Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
A cólica do lactente é o choro prolongado, sem causa aparente e difícil de consolar, em lactente saudável com menos de 5 meses, com ganho de peso normal e exame físico normal. Começa nas primeiras semanas, tem pico por volta de 6 semanas e costuma resolver entre 3 e 4 meses. É diagnóstico de exclusão: anamnese e exame completos, curva de peso e observação da mamada. O tratamento é tranquilizar e apoiar os pais, com medidas de acalmar o bebê. Simeticona e lactase não têm evidência; antiespasmódicos anticolinérgicos (diciclomina) são contraindicados abaixo de 6 meses; IBP não reduz o choro. O L. reuteri DSM 17938 pode ser considerado no lactente em aleitamento materno (ESPGHAN 2023), com evidência limitada. Nunca suspender o aleitamento sem indicação. O choro é o principal gatilho da síndrome do bebê sacudido: orientar sempre os cuidadores. A cólica típica é tratada em casa (🟢). Choro agudo inconsolável diferente do habitual, febre, vômitos biliosos, letargia, abdome distendido ou suspeita de trauma exigem pronto-socorro (🔴).
1.O que é e como se apresenta
- Critérios de Wessel (regra dos 3): choro por mais de 3 horas por dia, em mais de 3 dias por semana, por mais de 3 semanas, em lactente saudável.
- Critérios de Roma IV (uso clínico): lactente com menos de 5 meses no início e no término dos sintomas; períodos recorrentes e prolongados de choro, agitação ou irritabilidade relatados pelos cuidadores, que ocorrem sem causa óbvia e não podem ser prevenidos nem resolvidos por eles; sem evidência de déficit de crescimento, febre ou doença. Para pesquisa, exige-se ainda choro de 3 horas ou mais por dia em 3 ou mais dias em 7 dias, confirmado por diário de 24 horas.
- Epidemiologia: afeta 10–40% dos lactentes; pico por volta de 6 semanas; melhora até 3–4 meses (às vezes até 6 meses).
- Quadro típico: choro no fim da tarde e à noite, rubor facial, flexão das pernas sobre o abdome, punhos cerrados, eliminação de gases; entre as crises, o bebê está bem, mama bem e ganha peso.
- Etiologia: desconhecida e provavelmente multifatorial — imaturidade do sistema nervoso central e da regulação do sono, alterações da motilidade e da microbiota intestinal, fatores do ambiente familiar (SBP). Em pequena parcela, APLV.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Choro com padrão típico de cólica, lactente < 5 meses, bom estado entre as crises, exame normal, ganho de peso adequado, família com rede de apoio | Tranquilizar, orientar medidas de acalmar e prevenção do sacudimento; retorno de rotina ou em 1–2 semanas |
| 🟡 Moderada | Choro associado a regurgitação com desconforto marcante, sangue ou muco nas fezes, eczema ou outros sinais de APLV; dificuldade de amamentação; ganho de peso limítrofe; cuidador exausto, deprimido ou com rede de apoio frágil | Reavaliação em poucos dias; revisar técnica de amamentação; teste de dieta materna ou fórmula extensamente hidrolisada se suspeita de APLV; triagem de depressão materna; acionar rede de apoio |
| 🔴 Grave | Choro agudo, inconsolável e diferente do habitual; febre (em especial < 3 meses); vômitos biliosos ou persistentes; letargia, hipotonia, fontanela abaulada, convulsão; abdome distendido, massa ou sangue nas fezes; hérnia irreduzível; torniquete de cabelo; déficit de crescimento importante; sinais de trauma ou suspeita de maus-tratos; cuidador em risco imediato de agredir a criança | Encaminhar ao pronto-socorro/hospital; se suspeita de maus-tratos, garantir a proteção da criança e acionar o Conselho Tutelar |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 3 meses com febre ou choro agudo (infecção bacteriana grave).
- Prematuridade, baixo peso, dificuldade de ganho ponderal.
- Depressão pós-parto, isolamento social, cuidador jovem, violência doméstica, uso de álcool ou drogas (risco de trauma não acidental).
- Choro que começa após os 4–5 meses ou persiste além dessa idade (não é cólica típica).
3.Diagnóstico no consultório
- Anamnese: início, horário e duração do choro (diário de choro ajuda), técnica e frequência das mamadas, volume e preparo da fórmula, vômitos, hábito intestinal, sangue nas fezes, febre, sono, rotina da casa, apoio aos pais, estado emocional da mãe.
- Exame completo com o bebê despido: temperatura, peso e curva de crescimento, fontanela, olhos (abrasão de córnea), boca, abdome, hérnias inguinais e umbilical, testículos, genitais, ânus (fissura), dedos das mãos e dos pés e pênis (torniquete de cabelo), pele (hematomas, lesões em padrão), fraturas (dor à mobilização).
- Observar uma mamada quando possível.
