Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
A doença mão-pé-boca (DMPB) e a herpangina são causadas por enterovírus (coxsackievírus A16, A6, A10, enterovírus A71 e outros) e acometem principalmente menores de 5 anos. A DMPB tem febre baixa a moderada, úlceras orais e vesículas em mãos, pés, nádegas e região perioral; a herpangina tem febre mais alta e úlceras no palato mole, úvula e pilares, sem lesões na pele. Evoluem em 7–10 dias sem tratamento específico: não há indicação de antibiótico, antiviral ou antifúngico (SBP 2025). O foco é analgesia regular e hidratação, porque a dor oral leva à recusa alimentar e à desidratação. A maioria é tratada em casa (🟢). Reavaliar em 24 h (🟡) quem bebe pouco, tem febre > 3 dias ou lesões extensas. Encaminhar ao pronto-socorro (🔴) se houver desidratação, sonolência, mioclonias, tremores, ataxia, fraqueza de membro, vômitos persistentes, taquicardia, taquipneia, sudorese fria ou pele moteada — sinais de doença neurológica e autonômica pelo enterovírus A71, que pode evoluir rapidamente para edema pulmonar e choque. O vírus é eliminado nas fezes por até 4 semanas: higiene das mãos é a principal medida de controle.
1.O que é e como se apresenta
- Agentes: enterovírus do grupo A — coxsackievírus A16 e A6 (principais na DMPB atual), A10, enterovírus A71; herpangina sobretudo por coxsackievírus A. Transmissão fecal-oral, por secreções respiratórias e pelo líquido das vesículas.
- Faixa etária: menores de 5 anos, com surtos em creches e escolas; adultos raramente adoecem, e em geral após contato prolongado (SBP).
- DMPB típica: febre baixa a moderada, mal-estar, dor de garganta; úlceras dolorosas em língua, mucosa jugal e palato; vesículas ovaladas ou lesões maculopapulares em palmas, plantas, nádegas e região perioral (SBP).
- DMPB atípica (coxsackievírus A6): lesões vesicobolhosas extensas em cotovelos, joelhos, nádegas e face, às vezes sobre áreas de dermatite atópica ("eczema coxsackium"); em menores de 2 anos, lesões em nádegas, joelhos e cotovelos são comuns. Semanas depois podem surgir descamação de mãos e pés e onicomadese (queda das unhas), benignas.
- Herpangina: início súbito de febre alta, odinofagia, sialorreia e recusa alimentar; vesículas e úlceras pequenas em palato mole, úvula, pilares anteriores e amígdalas; sem lesões em gengivas anteriores nem em mãos e pés.
- Evolução: 7–10 dias, com resolução espontânea (SBP). Eliminação viral nas fezes por até 4 semanas após a resolução das lesões (SBP 2025).
- Enterovírus A71: associado a meningite asséptica, rombencefalite (tronco encefálico), paralisia flácida aguda e disfunção autonômica com edema pulmonar e insuficiência cardíaca, sobretudo em menores de 5 anos. A SBP descreve quatro estágios: doença habitual; manifestações neurológicas (mioclonia, tremores, ataxia); alterações autonômicas; falência cardiorrespiratória.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Bom estado geral; febre baixa a moderada; aceita líquidos; diurese normal; dor controlada com analgésico; sem sinais neurológicos | Tratamento em casa: analgesia regular, líquidos frios, alimentos pastosos; orientação de sinais de alerta |
| 🟡 Moderada | Ingestão reduzida sem desidratação; lesões orais extensas; febre > 3 dias ou > 39 °C; lesões vesicobolhosas disseminadas; lactente pequeno; família com dificuldade de manejo | Reavaliação em 24 h; observação no consultório/PS com prova de ingestão oral; ajuste de analgesia |
| 🔴 Grave | Desidratação ou recusa total de líquidos; letargia, irritabilidade intensa, mioclonias (sobretudo no sono), tremores, ataxia, nistagmo, fraqueza ou paralisia flácida de membro, convulsão, rigidez de nuca; vômitos persistentes; taquicardia, taquipneia, hipertensão, sudorese fria, pele moteada, enchimento capilar lento, dispneia ou secreção espumosa | Encaminhar ao pronto-socorro/hospital; casos neurológicos e autonômicos precisam de monitorização e, muitas vezes, terapia intensiva |
A SBP (2019) indica internação quando há lesões orais extensas com dificuldade de deglutição, manifestações neurológicas (letargia, ataxia, tremores, febre > 39 °C por mais de 48 h) ou sinais autonômicos (sudorese fria, pele moteada, taquicardia, taquipneia, hipertensão arterial, hiperglicemia).
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Menores de 5 anos, sobretudo lactentes (desidratação; complicações neurológicas pelo enterovírus A71).
