Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
Mancar é sinal, não diagnóstico. A sinovite transitória do quadril responde por 80–85% das claudicações não traumáticas (AAFP): criança de 3 a 8–10 anos, em bom estado geral, afebril (febre, mesmo baixa, pede avaliação no mesmo dia), após infecção viral, que apoia o membro com dor. É tratada em casa com ibuprofeno e repouso relativo e deve melhorar em 24–72 h, com reavaliação garantida. O que não pode passar: artrite séptica e osteomielite (febre, recusa total de apoio, toxemia, provas inflamatórias elevadas — critérios de Kocher e PCR > 2 mg/dL de Caird), epifisiólise do fêmur proximal (adolescente, muitas vezes obeso, que pode queixar-se só do joelho; suspender a carga e encaminhar no mesmo dia), fratura do lactente e maus-tratos em menores de 3 anos, leucemia e tumores ósseos (dor noturna, palidez, equimoses, perda de peso). Menor de 3 anos, febre, recusa de apoio, dor intensa, rotação interna do quadril limitada no adolescente ou sinais sistêmicos indicam pronto-socorro no mesmo dia (🔴). Claudicação que persiste além de 7–10 dias sem diagnóstico exige investigação ambulatorial (🟡).
1.O que é e como se apresenta
- Definição: alteração da marcha por dor, fraqueza ou deformidade; na criança pequena, pode ser só recusa em andar, regressão da marcha ou choro ao trocar a fralda.
- Marcha antálgica (apoio curto do lado doloroso) sugere dor; marcha de Trendelenburg sugere doença do quadril ou fraqueza do glúteo médio.
- Dor referida: doença do quadril frequentemente se manifesta como dor na coxa ou no joelho. Todo joelho doloroso com exame normal exige exame do quadril.
Causas por faixa etária (AAFP 2023; SEUP/AEP 2023; BJGP 2020)
| Idade | Mais comuns | Não perder |
|---|---|---|
| 1–3 anos | Fratura do lactente (tíbia), sinovite transitória (menos frequente), trauma leve | Artrite séptica, osteomielite, discite, maus-tratos, displasia do quadril não diagnosticada, paralisia cerebral leve |
| 3–10 anos | Sinovite transitória, trauma, artrite reativa | Artrite séptica, Perthes, leucemia, AIJ, neuroblastoma |
| 11–16 anos | Lesões por sobrecarga, trauma esportivo, Osgood-Schlatter | Epifisiólise do fêmur proximal, osteomielite, tumores ósseos (osteossarcoma, Ewing), AIJ relacionada à entesite |
Entidades principais
- Sinovite transitória: inflamação autolimitada do quadril, 3–8 anos (AEPap), após virose; dor na virilha, coxa ou joelho, bom estado geral; resolve em cerca de uma semana. É diagnóstico de exclusão.
- Artrite séptica: emergência. Monoartrite aguda com febre, dor intensa, recusa de apoio; quadril em flexão, abdução e rotação externa. Staphylococcus aureus é o principal agente; Kingella kingae abaixo de 4 anos dá quadro mais indolente. A cartilagem pode ser lesada em horas (AAFP).
- Osteomielite hematogênica aguda: dor óssea metafisária localizada, febre, recusa de apoio; pode coexistir com artrite séptica no lactente (SBP). Radiografia inicial normal; ressonância é o exame mais sensível.
- Doença de Legg-Calvé-Perthes: necrose avascular idiopática da cabeça femoral, 4–8 anos, predomínio masculino; claudicação insidiosa, pouco dolorosa, dor referida ao joelho, limitação da abdução e da rotação interna, sem febre.
- Epifisiólise do fêmur proximal: deslizamento da epífise femoral, 10–16 anos (pico 11–14), associada a obesidade e a doenças endócrinas. Dor na virilha, coxa ou joelho, marcha com o pé em rotação externa, sinal de Drehmann (rotação externa obrigatória ao fletir o quadril). Instável quando a criança não consegue apoiar, mesmo com muletas — maior risco de necrose avascular. Pode ser bilateral.
- Fratura do lactente (toddler's fracture): fratura espiral sem desvio da diáfise distal da tíbia em criança de 9 meses a 3 anos que começou a andar, após queda banal; radiografia inicial pode ser normal.
- Maus-tratos: fratura em quem não anda, história incompatível ou mutável, demora na procura, equimoses atípicas.
