Patologias do consultório · Respiratório e otorrino

Asma na criança — crise e controle

Classificação da crise, salbutamol com espaçador, corticoide oral, etapas de tratamento de controle do GINA para 6 a 11 anos, plano de ação e critérios de encaminhamento

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A asma se caracteriza por sintomas respiratórios variáveis (sibilância, tosse, dispneia, aperto no peito) com limitação variável ao fluxo aéreo. Na crise, o tratamento de primeira linha é o salbutamol spray com espaçador: 4 a 10 jatos de 100 mcg a cada 20 minutos na primeira hora para crianças de 6 a 11 anos (GINA 2025), seguido de prednisolona oral 1–2 mg/kg/dia (máximo 40 mg) por 3 a 5 dias nas crises moderadas a graves (GINA; SBP 2025). Crises leves a moderadas que respondem ao salbutamol são tratadas em casa (🟢), com reavaliação em 24–48 h e revisão do tratamento de controle (🟡). Encaminhar ao pronto-socorro (🔴) quando a criança fala apenas palavras, está agitada, sonolenta ou confusa, tem FR > 30 irpm, SpO2 < 90–92%, tórax silencioso ou não melhora após a primeira hora de salbutamol. No controle, o GINA recomenda que nenhuma criança fique só com broncodilatador: corticoide inalatório sempre que usar salbutamol (etapa 1) ou diariamente em dose baixa (etapa 2), com progressão para associação com LABA ou terapia de manutenção e alívio (MART). Toda criança com asma deve sair do consultório com plano de ação escrito e técnica inalatória revisada.

Para crianças de até 5 anos, veja também, nesta Biblioteca: Sibilância recorrente do lactente e do pré-escolar.

1.O que é e como se apresenta

  • Definição (GINA): doença heterogênea, geralmente com inflamação crônica das vias aéreas, definida pela história de sintomas respiratórios que variam no tempo e em intensidade, com limitação variável ao fluxo expiratório.
  • Faixa etária: pode começar em qualquer idade; o diagnóstico é mais seguro a partir dos 5–6 anos, quando é possível documentar a variabilidade da função pulmonar.
  • Quadro típico: episódios recorrentes de sibilância, tosse (principalmente noturna ou com exercício, riso e choro), dispneia e aperto no peito, desencadeados por viroses, alérgenos (ácaros, pelos, fungos), fumaça, exercício e mudanças de tempo; história pessoal ou familiar de atopia (rinite, dermatite atópica).
  • Diagnóstico em 5 a 11 anos (NICE NG245, 2024): com história sugestiva, confirmar com testes objetivos em sequência: FeNO ≥ 35 ppb; se não disponível ou negativo, espirometria com aumento do VEF1 ≥ 12% após broncodilatador; se não disponível, variabilidade do pico de fluxo ≥ 20% em 2 semanas; e, se persistir dúvida, pesquisar sensibilização alérgica e eosinófilos (> 0,5 × 10⁹/L sustenta a hipótese e indica encaminhamento para teste de broncoprovocação; ausência de ambos torna a asma improvável).

2.Classificação de gravidade

Classificação da crise na atenção primária em crianças de 6 a 11 anos (GINA 2025), complementada pelo Pulmonary Score da SEUP (frequência respiratória por idade, sibilância e uso de musculatura acessória, somados à SpO2).

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Fala frases completas; FR normal ou pouco aumentada; sem uso de musculatura acessória; SpO2 > 94% (SEUP); pico de fluxo > 50% do previsto ou do melhor pessoal Salbutamol com espaçador na dose da tabela abaixo, repetido conforme sintomas; manter ou iniciar corticoide inalatório; plano escrito
🟡 Moderada Fala frases; prefere ficar sentada; não agitada; FR aumentada; sem uso importante de musculatura acessória; SpO2 90–95% (GINA) ou 91–94% (SEUP); pico de fluxo > 50% Salbutamol 4–10 jatos a cada 20 min na primeira hora; prednisolona oral; oxigênio se SpO2 < 94%; reavaliar após 1 h; alta se boa resposta, com retorno em 24–48 h
🔴 Grave Fala apenas palavras; senta-se curvada para frente; agitação; FR > 30 irpm; musculatura acessória; SpO2 < 90%; pico de fluxo ≤ 50%. Risco de vida: sonolência, confusão, tórax silencioso, cianose Encaminhar ao PS após iniciar salbutamol (± ipratrópio), oxigênio e corticoide; transporte com monitorização

Fatores de risco para crise grave e morte por asma

  • Internação, intubação ou UTI por asma no passado; crise grave no último ano.
  • Uso frequente de salbutamol sem corticoide inalatório, ou baixa adesão ao controle.
  • Técnica inalatória inadequada; ausência de plano de ação escrito.
  • Alergia alimentar confirmada, obesidade, tabagismo passivo.
  • Problemas psicossociais ou dificuldade de acesso ao serviço.

