Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
A dor abdominal aguda é queixa frequente e, na maioria das vezes, benigna (gastroenterite, constipação, adenite mesentérica, infecções virais). O desafio é identificar os casos cirúrgicos: apendicite (a urgência cirúrgica mais comum), invaginação intestinal (lactente de 3 meses a 3 anos com cólica intermitente e letargia), torção de testículo ou de ovário, hérnia inguinal encarcerada e má rotação com volvo — todo vômito bilioso no lactente é emergência cirúrgica até prova em contrário. Causas extra-abdominais precisam ser lembradas: pneumonia de base, cetoacidose diabética, infecção urinária, faringoamigdalite estreptocócica e vasculite por IgA. O Pediatric Appendicitis Score (PAS) e o escore de Alvarado estratificam o risco de apendicite; a ultrassonografia é o primeiro exame de imagem e a tomografia fica para casos inconclusivos (AAP, Seção de Cirurgia). Analgesia não mascara o diagnóstico e deve ser oferecida (AEP). Dor leve, abdome sem sinais peritoneais, boa hidratação e bom estado geral permitem tratamento em casa com reavaliação garantida (🟢). Dor persistente sem diagnóstico exige reexame em poucas horas (🟡). Sinais peritoneais, vômitos biliosos, distensão, sangue nas fezes, massa, dor escrotal ou pélvica súbita, toxemia ou desidratação exigem pronto-socorro com cirurgião (🔴).
Veja também, nesta Biblioteca: Faringoamigdalite; Pneumonia adquirida na comunidade; Classificação de risco em pediatria.
1.O que é e como se apresenta
- Definição: dor abdominal de início recente (horas a poucos dias). "Abdome agudo" é a dor que pode exigir intervenção cirúrgica ou tratamento urgente.
- Causas mais frequentes (não cirúrgicas): gastroenterite aguda, constipação, adenite mesentérica, infecções virais, cólica do lactente, dor funcional.
- Causas cirúrgicas por faixa etária:
- Recém-nascido e lactente: má rotação com volvo (vômitos biliosos), hérnia inguinal encarcerada, invaginação intestinal (pico entre 6 e 36 meses), enterocolite necrosante no prematuro.
- Pré-escolar: invaginação, apendicite (com alta taxa de perfuração por diagnóstico tardio), divertículo de Meckel.
- Escolar e adolescente: apendicite (pico entre 10 e 12 anos), torção de testículo, torção de ovário, gravidez ectópica, colecistite e pancreatite.
- Apendicite — quadro clássico: dor periumbilical que migra para a fossa ilíaca direita, anorexia, náuseas ou vômitos após o início da dor, febre baixa, dor ao tossir, pular ou à percussão. Em menores de 5 anos o quadro é atípico e a perfuração é mais frequente.
- Invaginação intestinal: crises de dor em cólica com choro, flexão das pernas e palidez, intercaladas com períodos de calma ou letargia; vômitos; massa em salsicha no abdome; fezes em "geleia de framboesa" são sinal tardio, presente em apenas 15–20% dos casos (AEP). A letargia pode ser o sinal predominante.
- Torção de testículo: dor escrotal súbita e intensa, às vezes referida ao abdome inferior, náuseas e vômitos, testículo elevado e horizontalizado, reflexo cremastérico ausente. Todo menino com dor abdominal deve ter o escroto examinado.
- Torção de ovário: dor pélvica ou em fossa ilíaca súbita, intensa, com náuseas e vômitos, em meninas (frequentemente com cisto ou teratoma).
- Hérnia encarcerada: massa inguinal ou escrotal dolorosa e irredutível, irritabilidade, vômitos.
- Má rotação com volvo: vômitos biliosos (verdes), distensão ou abdome escavado, evolução rápida para choque e sangue nas fezes (isquemia).
