Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
A dermatite atópica (DA) é uma doença inflamatória crônica e recidivante da pele, com prurido, xerose e eczema de distribuição típica por idade. O tratamento se apoia em três pilares: emolientes diariamente e em grande quantidade, corticoide tópico de potência adequada à gravidade, à idade e à região nas crises e manutenção proativa (2 dias por semana nas áreas que costumam recidivar) nas crianças com crises frequentes. Os inibidores tópicos de calcineurina (pimecrolimo 1% e tacrolimo 0,03%) são segunda linha, úteis na face, nas pálpebras e nas dobras. A grande maioria é tratada em casa (🟢/🟡). A infecção bacteriana secundária (crostas melicéricas, exsudação, pústulas) é tratada junto com o corticoide tópico, nunca com antibiótico isolado. O eczema herpético — piora rápida e dolorosa, vesículas agrupadas e erosões arredondadas "em saca-bocado", com febre ou prostração — é emergência (🔴): encaminhar ao hospital no mesmo dia para aciclovir EV; avaliação oftalmológica se houver lesões perioculares. DA grave sem resposta a tratamento tópico otimizado deve ser encaminhada ao especialista para terapia sistêmica (dupilumabe a partir de 6 meses, entre outros).
Veja também, nesta Biblioteca: Dermatite Atópica (Alergia e Imunologia) e o guia de Dermatite Atópica para pais.
1.O que é e como se apresenta
- Definição: dermatose inflamatória crônica, pruriginosa, com disfunção da barreira cutânea e resposta imune tipo 2. Faz parte da "marcha atópica" (alergia alimentar, asma, rinite), mas a maioria das crises não é causada por alimentos (AAP 2025).
- Início: em geral nos primeiros 2 anos de vida; muitos melhoram na idade escolar.
- Distribuição por idade:
- Lactente: face (bochechas), couro cabeludo, superfícies extensoras; costuma poupar a área das fraldas.
- Pré-escolar e escolar: dobras (fossas antecubitais e poplíteas), punhos, tornozelos, pescoço.
- Adolescente: dobras, face, pescoço, mãos; liquenificação.
- Quadro clínico: prurido (obrigatório), xerose, placas eritematosas e descamativas, escoriações, liquenificação nas formas crônicas; alteração do sono e da qualidade de vida da criança e da família.
- Colonização: o Staphylococcus aureus coloniza mais de 90% das lesões (SEPEAP 2023); colonização não é infecção.
2.Classificação de gravidade
No consultório, a gravidade é estimada pela extensão, pela intensidade dos sinais e pelo impacto (prurido, sono, qualidade de vida). O NICE CG57 recomenda avaliação holística a cada consulta. Escalas formais ajudam no seguimento: SCORAD (leve < 25, moderada 25–50, grave > 50; SEPEAP), EASI (feito pelo médico) e POEM (7 perguntas respondidas pela família sobre a última semana, útil para acompanhar a resposta).
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Áreas de pele seca, eczema pouco extenso, prurido ocasional, sono preservado, pouco impacto nas atividades | Emolientes; corticoide de baixa potência nas crises; orientação de gatilhos; retorno programado |
| 🟡 Moderada | Áreas de pele seca, prurido frequente, eritema, com ou sem escoriação e espessamento localizado; sono e atividades afetados; infecção bacteriana localizada | Corticoide de média potência (baixa na face e nas dobras); terapia proativa; tratar a infecção; reavaliar em 1–2 semanas |
| 🔴 Grave | Doença extensa, prurido incessante, sono muito comprometido; eczema herpético; eritrodermia; infecção bacteriana extensa com febre, prostração ou suspeita de celulite ou sepse | Eczema herpético: hospital no mesmo dia para aciclovir EV. Eritrodermia ou infecção sistêmica: antibiótico e pronto-socorro no mesmo dia. DA grave estável sem resposta a 1 semana de tratamento tópico otimizado: encaminhamento urgente ao especialista (NICE) |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Início muito precoce e doença extensa no lactente.
- Coexistência de alergia alimentar, asma ou rinite.
- Crises frequentes (≥ 4 por ano) e má adesão por corticofobia.
- Infecções de repetição e contato com pessoas com herpes labial ativo.
- Imunodeficiência (pensar em síndromes de hiper-IgE, Wiskott-Aldrich) quando há eczema grave com infecções graves ou recorrentes.
- Contexto social que dificulta a compra de emolientes e a adesão.
