Patologias do consultório · Respiratório e otorrino

Bronquiolite viral aguda

Gravidade por esforço respiratório, SpO2, alimentação e apneia; o que não prescrever; quando encaminhar; prevenção do VSR com nirsevimabe e vacina materna

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A bronquiolite viral aguda (BVA) acomete crianças menores de 2 anos, sobretudo no primeiro ano de vida, e é causada principalmente pelo vírus sincicial respiratório (VSR). Após 1 a 3 dias de coriza surgem tosse, taquipneia e/ou tiragem, com sibilos ou estertores; o pico ocorre entre o 3º e o 5º dia e a tosse pode durar 3 a 4 semanas. O diagnóstico é clínico e o tratamento é de suporte: higiene nasal com soro fisiológico, aspiração superficial, alimentação fracionada e antitérmico. Salbutamol, adrenalina, corticoide, antibiótico, salina hipertônica no ambulatório e fisioterapia respiratória de rotina não devem ser usados (AAP, NICE, Ministério da Saúde 2026). A maioria é tratada em casa (🟢), com orientação de sinais de alerta. Reavaliar em 24 h (🟡) lactentes com FR > 60 irpm, ingestão abaixo de 50–75% do habitual, SpO2 entre 90% e 92% ou fatores de risco (idade < 3 meses, prematuridade, cardiopatia, doença pulmonar crônica). Encaminhar ao pronto-socorro (🔴) se apneia, SpO2 persistentemente < 92% (NICE) ou < 90% (MS/AAP), esforço respiratório grave, FR > 70 irpm, cianose, letargia ou incapacidade de manter a hidratação.

Veja também, nesta Biblioteca: Como Proteger da Bronquiolite (VSR).

1.O que é e como se apresenta

  • Definição: infecção viral aguda das vias aéreas inferiores, com inflamação, edema e obstrução dos bronquíolos, em crianças menores de 2 anos (MS 2026; NICE NG9).
  • Etiologia: VSR (cerca de 75% dos casos nos picos sazonais), rinovírus, metapneumovírus, parainfluenza, adenovírus, influenza e SARS-CoV-2. No Sudeste, Sul e Nordeste o VSR circula sobretudo entre as semanas epidemiológicas 12 e 20.
  • Faixa etária: menores de 2 anos, com maior incidência e gravidade abaixo de 6 meses.
  • Quadro típico (NICE): pródromo de coriza por 1 a 3 dias, seguido de tosse persistente e taquipneia e/ou tiragem, com sibilos e/ou estertores crepitantes. Febre, quando presente, costuma ser inferior a 39 °C. Em lactentes muito pequenos, a apneia pode ser a primeira manifestação, mesmo sem desconforto evidente.
  • Evolução: piora entre o 3º e o 5º dia, melhora na maioria em cerca de 10 dias; tosse em 90% por até 3 semanas e residual até 4 semanas (MS 2026).

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Consciência normal; taquipneia ausente ou leve, sem tiragem ou tiragem discreta; alimentação normal (> 75% do habitual); sem apneia; SpO2 > 92% em ar ambiente Tratamento domiciliar de suporte; orientar sinais de alerta; reavaliação se piora ou no pico (3º–5º dia) nos menores de 6 meses
🟡 Moderada Irritabilidade leve; tiragem moderada, sem gemência; FR > 60 irpm; alimentação com dificuldade (50–75% do habitual); SpO2 entre 90% e 92%; ou quadro leve em criança com fator de risco Reavaliação em 12–24 h no consultório ou observação no PS; considerar encaminhamento (NICE) se FR > 60 ou ingestão inadequada; SpO2 persistentemente < 92% já é critério de encaminhamento imediato pelo NICE (a faixa 90–92% segue o MS)
🔴 Grave Letargia ou irritabilidade intensa; gemência, batimento de asas nasais, balancim toracoabdominal, tiragem acentuada; FR > 70 irpm; apneia (observada ou relatada); cianose central; recusa alimentar ou ingestão < 50%; desidratação; SpO2 < 90% (MS) ou persistentemente < 92% (NICE) Encaminhar imediatamente ao PS/hospital com oxigênio (ver seção de encaminhamento)

Critérios do MS (2026), NICE NG9 (2021) e AAP (2014). O MS define taquipneia como FR > 60 irpm abaixo de 2 meses, > 50 irpm de 2 meses a 1 ano e > 40 irpm de 1 a 5 anos.