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Bom estado geral, dor leve ou intermitente, abdome flácido sem dor localizada fixa e sem sinais peritoneais, tolera líquidos, hidratado, diagnóstico provável benigno (gastroenterite, constipação, virose); PAS ≤ 3 ou Alvarado ≤ 4 | Analgesia, tratamento da causa, orientação de sinais de alerta e reavaliação em 24 h ou antes se piorar |
| 🟡 Moderada | Dor persistente sem causa definida, dor localizada leve, vômitos sem desidratação, PAS 4–7 ou Alvarado 5–6, lactente irritável sem sinais focais, dúvida diagnóstica | Ultrassonografia e hemograma/PCR no mesmo dia; reexame seriado em 4–6 h (consultório ou PS); se exames e reexame não esclarecem, encaminhar |
| 🔴 Grave | Sinais peritoneais (defesa, descompressão dolorosa, dor à percussão ou ao pular), PAS ≥ 8 ou Alvarado ≥ 7, vômitos biliosos ou fecaloides, distensão com parada de eliminação de gases e fezes, sangue nas fezes, massa abdominal, dor escrotal ou pélvica súbita, hérnia irredutível, letargia, toxemia, desidratação, sinais de choque, hálito cetônico com taquipneia (cetoacidose) | Encaminhar ao pronto-socorro com cirurgião pediátrico: jejum, acesso venoso, expansão se necessário, analgesia e contato prévio |
Escores de apendicite (ferramentas de estratificação; não substituem o exame seriado):
| Item | PAS (Samuel) | Alvarado (MANTRELS) |
|---|---|---|
| Migração da dor para fossa ilíaca direita | 1 | 1 |
| Anorexia | 1 | 1 |
| Náuseas ou vômitos | 1 | 1 |
| Dor à palpação da fossa ilíaca direita | 2 | 2 |
| Dor à tosse, percussão ou salto (PAS) / descompressão dolorosa (Alvarado) | 2 | 1 |
| Febre (PAS > 38 °C; Alvarado ≥ 37,3 °C) | 1 | 1 |
| Leucócitos > 10.000/mm³ | 1 | 2 |
| Neutrófilos > 75% | 1 | 1 |
| Total | 10 | 10 |
Interpretação do PAS no protocolo da SEUP/AEP: 1–3 baixa probabilidade; 4–7 intermediária (ultrassonografia); 8–10 alta (avaliação do cirurgião). O Alvarado foi desenvolvido em adultos e tende a ter menor desempenho em crianças pequenas.
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 5 anos (apendicite atípica, perfuração em até metade dos casos) e < 1 ano (volvo, invaginação, hérnia).
- Evolução > 48 h com dor e febre (maior risco de perfuração).
- Cirurgia abdominal prévia (bridas), doença de Hirschsprung, fibrose cística.
- Diabetes tipo 1, anemia falciforme (crise vaso-oclusiva, sequestro esplênico), síndrome nefrótica (peritonite primária), imunossupressão.
- Adolescente sexualmente ativa (gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica).
3.Diagnóstico no consultório
- Anamnese: início, localização, migração, caráter (cólica ou contínua), relação com vômitos (dor antes do vômito sugere causa cirúrgica), cor do vômito, hábito intestinal, sintomas urinários e respiratórios, menarca e última menstruação, doenças prévias.
- Exame completo, com a criança despida: estado geral e hidratação, frequência respiratória (pneumonia, cetoacidose), orofaringe, ausculta pulmonar, palpação abdominal começando longe do ponto doloroso, pesquisa de dor ao tossir ou pular, regiões inguinais e escroto, pele (púrpura palpável em membros inferiores e nádegas na vasculite por IgA). Toque retal não é rotina.
- Exames que podem ser solicitados:
- Hemograma e PCR: úteis na estratificação da apendicite (compõem PAS e Alvarado); normais não excluem.
- Urina tipo I e urocultura: infecção urinária; leucocitúria leve pode ocorrer na apendicite pélvica.
- Glicemia capilar e cetonemia ou cetonúria: sempre que houver poliúria, polidipsia, perda de peso, taquipneia ou vômitos com desidratação desproporcional.
- Beta-hCG em adolescentes com menarca.
- Teste rápido para estreptococo se houver faringite com dor abdominal.
