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Febre em criança — o que fazer e quando ir ao pronto-socorro

Como medir, como aliviar o desconforto e reconhecer os sinais que pedem ajuda

Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF · Todos os guias para pais

Em poucas palavras

Febre é temperatura na axila de 37,5 °C ou mais (abaixo de 3 meses, medida no reto, 38 °C ou mais). Ela é uma defesa do corpo contra a infecção e não lesa o cérebro. O que mostra a gravidade é o jeito da criança, não o número do termômetro: se ela brinca e interage quando a febre baixa, bebe líquidos e faz xixi, em geral dá para cuidar em casa. O antitérmico serve para aliviar o desconforto, não para zerar a temperatura, e não se alternam remédios. Bebê com menos de 3 meses com febre vai sempre ao pronto-socorro. Em qualquer idade, vá agora se houver manchas roxas que não somem ao apertar, dificuldade para respirar, sonolência excessiva, convulsão ou se a criança não consegue beber.

1.O que é febre e como medir?

  • Termômetro digital na axila, por 3 minutos (ou até apitar), com a axila seca. Febre: 37,5 °C ou mais (Sociedade Brasileira de Pediatria).
  • Bebê com menos de 3 meses: a medida mais confiável é no reto (ânus), com termômetro digital, como o pediatra ensinar. Febre: 38 °C ou mais. Na axila, 37,5 °C já é febre. Exceção: criança em quimioterapia ou com imunidade muito baixa nunca mede no reto.
  • O termômetro de ouvido é menos confiável abaixo de 2 anos, e a mão na testa não mede febre. Anote a temperatura, a hora e o remédio dado.

2.A febre faz mal ao cérebro?

Não. A febre é uma reação do corpo para combater vírus e bactérias. O medo exagerado da febre (a "febrefobia") leva a acordar a criança para dar remédio, a erros de dose e a muita ansiedade, sem benefício. 40 °C numa criança que brinca preocupa menos que 38 °C numa criança molinha.

3.Quando a idade muda tudo?

  1. Menos de 3 meses: qualquer febre é pronto-socorro agora, mesmo que o bebê pareça bem. Não dê antitérmico antes de ele ser examinado.
  2. De 3 a 36 meses: observe o estado geral. Procure o pediatra no mesmo dia se houver febre de 39 °C ou mais sem causa aparente (pode ser preciso exame de urina), vacinas atrasadas ou se ela parecer abatida mesmo quando a febre baixa. Entre 3 e 6 meses, 39 °C ou mais é sempre motivo de consulta no mesmo dia.
  3. Acima de 3 anos: quase sempre há uma causa visível (resfriado, garganta, ouvido). O estado geral e o tempo de febre orientam a consulta.

Criança com doença crônica, anemia falciforme ou imunidade baixa: siga o plano combinado com o médico e procure avaliação logo.

4.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro

Cor O que você observa O que fazer
🟢 Cuidar em casa Criança com 3 meses ou mais que brinca e interage, pelo menos quando a febre baixa; cor normal; respira sem esforço; bebe bem e faz xixi; febre há menos de 2–3 dias Líquidos, roupa leve, antitérmico se estiver desconfortável. Observe e combine retorno com o pediatra
🟡 Procure o pediatra Febre há mais de 48–72 horas ou que volta depois de sumir; 3 a 6 meses com 39 °C ou mais; febre de 39 °C ou mais sem causa aparente abaixo de 3 anos; dor de ouvido, dor ou choro ao fazer xixi; mais quieta que o normal; bebe menos e faz menos xixi; febre que começa mais de 1 dia depois da vacina Consulta no mesmo dia (ou em até 24 h, se estiver melhorando). Se piorar antes, pronto-socorro
🔴 Pronto-socorro agora (ou SAMU 192) Bebê com menos de 3 meses com febre; manchas roxas ou pintinhas vermelhas que não somem ao apertar; muito sonolenta, difícil de acordar, choro fraco, agudo ou sem parar; respiração rápida, gemido, costelas afundando, lábios roxos; pele pálida, rendilhada ou acinzentada; não consegue beber, vomita tudo, sem xixi há 6–8 horas; convulsão; pescoço duro, moleira estufada Vá agora. Chame o SAMU 192 se não acorda, está roxa, com muita falta de ar ou em convulsão

5.Como cuidar em casa?

  1. Ofereça líquidos com frequência, em pequenas quantidades: peito ou o leite habitual e, acima de 6 meses, água. A febre aumenta a perda de água.
  2. Roupa leve e ambiente arejado. Não agasalhe demais.
  3. Deixe a criança descansar. Se estiver dormindo tranquila, não a acorde para dar remédio.
  4. Banho morno pode trazer conforto, se ela gostar. Não use água fria, gelo nem álcool na pele: causam calafrios e desconforto.
  5. Observe o jeito da criança quando a febre baixar.

6.Antitérmico: quando e como dar?

Trate o desconforto, não o número. Se a criança está com febre, mas bem, não é obrigatório dar remédio. Baixar 1 a 1,5 °C já traz conforto; não precisa "zerar". Confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa — a concentração muda de um produto para outro (veja a calculadora de antitérmicos desta Biblioteca).

