Patologias do consultório · Febre e infecções

Doenças exantemáticas

Como distinguir sarampo, rubéola, escarlatina, exantema súbito, eritema infeccioso e varicela, quando usar aciclovir e quais exantemas não podem esperar

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A maioria dos exantemas febris da infância é viral e autolimitada. Sarampo (febre alta, tosse, coriza, conjuntivite, manchas de Koplik e exantema cefalocaudal) e rubéola são de notificação obrigatória (compulsória) desde a suspeita, com isolamento e bloqueio vacinal dos contatos; toda criança com sarampo recebe vitamina A em duas doses. Escarlatina é estreptocócica e se trata com amoxicilina ou penicilina benzatina. Exantema súbito e eritema infeccioso são benignos em crianças saudáveis. Varicela é leve na maioria, mas o aciclovir oral está indicado em adolescentes > 12 anos, doenças crônicas de pele ou pulmão, uso de corticoide ou salicilato e casos secundários domiciliares; no imunodeprimido e no neonato, aciclovir intravenoso. Evitar ibuprofeno e AAS na varicela. A maioria é tratada em casa (🟢). Encaminhar ao pronto-socorro (🔴) se houver petéquias ou púrpura que não clareiam, toxemia, desconforto respiratório, sinais neurológicos, celulite extensa ou dor desproporcional nas lesões (fasciíte necrosante), desidratação, ou varicela em neonato ou imunodeprimido. Febre ≥ 5 dias com exantema lembra doença de Kawasaki.

Veja também, nesta Biblioteca: Doença de Kawasaki.

1.O que é e como se apresenta

Doença Agente Idade típica Pistas para o diagnóstico
Sarampo Morbilivírus Qualquer idade não vacinada Pródromo de 3–5 dias com febre alta, tosse, coriza, conjuntivite; manchas de Koplik; exantema maculopapular confluente de progressão cefalocaudal; criança muito abatida
Rubéola Rubivírus Escolares, adolescentes não vacinados Febre baixa; exantema róseo que dura cerca de 3 dias; adenomegalia retroauricular e occipital; artralgia em adolescentes
Escarlatina Streptococcus pyogenes Escolares Faringoamigdalite; exantema micropapular áspero ("lixa"), acentuado nas dobras (sinal de Pastia); palidez perioral; língua em framboesa; descamação de extremidades
Exantema súbito (roséola) Herpesvírus humano 6 e 7 6–24 meses Febre alta 3–5 dias em criança em bom estado; exantema róseo no tronco quando a febre cede; pode causar crise febril
Eritema infeccioso Parvovírus B19 4–10 anos Face "esbofeteada", depois exantema rendilhado em braços, coxas e nádegas, que vai e volta por semanas; pouco sintoma geral
Varicela Vírus varicela-zóster Pré-escolares e escolares Vesículas pruriginosas em surtos, lesões em diferentes estágios ("céu estrelado"), distribuição centrípeta, couro cabeludo e mucosas
  • Transmissibilidade: sarampo de 6 dias antes a 4 dias após o exantema (MS); rubéola até 7 dias após o exantema (AEP); varicela de 1–2 dias antes do exantema até todas as lesões em crosta; eritema infeccioso transmite antes do exantema e não é mais contagioso quando ele aparece.
  • Complicações do sarampo: otite, pneumonia (cerca de 1 em 20 crianças), diarreia com desidratação, encefalite aguda (1 a 4 por 1.000), panencefalite esclerosante subaguda anos depois e óbito (1 a 3 por 1.000) (MS). Mais graves em lactentes, desnutridos e imunodeprimidos.
  • Complicações da varicela: infecção bacteriana de pele e partes moles (a mais comum em crianças — S. pyogenes e S. aureus), celulite, fasciíte necrosante, choque tóxico, pneumonia, ataxia cerebelar, encefalite, trombocitopenia, síndrome de Reye com AAS.
  • Parvovírus B19: crise aplásica em doença falciforme e esferocitose; hidropisia fetal na gestante. Rubéola: síndrome da rubéola congênita se a gestante se infectar no início da gestação.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Bom estado geral, hidratado, sem desconforto respiratório; exantema que clareia à pressão; varicela com lesões sem sinais inflamatórios; exantema súbito, eritema infeccioso, escarlatina aceitando antibiótico oral Tratamento em casa, sintomáticos, afastamento escolar, orientação de sinais de alerta
🟡 Moderada Sarampo em criança hidratada e sem hipoxemia; varicela em adolescente > 12 anos, com doença de pele ou pulmonar crônica, em uso de corticoide, ou caso secundário domiciliar; lesões de varicela com celulite localizada; febre persistente > 4 dias no curso da varicela ou retorno da febre; ingestão reduzida Reavaliação em 24–48 h; aciclovir oral nas indicações; antibiótico oral para infecção cutânea localizada
🔴 Grave Petéquias ou púrpura que não clareiam; toxemia, hipotensão, enchimento capilar lento; desconforto respiratório ou SpO2 < 92%; convulsão, sonolência, ataxia, rigidez de nuca; desidratação; celulite extensa, dor desproporcional, edema endurecido ou lesões escurecidas (fasciíte necrosante); varicela em neonato, imunodeprimido ou com pneumonia; sarampo em lactente pequeno, desnutrido ou com complicação Encaminhar ao pronto-socorro/hospital com isolamento; antibiótico parenteral imediato se suspeita de doença meningocócica ou choque