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Idade: < 3 meses (NICE, SBP), < 12 semanas (AAP) e, especialmente, < 6 semanas (NICE usa limiar de SpO2 mais conservador nessa faixa).
  • Prematuridade, sobretudo < 32 semanas (NICE, SBP); baixo peso ao nascer.
  • Doença pulmonar crônica, principalmente displasia broncopulmonar.
  • Cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica.
  • Imunodeficiência, doença neuromuscular, síndrome de Down, fibrose cística.
  • Tabagismo passivo, desmame precoce, poluição (MS 2026); condições sociais que dificultem o retorno.

3.Diagnóstico no consultório

  • Clínico. Criança < 2 anos, pródromo de coriza, tosse, taquipneia ou tiragem, sibilos ou crepitações (AAP, NICE, MS).
  • Exame essencial: FR em 1 minuto com a criança calma, sinais de esforço, hidratação, consciência e oximetria de pulso com o nariz desobstruído. Perguntar sobre apneia, volume das mamadas e diurese.
  • Exames complementares: não pedir radiografia de tórax nem exames de sangue de rotina (AAP, NICE, MS). Radiografia apenas se evolução desfavorável, gravidade ou suspeita de complicação; hemograma e proteínas de fase aguda nos casos graves ou com dúvida diagnóstica (MS). Pesquisa viral só se mudar a conduta (isolamento, coorte hospitalar).

Diagnóstico diferencial que não pode passar

  • Pneumonia bacteriana: considerar se febre > 39 °C e/ou crepitações focais persistentes (NICE).
  • Sibilância recorrente/asma: episódios repetidos, atopia pessoal ou familiar, idade > 12 meses; ver o documento de sibilância recorrente.
  • Coqueluche: tosse em acessos, guincho, apneia e cianose em lactente pequeno.
  • Insuficiência cardíaca/cardiopatia: sopro, hepatomegalia, taquicardia desproporcional, dificuldade de ganho de peso.
  • Sepse e infecção bacteriana grave no lactente < 3 meses febril.

4.Tratamento em casa

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Soro fisiológico 0,9% nasal Gotas ou jato conforme idade Antes das mamadas e do sono, e quando houver obstrução Enquanto houver obstrução Aspiração apenas superficial, quando há muita secreção; não aspirar profundamente (MS, NICE)
Paracetamol 10–15 mg/kg/dose 4–6 h (máx. 5 doses/dia) Enquanto houver febre com desconforto Antitérmico reduz o estresse metabólico (MS); máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia
Ibuprofeno (≥ 6 meses, conforme bula) 5–10 mg/kg/dose 6–8 h, conforme bula Enquanto houver febre com desconforto Evitar se desidratação

Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.

O que não usar

  • Salbutamol ou outros broncodilatadores: não recomendados (AAP recomendação forte; NICE; MS 2026; SBP 2017). O MS não recomenda nem mesmo prova terapêutica de rotina.
  • Adrenalina inalatória: não usar (AAP, NICE, MS).
  • Corticoide sistêmico ou inalatório: não usar em nenhum cenário (AAP, evidência A; NICE; MS).
  • Antibiótico: apenas se houver infecção bacteriana concomitante documentada ou fortemente suspeita (AAP, NICE, MS).
  • Salina hipertônica nebulizada: não usar fora do hospital; NICE e MS não recomendam em nenhum cenário, e a AAP a contraindica no pronto-socorro, admitindo-a só em internados (recomendação fraca).
  • Montelucaste, brometo de ipratrópio: não usar (NICE, MS).
  • Fisioterapia respiratória de rotina: não indicada (AAP, NICE, SBP).

Medidas de suporte: alimentação fracionada, manter o aleitamento materno, decúbito elevado, ambiente sem fumaça, higiene das mãos com álcool em gel (AAP) e afastamento da creche na fase aguda.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

Encaminhamento imediato (NICE, MS)

  • Apneia observada ou relatada.
  • Aspecto de criança gravemente doente, letargia ou alteração de consciência.
  • Desconforto respiratório grave: gemência, tiragem acentuada, batimento de asas, balancim, FR > 70 irpm.
  • Cianose central.
  • SpO2 persistentemente < 92% em ar ambiente (NICE, na atenção primária) ou < 90% (MS, critério absoluto de internação).

