Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
Olho vermelho com secreção é queixa frequente e quase sempre benigna. A conjuntivite viral (adenovírus) cursa com secreção aquosa, folículos, linfonodo pré-auricular e quadro respiratório; a bacteriana, com secreção mucopurulenta e pálpebras coladas; a alérgica, com prurido intenso, bilateral e recorrente. Nas três, a visão é normal, não há dor ocular verdadeira nem fotofobia. A conjuntivite bacteriana leve é autolimitada: a maioria das crianças melhora em 5–6 dias sem antibiótico (AAP); o colírio antibiótico encurta pouco a evolução e pode ser prescrito, de preferência após 48–72 h sem melhora ou nos quadros com secreção purulenta abundante. Não prescrever colírio com corticoide na atenção primária. Conjuntivite com otite média sugere Haemophilus influenzae e pede antibiótico oral. Todo recém-nascido (< 28–30 dias) com olho vermelho e secreção é urgência: pensar em gonococo e clamídia, que exigem tratamento sistêmico. Dor ocular, fotofobia, baixa da visão, opacidade da córnea, pupila alterada, secreção purulenta hiperaguda, proptose ou dor à movimentação ocular exigem oftalmologista ou pronto-socorro (🔴); a celulite pré-septal (edema e hiperemia palpebral com febre e olho normal) em criança > 1 ano sem toxemia pode ser tratada por via oral, com reavaliação em 24–48 h (🟡). Afastamento escolar em geral não é obrigatório.
1.O que é e como se apresenta
- Viral: principalmente adenovírus (febre faringoconjuntival, ceratoconjuntivite epidêmica); também herpes simples, varicela-zóster, sarampo e outros (CDC). Secreção aquosa, folículos, linfonodo pré-auricular, sintomas respiratórios; contágio por cerca de 10–14 dias (AAO).
- Bacteriana: H. influenzae não tipável, Streptococcus pneumoniae, Moraxella catarrhalis e Staphylococcus aureus (CDC, SPSP). Secreção mucopurulenta, pálpebras coladas ao acordar.
- Hiperaguda: secreção purulenta abundante que se refaz rapidamente, edema palpebral e quemose intensos — pensar em Neisseria gonorrhoeae, que ameaça a visão (AAO). No adolescente, investigar infecção sexualmente transmissível.
- Alérgica: prurido é o sintoma-chave; bilateral, secreção aquosa ou mucoide, edema palpebral, associação com rinite, asma e dermatite atópica; não contagiosa (CDC, SPSP). A ceratoconjuntivite vernal (papilas gigantes, prurido intenso) é de manejo oftalmológico.
- Neonatal (oftalmia neonatal, < 28 dias): química (primeiras 24–48 h após profilaxia), gonocócica (em geral 2–5 dias de vida, hiperaguda), por clamídia (em geral 5–14 dias, secreção mucopurulenta, pode acompanhar pneumonia), herpética e por outras bactérias.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Criança > 1 mês, hiperemia com secreção aquosa, mucopurulenta leve ou prurido; visão normal; sem dor ocular, sem fotofobia; pálpebras sem edema importante; bom estado geral | Higiene, compressas; antibiótico tópico só se purulenta ou sem melhora em 48–72 h; antialérgico se alérgica; retorno se não melhorar em 5–7 dias |
| 🟡 Moderada | Secreção purulenta abundante; conjuntivite + otite média; usuário de lente de contato; imunodeprimido; sem melhora após 48–72 h de colírio antibiótico; conjuntivite alérgica que não responde ao tratamento inicial; suspeita de herpes sem sinais de ceratite | Tratamento conforme a causa e reavaliação em 24–48 h; encaminhar ao oftalmologista em curto prazo (lente de contato, falha terapêutica, herpes, vernal) |
| 🟡 Moderada (celulite pré-septal) | Edema, hiperemia e calor palpebral, com ou sem febre, com motilidade ocular, acuidade visual e pupilas normais, sem proptose, em criança > 1 ano, sem toxemia e com seguimento garantido | Amoxicilina-clavulanato VO (90 mg/kg/dia de amoxicilina) por 7–10 dias; reavaliação obrigatória em 24–48 h; hospital se piorar ou não melhorar |
| 🔴 Grave | Recém-nascido < 28–30 dias com olho vermelho e secreção; conjuntivite hiperaguda; dor ocular moderada a intensa, fotofobia, baixa da visão, opacidade ou úlcera de córnea, injeção ciliar (perilímbica), pupila fixa ou assimétrica; celulite pré-septal em < 1 ano, com toxemia ou sem melhora em 24–48 h; proptose, dor ou limitação da movimentação ocular, oftalmoplegia, baixa visual (celulite orbitária); trauma ou queimadura química; vesículas herpéticas na pálpebra com olho vermelho | Encaminhar ao pronto-socorro ou oftalmologista no mesmo dia; queimadura química: irrigação abundante antes do transporte |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 1 mês; mãe com gonorreia ou clamídia não tratada no pré-natal.