- Neoplasia: leucemia (acometimento articular em 15–30%, simulando artrite — AAFP), neuroblastoma, osteossarcoma, Ewing, osteoma osteoide (dor noturna que cede com anti-inflamatório).
- Outras: artrite reativa, febre reumática, vasculite por IgA, artrites virais (chikungunya), AIJ, discite, corpo estranho no pé, dor após vacina intramuscular.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | ≥ 3 anos, bom estado geral, sem febre (axilar < 37,5 °C), apoia o membro, dor leve a moderada, início < 72 h, trauma leve compatível ou quadro sugestivo de sinovite transitória; exame sem edema ósseo, sem hiperemia, sem dor à palpação óssea localizada | Ibuprofeno e repouso relativo em casa; reavaliação em 24–72 h garantida; se não melhorar, investigar |
| 🟡 Moderada | Claudicação > 7–10 dias sem diagnóstico; claudicação insidiosa pouco dolorosa (suspeita de Perthes); dor mecânica em adolescente com exame do quadril normal; rigidez matinal, edema articular > 6 semanas (AIJ); dor em apófises | Investigação ambulatorial em dias: hemograma, VHS, PCR; radiografia dirigida (quadril AP e Lauenstein, tíbias); encaminhar a ortopedia pediátrica ou reumatologia conforme o caso |
| 🔴 Grave | Idade < 3 anos com claudicação aguda sem causa clara; febre (≥ 37,5 °C axilar) com dor articular ou óssea; recusa total de apoio; toxemia; dor intensa à mobilização passiva; articulação quente e edemaciada; dor óssea localizada com febre; adolescente com dor no quadril ou joelho e rotação interna do quadril limitada (epifisiólise); suspeita de fratura ou de maus-tratos; palidez, petéquias, equimoses, hepatoesplenomegalia, perda de peso ou dor noturna persistente | Pronto-socorro no mesmo dia com ortopedia (ver "Como encaminhar"); na suspeita de epifisiólise, proibir a carga e transportar sem apoio |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 3 anos (comunicação limitada, maior risco de infecção e maus-tratos) — NICE (via BJGP 2020) orienta avaliação urgente em < 3 anos e em > 9 anos com quadril doloroso ou de rotação limitada.
- Imunodeficiência, anemia falciforme, corticoide; varicela ou lesão de pele recentes.
- Obesidade e doenças endócrinas (epifisiólise).
- Contexto social de risco, atraso na procura, história incompatível.
3.Diagnóstico no consultório
Anamnese: início, duração, trauma (compatível?), febre, infecção recente, dor noturna, rigidez matinal, perda de peso, sangramentos, vacinas recentes.
Exame: despir os membros inferiores e observar a marcha. Examinar do pé à coluna: pele (petéquias, equimoses), palpação óssea ponto a ponto (tíbias), articulações (edema, calor), rotação interna do quadril comparada (o teste mais sensível de doença intra-articular), coluna, abdome, linfonodos, fígado e baço, exame neurológico e temperatura axilar.
Critérios de Kocher (1999) — artrite séptica × sinovite transitória do quadril
- Febre > 38,5 °C (critério de Kocher; para a conduta, febre é axilar ≥ 37,5 °C — SBP — e toda febre com claudicação merece avaliação no mesmo dia).
- Incapacidade de apoiar o membro.
- VHS > 40 mm/h.
- Leucócitos > 12.000/mm³.
Probabilidade de artrite séptica conforme o número de critérios (SBP 2020): 0 = < 0,2%; 1 = 3%; 2 = 40%; 3 = 93%; 4 = 99,6%. Caird (2006) acrescentou PCR > 2 mg/dL (20 mg/L) como preditor independente. As validações posteriores mostraram desempenho menor que o original, e os critérios não se aplicam bem ao joelho nem à Kingella (SEUP/AEP 2023): são auxílio, não substituem a clínica.
Exames — quando pedir
- Sinovite transitória típica (🟢): nenhum exame na primeira consulta; reavaliar em 24–72 h.
- Febre, recusa de apoio ou dúvida: hemograma, VHS, PCR e hemocultura — no pronto-socorro, onde a ultrassonografia do quadril (derrame) e a punção articular guiada podem ser feitas.
- Suspeita de fratura do lactente: radiografia das tíbias (AAFP: bilateral em < 5 anos sem sinais de infecção); se normal e a suspeita persistir, repetir em 7–10 dias.