Considerar encaminhamento (NICE, SBP)

  • FR > 60 irpm.
  • Dificuldade para mamar ou ingestão de 50–75% do volume habitual; ausência de diurese por 12 h (SBP).
  • Desidratação clínica.
  • Fatores de risco (ver acima), considerando também a fase da doença (1º–3º dia tende a piorar) e a capacidade dos cuidadores de reconhecer sinais de alerta.

Como encaminhar

  1. Desobstruir o nariz com soro fisiológico e aspiração suave antes de medir a SpO2 e antes do transporte.
  2. Oferecer oxigênio por cateter nasal ou máscara se SpO2 < 92% ou desconforto importante, mantendo-o no trajeto.
  3. Posição semissentada ou no colo; suspender a via oral se houver desconforto grave ou rebaixamento.
  4. Não administrar broncodilatador, corticoide ou antibiótico "para o caminho".
  5. Contatar o serviço de destino, informando idade, idade gestacional, SpO2, FR, apneias e ingestão; em apneia, cianose ou esforço grave, acionar o SAMU (192).

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "A bronquiolite é causada por vírus. Costuma piorar entre o 3º e o 5º dia e depois melhora; a tosse pode durar 3 a 4 semanas."
  • "Nenhum remédio encurta a doença; xaropes, inalação com broncodilatador, corticoide e antibiótico não ajudam. Lave o nariz com soro, ofereça o peito ou a mamadeira em menores quantidades e mais vezes e mantenha a casa sem fumaça."
  • Retorno em 24–48 h para menores de 3 meses, prematuros ou quadro com menos de 3 dias.
  • Ir ao pronto-socorro se: pausas na respiração; lábios ou pele arroxeados; respiração muito rápida, com gemido ou afundamento das costelas; bebê que mama menos da metade do habitual ou recusa; menos fraldas molhadas (nenhuma em 12 h); sonolência excessiva, choro fraco, vômitos frequentes ou convulsão (MS 2026).

Prevenção do VSR (para orientar a família e as próximas gestações)

  • Vacina materna (Abrysvo, VSR A e B recombinante): no calendário da gestante do SUS desde novembro de 2025; dose única de 0,5 mL IM a partir da 28ª semana, em cada gestação. Protege o bebê nos primeiros meses por anticorpos transplacentários.
  • Nirsevimabe (anticorpo monoclonal de dose única): disponível no SUS desde fevereiro de 2026 (Nota Técnica nº 109/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS) para prematuros com ≤ 36 semanas e 6 dias (de preferência na maternidade, o ano todo) e para crianças < 24 meses com comorbidades (cardiopatia, displasia broncopulmonar, imunocomprometimento, síndrome de Down, fibrose cística, doença neuromuscular, anomalias de via aérea), no período sazonal. Doses na primeira sazonalidade: 50 mg se < 5 kg e 100 mg se ≥ 5 kg; na segunda sazonalidade, 200 mg apenas para crianças com comorbidades (documento técnico da SMS-SP, 2026). O PNI não recomenda intercambiar palivizumabe e nirsevimabe na mesma temporada.
  • Medidas gerais: aleitamento materno exclusivo até 6 meses, ambiente livre de tabaco e higiene das mãos (AAP).