- Uso de lente de contato (risco de ceratite bacteriana, incluindo Pseudomonas).
- Imunodeficiência; trauma ou cirurgia ocular prévia.
- Adolescente com vida sexual ativa e conjuntivite hiperaguda.
3.Diagnóstico no consultório
- Diagnóstico clínico: anamnese (secreção, prurido, contatos, lente de contato, atopia) e exame: acuidade visual, córnea transparente, pupilas, reflexo vermelho, pré-auricular, otoscopia.
- Pistas úteis:
- prurido → alérgica;
- secreção aquosa + folículos + pré-auricular + faringite → viral;
- pálpebras coladas + secreção mucopurulenta → bacteriana;
- otalgia ou otite no exame → H. influenzae;
- hiperemia bilateral sem secreção + febre ≥ 5 dias → considerar Kawasaki.
- Exames: desnecessários na conjuntivite leve. Coletar secreção para Gram, cultura e pesquisa de clamídia (swab com células conjuntivais da pálpebra evertida, não só o exsudato — CDC) na conjuntivite neonatal, na hiperaguda, na recorrente ou na falha terapêutica.
- Diagnóstico diferencial que não pode passar: ceratite (herpética ou por lente de contato), uveíte, glaucoma congênito (lacrimejamento, fotofobia, córnea grande ou opaca no lactente), corpo estranho, celulite periorbitária ou orbitária, Kawasaki, Stevens-Johnson, obstrução do ducto lacrimonasal (lacrimejamento crônico desde as primeiras semanas, com olho branco).
4.Tratamento em casa
Medidas para todas: limpar a secreção com gaze e soro fisiológico, do canto interno para o externo, uma gaze para cada olho; lavar as mãos; toalhas e fronhas individuais; não compartilhar colírios; suspender lente de contato até a cura.
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Colírio antibiótico de amplo espectro (ex.: tobramicina 0,3%) | 1–2 gotas no olho afetado, conforme bula | Conforme bula (em geral 4–6x/dia, reduzindo com a melhora) | 5–7 dias | Conjuntivite bacteriana purulenta ou sem melhora em 48–72 h |
| Colírio de quinolona (ciprofloxacino ou ofloxacino 0,3%) | 1–2 gotas | A cada 4 h (Guía ABE), conforme bula | 5–7 dias | Preferir em usuário de lente de contato (cobertura para Pseudomonas) e encaminhar ao oftalmologista; evitar uso rotineiro nos demais (resistência) |
| Amoxicilina-clavulanato VO (conjuntivite + otite) | 90 mg/kg/dia de amoxicilina + 6,4 mg/kg/dia de clavulanato (formulação 14:1) | 12/12 h | Conforme idade, como na OMA | Síndrome conjuntivite-otite (AAP); veja também, nesta Biblioteca: Otite média aguda |
| Colírio antialérgico de dupla ação (olopatadina, cetotifeno) | 1 gota em cada olho, conforme bula | Conforme bula (em geral 2x/dia) | Durante a exposição/estação | Conjuntivite alérgica; respeitar a idade mínima da bula |
| Lágrima artificial e compressas frias | — | Várias vezes ao dia | Enquanto houver sintomas | Conjuntivite viral e alérgica |
- Viral: suporte (lubrificante, compressas frias), sem antibiótico (CDC); orientar sobre o contágio.
- Bacteriana: o benefício do antibiótico é pequeno (AAP; Guía ABE); a AAO considera a forma leve autolimitada. Opção prática: colírio antibiótico se secreção purulenta franca, ou prescrição com orientação de iniciar se não houver melhora em 48–72 h. A escolha no Brasil depende da disponibilidade (ver comparação); posologia conforme bula.
- Alérgica: afastar o alérgeno, compressas frias, lágrima artificial para "lavar" o alérgeno, colírio anti-histamínico/estabilizador de mastócito; anti-histamínico oral se houver rinite associada (veja também, nesta Biblioteca: Rinite alérgica). Corticoide tópico apenas sob acompanhamento oftalmológico (necessário, por exemplo, nas exacerbações da conjuntivite vernal — AAO).
