Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
A coqueluche é causada pela Bordetella pertussis e evolui em três fases: catarral (1–2 semanas, parece resfriado, fase mais contagiosa), paroxística (crises de tosse em salvas, guincho inspiratório, vômitos pós-tosse, cianose; 2–6 semanas) e convalescença. No lactente jovem a tosse pode ser pouco evidente e a doença se apresentar com apneia e cianose — é nessa faixa que estão quase todas as mortes. Em 2024 o Brasil notificou mais de 6.500 casos, com 24 das 29 mortes em menores de 1 ano. Suspeita = tratar: azitromicina sem esperar o resultado — < 6 meses: 10 mg/kg/dia por 5 dias; ≥ 6 meses: 10 mg/kg no 1º dia (máx. 500 mg) e 5 mg/kg/dia do 2º ao 5º dia (máx. 250 mg). Coletar PCR de nasofaringe antes ou até 3 dias após o início do antibiótico. Lactentes, sobretudo < 6 meses (e todo < 3 meses), devem ser avaliados no hospital; crianças maiores em bom estado são tratadas em casa. Notificar já na suspeita (notificação compulsória; vários estados e municípios exigem até 24 h), indicar quimioprofilaxia aos contatos prioritários em até 21 dias da exposição e conferir a dTpa na gestação (a partir de 20 semanas, em toda gestação).
1.O que é e como se apresenta
- Agente e transmissão: Bordetella pertussis, transmitida por gotículas; alta contagiosidade. Adolescentes e adultos com tosse prolongada, muitas vezes sem diagnóstico, são a principal fonte de infecção do lactente. A imunidade vacinal e a natural diminuem com o tempo.
- Epidemiologia recente: após anos de baixa incidência, houve aumento mundial em 2023–2024. No Brasil, até 10/01/2025, foram 6.504 casos notificados em 2024 (3,06/100 mil), com 1.121 em menores de 1 ano e 1.534 em adolescentes; das 29 mortes, 24 foram em menores de 12 meses, concentradas entre 1 e 2 meses (SBIm/SBP, Nota Técnica de fevereiro de 2025). O MS atualizou tratamento e quimioprofilaxia na Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 (maio de 2025).
- Fases clínicas (MS)
- Catarral (1–2 semanas): febre baixa, coriza, mal-estar, tosse seca que se intensifica. É a fase de maior transmissibilidade e em que o antibiótico mais altera o curso.
- Paroxística (2–6 semanas): acessos de tosse súbitos e incontroláveis, com 5 a 10 tossidas em uma expiração, guincho inspiratório, protrusão da língua, congestão facial, cianose, vômitos pós-tosse, exaustão; entre as crises a criança parece bem. Em geral afebril.
- Convalescença (2–6 semanas, até 3 meses): paroxismos diminuem; infecções respiratórias virais podem reativar a tosse.
- Lactente jovem: a tosse pode ser mínima ou ausente; apneia pode ser o único sinal (CDC). Também cianose, engasgos, dificuldade para mamar, bradicardia. Complicações: apneia (a mais frequente em < 12 meses), pneumonia, convulsão, encefalopatia, hipertensão pulmonar com hiperleucocitose (forma maligna), desidratação e desnutrição.
Definição de caso suspeito (MS, citado na NT SBIm/SBP 2025)
- < 6 meses: tosse de qualquer tipo há 10 dias ou mais, independentemente da vacinação, associada a um ou mais de: tosse paroxística, guincho inspiratório, vômitos pós-tosse, cianose, apneia, engasgo.