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Neonatos (varicela materna de 5 dias antes a 2 dias depois do parto) e lactentes; adolescentes > 12 anos na varicela.
  • Imunodeficiência, quimioterapia, corticoide em dose imunossupressora, HIV.
  • Desnutrição e deficiência de vitamina A (sarampo).
  • Doença falciforme e anemias hemolíticas (parvovírus B19).
  • Dermatite atópica extensa e doença pulmonar crônica (varicela); vacinação incompleta.

3.Diagnóstico no consultório

  • Clínico, pela sequência febre-exantema, morfologia, distribuição e sinais associados. Pressionar as lesões ("teste do copo") para separar exantema que clareia de petéquia/púrpura.
  • Sarampo e rubéola: coletar sangue para IgM e swab de orofaringe/nasofaringe e urina para RT-PCR até 7 dias do exantema; o diagnóstico laboratorial é padrão-ouro (MS). Notificar e acionar a vigilância na suspeita, sem esperar confirmação.
  • Escarlatina: teste rápido ou cultura de orofaringe para estreptococo do grupo A quando disponível.
  • Varicela: clínico. Parvovírus B19: hemograma e reticulócitos se palidez em criança com anemia hemolítica.

Diagnóstico diferencial que não pode passar

  • Doença meningocócica: febre com petéquias ou púrpura, sobretudo progressivas, abaixo da linha dos mamilos ou com mau estado geral. Às vezes começa como exantema maculopapular que clareia.
  • Doença de Kawasaki: febre ≥ 5 dias com conjuntivite não purulenta, alterações de lábios e língua, exantema polimorfo, alterações de extremidades e adenomegalia cervical.
  • Síndrome do choque tóxico; Stevens-Johnson e DRESS (medicamento recente, mucosas); dengue e outras arboviroses; síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica.

4.Tratamento em casa

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Vitamina A (sarampo) < 6 meses 50.000 UI; 6–11 meses 100.000 UI; ≥ 12 meses 200.000 UI (MS) 1 dose ao dia 2 dias (dia da suspeita e dia seguinte) Toda criança com suspeita de sarampo; se houver sinais oculares de deficiência de vitamina A, 3ª dose 2–4 semanas depois (OMS)
Aciclovir oral (varicela) 20 mg/kg/dose (máx. 800 mg/dose) 4 vezes ao dia (AAP/AEP) 5 dias Iniciar nas primeiras 24 h do exantema; indicações abaixo
Amoxicilina (escarlatina) 50 mg/kg/dia (máx. 1 g/dia) 1x/dia ou 12/12 h 10 dias Ver faringoamigdalite
Penicilina G benzatina IM (escarlatina) < 20 kg: 600.000 UI; ≥ 20 kg: 1.200.000 UI Dose única — Quando a adesão ao oral é incerta
Paracetamol 10–15 mg/kg/dose 4–6 h (máx. 5 doses/dia) Enquanto houver febre ou dor Máx. 75 mg/kg/dia (SBP), nunca > 4 g/dia
Dipirona 10–12 mg/kg/dose (SBP 2021) 6/6 h Enquanto houver febre ou dor Máx. 4 doses/dia; "1 gota/kg" leva a superdosagem (SBP); bula: não usar < 3 meses ou < 5 kg

Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.