- Circulação de enterovírus A71 na comunidade (surtos com casos neurológicos).
- Febre alta e prolongada, letargia e vômitos nos primeiros dias.
- Dermatite atópica extensa (lesões disseminadas por coxsackievírus A6; diferenciar de eczema herpético).
- Imunodeficiência; recém-nascidos (enterovírus neonatal pode causar sepse viral, miocardite e hepatite).
3.Diagnóstico no consultório
- Clínico. Examinar toda a cavidade oral, mãos, pés, nádegas, joelhos e cotovelos.
- Exame neurológico e sinais vitais em toda consulta: FC, FR, perfusão periférica, nível de consciência, marcha, tremores e relato de "sustos" ou abalos durante o sono (mioclonias).
- Exames: desnecessários na forma habitual. Em casos graves, surtos ou dúvida diagnóstica, PCR para enterovírus em swab de orofaringe, fezes, líquido vesicular ou líquor, no hospital ou pela vigilância.
- Avaliação de hidratação: diurese, mucosas, lágrimas, perda de peso.
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Gengivoestomatite herpética: gengivite intensa e sangrante, lesões em lábios e gengiva anterior, febre alta; pode justificar aciclovir precoce. Eczema herpético em criança atópica exige aciclovir e avaliação urgente.
- Varicela: vesículas em diferentes estágios, predomínio no tronco e couro cabeludo.
- Síndrome de Stevens-Johnson: medicamento recente, lesões em alvo, mucosite de múltiplas mucosas, dor cutânea.
- Faringoamigdalite estreptocócica (exsudato amigdaliano sem vesículas) e aftas recorrentes.
- Doença de Kawasaki (febre ≥ 5 dias, conjuntivite, alterações de extremidades) e doença meningocócica (petéquias).
4.Tratamento em casa
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Paracetamol | 10–15 mg/kg/dose | 4–6 h (máx. 5 doses/dia) | Enquanto houver dor ou febre | Máx. 75 mg/kg/dia (SBP), nunca > 4 g/dia; dar 30–60 min antes das refeições |
| Dipirona | 10–12 mg/kg/dose (SBP 2021) | 6/6 h | Enquanto houver dor ou febre | Máx. 4 doses/dia; "1 gota/kg" leva a superdosagem (SBP); bula: não usar < 3 meses ou < 5 kg |
| Ibuprofeno | 5–10 mg/kg/dose | 6/6 h a 8/8 h | Enquanto houver dor | A partir de 6 meses; evitar se desidratado ou com vômitos |
| Solução de reidratação oral | Pequenos volumes frequentes, conforme perdas | Livre demanda | Enquanto a ingestão estiver reduzida | Oferecer fria, de colher, seringa ou copo |
Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.
- Analgesia em horário regular nos primeiros dias, e não só "se febre": a dor oral é a principal causa de recusa alimentar. Não alternar antitérmicos.
- Alimentação: líquidos frios, picolés de fruta não ácida, iogurte, alimentos pastosos e frios; evitar ácidos, salgados, crocantes e muito quentes.
- Anestésicos tópicos: a AAP admite soluções orais calmantes aplicadas com cotonete ou em bochecho acima de 1 ano. Evitar lidocaína viscosa em lactentes e pré-escolares (risco de toxicidade e aspiração).
- Não usar: antibióticos, aciclovir (não atua em enterovírus), antifúngicos (SBP 2025); ácido acetilsalicílico.
- Pele: lesões cutâneas raramente precisam de tratamento; manter limpas e secas; observar sinais de infecção bacteriana secundária.
Afastamento e controle de transmissão
- SBP (2025): afastar da creche e da escola até a resolução completa das lesões e ausência de febre.
- AAP: retorno quando estiver sem febre, bem para participar e com a maioria das vesículas secas (em geral cerca de 7 dias); não retornar com muitas vesículas abertas.
- NHS: retorno quando a criança se sentir melhor, sem esperar a cicatrização das lesões. A AEP não recomenda exclusão escolar.
- Lavagem rigorosa das mãos (sobretudo após troca de fraldas), desinfecção de superfícies e brinquedos com álcool 70% e não compartilhar talheres e copos (SBP). Como a eliminação fecal dura semanas, a higiene continua depois do retorno.
- Notificação: a DMPB não é de notificação individual, mas dois ou mais casos relacionados configuram surto, de notificação obrigatória (compulsória) (SBP 2019).
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Desidratação, recusa total de líquidos ou diurese muito reduzida, sem resposta à prova de ingestão oral.
- Qualquer sinal neurológico: sonolência, irritabilidade intensa, mioclonias, tremores, ataxia, nistagmo, fraqueza de membro, convulsão, cefaleia intensa com vômitos, rigidez de nuca.