- Exames complementares: não são necessários na cólica típica. Pedir apenas se a história ou o exame sugerirem outra causa (por exemplo, urina tipo 1 e urocultura no lactente febril).
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Infecção: infecção urinária, otite, meningite, sepse.
- Causas cirúrgicas: invaginação intestinal, hérnia inguinal encarcerada, torção testicular, má rotação com volvo.
- Torniquete de cabelo ou fio em dedos ou pênis; abrasão de córnea; fissura anal.
- Trauma não acidental: fraturas, hematoma subdural (choro com vômitos, irritabilidade, fontanela abaulada).
- APLV (eczema, vômitos, sangue ou muco nas fezes, baixo ganho de peso) e DRGE com esofagite.
- Fome por técnica inadequada ou baixa oferta; exposição ao tabaco.
4.Tratamento em casa
Apoio e orientação aos pais (base do tratamento)
- Explicar que o choro é comum, que o bebê está saudável e que a cólica melhora até 3–4 meses; reconhecer o cansaço e a angústia dos pais (NICE, SBP).
- Medidas de acalmar: colo, contato pele a pele, embalo e movimento rítmico, ruído branco, banho morno, compressas mornas no abdome, flexão das coxas sobre a barriga, ambiente calmo e com pouca luz, rotina regular (SBP).
- Responder precocemente ao choro e oferecer o peito (AEP).
- Não interromper o aleitamento materno exclusivo sem orientação pediátrica; não trocar a fórmula sem motivo (SBP).
- Revezar os cuidados; aceitar ajuda de familiares e amigos.
- Triar depressão pós-parto e acompanhar a saúde emocional da mãe.
Prevenção da síndrome do bebê sacudido (orientar sempre)
- "Nunca sacuda o bebê. Se você se sentir irritado ou sem controle, coloque o bebê em lugar seguro, de barriga para cima no berço, saia do quarto por alguns minutos e peça ajuda."
- O choro excessivo é o principal gatilho do trauma craniano abusivo (SBP; AEP; AAP).
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Limosilactobacillus reuteri DSM 17938 | 10^8 UFC (conferir número de gotas na apresentação) | 1x/dia | 21–28 dias | Considerar no lactente em aleitamento materno (ESPGHAN 2023: ≥ 10^8 UFC/dia por ≥ 21 dias; a ESPGHAN também aceita Bifidobacterium animalis subsp. lactis BB-12, ≥ 10^8 UFC/dia por 21–28 dias). Benefício incerto no lactente com fórmula; um grande ensaio comunitário não mostrou efeito. NICE não recomenda probióticos |
| Fórmula extensamente hidrolisada | Volume habitual | Conforme rotina | Teste de 2–4 semanas | Apenas se houver suspeita de APLV no lactente com fórmula |
| Dieta materna sem leite de vaca | — | — | Teste de 2–4 semanas | Apenas se houver suspeita de APLV no lactente amamentado; acompanhar a nutrição da mãe |
O que não usar
- Simeticona e lactase em gotas: sem eficácia comprovada (SBP); o NICE não recomenda e a AAFP considera a simeticona equivalente ao placebo.
- Antiespasmódicos anticolinérgicos (diciclomina, dicicloverina): contraindicados em menores de 6 meses pelo risco de apneia e sedação (AAFP).
- IBP e anti-H2: não reduzem o choro e têm efeitos adversos (NASPGHAN/ESPGHAN).
- Chás e fitoterápicos (erva-doce, camomila, anis-estrelado): risco de toxicidade e de redução da ingestão de leite; o anis-estrelado pode causar neurotoxicidade.
- Sedativos e anti-histamínicos; troca empírica e repetida de fórmulas; manipulação espinhal ou osteopatia craniana (NICE).
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Choro agudo, contínuo e inconsolável, diferente do padrão habitual, sobretudo com palidez, vômitos ou letargia (invaginação, hérnia encarcerada, torção testicular).
- Febre em lactente < 3 meses ou lactente com aspecto toxemiado.
- Vômitos biliosos, abdome distendido, massa abdominal, sangue nas fezes.
- Fontanela abaulada, convulsão, hipotonia, alteração de consciência.
- Torniquete de cabelo que não se consegue remover no consultório, com edema ou isquemia.
- Suspeita de trauma não acidental (hematomas em bebê que não se move, fraturas, lesões inexplicadas): internar para investigação e proteção.
- Cuidador que refere medo de machucar o bebê ou incapacidade de lidar com o choro sem rede de apoio.
Como encaminhar
- Manter o bebê aquecido e em posição confortável; decúbito lateral se vomitar e estiver sonolento.
- Não oferecer alimento na suspeita de causa cirúrgica.
- Hérnia inguinal irredutível: tentar redução manual suave apenas se experiente e sem sinais de sofrimento de alça; caso contrário, encaminhar à cirurgia pediátrica.