  • Aciclovir oral na varicela (AAP, via CDC): não é rotina na criança saudável < 12 anos. Considerar em > 12 anos, doença crônica de pele ou pulmão, uso prolongado de salicilato, corticoide em curso curto, intermitente ou inalatório; alguns especialistas incluem casos secundários domiciliares (em geral mais intensos). O Guia de Vigilância do MS traz 20 mg/kg/dose 5 vezes ao dia por 5 dias.
  • Aciclovir intravenoso (hospital): imunodeprimidos, neonatos, pneumonia, encefalite, hepatite ou doença disseminada — 10 mg/kg/dose 8/8 h em < 1 ano ou 500 mg/m²/dose 8/8 h em ≥ 1 ano, por 7–10 dias (AAP).
  • Na varicela, evitar ibuprofeno (associado a infecção invasiva por estreptococo do grupo A; AEP, NHS) e nunca usar AAS (síndrome de Reye). Unhas curtas, banho diário, compressas frias; anti-histamínico oral de 2ª geração pode aliviar o prurido (sedativos de 1ª geração: não usar, exceto por problema social, por curto período e fora da faixa de contraindicação); evitar talcos e pomadas caseiras.
  • Infecção secundária localizada de lesões de varicela: antibiótico com cobertura para S. pyogenes e S. aureus, com reavaliação em 48 h.

Isolamento e afastamento

  • Sarampo: afastar até 4 dias após o início do exantema, com precaução para aerossóis no serviço de saúde.
  • Rubéola: até 7 dias após o exantema; afastar de gestantes.
  • Varicela: até todas as lesões em crosta (em geral 5–7 dias); afastar de gestantes, neonatos e imunodeprimidos.
  • Escarlatina: retornar após 24 h de antibiótico (NHS).
  • Exantema súbito e eritema infeccioso: sem necessidade de afastamento após o exantema, se a criança estiver bem.

Notificação

  • Sarampo e rubéola: notificação obrigatória (compulsória) de todo caso suspeito, com coleta de exames e bloqueio vacinal dos contatos.
  • Varicela: notificação obrigatória (compulsória) dos casos graves, surtos e óbitos (MS).

Vacinação e profilaxia

  • Tríplice viral aos 12 meses e tetraviral aos 15 meses; dose adicional de varicela aos 4 anos (calendário do PNI). Em surtos de sarampo, "dose zero" de 6 a 11 meses (MS).
  • Contatos suscetíveis: vacina de bloqueio o mais cedo possível (sarampo em até 72 h; varicela em até 3–5 dias). Imunodeprimidos, gestantes e neonatos expostos à varicela: imunoglobulina específica pelo CRIE, o quanto antes (CDC admite até 10 dias).

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Febre com petéquias ou púrpura, ou exantema com mau estado geral.
  • Sinais de choque, desconforto respiratório, SpO2 < 92%.
  • Convulsão (exceto crise febril simples recuperada), sonolência, ataxia, rigidez de nuca.
  • Varicela com celulite extensa, dor desproporcional, lesões escurecidas ou hemorrágicas, febre que retorna após melhora.
  • Varicela em neonato, imunodeprimido ou com pneumonia; sarampo complicado ou em lactente pequeno/desnutrido.
  • Febre ≥ 5 dias com critérios de Kawasaki.