- Não usar:
- colírio com corticoide (isolado ou associado a antibiótico) na atenção primária — pode agravar ceratite herpética, favorecer infecção e causar catarata e glaucoma; a AAO e a Guía ABE recomendam evitá-lo;
- antibiótico na conjuntivite viral ou alérgica;
- colírios anestésicos, vasoconstritores, "chás" ou leite materno no olho.
- Afastamento escolar: em geral não é obrigatório. A AAP (Managing Infectious Diseases in Child Care and Schools) só recomenda exclusão se a criança não puder participar das atividades, tiver febre com alteração de comportamento ou por recomendação médica ou da vigilância; o NHS não exige afastamento; o CDC orienta afastar quem não consegue evitar contato próximo. Na prática: afastar a criança pequena com secreção abundante que não consegue manter a higiene, ou em surtos.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Conjuntivite neonatal (< 28–30 dias): avaliação no mesmo dia; suspeita de gonococo exige internação e tratamento sistêmico (Guía ABE indica internação na conjuntivite neonatal).
- Conjuntivite hiperaguda em qualquer idade.
- Sinais de alerta oculares: dor moderada a intensa, fotofobia, baixa da visão, sensação de corpo estranho que impede abrir o olho, opacidade da córnea, injeção ciliar, pupila fixa ou assimétrica (Guía ABE; NHS).
- Celulite orbitária (pós-septal): proptose, dor à movimentação ocular, oftalmoplegia, baixa visual — urgência (risco de abscesso, perda visual e complicação intracraniana).
- Celulite periorbitária (pré-septal) (edema, hiperemia e calor palpebral, febre, olho normal): hospital se < 1 ano, toxemia, falha em 24–48 h de antibiótico oral ou seguimento incerto; nos demais, tratamento ambulatorial (ver tabela).
- Suspeita de herpes ocular (vesículas palpebrais, dendrito à fluoresceína) ou herpes-zóster no território do nervo oftálmico.
- Trauma ocular, corpo estranho não removível, queimadura química.
- Falha após 48–72 h de antibiótico tópico adequado.
- Olho vermelho como parte de doença sistêmica: Kawasaki, Stevens-Johnson.
Tratamento sistêmico da conjuntivite neonatal (conduta hospitalar, para referência)
| Agente | Esquema (CDC 2021) | Observação |
|---|---|---|
| N. gonorrhoeae | Ceftriaxona 25–50 mg/kg IV ou IM, dose única, máx. 250 mg | Cautela na hiperbilirrubinemia, sobretudo em prematuros; se recebe cálcio IV: cefotaxima 100 mg/kg IV/IM dose única. Recém-nascido de mãe com gonorreia não tratada recebe o mesmo esquema de forma presuntiva |
| C. trachomatis | Eritromicina (base ou etilsuccinato) 50 mg/kg/dia VO, 4 doses/dia, 14 dias | Alternativa: azitromicina suspensão 20 mg/kg/dia VO, 1x/dia, 3 dias (dados limitados). Eficácia da eritromicina de cerca de 80%; pode ser necessário segundo curso; risco de estenose hipertrófica de piloro em < 6 semanas com ambas (monitorar); investigar pneumonia |
- Tratar a mãe e os parceiros e investigar outras IST. A profilaxia ocular ao nascer (povidona 2,5% preferencial; eritromicina 0,5% ou tetraciclina 1% — SBP 2020; MS, Nota Técnica 11/2024) não previne bem a conjuntivite por clamídia (CDC); a prevenção é o rastreamento no pré-natal.
Como encaminhar
- Recém-nascido: contato com o pronto-socorro pediátrico; se possível, colher swab para Gram e cultura antes do antibiótico.
- Queimadura química: irrigação imediata e abundante com soro ou água corrente antes de qualquer outra medida.
- Trauma com suspeita de perfuração: proteção rígida sem compressão; não instilar colírios.
- Celulite orbitária: jejum, analgesia, contato com o serviço (oftalmologia e otorrino).
- Relatório com início, acuidade visual, achados e medicamentos usados.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "A maioria das conjuntivites melhora em até uma semana. Lave as mãos, limpe a secreção com soro e gaze, não divida toalhas e não encoste o frasco do colírio no olho."
- "Se não houver melhora em 2 a 3 dias com o colírio, ou se durar mais de 7 dias, volte."
- "Nunca use colírio que tenha corticoide sem orientação do oftalmologista."