- Suspeita de Perthes ou epifisiólise: radiografia de ambos os quadris, anteroposterior e Lauenstein (rã) — a epifisiólise inicial pode aparecer só na incidência lateral (AAFP 2025).
- Claudicação > 7–10 dias, dor noturna, sinais sistêmicos: hemograma com esfregaço (blastos, citopenias), VHS, PCR, desidrogenase láctica, ácido úrico; radiografia da região dolorosa. Ressonância é o exame de escolha para osteomielite e para lesões ósseas iniciais.
Não esquecer causas extra-articulares: abscesso do psoas ou apendicite retrocecal (dor à extensão do quadril), torção testicular, discite.
4.Tratamento em casa
Apenas para o quadro 🟢, com reavaliação garantida.
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Ibuprofeno (1ª escolha na sinovite transitória) | 5–10 mg/kg/dose | 6–8 h | 3–7 dias, enquanto houver dor | A partir de 6 meses; evitar na suspeita de dengue, desidratação e varicela; tratamento sintomático da sinovite transitória (AEPap) |
| Paracetamol | 10–15 mg/kg/dose | 4–6 h (máx. 5 doses/dia) | Enquanto houver dor, com reavaliação | Máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia |
| Dipirona | 10–12 mg/kg/dose | 6 h (máx. 4 doses/dia) | Enquanto houver dor | Não usar < 3 meses ou < 5 kg; "1 gota/kg" leva a superdosagem |
Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.
- Não alternar analgésicos e antitérmicos.
- Repouso relativo: a criança limita a atividade pela dor; evitar esportes até a marcha normalizar.
- Não usar: antibiótico empírico oral "por via das dúvidas" (mascara artrite séptica e osteomielite); corticoide sem diagnóstico (pode mascarar leucemia — ver "Diagnóstico Precoce do Câncer Infantil"); imobilização gessada sem radiografia e diagnóstico.
- Sinovite transitória: sem ultrassonografia de controle (o derrame persiste por semanas — AEPap); episódios repetidos ou arrastados pedem radiografia para excluir Perthes.
- Fratura do lactente confirmada: imobilização conforme ortopedista, analgesia, e sempre checar a coerência da história.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
Todos os critérios da linha 🔴 da tabela, em especial:
- Menor de 3 anos com claudicação aguda sem explicação clara.
- Febre (axilar ≥ 37,5 °C) com dor articular ou óssea; recusa total de apoio; articulação quente e edemaciada.
- Adolescente com dor no quadril, na coxa ou no joelho e rotação interna do quadril limitada (epifisiólise).
- Suspeita de fratura, síndrome compartimental (dor desproporcional, edema tenso) ou maus-tratos.
- Petéquias sem explicação ou hepatoesplenomegalia (NICE: encaminhamento imediato); dor óssea persistente com palidez, fadiga ou equimoses pede hemograma em até 48 h (NICE NG12).
- Sinovite transitória que piora, passa a ter febre ou não melhora em 48–72 h.
Como encaminhar
- Epifisiólise: proibir a carga; não testar a marcha repetidamente; transportar deitado ou em cadeira de rodas, sem apoiar o membro.
- Suspeita de artrite séptica ou osteomielite: analgesia; não iniciar antibiótico oral antes da punção e das culturas, salvo se houver sepse ou grande demora no transporte, após contato com o serviço.
- Fratura: tala provisória e analgesia. Sepse: oxigênio, acesso venoso se disponível, SAMU (192).
- Contato prévio com o serviço (ortopedia pediátrica) e relatório com início, temperatura, achados e medicações.
- Suspeita de maus-tratos: registrar achados e falas, notificação obrigatória (compulsória) ao Conselho Tutelar e encaminhamento ao serviço com equipe de proteção.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "Volte em 1 a 3 dias para reexame, mesmo que esteja melhor."
- "Procure o pronto-socorro se aparecer febre, se ela parar de apoiar a perna, se a dor piorar, se a articulação inchar ou ficar vermelha e quente, ou se ela ficar abatida."
- "Dor que acorda à noite, palidez, manchas roxas sem pancada e perda de peso precisam ser avaliadas logo."
- Adolescente: "Dor no joelho que piora ao andar pode vir do quadril: não force a perna até o exame."
