Patologias do consultório · Febre e infecções

Dengue, chikungunya, zika e Oropouche

Classificação da dengue nos grupos A a D do Ministério da Saúde, hidratação oral por peso, sinais de alarme, particularidades de chikungunya, zika e Oropouche na criança e vacinação

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Em área de transmissão, toda febre aguda de 2 a 7 dias com dois ou mais de cefaleia, dor retro-orbitária, mialgia, artralgia, exantema, náuseas/vômitos, petéquias ou prova do laço positiva é dengue até prova em contrário — na criança pequena, a febre pode vir só com irritabilidade, sonolência, recusa alimentar ou vômitos. O manual do Ministério da Saúde (6ª ed., 2024) classifica em grupos A a D. Grupo A (sem alarme, sem risco) e grupo B (sangramento de pele ou prova do laço positiva, lactente < 24 meses ou comorbidade, com hemograma normal) tratam-se em casa com hidratação oral por peso — 130 mL/kg/dia até 10 kg, 100 mL/kg/dia de 10 a 20 kg e 80 mL/kg/dia acima de 20 kg, 1/3 em SRO — paracetamol ou dipirona e retorno no dia em que a febre ceder (🟢/🟡). Sinais de alarme (grupo C) ou de choque (grupo D) vão ao hospital com hidratação venosa iniciada (🔴). A fase crítica começa com a queda da febre. Não usar AINE, AAS nem corticoide. Chikungunya pode ser grave no recém-nascido; zika e Oropouche têm transmissão vertical. Todas são de notificação obrigatória (compulsória).

Veja também, nesta Biblioteca: o documento de Neonatologia sobre transmissão vertical do vírus Oropouche.

1.O que é e como se apresenta

  • Dengue: quatro sorotipos transmitidos pelo Aedes aegypti. Três fases: febril (2–7 dias), crítica (em torno da defervescência, com extravasamento plasmático, hemoconcentração, queda de plaquetas e risco de choque) e recuperação. A segunda infecção por sorotipo diferente aumenta o risco de dengue grave. No lactente, o quadro é inespecífico e o choque pode ser a primeira manifestação percebida.
  • Chikungunya: febre alta de início súbito e artralgia intensa, simétrica, de mãos, pés e tornozelos; exantema. Fases aguda (até 14 dias), pós-aguda (15–90 dias) e crônica (> 90 dias) (MS). Na criança, as manifestações cutâneas são mais comuns (hiperpigmentação, lesões vesicobolhosas em lactentes).
  • Chikungunya neonatal: gestante virêmica perto do parto tem cerca de 50% de risco de transmissão intraparto; os sintomas surgem entre o 3º e o 7º dia de vida (média no 4º): febre, recusa alimentar, exantema, lesões vesicobolhosas e esfoliativas, edema de extremidades, com risco de meningoencefalite, síndromes hemorrágicas, instabilidade hemodinâmica, sequelas neurológicas e óbito (MS 2024).
  • Zika: na criança, doença leve — exantema maculopapular pruriginoso, febre baixa ou ausente, conjuntivite não purulenta, artralgia. A importância está na síndrome congênita do zika (microcefalia, calcificações, alterações oculares e auditivas, artrogripose) e, raramente, na síndrome de Guillain-Barré.
  • Oropouche: transmitido principalmente pelo maruim (Culicoides paraensis) (MS). Incubação de 1–10 dias; febre de início abrupto, cefaleia intensa, mialgia, artralgia, fotofobia, náuseas, vômitos e exantema; em até 60% os sintomas recorrem dias a semanas depois; cerca de 4% têm meningite ou encefalite (CDC). Há casos de transmissão vertical no Brasil com perda fetal e malformações (OPAS, CDC).