- Sinais autonômicos ou cardiopulmonares: taquicardia desproporcional à febre, taquipneia, dispneia, hipertensão, sudorese fria, pele moteada, enchimento capilar lento.
- Febre > 39 °C por mais de 48 h com letargia (SBP).
- Recém-nascido ou imunodeprimido com suspeita de enterovirose.
- Suspeita de eczema herpético ou Stevens-Johnson.
Como encaminhar
- Oxigênio se SpO2 < 94% ou desconforto respiratório; posição confortável, cabeceira elevada.
- Desidratação moderada a grave: iniciar reidratação conforme o protocolo do serviço, se houver acesso venoso e a remoção for demorada.
- Não atrasar a transferência de criança com sinais neurológicos ou autonômicos: a evolução para edema pulmonar pode ser rápida.
- Contatar o serviço de destino, informar suspeita de enterovírus A71 e necessidade de precaução de contato; SAMU (192) se instável.
- Relatório com início dos sintomas, sinais vitais, sinais neurológicos observados e medicamentos.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "É uma virose que melhora sozinha em 7 a 10 dias; o mais importante é aliviar a dor e manter a criança bebendo."
- "Dê o analgésico em horários certos nos primeiros dias e ofereça líquidos frios várias vezes ao dia."
- Retornar em 24 h se estiver bebendo pouco, fizer pouco xixi ou a febre durar mais de 3 dias.
- Ir ao pronto-socorro se: criança muito sonolenta ou difícil de acordar; "sustos" ou tremores repetidos, principalmente dormindo; andar cambaleante ou fraqueza em braço ou perna; vômitos repetidos; respiração rápida ou com esforço; pele fria, pálida ou manchada; sem xixi por 8 horas ou mais.
- "Unhas podem cair algumas semanas depois; isso é benigno e elas voltam a crescer."
- "Lave bem as mãos, principalmente depois de trocar fraldas, por pelo menos um mês."
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Tratamento | Sintomáticos e hidratação; sem antibiótico, antiviral ou antifúngico | Paracetamol ou ibuprofeno | Paracetamol ou ibuprofeno; líquidos frios (NHS) | Segue o NICE | Sem tratamento específico |
| Sinais de gravidade | Mioclonia, tremores, ataxia, sinais autonômicos; febre > 39 °C > 48 h | Febre > 3 dias ou não beber: procurar o pediatra | Diurese reduzida, febre muito alta | Segue o NICE | Não detalha |
| Analgesia tópica | Não detalha | Soluções orais calmantes acima de 1 ano | Géis ou enxaguatórios orais indicados pelo farmacêutico (NHS) | Segue o NICE | Não detalha |
| Afastamento escolar | Até resolução das lesões e sem febre | Sem febre, bem e vesículas secas | Quando se sentir melhor | Segue o NICE | Não recomendado |
Leitura: as referências concordam que a doença é autolimitada, que o tratamento é sintomático com foco em dor e hidratação e que antibiótico e antiviral não têm papel. A divergência principal é o afastamento escolar: a SBP é a mais restritiva (até a resolução completa das lesões), a AAP exige ausência de febre e vesículas secas, e NHS e AEP não recomendam exclusão prolongada — coerente com a eliminação viral nas fezes por semanas, que limita o efeito da exclusão. A SBP é a única a detalhar os estágios de gravidade do enterovírus A71, relevantes no Brasil em surtos.
- Analgesia regular e líquidos frios resolvem a maioria dos casos; a desidratação é a complicação mais comum.
- Pergunte ativamente por "sustos" durante o sono, tremores e desequilíbrio: mioclonia e ataxia são sinais de alerta do enterovírus A71.
- Taquicardia, taquipneia, sudorese fria ou pele moteada com enterovirose = pronto-socorro imediato.
- Sem antibiótico, sem aciclovir e sem lidocaína viscosa em crianças pequenas.
- Gengivite intensa sugere herpes, não enterovírus; eczema herpético é urgência.
- Higiene das mãos por semanas após a cura; surtos em creche devem ser notificados.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos de Dermatologia e Infectologia. Síndrome mão-pé-boca (documento científico), 2019. PDF
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Tratamento da doença mão-pé-boca em crianças, Nota de Alerta nº 219, 2025. PDF
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Manejo da febre aguda, 2021. PDF
- American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org). Hand, Foot & Mouth Disease. healthychildren.org
- NHS. Hand, foot and mouth disease. nhs.uk
- AEP. Conejo Fernández AJ, Cruz Cañete M. Enfermedades exantemáticas víricas, Protocolos de Infectología, 2023. PDF
- IFRC. Epidemic Control Toolkit — Hand, foot and mouth disease. ifrc.org