3.Diagnóstico no consultório

  • Na crise: diagnóstico clínico. Avaliar consciência, fala, FR, uso de musculatura acessória, ausculta, SpO2 e, se possível a partir de 5–6 anos, pico de fluxo. Radiografia e exames não são rotineiros; radiografia se suspeita de pneumonia, pneumotórax, corpo estranho ou má resposta.
  • Fora da crise: avaliar o controle nas últimas 4 semanas (sintomas diurnos mais de duas vezes por semana, despertar noturno, uso de alívio mais de duas vezes por semana, limitação de atividades) e o risco futuro (crises no último ano, adesão, técnica). Espirometria com prova broncodilatadora e, quando disponível, FeNO, confirmam o diagnóstico e ajudam no seguimento.
  • Diagnóstico diferencial: corpo estranho aspirado, disfunção de cordas vocais, fibrose cística, discinesia ciliar, bronquiolite obliterante, cardiopatia, refluxo com aspiração, imunodeficiência, tuberculose. Na asma de difícil controle, rever diagnóstico, adesão, técnica e comorbidades (rinite, obesidade, refluxo, apneia do sono, fatores psicossociais) antes de aumentar o tratamento (SBP/ASBAI 2020).

4.Tratamento em casa

Na crise

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Salbutamol spray 100 mcg/jato com espaçador 6–11 anos: 4–10 jatos (GINA 2025). SEUP por peso: 4 jatos (5–10 kg), 6 jatos (10–20 kg), 8 jatos (> 20 kg) A cada 20 min na 1ª hora (até 3 doses); depois a cada 3–4 h conforme sintomas Até a melhora, em geral 3–5 dias Espaçador é tão eficaz quanto nebulização; um jato de cada vez
Prednisolona ou prednisona oral 1–2 mg/kg/dia 1 vez ao dia, pela manhã 3 a 5 dias, sem desmame Máximo 40 mg/dia em 6–11 anos (GINA); SBP 2025 recomenda 1–2 mg/kg/dia por 3 a 5 dias
Dexametasona oral (alternativa) 0,6 mg/kg (máx. 12 mg) Dose única, repetível em 24 h 1 a 2 doses Opção preferida na SEUP (2024)
Brometo de ipratrópio spray (no consultório/PS) < 20 kg 4 jatos; > 20 kg 8 jatos (SEUP) Junto com as 2–3 primeiras doses de salbutamol Apenas na 1ª hora Somente crises moderadas a graves

Controle — etapas do GINA 2025 para 6 a 11 anos

  • Etapa 1: corticoide inalatório em dose baixa sempre que usar salbutamol (inaladores separados ou combinados).
  • Etapa 2: corticoide inalatório diário em dose baixa, com salbutamol de alívio; alternativa menos eficaz, antileucotrieno.
  • Etapa 3: corticoide inalatório em dose baixa + LABA, ou corticoide em dose média, ou MART com budesonida-formoterol em dose muito baixa.
  • Etapa 4: corticoide em dose média + LABA, ou MART em dose baixa; encaminhar ao especialista.
  • Etapa 5: avaliação de fenótipo por especialista; dose alta de corticoide e/ou imunobiológico.
  • Reavaliar em 1 a 3 meses após cada mudança; reduzir a etapa após 3 meses de bom controle.