- Contatar o serviço de destino; SAMU (192) se houver instabilidade, convulsão ou rebaixamento de consciência.
- Na suspeita de maus-tratos: registrar os achados de forma objetiva, garantir que a criança seja avaliada em hospital, notificação obrigatória (compulsória) e comunicação ao Conselho Tutelar.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "O choro do bebê costuma aumentar até cerca de 6 semanas e melhorar até os 3 ou 4 meses. Não é culpa de vocês nem do leite materno."
- "Remédios para gases e chás não resolvem a cólica e podem fazer mal."
- "Se o choro deixar você nervoso, coloque o bebê no berço, saia do quarto, respire e peça ajuda. Nunca sacuda o bebê."
- Retorno em 1–2 semanas para avaliar peso, choro e bem-estar da família; antes, se surgirem sinais de alerta.
- Procurar o pronto-socorro se: choro diferente, muito forte e contínuo, que não passa com nada; febre (em bebê com menos de 3 meses, sempre); vômitos verdes ou repetidos; barriga inchada; sangue nas fezes; bebê mole, muito sonolento ou que não quer mamar; moleira estufada; caroço na virilha ou na barriga que não volta; dedo ou pênis inchado e roxo.
Veja também, nesta Biblioteca: Alergia Alimentar e APLV.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Definição | Regra dos 3 (Wessel) e Roma IV | Sem diretriz específica sobre cólica | Diagnóstico de exclusão em lactente saudável (CKS) | Segue o NICE | Choro ≥ 3 h, ≥ 3 dias por semana, ≥ 3 semanas |
| Manejo | Tranquilizar os pais; medidas de acalmar; manter aleitamento | — | Tranquilizar e apoiar os pais | Segue o NICE | Responder precocemente ao choro, colo, oferecer o peito |
| Simeticona, lactase | Sem eficácia comprovada | — | Não recomenda | Segue o NICE | Sem evidência |
| Probióticos | Duas cepas com evidência; sob orientação pediátrica (SBP 2023) | — | Não recomenda | Segue o NICE | Evidencias en Pediatría (AEP) considera razoável não incluir de rotina |
| Dieta materna ou troca de fórmula | Não trocar sem orientação; considerar se APLV | — | Não recomenda de rotina | Segue o NICE | Não abordado nos documentos consultados |
| Prevenção do sacudimento | Alerta explícito sobre síndrome do bebê sacudido | Relatório técnico sobre trauma craniano abusivo (2025): apoio aos cuidadores diante do choro | Apoio aos pais e bem-estar parental | Segue o NICE | "Nunca sacudir o bebê" |
Leitura: há consenso de que a cólica é benigna, autolimitada e diagnóstico de exclusão, de que o tratamento central é o apoio aos pais e de que simeticona, lactase, fitoterápicos e anticolinérgicos não devem ser usados. A principal divergência é o probiótico: a ESPGHAN (2023) e a SBP admitem o L. reuteri DSM 17938 no lactente amamentado, enquanto o NICE não recomenda probióticos e revisores da AEP consideram a evidência insuficiente para uso rotineiro. Todas as referências destacam o risco de violência associado ao choro excessivo; a AAP concentra sua orientação na prevenção do trauma craniano abusivo.
- Cólica é diagnóstico de exclusão: examinar o bebê despido, incluindo dedos, pênis, hérnias, fontanela e pele.
- Choro agudo e diferente do habitual não é cólica até prova em contrário.
- Não prescrever simeticona, antiespasmódicos, IBP ou chás.
- L. reuteri DSM 17938 pode ser considerado no lactente amamentado, por 21–28 dias, com expectativa realista.
- Orientar a prevenção do sacudimento em toda consulta de lactente que chora muito.
- Avaliar a saúde emocional da mãe e a rede de apoio da família.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Cólica do lactente (Pediatria para Famílias), 2023. sbp.com.br
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Gastroenterologia. Distúrbios gastrointestinais funcionais no lactente e na criança menor de 4 anos (manual), 2022. PDF
- ESPGHAN. Probiotics for the management of pediatric gastrointestinal disorders — position paper, 2023 (resumo). Nestlé Nutrition Institute
- NICE Clinical Knowledge Summaries. Colic — infantile (resumo pela GP Infant Feeding Network). gpifn.org.uk
- American Academy of Family Physicians. Infantile colic: recognition and treatment, 2015. aafp.org
- American Academy of Pediatrics. Abusive head trauma in infants and children — relatório técnico (notícia HealthyChildren). healthychildren.org
- AEP, Comité de Lactancia Materna. Llanto. Cólico del lactante. lactanciamaterna.aeped.es
- Evidencias en Pediatría (AEP). ¿Es útil el probiótico Lactobacillus reuteri en el cólico del lactante?, 2014. PDF
- semFYC. Cólico del lactante (unidade 17.8). PDF