3.Diagnóstico no consultório
- Diagnóstico clínico: prurido mais eczema de distribuição típica, curso crônico ou recidivante, história pessoal ou familiar de atopia.
- Não pedir de rotina: IgE total, testes de alergia alimentar ou dietas de exclusão empíricas. A AAP (2025) alerta que dietas de restrição desnecessárias podem prejudicar a criança. Investigar alergia alimentar apenas se houver história de reação imediata ou DA moderada a grave que não responde ao tratamento otimizado, sobretudo no lactente.
- Cultura de lesão: em infecção recorrente ou que não responde ao tratamento.
- Swab para herpes (PCR): se houver suspeita de eczema herpético, sem atrasar o aciclovir.
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Dermatite seborreica (lactente, couro cabeludo e dobras, sem prurido intenso).
- Escabiose (lesões nas mãos, punhos, axilas, genitais, contactantes com prurido).
- Dermatite de contato, psoríase, tinha (placa anular com borda ativa).
- Eczema herpético e impetigo sobre a DA.
- Imunodeficiências e doenças metabólicas quando há eczema grave com déficit de crescimento, infecções graves ou diarreia crônica.
4.Tratamento em casa
1. Cuidados de base e emolientes (todos os pacientes)
- Emolientes sem perfume, de preferência cremes espessos ou pomadas, aplicados ao menos 2 vezes ao dia e sempre após o banho, mesmo sem crise. O NICE recomenda prescrever grandes quantidades: 250–500 g por semana.
- Banho diário ou frequente, curto, com água morna e sabonete suave, seguido do emoliente (AAP 2025).
- Evitar irritantes: sabonetes perfumados, amaciantes, tecidos sintéticos ou lã em contato direto, calor excessivo.
- Unhas curtas; roupas de algodão.
2. Corticoide tópico nas crises — escolha pela gravidade, idade e região
- NICE CG57: potência baixa para eczema leve, média para moderado e alta para grave; na face e no pescoço, baixa potência (média potência por 3–5 dias apenas em crises graves); não usar alta potência em menores de 12 meses sem supervisão do especialista; aplicar 1 a 2 vezes ao dia.
- AAD 2026 (pediatria): baixa potência entre 2 e 12 meses, 1 vez ao dia por até 4 semanas; média potência acima de 2 anos, até 2 vezes ao dia por até 4 semanas, com manutenção intermitente.
- Pálpebras, face, dobras e área das fraldas: baixa potência e cursos curtos; preferir inibidor de calcineurina quando houver necessidade prolongada.
- Unidade de ponta de dedo (FTU): quantidade de creme espremida do tubo da ponta à primeira prega do dedo indicador de um adulto, cerca de 0,5 g, suficiente para área equivalente a duas palmas de mão de adulto (NHSGGC). Ajuda a família a usar a quantidade certa e combate o subtratamento por medo do corticoide.
- Tratar até 48 h após o controle da crise e então passar à manutenção.
3. Terapia proativa (manutenção)
- Crianças com crises frequentes: aplicar o corticoide tópico 2 dias consecutivos por semana nas áreas que costumam recidivar (NICE), ou tacrolimo 1 vez ao dia, 2 vezes por semana (SEPEAP; AAD 2026 por até 12 meses).
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Emoliente (creme espesso ou pomada) | Quantidade liberal; 250–500 g/semana (NICE) | 2 ou mais vezes ao dia e após o banho | Contínuo | Base de todo o tratamento |
| Hidrocortisona 1% (baixa potência) | Camada fina, pela FTU | 1–2 vezes ao dia | Crise, até 48 h após controle | Face, pescoço, dobras, lactentes |
| Corticoide de média potência (ex. furoato de mometasona 0,1%, 1 vez ao dia; propionato de fluticasona 0,05%) | Camada fina, pela FTU | 1 vez ao dia (ou até 2, conforme produto e bula) | Crise; até 4 semanas (AAD 2026) | Tronco e membros; conferir idade mínima na bula |
| Pimecrolimo 1% creme | Camada fina | 2 vezes ao dia | Até controle; manutenção conforme especialista | Bula brasileira a partir de 3 meses; NICE e AAD: ≥ 2 anos, segunda linha, face e pescoço |
| Tacrolimo 0,03% pomada | Camada fina | 2 vezes ao dia; proativo 2 vezes/semana | Até 6 semanas por ciclo (AAD 2026) | ≥ 2 anos; ardor transitório; não usar em lesão infectada |
| Anti-histamínico sedante (1ª geração) | Conforme bula | À noite | Curto prazo | Não usar, exceto por problema social (prurido noturno que impede o sono da família), por curto período e fora da faixa de contraindicação; não trata a DA |
- Inibidores de calcineurina: poupam corticoide e não causam atrofia. Ardência inicial é comum. Não aplicar sobre infecção viral ativa; suspender se surgir linfadenopatia sem causa clara (bula do pimecrolimo). A segurança a longo prazo não está totalmente estabelecida.