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Limiar de SpO2 O2 se SpO2 ≤ 92%; < 90% é critério absoluto de internação; alta com > 92% (MS) Pode não usar O2 se SpO2 > 90% Encaminhar se < 92% persistente; internar/O2 se < 92% (< 6 semanas ou comorbidade) ou < 90% (≥ 6 semanas) (2021) Segue o NICE Alvo 90–92% conforme a clínica
Broncodilatador, corticoide, adrenalina, antibiótico Não recomendados Não usar (salbutamol, adrenalina, corticoide) Não usar Segue o NICE Não rotineiros; broncodilatador só em teste seletivo
Salina hipertônica Não recomendada (MS); "pode ser considerada" em internados (SBP 2017) Não no PS; pode em internados (fraca) Não usar Segue o NICE Não no pronto-socorro
Critérios de encaminhamento Apneia, SpO2 < 90%, esforço grave, letargia, recusa alimentar; relativos < 2–3 meses, prematuridade Avaliar risco (< 12 semanas, prematuridade, cardiopulmonar, imunodeficiência) Apneia, FR > 70, cianose, SpO2 < 92%; considerar se FR > 60 ou ingestão 50–75% Segue o NICE < 6 semanas, prematuros, doença crônica, ingestão inadequada
Prevenção VSR Abrysvo ≥ 28 semanas; nirsevimabe para prematuros ≤ 36s6d e comorbidades < 24 meses Palivizumabe restrito (2014); hoje CDC indica anticorpo para todo < 8 meses sem vacina materna Fora do escopo do NG9 Segue o NHS Nirsevimabe universal < 6 meses

Leitura: as referências convergem em tratar a bronquiolite como doença de suporte, com diagnóstico clínico e sem broncodilatador, corticoide, adrenalina, antibiótico ou fisioterapia de rotina. A principal divergência é o limiar de SpO2: a AAP aceita SpO2 > 90% sem oxigênio, o NICE usa 92% para encaminhamento na atenção primária e mantém 92% abaixo de 6 semanas, e o MS brasileiro adota 90% como critério absoluto e 92% para indicação de oxigênio e para a alta. Na salina hipertônica, a AAP ainda permite uso em internados, enquanto NICE e MS não recomendam. Na prevenção, o Brasil adotou um modelo intermediário (vacina materna a partir de 28 semanas e nirsevimabe para prematuros e comorbidades), enquanto os EUA (CDC) indicam anticorpo a todo lactente < 8 meses cuja mãe não foi vacinada ≥ 14 dias antes do parto e a Espanha o oferece de forma universal, com redução de cerca de 80% nas internações.

Pontos práticos
  1. Oximetria de pulso e FR contada em 1 minuto são obrigatórias em todo lactente com suspeita de bronquiolite; desobstrua o nariz antes de medir.
  2. Não prescreva salbutamol, corticoide, antibiótico ou salina hipertônica; explique à família o motivo para reduzir a pressão por "remédio".
  3. Pergunte o volume das mamadas: ingestão abaixo de 50–75% do habitual é critério de encaminhamento.
  4. Apneia, mesmo relatada, é critério de encaminhamento imediato, sobretudo em menores de 3 meses e prematuros.
  5. Menores de 3 meses e prematuros nos primeiros 3 dias de doença devem ser reavaliados em 24 h, pois o pico ainda está por vir.
  6. Verifique na consulta de pré-natal e na primeira consulta do recém-nascido a vacina materna contra VSR e a indicação de nirsevimabe.

8.Fontes

  • Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de Manejo Clínico da Bronquiolite Viral Aguda, 2026. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Diretrizes para o manejo da infecção causada pelo vírus sincicial respiratório (VSR), 2017. PDF
  • Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 109/2025-CGICI/DPNI/SVSA/MS (nirsevimabe), 2025. PDF
  • Prefeitura de São Paulo, Secretaria Municipal da Saúde. Imunização contra o VSR para crianças prematuras e com comorbidades — documento técnico nirsevimabe, 2026. PDF
  • Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo. Nota Técnica nº 064/2025 — Introdução da vacina VSR no calendário vacinal da gestante, 2025. PDF
  • American Academy of Pediatrics. Ralston SL et al. Clinical Practice Guideline: The Diagnosis, Management, and Prevention of Bronchiolitis. Pediatrics, 2014 (cópia institucional). PDF
  • Centers for Disease Control and Prevention. RSV immunization guidance for infants and young children. cdc.gov
  • NICE. NG9 — Bronchiolitis in children: diagnosis and management, 2015, atualizado em 2021. nice.org.uk
  • Martín Ruano J, Alcubilla García L. Bronquiolitis aguda y bronquitis en pediatría. Pediatría Integral (SEPEAP), 2026. pediatriaintegral.es
  • Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed. Oxford University Press, 2021 (obra de referência).