família |
| Hipotermia terapêutica | Encaminhar; evitar hipertermia | Decisão nas primeiras 6 h na unidade; não desligar fonte de calor na sala |
| Transporte | Incubadora aquecida | Nunca com FC <100; incubadora 35-37 °C; medidas térmicas mantidas |
| Briefing / debriefing / qualidade | Recomendados | Briefing obrigatório com roteiro; debriefing estruturado; planilha de indicadores |
17.Pontos-chave para prova
- Boa vitalidade = respira/chora + tônus em flexão → clampeamento ≥60 s em qualquer IG; pele a pele imediato (≥34 sem) ou monitorado (32-33 sem).
- Não respira → estímulo tátil dorsal ~15 s com cordão intacto; ordenha só em ≥28 sem; nunca em <28 sem.
- Passos iniciais em 30 s; aspiração não é rotina; FC pela ausculta (6 s × 10) e monitor cardíaco; SpO₂ no pulso direito.
- Minuto de Ouro: VPP se apneia, respiração irregular ou FC <100 — 21% no ≥34 sem, 60% no <34 sem, ±20% a cada 30 s.
- VMM-Peça-T é o equipamento de escolha; 30-60 mpm; Pinsp 20-25; PEEP 5-6; limite 30-40 cmH₂O.
- SpO₂ alvo: 65-70% (2 min) → 80-85% (5 min) → 85-95% (10 min); falha em atingir 80% aos 5 min = pior prognóstico.
- Máscara laríngea: alternativa (ou 1ª opção) no ≥34 sem; não no <34 sem.
- Massagem: FC <60 após 30 s de VPP adequada, com cânula e O₂ 100%, 3:1, reavaliar em 60 s.
- Adrenalina 1:10.000: 0,02 mg/kg (0,2 mL/kg) EV/IO a cada 3-5 min; 0,1 mg/kg (1 mL/kg) traqueal, dose única; nunca >0,1 mg/kg.
- Expansor: SF 10 mL/kg em 5-10 min, só com suspeita de hipovolemia.
- Mecônio: sem aspiração na saída da cabeça; RN não vigoroso → VPP com máscara no 1º minuto, sem aspiração traqueal de rotina.
- Interrupção: discutir ao redor de 20 min; Apgar 0 aos 10 min já não é critério absoluto.
- Hipotermia terapêutica: decidida na UTI nas primeiras 6 h; surfactante: não na sala de parto.
18.Referências
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Programa de Reanimação Neonatal. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. São Paulo: SBP, junho de 2026. DOI 10.25060/PRN-SBP-2026-1. Disponível em www.sbp.com.br/especiais/reanimacao.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Programa de Reanimação Neonatal. Reanimação do recém-nascido <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2026 da Sociedade Brasileira de Pediatria. São Paulo: SBP, junho de 2026. DOI 10.25060/PRN-SBP-2026-2.
- SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Reanimação do recém-nascido ≥34 semanas e <34 semanas em sala de parto: Diretrizes 2022. São Paulo: SBP, maio de 2022.
- WYCKOFF, M. H. et al. 2022 International Consensus on Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care Science With Treatment Recommendations: Neonatal Life Support. Circulation, 2022;146:e483-e557 — e atualizações anuais do ILCOR 2023-2025.
- American Heart Association / American Academy of Pediatrics. 2025 Guidelines for Neonatal Resuscitation (NRP, 9ª edição). 2025.
- Ensaio TORPIDO 30/60: FiO₂ inicial 0,60 vs 0,30 na reanimação de RN de 23-28 semanas. 2025.
- Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais. Dados de 2014-2024 sobre reanimação em sala de parto e sobrevida de RN de 23-31 semanas, citados nas Diretrizes 2026.
Última revisão de conteúdo: setembro/2026, a partir do texto integral das Diretrizes 2026 (<34 semanas) e do texto/resumos oficiais das Diretrizes 2026 (≥34 semanas). Confirme sempre as diretrizes vigentes e as doses antes da aplicação clínica.