- Terapias tópicas novas (crisaborol, ruxolitinibe, tapinarofe, roflumilaste) constam da AAD 2026; a disponibilidade no Brasil é limitada — uso pelo especialista.
- Banho de hipoclorito diluído e curativos úmidos (wet wraps) são adjuvantes citados pela AAD 2026 para DA moderada a grave, melhor iniciados com orientação do especialista.
4. Infecção bacteriana secundária
- Sinais: exsudação, crostas melicéricas, pústulas, piora rápida ou falta de resposta.
- Não tratar apenas com antibiótico: manter o corticoide tópico (NHSGGC).
- Infecção localizada: antibiótico tópico de curta duração (ver Impetigo, celulite e abscessos). Infecção extensa: antibiótico oral antiestafilocócico (cefalexina). A AAD 2026 recomenda não usar antibiótico tópico sem infecção comprovada.
- Trocar potes de emolientes abertos durante a infecção.
5. O que não usar
- Corticoide sistêmico de rotina (AAD 2026 recomenda contra); rebote ao suspender.
- Corticoide de alta ou muito alta potência na face, nas dobras e em lactentes.
- Cremes combinados de corticoide com antifúngico ou antibiótico de uso contínuo.
- Dietas de exclusão sem diagnóstico de alergia alimentar.
- Antibiótico oral para colonização sem sinais de infecção.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Suspeita de eczema herpético: encaminhar ao hospital no mesmo dia para aciclovir EV, sobretudo se febre, prostração, lesões extensas, perioculares ou lactente (NICE: aciclovir sistêmico imediato e avaliação no mesmo dia). O aciclovir oral fica como opção do especialista em formas leves e localizadas em crianças maiores.
- Eczema herpético próximo aos olhos: avaliação oftalmológica urgente (NHSGGC).
- Eritrodermia (> 90% da superfície) com hipotermia, desidratação ou instabilidade.
- Infecção bacteriana extensa com febre, toxemia, celulite ou suspeita de sepse.
- Lactente com DA grave e perda de peso, desidratação ou recusa alimentar.
Como encaminhar
- No eczema herpético, não retardar o transporte: o tratamento é aciclovir EV no hospital. O aciclovir oral é opção do especialista apenas em formas leves e localizadas em crianças maiores.
- Antitérmico e analgesia; oferecer líquidos.
- Cobrir as lesões com gaze limpa; evitar contato com outros lactentes e com imunodeprimidos.
- Contatar o serviço de destino, informando a suspeita de eczema herpético (isolamento de contato).
- Relatório com medicamentos em uso, potência dos corticoides e evolução.
Encaminhamento ao especialista (dermatologia ou alergia pediátrica)
- Urgente: DA grave sem resposta após 1 semana de tratamento tópico otimizado (NICE).
- Rotina: diagnóstico incerto; falha do tratamento na face; suspeita de dermatite de contato; infecções recorrentes; impacto psicológico importante; necessidade de corticoide de média ou alta potência contínuo; candidatos a terapia sistêmica.
- Terapia sistêmica é prescrita pelo especialista: dupilumabe (a partir de 6 meses na AAD 2026) e, a partir de 12 anos, outros biológicos e inibidores de JAK (AAD 2026); ciclosporina e metotrexato conforme o caso. O guia SBP/ASBAI 2023 destaca imunobiológicos e pequenas moléculas para a DA grave refratária.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "A pele atópica é seca por natureza: o hidratante é diário, com ou sem crise."
- "O corticoide, usado na quantidade e pelo tempo indicados, é seguro. Usar pouco demais faz a crise durar mais."
- "Na fase boa, continue aplicando a pomada 2 dias por semana nas áreas que costumam voltar, se o seu pediatra orientar."
- Retornar em 1–2 semanas após uma crise moderada e a cada 3–6 meses nas formas estáveis.
- Ir ao pronto-socorro no mesmo dia se: bolhinhas agrupadas ou feridas redondas que doem e se espalham rápido; febre com piora da pele; lesões perto dos olhos; criança muito abatida.