- ≥ 6 meses: os mesmos critérios, com tosse há 14 dias ou mais.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Criança ≥ 1 ano (ou lactente maior bem vacinado), bom estado geral, sem cianose ou apneia, alimenta-se e hidrata-se bem, SpO2 normal entre as crises | Tratamento em casa com azitromicina, afastamento da escola por 5 dias após início do antibiótico, notificação, quimioprofilaxia dos contatos; retorno em 48–72 h |
| 🟡 Moderada | Lactente de 6–12 meses; paroxismos frequentes com vômitos e dificuldade alimentar; sono muito prejudicado; doença de base (cardiopatia, pneumopatia, doença neuromuscular); família com dificuldade de observar | Observação no PS; baixo limiar para internar; reavaliação em 24 h se ficar em casa |
| 🔴 Grave | Lactente < 6 meses (sobretudo < 3 meses) com suspeita; apneia, cianose, bradicardia; SpO2 < 92%; desconforto respiratório ou pneumonia; convulsão, sonolência; desidratação ou incapacidade de se alimentar; leucocitose muito elevada; prematuro | Encaminhar ao hospital com oxigênio e transporte monitorado; primeira dose de azitromicina se não atrasar a transferência |
O Guia de Vigilância em Saúde do MS (6ª ed., 2023) afirma que os lactentes jovens, principalmente os menores de 6 meses, são o grupo propenso a formas graves e frequentemente letais, e que seu cuidado adequado exige hospitalização, isolamento e vigilância permanente. O MS não fixa uma idade de corte para internação; a proposta de sempre internar o < 3 meses e avaliar em hospital o < 6 meses é prática consagrada e coerente com o CDC (hospitalização mais comum abaixo de 6 meses) e a AEP (cerca de três quartos dos menores de 6 meses são internados).
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 6 meses, em especial < 2 meses (antes da primeira dose de penta).
- Mãe que não recebeu dTpa na gestação (CDC).
- Esquema vacinal incompleto (< 3 doses).
- Prematuridade; cardiopatia, pneumopatia crônica, doença neuromuscular, imunodeficiência.
- Hiperleucocitose acentuada (associada à forma maligna com hipertensão pulmonar).
3.Diagnóstico no consultório
- Clínico-epidemiológico: tosse paroxística com guincho ou vômitos, contato com tossidor crônico, surto na comunidade. No lactente, apneia/cianose inexplicadas pedem que se pense em coqueluche.
- Hemograma: leucocitose com linfocitose absoluta; na fase paroxística os leucócitos podem chegar a 30–40 mil/mm³ com 60–80% de linfócitos (MS). Leucocitose muito alta no lactente é sinal de gravidade.
- PCR em tempo real de secreção de nasofaringe: método mais sensível; coletar antes do antibiótico ou até 3 dias após o início (MS). A sensibilidade cai com o tempo de doença.
- Cultura: especificidade de 100%, sensibilidade de 12–60% (MS); mesma janela de coleta.
- Radiografia de tórax: se pneumonia ou desconforto.
- Não esperar o resultado para tratar e para indicar quimioprofilaxia (MS 2025).
- Diferenciais: infecções por adenovírus, Mycoplasma, Chlamydia trachomatis no lactente, VSR; corpo estranho; bronquiolite; tuberculose; refluxo com engasgos no lactente.
4.Tratamento em casa
Quando tratar: todo caso suspeito, o mais cedo possível — idealmente na fase catarral, quando o antibiótico reduz sintomas. Também reduz a transmissão. O CDC indica tratar dentro de 3 semanas do início da tosse em ≥ 1 ano e dentro de 6 semanas em < 1 ano e gestantes (sobretudo no fim da gestação).
Antibióticos — mesmas doses para tratamento e quimioprofilaxia (MS NT 165/2025; SBIm/SBP 2025)
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Azitromicina (1ª escolha) — < 6 meses (inclusive < 1 mês) | 10 mg/kg/dia | 1 vez ao dia | 5 dias | Preferida no neonato; monitorar sinais de estenose hipertrófica de piloro |
| Azitromicina — 6 meses a < 12 anos | 10 mg/kg no 1º dia (máx. 500 mg); 5 mg/kg/dia do 2º ao 5º dia (máx. 250 mg) | 1 vez ao dia | 5 dias | — |
| Azitromicina — ≥ 12 anos/≥ 45 kg e adultos | 500 mg no 1º dia; 250 mg do 2º ao 5º dia | 1 vez ao dia | 5 dias | — |
| Claritromicina (2ª escolha) | 15 mg/kg/dia (máx. 1 g/dia); ≥ 12 anos: 1 g/dia | 12/12 h | 7 dias | Não recomendada < 1 mês |
| Eritromicina (3ª escolha) | 40 mg/kg/dia (máx. 2 g/dia) | 6/6 h | 14 dias em < 6 meses; 7–14 dias nos maiores | SBIm/SBP: evitar < 1 mês (estenose de piloro) |
| Sulfametoxazol-trimetoprima (intolerância a macrolídeo) | ≥ 2 meses: SMX 40 mg/kg/dia + TMP 8 mg/kg/dia; ≥ 12 anos/≥ 45 kg: 1.600/320 mg/dia | 12/12 h | 14 dias | Contraindicado < 2 meses |
Medidas de suporte
- Ambiente calmo, evitar estímulos que desencadeiam paroxismos (choro, alimentação apressada, fumaça).