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve — Dengue grupo A Caso suspeito sem sinais de alarme, sem sangramento, sem comorbidade, sem condição de risco; aceita líquidos; diurese normal Tratamento em casa: hidratação oral por peso, paracetamol ou dipirona; exames a critério; retorno no dia da defervescência ou no 5º dia se a febre persistir
🟡 Moderada — Dengue grupo B Sem sinais de alarme, com sangramento de pele espontâneo (petéquias) ou induzido (prova do laço positiva), ou condição especial: lactente < 24 meses, asma, obesidade, doença hematológica ou renal crônica, hepatopatia, doença autoimune, diabetes, cardiopatia, risco social Hemograma obrigatório; hidratação oral do grupo A em observação até o resultado. Hematócrito normal: tratamento em casa com reavaliação diária. Hemoconcentração: conduzir como grupo C
🔴 Grave — Dengue grupos C e D C: qualquer sinal de alarme — dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, acúmulo de líquidos (ascite, derrame pleural ou pericárdico), hipotensão postural ou lipotimia, hepatomegalia > 2 cm, sangramento de mucosa, letargia ou irritabilidade, aumento progressivo do hematócrito. D: choque (taquicardia, extremidades frias, pulso fino, enchimento capilar > 2 s, PA convergente < 20 mmHg, taquipneia, oligúria < 1,5 mL/kg/h, hipotensão e cianose tardias), sangramento grave ou disfunção grave de órgão Encaminhar ao hospital com hidratação venosa iniciada. C: SF 0,9% 10 mL/kg na primeira hora e reavaliar. D: SF 0,9% 20 mL/kg em até 20 min, repetível até 3 vezes (MS)

Chikungunya, zika e Oropouche seguem a mesma lógica: 🟢 bom estado e hidratado; 🟡 dor articular que impede atividades, recusa alimentar parcial, lactente; 🔴 recém-nascido sintomático, sinais neurológicos (cefaleia intensa com vômitos, rigidez de nuca, confusão, convulsão, déficit motor), oligúria, fenômenos hemorrágicos ou comorbidade descompensada (MS).

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Lactentes < 24 meses (grupo B da dengue) e recém-nascidos (chikungunya e dengue perinatais).
  • Dengue prévia (infecção secundária).
  • Asma, obesidade, doença falciforme e outras hemoglobinopatias, doença renal ou hepática, cardiopatia, diabetes, imunossupressão.
  • Risco social: família que não consegue garantir a hidratação ou o retorno, moradia distante do serviço.
  • Gestante no domicílio (zika, Oropouche, chikungunya perto do parto).

3.Diagnóstico no consultório

  • Clínico-epidemiológico. Perguntar o dia de início da febre: a fase crítica da dengue começa em torno da defervescência (em geral entre o 3º e o 7º dia).
  • Prova do laço em todo caso suspeito sem sangramento espontâneo: positiva na criança com ≥ 10 petéquias em quadrado de 2,5 cm (MS). Positiva classifica como grupo B.
  • Hemograma: obrigatório no grupo B e acima; a critério no grupo A. Hematócrito em elevação com plaquetas em queda indica extravasamento.
  • Confirmação (vigilância): até o 5º dia de sintomas, RT-PCR ou antígeno NS1; a partir do 6º dia, sorologia IgM (MS). O resultado não muda a conduta inicial: tratar pela classificação clínica.
  • Chikungunya, zika e Oropouche: RT-PCR na fase aguda; sorologia depois. Em área de circulação simultânea, tratar como dengue até excluí-la.

Diagnóstico diferencial que não pode passar

  • Doença meningocócica e sepse bacteriana (petéquias com toxemia).
  • Leptospirose (enchente, mialgia de panturrilhas, icterícia), malária (viagem a área endêmica), febre amarela (não vacinados, icterícia).
  • Abdome agudo (a dor abdominal da dengue é sinal de alarme, não indicação de cirurgia sem avaliação cuidadosa).
  • Doença de Kawasaki e síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica.
  • Sarampo e outras doenças exantemáticas.