  • Dipirona: 15 mg por kg por dose, a cada 6 horas (no máximo 4 doses por dia). Não usar abaixo de 3 meses ou de 5 kg. A regra de "1 gota por quilo" dá dose maior que a recomendada.
  • Paracetamol: 10–15 mg por kg por dose, a cada 4–6 horas (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Por mais de 48–72 horas seguidas, sobretudo na dose máxima, em criança que come e bebe pouco ou somado a antigripais com paracetamol, pode fazer mal ao fígado: nesse prazo, leve para reavaliação.
  • Ibuprofeno: 5–10 mg por kg por dose, a cada 6–8 horas, a partir de 6 meses. Não use na suspeita de dengue, na catapora (varicela) nem na criança desidratada.
  • Não alterne antitérmicos: aumenta o risco de erro de dose e não traz benefício.
  • Nunca dê AAS (ácido acetilsalicílico) a crianças com febre: risco de síndrome de Reye, uma doença grave do fígado e do cérebro.
  • Nada de antibiótico, xarope ou "antigripal" por conta própria.

7.E se a febre vier com outros sinais?

  • Manchas na pele que não somem ao apertar: pressione a mancha com um copo de vidro transparente. Se continuar visível, pode ser infecção grave do sangue (como a meningococcemia): pronto-socorro imediatamente, mesmo que a criança pareça bem.
  • Convulsão febril (de 6 meses a 5 anos): deite a criança de lado, não coloque nada na boca e cronometre. Passou de 5 minutos: SAMU 192. Depois de qualquer crise, a criança precisa ser examinada. O antitérmico não previne a convulsão.
  • Febre há mais de 3 dias: mesmo com a criança bem, ela precisa ser examinada (ouvido, urina, pulmão).
  • Febre depois da vacina: é comum nas primeiras 24–48 horas, com a criança bem; com a tríplice viral, pode aparecer entre o 5º e o 12º dia. Antitérmico só se houver desconforto, e não antes da vacina, salvo orientação do pediatra (meningocócica B). Febre alta, por mais de 48 horas ou que começa depois de 1 dia (fora a tríplice viral) pede consulta.

8.Dúvidas e mitos comuns

Posso dar banho em criança com febre?

Pode, e banho morno até ajuda no conforto. O que não se deve fazer é banho frio, compressa de gelo ou álcool, que causam calafrios e mal-estar sem tratar a causa.

Se a febre não baixa com o remédio, é sinal de doença grave?

Nem sempre. O antitérmico baixa só 1 a 1,5 °C e a resposta ao remédio não separa vírus de bactéria. Preocupe-se com os sinais vermelhos do semáforo, não com o número.

Posso intercalar dipirona, paracetamol e ibuprofeno?

Não. Alternar antitérmicos aumenta o risco de dar remédio demais e não deixa a criança melhor. Use um só, na dose certa para o peso e no intervalo certo.

Dar antitérmico logo evita a convulsão febril?

Não. O antitérmico deixa a criança mais confortável, mas não previne a convulsão. Também não se dá antitérmico "para prevenir" antes de a febre aparecer.

Posso esperar amanhecer para levar ao médico?

Com um sinal vermelho do semáforo, não: vá ao pronto-socorro agora. Com sinal amarelo, procure atendimento no mesmo dia e, se a criança piorar à noite, não espere. Confie na sua percepção: se você sente que algo está muito errado, procure ajuda.

Lembre-se
  1. Febre é axilar a partir de 37,5 °C; abaixo de 3 meses, no reto, a partir de 38 °C — e bebê com menos de 3 meses com febre vai ao pronto-socorro.
  2. O jeito da criança vale mais que o termômetro.
  3. Antitérmico só para o desconforto, um de cada vez, na dose em mL conferida com o pediatra; nunca AAS.
  4. Nada de água fria, gelo ou álcool; ofereça muitos líquidos.
  5. Manchas que não somem ao apertar, falta de ar, sonolência excessiva ou convulsão: pronto-socorro ou SAMU 192.

9.Veja também

Veja também, nesta Biblioteca:

O que dizem as referências

Onde concordam (SBP, Ministério da Saúde, AAP, NICE, AEP): o estado geral pesa mais que o número; febre abaixo de 3 meses pede avaliação imediata; antitérmico é para o conforto e não previne convulsão.

Onde há diferenças: febre a partir de 37,5 °C na axila pela SBP e de 38 °C pelo NICE, AAP e AEP; a dipirona não aparece nas orientações da AAP e do NICE, e o NICE admite trocar de antitérmico. Este guia segue a SBP.

10.Fontes

Baseado nos documentos desta Biblioteca Como conduzir uma criança com febre, Classificação de risco em pediatria, Convulsão febril e primeira crise e Eventos supostamente atribuíveis à vacinação (2026), e nas referências neles citadas:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento Científico nº 206 — Abordagem da febre aguda em pediatria, 2025.
  • NICE. Fever in under 5s — assessment and initial management (NG143), 2019, atualizada em 2021.
  • American Academy of Pediatrics. Fever and antipyretic use in children (Clinical Report), 2011.