- Refeições pequenas e frequentes; reoferecer após vômito.
- Lavagem nasal com soro fisiológico.
- Afastamento da escola ou creche por pelo menos 5 dias após o início do antibiótico (ou 3 semanas após o início dos paroxismos, se não tratado — MS).
O que não usar: antitussígenos, xaropes, mucolíticos, broncodilatadores e corticoides não reduzem os paroxismos e não devem ser usados rotineiramente.
Notificação: obrigatória (compulsória) à vigilância epidemiológica, já na suspeita — não aguardar a confirmação laboratorial para notificar.
Quimioprofilaxia pós-exposição (MS NT 165/2025) — em até 21 dias após a exposição a caso suspeito ou confirmado, com as mesmas doses do tratamento, independentemente da situação vacinal:
- Grupo 1 (vulneráveis): crianças < 1 ano; imunocomprometidos; pessoas com asma moderada/grave ou outra doença pulmonar crônica.
- Grupo 2: quem reside com pessoas vulneráveis (familiares, babás, cuidadores, trabalhadores domésticos).
- Grupo 3 (alto risco de transmissão): gestantes a partir de 32 semanas não vacinadas; trabalhadores de saúde que atendem vulneráveis; pessoas em contato com lactentes < 1 ano (creches, por exemplo).
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Todo lactente < 3 meses com suspeita; lactente < 6 meses deve ser avaliado em hospital.
- Apneia, cianose, bradicardia (relatadas ou presenciadas), mesmo com a criança bem no momento.
- SpO2 < 92% entre as crises, desconforto respiratório, pneumonia.
- Incapacidade de mamar/comer, vômitos persistentes, desidratação, perda de peso.
- Convulsão, sonolência, alteração de consciência.
- Prematuro ou doença de base cardiopulmonar ou neuromuscular.
- Família sem condições de observar a criança continuamente.
Como encaminhar
- Oxigênio se SpO2 < 92% ou cianose; aspirar secreções de boca e nariz com delicadeza.
- Manter o lactente monitorado e nunca sozinho no transporte; acompanhante treinado para estimular em caso de apneia.
- Iniciar azitromicina se isso não atrasar a transferência; coletar PCR se possível sem atraso.
- Isolamento respiratório por gotículas (máscara no paciente e na equipe).
- Contatar o serviço de destino (preferir hospital com UTI pediátrica) e transporte em ambulância nos casos graves.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- A tosse pode durar semanas a meses mesmo com o antibiótico correto; o remédio serve principalmente para cortar a transmissão.
- A criança deve ficar afastada da escola por 5 dias após iniciar o antibiótico.
- Todos os contatos indicados pelo médico ou pela vigilância devem tomar o antibiótico preventivo.
- Procurar o pronto-socorro imediatamente se:
- O bebê para de respirar, fica roxo ou pálido, ou "desmaia" durante ou após a crise.
- Não consegue mamar, vomita tudo ou urina pouco.
- Respiração rápida ou com esforço entre as crises, ou febre alta.
- Convulsão ou sonolência excessiva.