4.Tratamento em casa

Hidratação oral na dengue — crianças (MS 2024, grupos A e B com hemograma normal)

Peso Volume total por dia Como oferecer
Até 10 kg 130 mL/kg/dia 1/3 em SRO e 2/3 em água, sucos e chás
> 10 a 20 kg 100 mL/kg/dia Idem; nas primeiras 4–6 h, oferecer 1/3 do volume
> 20 kg 80 mL/kg/dia Idem; adolescentes com peso de adulto: 60 mL/kg/dia (1/3 em SRO)

Manter a hidratação durante todo o período febril e por 24–48 h após a defervescência. Escrever o volume na receita, em copos ou mamadeiras, para a família.

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Paracetamol 10–15 mg/kg/dose 4–6 h (máx. 5 doses/dia) Enquanto houver febre ou dor Máx. 75 mg/kg/dia (SBP), nunca > 4 g/dia
Dipirona 10–12 mg/kg/dose (SBP 2021) 6/6 h Enquanto houver febre ou dor Máx. 4 doses/dia; "1 gota/kg" leva a superdosagem (SBP); bula: não usar < 3 meses ou < 5 kg
Solução de reidratação oral 1/3 do volume diário Fracionada, pequenos volumes frequentes Até 24–48 h após a febre ceder Ofertar de colher ou seringa se houver náuseas

Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.

  • Não usar: anti-inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida), ácido acetilsalicílico e corticoide — risco de sangramento (MS, OMS, CDC). A OMS 2025 faz recomendação forte contra AINE em qualquer arbovirose aguda suspeita ou confirmada. Na chikungunya, o AINE fica proibido na fase aguda até a exclusão de dengue.
  • Evitar: medicamentos intramusculares; antibióticos sem indicação.
  • Chikungunya: analgesia regular com paracetamol e dipirona, compressas frias nas articulações, repouso relativo. Dor persistente na fase pós-aguda deve ser reavaliada.
  • Oropouche: suporte; orientar sobre a possível recorrência dos sintomas.
  • Proteção contra picadas do doente durante a fase febril (repelente adequado à idade, telas), para interromper a transmissão no domicílio.

Vacinação contra dengue

  • Qdenga (Takeda): no SUS, para 10 a 14 anos, duas doses com intervalo de 3 meses; licenciada pela Anvisa para 4 a 60 anos na rede privada. Vacina atenuada: contraindicada em imunodeprimidos.
  • Butantan-DV (dose única): licenciada para 12 a 59 anos e implantada no SUS em janeiro de 2026 para 15 a 59 anos (piloto em SP e MG, ampliada a todo o país em fevereiro de 2026); a estratégia de vacinação foi suspensa temporariamente pelo MS em 08/06/2026 (NT nº 58/2026) após eventos adversos raros e graves em investigação. Não é vacina pediátrica neste momento.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Qualquer sinal de alarme ou de choque (grupos C e D).
  • Grupo B com hemoconcentração, ou sem condição de fazer hemograma e reavaliação diária.
  • Recusa de líquidos e alimentos, vômitos que impedem a hidratação oral, diurese reduzida.
  • Comorbidade descompensada.
  • Recém-nascido de mãe com chikungunya, dengue ou Oropouche perto do parto que apresente febre, recusa alimentar, irritabilidade, exantema ou lesões bolhosas.
  • Sinais neurológicos em qualquer arbovirose (cefaleia intensa com vômitos, rigidez de nuca, confusão, convulsão, déficit motor).