- Procure atendimento no mesmo dia se: bebê com menos de 1 mês com olho vermelho ou com secreção; dor forte no olho; a criança não consegue abrir o olho ou não suporta a luz; visão embaçada ou piora da visão; pálpebra muito inchada, vermelha e quente, com febre; olho "saltado" ou dor ao mexer o olho; bolhas na pálpebra; produto químico ou pancada no olho; febre há vários dias com olhos vermelhos e lábios rachados.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Antibiótico tópico | Pode encurtar a evolução; gentamicina, tobramicina, fluoroquinolonas (SPSP 2018) | Benefício pequeno; maioria melhora em 5–6 dias sem antibiótico | Só na bacteriana; ineficaz na viral e alérgica (NHS) | Segue o NICE | Benefício controverso; observar 48–72 h; eritromicina, cloranfenicol; evitar aminoglicosídeo e quinolona de rotina (Guía ABE) |
| Corticoide tópico | Uso restrito na alérgica (SPSP) | — | — | Segue o NICE | Evitar colírios e pomadas de corticoide |
| Neonatal | Profilaxia com povidona 2,5% preferencial (SBP 2020; MS 2024) | Eritromicina 0,5% como profilaxia (AAO); ceftriaxona / eritromicina sistêmicas (CDC) | Bebê < 30 dias com olho vermelho: avaliação urgente (NHS) | Segue o NICE | Tratamento sistêmico e internação |
| Sinais de alerta | Úlcera de córnea, uveíte, trauma, queimadura, Kawasaki, Stevens-Johnson (SPSP) | — | Dor, fotofobia, alteração visual, olho muito vermelho | Segue o NICE | Fotofobia, dor, opacidade corneana, injeção ciliar, pupila alterada, hiperaguda, falha 48–72 h |
| Afastamento escolar | Sem norma nacional localizada | Não obrigatório, salvo condições específicas | Não obrigatório (NHS) | Segue o NICE | — |
Leitura: as referências convergem em que a conjuntivite bacteriana leve é autolimitada, que o antibiótico tópico traz benefício pequeno e que o corticoide tópico não deve ser usado fora do acompanhamento oftalmológico. Todas destacam a conjuntivite neonatal e os sinais de acometimento corneano ou orbitário como urgências. As diferenças estão na escolha do colírio: a fonte espanhola evita aminoglicosídeos e quinolonas de rotina, enquanto a SPSP os lista como opções. Sobre o afastamento escolar, AAP e NHS não exigem exclusão, o que contrasta com a prática frequente das escolas brasileiras. Não localizamos documento científico recente da SBP sobre conjuntivite infecciosa fora do período neonatal; o conteúdo do NICE CKS não pôde ser acessado, e usamos o material do NHS.
- Visão normal, sem dor e sem fotofobia: conjuntivite simples. Qualquer um desses sinais muda a conduta.
- Recém-nascido com olho vermelho e secreção é urgência: gonococo e clamídia exigem tratamento sistêmico.
- Colírio com corticoide não se prescreve na atenção primária.
- Conjuntivite com otite: tratar com amoxicilina-clavulanato em dose alta (90 mg/kg/dia de amoxicilina), não com colírio.
- Usuário de lente de contato: suspender a lente, quinolona tópica e oftalmologista.
- Proptose ou dor à movimentação ocular: pronto-socorro. Edema palpebral com febre e olho normal (> 1 ano, sem toxemia): antibiótico oral e reavaliação em 24–48 h.
8.Fontes
- American Academy of Ophthalmology. Conjunctivitis Preferred Practice Pattern, 2023. aao.org
- American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org). Pinkeye (Conjunctivitis). healthychildren.org
- Snohomish County Health Department. Conjunctivitis (Pink Eye) — com base em AAP, Managing Infectious Diseases in Child Care and Schools, 6ª ed. snohd.org
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Overview of Conjunctivitis. cdc.gov
- Centers for Disease Control and Prevention. STI Treatment Guidelines, 2021 — Gonococcal infections among neonates. cdc.gov
- Centers for Disease Control and Prevention. STI Treatment Guidelines, 2021 — Chlamydial infections. cdc.gov
- NHS. Conjunctivitis. nhs.uk
- Criado Vega EA, Criado Camargo S. Conjuntivitis aguda (e infecciones del párpado). Guía ABE, 2022. PDF
- Sociedade de Pediatria de São Paulo. Recomendações nº 84 — Olho vermelho e conjuntivites na criança (Oftalmologia), 2018. PDF
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Neonatologia. Profilaxia da oftalmia neonatal por transmissão vertical, 2020. sbp.com.br
- Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 11/2024 — Prevenção da conjuntivite neonatal. PDF