- Vacinação: conferir a caderneta de toda a família. Pentavalente aos 2, 4 e 6 meses, DTP aos 15 meses e 4 anos (PNI). Gestante: dTpa a partir da 20ª semana em toda gestação; se perdida, no puerpério o quanto antes. dTpa também para profissionais de saúde (obstetrícia, UTI neonatal, berçário, pediatria), trabalhadores de creches e doulas (ampliação de junho de 2024). SBP e SBIm recomendam ainda reforço de dTpa na adolescência e a cada 10 anos.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Antibiótico de 1ª escolha | Azitromicina: < 6 meses 10 mg/kg/dia × 5 d; ≥ 6 meses 10 → 5 mg/kg | Macrolídeo ou SMX-TMP (CDC) | Diretrizes UKHSA; tratar em até 3 semanas do início | Segue o NICE/UKHSA | Azitromicina 10 mg/kg/dia × 5 d (1–5 meses); 10 → 5 mg/kg (≥ 6 meses) |
| Janela de tratamento | Todo suspeito, sem esperar exame | ≥ 1 ano: 3 semanas; < 1 ano e gestantes: 6 semanas | 3 semanas | Segue o NICE | O mais precoce possível |
| Internação | < 6 meses: formas graves exigem hospitalização | ~1/3 dos < 1 ano hospitalizados, mais comum < 6 meses | > 90% dos lactentes confirmados hospitalizados | Segue o NICE | ~3/4 dos < 6 meses internados |
| Quimioprofilaxia | Grupos 1–3, até 21 dias | Contatos de alto risco (lactentes, gestantes 3º tri) | Foco em lactentes < 1 ano com < 3 doses e seus contatos | Segue o NICE | Contatos próximos, idealmente até 12 dias |
| Vacina na gestação | dTpa a partir de 20 semanas, toda gestação | Tdap em toda gestação | Programa de vacinação materna | Segue o NICE | Vacinação materna |
Leitura. As referências concordam no essencial: macrolídeo (azitromicina) como primeira escolha, com o mesmo esquema para tratamento e profilaxia; o lactente pequeno é o paciente de risco, com hospitalização frequente; e a vacinação da gestante é a principal estratégia para proteger o recém-nascido. As diferenças estão na janela de tratamento (o MS trata todo suspeito sem limite explícito, CDC e UKHSA definem 3 semanas, ou 6 semanas no lactente) e nos grupos de quimioprofilaxia — o MS ampliou em 2025 a lista para grupos prioritários com janela de 21 dias, enquanto a AEP fala em administrar idealmente até 12 dias. A tabela do MS inclui eritromicina a partir do nascimento, mas a nota SBIm/SBP desaconselha seu uso < 1 mês pelo risco de estenose hipertrófica de piloro; a azitromicina é a opção preferida nessa idade.
- No lactente, apneia ou cianose sem explicação podem ser coqueluche, mesmo sem tosse típica.
- Suspeitou, tratou: azitromicina sem esperar a PCR; colete a PCR antes ou até 3 dias após o início.
- Lactente < 3 meses com suspeita vai ao hospital; < 6 meses deve ser avaliado em ambiente hospitalar.
- A notificação é obrigatória: notifique já na suspeita e organize a quimioprofilaxia dos contatos prioritários (até 21 dias da exposição).
- Afaste da escola ou creche por 5 dias após o início do antibiótico.
- Cobre a dTpa de toda gestante a partir de 20 semanas e de quem cuida de lactentes.
8.Fontes
- Ministério da Saúde (DPNI/SVSA). Nota Técnica Conjunta nº 165/2025 — atualização sobre tratamento, quimioprofilaxia e medidas de prevenção e controle da coqueluche, maio de 2025. gov.br
- SBIm e SBP. Coqueluche — atualização. Nota Técnica, 13 de fevereiro de 2025. sbp.com.br
- Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde, 6ª ed., vol. 1, 2023 — capítulo Coqueluche (reprodução). sjp.pr.gov.br
- Ministério da Saúde. Coqueluche — Saúde de A a Z. gov.br
- CDC. Clinical care of pertussis. cdc.gov
- CDC. Clinical signs and symptoms of pertussis. cdc.gov
- UKHSA. Pertussis: background information on prevention and management, atualizado em 2025. gov.uk
- Moreno Pérez D et al. Tos ferina. Protocolos de Infectología da AEP. aeped.es
- Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed., Oxford University Press, 2021 (obra de referência).