- Retornar antes se: pus, crostas amareladas, piora apesar do tratamento, prurido que impede o sono.
- Evitar beijos e contato próximo com pessoas com herpes labial.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Gravidade | Guia SBP/ASBAI 2023 foca a DA grave e a terapia sistêmica | Encaminhar casos graves, complicados ou crônicos ao especialista (2025) | Avaliação holística; leve, moderada, grave | Segue o NICE | SCORAD: < 25, 25–50, > 50 (SEPEAP 2023) |
| Emolientes | Pilar do tratamento | Cremes espessos sem perfume; banho diário curto (2025) | 250–500 g/semana | Segue o NICE | Pilar do tratamento |
| Corticoide tópico | Potência conforme gravidade e região | Uso supervisionado e manutenção nos recidivantes (2025); AAD 2026: baixa potência 2–12 meses, média > 2 anos | Por gravidade; face baixa potência; sem alta potência < 12 meses sem especialista | Segue o NICE (NHSGGC, Escócia, usa FTU por idade) | Baixa a média na face e dobras; FTU; até 2–4 semanas |
| Terapia proativa | Citada | Manutenção nos recidivantes | 2 dias consecutivos/semana | Segue o NICE | Tacrolimo 2 vezes/semana (≥ 4 crises/ano) |
| Inibidores de calcineurina | Pimecrolimo ≥ 3 meses pela bula brasileira; tacrolimo 0,03% ≥ 2 anos | AAD 2026: ≥ 2 anos, até 6 semanas; manutenção 2 vezes/semana | Segunda linha, ≥ 2 anos | Segue o NICE | Pimecrolimo ≥ 3 meses; tacrolimo 0,03% 2–16 anos |
| Eczema herpético | Diferencial do impetigo (SBP 2022) | Emergência | Aciclovir sistêmico imediato e avaliação no mesmo dia | Segue o NICE | Mais frequente nos primeiros 3 anos |
| Sistêmicos | Imunobiológicos na DA grave (SBP/ASBAI 2023) | AAD 2026: dupilumabe ≥ 6 meses | Especialista | Segue o NICE | Especialista |
Leitura: há ampla convergência sobre emolientes em grande quantidade, corticoide tópico ajustado à gravidade e à região, manutenção proativa nos pacientes com crises frequentes e o eczema herpético como emergência. As divergências são sobretudo regulatórias: a idade mínima do pimecrolimo (3 meses na bula brasileira e na Espanha; 2 anos no NICE e na AAD) e o acesso a terapias tópicas e sistêmicas novas. A AAD 2026 e a AAP 2025 enfatizam o combate à corticofobia e às dietas de exclusão desnecessárias; o NICE é o mais explícito na quantidade de emolientes e nos critérios de encaminhamento.
- Prescrever emoliente em quantidade (250–500 g/semana) e explicar que ele é diário, com ou sem crise.
- Escolher a potência do corticoide pela gravidade, idade e região; ensinar a unidade de ponta de dedo.
- Nas crises frequentes, manter terapia proativa 2 dias por semana nas áreas que recidivam.
- Infecção secundária se trata junto com o corticoide tópico, nunca com antibiótico isolado.
- Vesículas agrupadas, erosões em "saca-bocado" e piora dolorosa: hospital no mesmo dia para aciclovir EV.
- Não pedir painel de IgE nem iniciar dietas de exclusão sem história compatível com alergia alimentar.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria. SBP e ASBAI divulgam atualização do guia prático de tratamento para dermatite atópica grave, 2023. sbp.com.br
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos de Dermatologia e Infectologia. Infecções bacterianas superficiais cutâneas, 2022. PDF
- NICE. CG57 — Atopic eczema in under 12s: diagnosis and management, 2007, atualizado em 2025 (NCBI Bookshelf). ncbi.nlm.nih.gov
- American Academy of Pediatrics. Treating eczema (atopic dermatitis): AAP updates recommendations, 2025 (HealthyChildren). healthychildren.org
- American Academy of Dermatology. Diretriz de dermatite atópica em menores de 18 anos, 2026 (resumo Portal Afya). portal.afya.com.br
- NHS Greater Glasgow and Clyde. Management of atopic eczema in children, revisado em 2026. clinicalguidelines.scot.nhs.uk
- SEPEAP (Sociedad Española de Pediatría Extrahospitalaria y Atención Primaria). Guía de dermatitis atópica, 2023. PDF
- Elidel (pimecrolimo 1%). Bula para o profissional de saúde (Brasil). PDF