Como encaminhar

  1. Suspeita de doença meningocócica ou sepse: ceftriaxona ou penicilina cristalina IV/IM antes da transferência, se não atrasar a remoção (NICE NG240).
  2. Oxigênio se SpO2 < 94% ou choque; acesso venoso e expansão com cristaloide se houver choque e equipe treinada.
  3. Avisar o destino sobre doença transmissível (sarampo e varicela exigem isolamento respiratório); máscara cirúrgica na criança.
  4. SAMU (192) se instável; relatório com cronologia febre-exantema, vacinação e medicamentos.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "Na catapora, use paracetamol ou dipirona; não use ibuprofeno nem AAS. Corte as unhas e dê banho diário."
  • Retorno em 24–48 h se febre persistir mais de 3–4 dias ou voltar depois de melhorar.
  • Ir ao pronto-socorro se: manchas roxas ou vermelhas que não somem ao apertar; criança largada, sonolenta ou com convulsão; falta de ar; pouco xixi; lesão da catapora muito vermelha, quente, inchada ou muito dolorida; febre por 5 dias ou mais com olhos e lábios vermelhos.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Sarampo Notificação obrigatória; vitamina A em 2 doses; isolamento Vitamina A para crianças com sarampo; notificação Doença de notificação; suporte Segue o NICE Isolamento até 4–5 dias após o exantema
Aciclovir na varicela Grupos de risco; MS 20 mg/kg/dose 5x/dia por 5 dias Oral em > 12 anos e condições de risco; IV em imunodeprimidos Não rotineiro na criança saudável Segue o NICE 80 mg/kg/dia em 4 doses por 5 dias (máx. 800 mg/dose) nos grupos de risco
Antitérmico na varicela Paracetamol, dipirona; sem AAS Paracetamol; sem AAS Evitar ibuprofeno (NHS) Segue o NICE Evitar ibuprofeno e AAS
Escarlatina Amoxicilina 10 dias ou benzatina (< 20 kg 600.000 UI; ≥ 20 kg 1.200.000 UI) Amoxicilina ou penicilina 10 dias Antibiótico; afastar 24 h após a 1ª dose Segue o NICE Penicilina ou amoxicilina 10 dias
Afastamento na varicela Até todas as lesões em crosta (MS) Até lesões em crosta Até lesões em crosta (cerca de 5 dias) Segue o NICE Até lesões em crosta

Leitura: há convergência sobre o diagnóstico clínico, o isolamento até as crostas na varicela, o aciclovir restrito a grupos de risco e o exantema que não clareia como sinal vermelho. As diferenças: a dose de aciclovir oral é 4 vezes ao dia na AAP e na AEP e 5 vezes ao dia no Guia do MS; a vitamina A no sarampo é enfatizada pelo MS e pela AAP; a advertência contra ibuprofeno na varicela é explícita no NHS e na AEP; o corte de peso para penicilina benzatina é de 20 kg no Brasil.

Pontos práticos
  1. Aperte o exantema: petéquia ou púrpura com febre é doença meningocócica até prova em contrário.
  2. Sarampo e rubéola: notificar na suspeita, coletar exames, isolar e vacinar contatos; vitamina A em duas doses.
  3. Na varicela, nada de ibuprofeno ou AAS; aciclovir oral nas primeiras 24 h para > 12 anos e grupos de risco; IV para neonato e imunodeprimido.
  4. Dor desproporcional, edema endurecido ou febre que volta na varicela sugerem infecção bacteriana invasiva ou fasciíte necrosante.
  5. Febre ≥ 5 dias com exantema e conjuntivite: pense em Kawasaki.
  6. Confira a caderneta: tríplice viral, tetraviral e varicela aos 4 anos.

8.Fontes

  • Ministério da Saúde. Sarampo — saúde de A a Z (vitamina A, transmissão, complicações), 2025. gov.br
  • Ministério da Saúde. Catapora (varicela) — saúde de A a Z. gov.br
  • Secretaria de Saúde do Tocantins. Protocolo de varicela (baseado no Guia de Vigilância Epidemiológica do MS). PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Manejo da febre aguda, 2021. PDF
  • CDC. Clinical Guidance for People at Risk for Severe Varicella (recomendações da AAP). cdc.gov
  • Drugs.com. Acyclovir dosage — pediatric varicella. drugs.com
  • AEP. Conejo Fernández AJ, Cruz Cañete M. Enfermedades exantemáticas víricas, Protocolos de Infectología, 2023. PDF
  • NICE. NG143 — Fever in under 5s, 2019; NG240 — Meningitis (bacterial) and meningococcal disease, 2024. NG143 · NG240
  • NHS. Chickenpox; Scarlet fever. Chickenpox · Scarlet fever