Doses diárias de corticoide inalatório em crianças de 6 a 11 anos (tabela do GINA, guia de bolso 2023)

Corticoide inalatório Dose baixa (mcg/dia) Dose média (mcg/dia) Dose alta (mcg/dia)
Beclometasona spray HFA (partícula padrão) 100–200 > 200–400 > 400
Beclometasona spray HFA (partícula extrafina) 50–100 > 100–200 > 200
Budesonida pó inalável 100–200 > 200–400 > 400
Budesonida para nebulização 250–500 > 500–1.000 > 1.000
Ciclesonida spray 80 > 80–160 > 160
Fluticasona (propionato) pó ou spray 50–100 > 100–200 > 200
Mometasona spray 100 200 —

Estas são equivalências clínicas aproximadas, não doses de bula; ajustar à menor dose que mantenha o controle.

Plano de ação escrito (entregar em toda consulta)

  • Medicação de controle diária, com nome, dose e dispositivo.
  • Como reconhecer a piora: mais tosse ou chiado, despertar noturno, necessidade de salbutamol mais de duas vezes por semana, pico de fluxo < 80% do melhor.
  • O que fazer na crise: salbutamol com espaçador na dose prescrita a cada 20 min por até 1 hora; quando iniciar corticoide oral, se prescrito.
  • Quando ir ao pronto-socorro (ver abaixo).

O que não usar

  • Tratar só com salbutamol, sem corticoide inalatório (GINA não recomenda desde 2019).
  • Xaropes broncodilatadores, antitussígenos, mucolíticos e anti-histamínicos para a crise.
  • Antibiótico na crise sem sinal de infecção bacteriana.
  • Corticoide oral em cursos repetidos como substituto do controle; cada curso acumula efeitos adversos (SBP 2025).
  • Inaladores de pó seco durante a crise (fluxo inspiratório insuficiente).

Medidas de suporte

  • Controle ambiental: ambiente sem tabaco, redução de mofo e ácaros; tratar rinite alérgica.
  • Vacinação contra influenza anual e COVID-19 conforme calendário.
  • Estimular atividade física, com salbutamol antes do exercício se necessário.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Critérios de crise grave ou de risco de vida (tabela acima).
  • SpO2 < 92% em ar ambiente, ou necessidade de oxigênio após a primeira hora.
  • Resposta ruim ou curta ao salbutamol (necessidade em intervalos menores que 2 horas, SEUP).
  • História de crise quase fatal, UTI ou internação recente.
  • Pais incapazes de manter o tratamento ou de retornar.

Como encaminhar

  1. Manter a criança sentada, na posição que preferir.
  2. Oxigênio para SpO2 ≥ 94%.
  3. Salbutamol com espaçador a cada 20 min (ou nebulização com oxigênio) associado a ipratrópio nas crises graves, mantido durante o transporte.
  4. Corticoide sistêmico antes de sair: prednisolona 1–2 mg/kg (máx. 40 mg) ou dexametasona 0,6 mg/kg (máx. 12 mg) VO, se consegue engolir.
  5. Contatar o serviço de destino com SpO2, FR, doses e horários; em sonolência, tórax silencioso ou cianose, acionar o SAMU (192).

Encaminhar ao especialista (pneumologista ou alergista pediátrico)

  • Dúvida diagnóstica ou testes de função pulmonar indisponíveis.
  • Asma não controlada na etapa 4 do GINA, ou com MART ou CI + LABA em dose moderada pediátrica (NICE/BTS/SIGN 2024).
  • Crises graves, internação em UTI ou mais de um curso de corticoide oral por ano.
  • Efeitos adversos do tratamento, comprometimento do crescimento ou suspeita de asma grave (SBP/ASBAI 2020).