- Retorno: 24–72 h na sinovite transitória; 7–10 dias na suspeita de fratura do lactente com radiografia inicial normal.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Artrite séptica × sinovite | Critérios de Kocher com probabilidades; PCR no seguimento (SBP 2020) | AAFP 2023: Kocher + PCR > 2 mg/dL | CKS: < 3 anos e > 9 anos com quadril doloroso → avaliação urgente (via BJGP 2020) | Segue o NICE; protocolos de trusts do NHS usam Kocher com PCR > 20 mg/L | Kocher e Caird como apoio, não substitutos da clínica (SEUP 2023) |
| Sinovite transitória | Pré-escolar após virose (SBP 2020) | AAFP: causa de 80–85% das claudicações não traumáticas | Diagnóstico de exclusão, reavaliação garantida | Segue o NICE; revisão em 5–7 dias nos casos de alerta intermediário (Royal Cornwall) | AINE; reavaliar em 24–72 h; sem ultrassonografia de controle |
| Epifisiólise | Não abordada no documento de artrite aguda (2020) | AAFP 2025: suspender carga e encaminhamento urgente; radiografia AP e rã bilateral | Encaminhamento urgente | Segue o NICE | Urgência cirúrgica; manter sem apoio |
| Neoplasia | Radiografia na suspeita de neoplasia (SBP 2020) | AAFP: dor noturna, perda de peso, organomegalia | Hemograma em 48 h; petéquias ou hepatoesplenomegalia → imediato | Segue o NICE | Dor persistente > 7–10 dias, sistêmica |
Leitura: as referências convergem em que a sinovite transitória é a causa mais comum, mas diagnóstico de exclusão com reavaliação obrigatória; em que febre com recusa de apoio é artrite séptica até prova em contrário; e em lembrar a epifisiólise no adolescente com dor no joelho. Os critérios de Kocher aparecem em todas, com a PCR de Caird na AAFP, no NHS e na AEP, que os trata como ferramenta auxiliar. Não há diretriz clínica formal da AAP sobre claudicação; os dados norte-americanos vêm das revisões da AAFP. O NICE é o mais explícito nos limites de idade para avaliação urgente e nos prazos para hemograma e radiografia na suspeita de câncer. O limiar de febre de Kocher (> 38,5 °C) é critério de pesquisa; na conduta, qualquer febre (axilar ≥ 37,5 °C, SBP) com claudicação merece avaliação no mesmo dia.
- Joelho doloroso com exame normal: examine o quadril — epifisiólise e Perthes doem no joelho.
- Adolescente obeso com dor no joelho e rotação interna limitada: sem carga e ortopedia no mesmo dia, com radiografia AP e Lauenstein dos dois quadris.
- Febre com recusa de apoio é artrite séptica ou osteomielite até prova em contrário: não dar antibiótico oral antes das culturas.
- Sinovite transitória só com reavaliação garantida em 24–72 h.
- Menor de 3 anos que manca: palpe as tíbias, pense em fratura do lactente e em maus-tratos.
- Dor noturna, palidez e equimoses: hemograma antes de qualquer corticoide.
Veja também, nesta Biblioteca: Artrites na Criança e Artrite Idiopática Juvenil (Reumatologia); Diagnóstico Precoce do Câncer Infantil e Leucemia Linfoblástica Aguda (Oncologia); Displasia do Desenvolvimento do Quadril (Neonatologia); Nefropatia por IgA e Vasculite por IgA; Como Conduzir uma Criança com Febre (Urgências e Emergências).
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Artrite aguda em crianças e adolescentes (documento científico), 2020. PDF
- Morancie NA, Helton MR. Evaluating the child with a limp. American Family Physician, 2023. aafp.org
- Slipped capital femoral epiphysis: rapid evidence review. American Family Physician, 2025. aafp.org
- The limping child — when to worry and when to refer: a GP's guide. British Journal of General Practice, 2020 (resume o NICE CKS). bjgp.org
- Royal Cornwall Hospitals NHS Trust. Acute atraumatic limp in children — clinical guideline, v2.1, 2026. PDF
- NICE NG12 — Suspected cancer: recognition and referral (recomendações pediátricas conforme Macmillan Rapid Referral Guidelines). Sarcoma ósseo · Leucemia
- Estrada Petrus et al. Cojera no traumática en Urgencias Pediátricas. Emergencias Pediátricas (SEUP), 2023. PDF
- Alcobendas Rueda RM, de Inocencio Arocena J. Algoritmo — Cojera. AEPap, 2018. aepap.org
- Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed., 2021 (obra de referência).