Como encaminhar

  1. Grupo C: iniciar SF 0,9% 10 mL/kg na primeira hora, se houver acesso venoso, sem atrasar a remoção.
  2. Grupo D: SF 0,9% 20 mL/kg em até 20 min, repetível até 3 vezes, oxigênio e transporte assistido (SAMU 192).
  3. Sem acesso venoso: manter hidratação oral até a chegada ao hospital, se a criança estiver consciente e sem vômitos.
  4. Não administrar AINE nem medicamentos intramusculares.
  5. Contatar o serviço de destino; relatório com dia de início da febre, peso, prova do laço, hemograma, volumes ingeridos e diurese.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "O período mais perigoso da dengue é quando a febre baixa. Melhora da febre não é sinal de cura: é o dia de voltar para reavaliação."
  • "Ofereça o volume de líquidos prescrito ao longo do dia, anotando o que a criança bebe e o xixi."
  • "Use apenas paracetamol ou dipirona. Não dê ibuprofeno, AAS, anti-inflamatórios nem injeções."
  • Grupo A: retorno no dia em que a febre ceder ou no 5º dia se persistir. Grupo B: reavaliação diária com hemograma.
  • Ir ao pronto-socorro imediatamente se: dor de barriga forte e contínua; vômitos repetidos; sangramento de gengiva, nariz, vômito ou fezes escuras; criança muito sonolenta ou muito irritada; tontura ou desmaio ao levantar; mãos e pés frios; respiração rápida; pouco xixi (mais de 6–8 horas sem urinar).

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Classificação Grupos A, B, C e D (MS 2024) Dengue sem e com sinais de alarme, dengue grave (CDC/OMS) Sem diretriz própria sobre dengue Segue o NICE Sem protocolo próprio localizado
Hidratação oral Volume por peso (130/100/80 mL/kg/dia), 1/3 em SRO Líquidos orais abundantes — — —
Antitérmico Paracetamol e/ou dipirona Paracetamol — — —
AINE/AAS Proibidos, e corticoide Evitar AAS e AINE — — —
Seguimento Retorno na defervescência (A); reavaliação diária com hemograma (B) Seguimento diário com hemograma na fase crítica — — —
Reposição volêmica C: 10 mL/kg/1ª h; D: 20 mL/kg em 20 min até 3x Bolus de cristaloide, até 2 bolus adicionais na dengue grave — — —

Leitura: o Ministério da Saúde é a referência mais detalhada e adequada à realidade brasileira; CDC/AAP e a nova diretriz da OMS (2025) convergem nos pontos essenciais — hidratação oral protocolada, paracetamol (a OMS também admite metamizol), proibição de AINE e AAS e reconhecimento dos sinais de alarme, sobretudo na defervescência. NICE, Oxford/Cambridge e AEP não têm protocolos pediátricos próprios para dengue, por se tratar de doença importada nesses países. A particularidade brasileira é o grupo B, que inclui o lactente < 24 meses e a prova do laço positiva e exige hemograma antes da alta.

Pontos práticos
  1. Anote o dia de início da febre: a fase crítica começa quando a febre cede.
  2. Prova do laço em todo caso suspeito sem sangramento; lactente < 24 meses é grupo B e faz hemograma.
  3. Prescreva o volume de líquidos por peso (130/100/80 mL/kg/dia, 1/3 em SRO) e escreva na receita.
  4. Nada de AINE, AAS, corticoide ou injeção intramuscular em arbovirose.
  5. Recém-nascido de mãe virêmica perto do parto (chikungunya, dengue, Oropouche) deve ser observado na primeira semana.
  6. Notificar todo caso suspeito de dengue, chikungunya, zika e Oropouche — notificação obrigatória (compulsória).

8.Fontes

  • Ministério da Saúde. Dengue: diagnóstico e manejo clínico — adulto e criança, 6ª ed., 2024. PDF
  • Ministério da Saúde. Chikungunya: manejo clínico, 2ª ed., 2024. PDF
  • Ministério da Saúde. Oropouche — saúde de A a Z. gov.br
  • Ministério da Saúde. Vacina contra dengue Butantan — faixa etária (perguntas frequentes). gov.br
  • CONASS. Ministério da Saúde descontinua temporariamente estratégia atual de vacinação do Butantan contra dengue, junho de 2026. conass.org.br
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Manejo da febre aguda, 2021. PDF
  • CDC. Clinical Care of Dengue. cdc.gov
  • CDC. Clinical Overview of Oropouche Virus Disease. cdc.gov
  • OMS. WHO guidelines for clinical management of arboviral diseases — recommendations for non-severe disease, 2025. NCBI Bookshelf