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "A bombinha de alívio (salbutamol) abre os brônquios na hora; a de controle (corticoide inalatório) trata a inflamação e deve ser usada todos os dias, mesmo sem sintomas."
  • "Use sempre o espaçador: um jato de cada vez, respirando devagar cinco a seis vezes ou prendendo a respiração por 10 segundos."
  • "Enxágue a boca depois do corticoide inalatório."
  • Retornar em 24–48 h após uma crise moderada e em 1 a 3 meses para rever o controle.
  • Ir ao pronto-socorro se: o salbutamol não alivia ou o efeito dura menos de 2–3 horas; a criança não consegue falar frases, fica com lábios arroxeados, sonolenta ou confusa; afundamento das costelas; pico de fluxo abaixo de 50% do melhor.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Diagnóstico Clínico + função pulmonar; adota GINA Sem diretriz própria; segue NAEPP/NHLBI 2020 FeNO ≥ 35 ppb, BDR ≥ 12%, variabilidade do PFE ≥ 20% (NG245) Segue o NICE Clínico + espirometria
Controle inicial (6–11) CI diário; adota etapas do GINA NAEPP 2020 CI em dose baixa pediátrica 2 vezes ao dia + SABA Segue o NICE CI em dose baixa (GEMA)
Escalonamento GINA (CI-LABA, MART) NAEPP: MART nas etapas 3–4 MART em dose baixa e depois moderada pediátrica (antileucotrieno se não consegue usar MART); especialista Segue o NICE CI + LABA ou antileucotrieno
Crise — salbutamol Spray com espaçador Spray com espaçador Fora do escopo do NG245 (manejo agudo pela BTS/SIGN) Segue o NHS Jatos por peso com espaçador (SEUP)
Crise — corticoide oral Prednisolona 1–2 mg/kg/dia, 3–5 dias (SBP 2025) NAEPP Fora do escopo do NG245 Segue o NHS Dexametasona 0,6 mg/kg (máx. 12 mg) ou prednisolona 1–2 mg/kg (máx. 60 mg)
Encaminhamento Asma grave: rever diagnóstico, adesão, técnica, comorbidades (SBP/ASBAI) — Sem controle com MART ou CI + LABA em dose moderada pediátrica Segue o NICE Falha após 2–3 meses de ajuste, asma grave

Leitura: as referências convergem no uso de salbutamol com espaçador na crise, no curso curto de corticoide oral e na centralidade do corticoide inalatório no controle. As divergências principais são: (1) na primeira etapa, o GINA indica corticoide inalatório sempre que a criança usa salbutamol, enquanto o NICE parte de corticoide diário em dose baixa; (2) no segundo passo, o NICE/BTS/SIGN passa direto para MART em dose baixa pediátrica (antileucotrieno só se a criança não consegue usar MART), e o GINA oferece CI-LABA, CI em dose média ou MART em dose muito baixa; (3) no diagnóstico, o NICE exige testes objetivos (FeNO primeiro), algo ainda pouco disponível na atenção primária brasileira; (4) na crise, a dose máxima de prednisolona varia (40 mg no GINA, 60 mg na SEUP), e a SEUP prefere dexametasona. A AAP não tem diretriz própria de asma e remete ao NAEPP.

Pontos práticos
  1. Salbutamol spray com espaçador é o tratamento de escolha da crise, inclusive no consultório; nebulização não é superior.
  2. Prednisolona 1–2 mg/kg/dia por 3 a 5 dias, máximo 40 mg em 6–11 anos, sem necessidade de desmame.
  3. Criança que usa salbutamol com frequência precisa de corticoide inalatório; nenhuma criança com asma deve ficar só com broncodilatador.
  4. Revise técnica e adesão antes de subir a etapa; a maioria dos "não controlados" usa o dispositivo errado ou não usa.
  5. Entregue plano de ação escrito e reavalie em 24–48 h após toda crise moderada.
  6. Crise grave, SpO2 < 92% ou má resposta na primeira hora: iniciar tratamento e transferir, sem esperar.

8.Fontes

  • Global Initiative for Asthma. Summary Guide for Asthma Management and Prevention, 2025. PDF
  • Global Initiative for Asthma. Pocket Guide for Asthma Management and Prevention, 2023 (tabela de doses de corticoide inalatório). PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Alergia. Uso de corticosteroides sistêmicos em doenças alérgicas em pediatria (Documento Científico nº 220), 2025. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria e ASBAI. Guia prático de abordagem da criança e do adolescente com asma grave, 2020. sbp.com.br
  • NICE, BTS e SIGN. NG245 — Asthma: diagnosis, monitoring and chronic asthma management, 2024. NCBI Bookshelf
  • NHLBI. Clinician's Guide — 2020 Focused Updates to the Asthma Management Guidelines, 2020. nhlbi.nih.gov
  • Paniagua Calzón N, Benito Fernández J. Diagnóstico y tratamiento de la crisis asmática en Urgencias. Protocolos SEUP, 4ª ed., 2024. PDF
  • Álvarez Caro F, García González M, Méndez Sánchez A. Tratamiento de asma en pediatría. Pediatría Integral (SEPEAP), 2026. pediatriaintegral.es
  • Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed. Oxford University Press, 2021 (obra de referência).