- Imagem:
- Ultrassonografia é o primeiro exame para apendicite, invaginação (sinal do alvo), torção de ovário e hérnia; Doppler escrotal para torção de testículo (AEP, AAP).
- A AAP (Seção de Cirurgia, Choosing Wisely) recomenda não fazer tomografia na suspeita de apendicite antes de considerar a ultrassonografia; tomografia ou ressonância apenas nos casos duvidosos.
- Radiografia simples de abdome: suspeita de obstrução ou perfuração; radiografia de tórax se houver suspeita de pneumonia.
- Na suspeita clínica forte de torção de testículo, não atrasar a exploração cirúrgica por falta de ultrassonografia.
- Analgesia não mascara o diagnóstico. O protocolo da SEUP/AEP é explícito: a analgesia adequada, inclusive com opioide, não prejudica a avaliação e deve ser oferecida.
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Causas cirúrgicas: apendicite, invaginação, torção de testículo ou ovário, hérnia encarcerada, má rotação com volvo, obstrução por bridas, divertículo de Meckel, suboclusão por Ascaris.
- Causas extra-abdominais e clínicas:
- Pneumonia de base (dor abdominal com febre e taquipneia).
- Cetoacidose diabética (dor, vômitos, taquipneia, hálito cetônico; pode simular abdome agudo).
- Infecção urinária e pielonefrite.
- Faringoamigdalite estreptocócica (dor abdominal frequente no escolar).
- Vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein): dor em 50–62% dos casos; em cerca de 20% os sintomas digestivos precedem a púrpura; a invaginação, frequentemente ileoileal, ocorre em 1–3,5% (SBP).
- Síndrome hemolítico-urêmica (diarreia sanguinolenta, palidez, oligúria), hepatite, pancreatite, colecistite.
- Gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica, cisto ovariano roto.
- Crise falciforme, peritonite primária na síndrome nefrótica.
4.Tratamento em casa
Somente para a criança 🟢, com diagnóstico provável benigno e família capaz de reconhecer sinais de alerta e retornar.
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Paracetamol | 10–15 mg/kg/dose | 4–6 h (máx. 5 doses/dia) | Enquanto houver dor | Máx. 75 mg/kg/dia (SBP), nunca > 4 g/dia |
| Dipirona | 10–12 mg/kg/dose (SBP 2021) | 6/6 h | Enquanto houver dor | Máx. 4 doses/dia; "1 gota/kg" leva a superdosagem (SBP); bula: não usar < 3 meses ou < 5 kg |
| Ibuprofeno | 5–10 mg/kg/dose | 6–8 h | Enquanto houver dor | Máx. 40 mg/kg/dia; a partir de 6 meses; evitar se desidratado, com vômitos persistentes ou com suspeita de dengue |
Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.
- Não usar: antiespasmódicos ou opioides "para ver se passa" sem diagnóstico e reavaliação garantida; antibiótico empírico para "dor de barriga"; laxativos estimulantes ou enemas quando há suspeita de obstrução ou apendicite.
- Tratar a causa identificada (constipação, infecção urinária, faringoamigdalite, pneumonia).
- Não prescrever alta sem reavaliação: dor abdominal sem diagnóstico definido deve ser reexaminada em até 24 h (antes, se piorar). A apendicite em fase inicial pode ter exame e exames laboratoriais normais.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Sinais peritoneais: defesa, descompressão dolorosa, dor à percussão, à tosse ou ao pular; criança que evita se mexer.
- PAS ≥ 8, Alvarado ≥ 7, ou PAS intermediário sem possibilidade de ultrassonografia e reavaliação no mesmo dia.
- Vômitos biliosos em qualquer idade, sobretudo no lactente (volvo).
- Distensão abdominal com parada de eliminação de gases e fezes; vômitos fecaloides.
- Suspeita de invaginação: cólica intermitente com letargia, massa, sangue nas fezes.
- Dor escrotal ou testicular súbita (torção de testículo: janela de viabilidade de poucas horas); dor pélvica súbita em menina (torção de ovário).
- Hérnia inguinal dolorosa e irredutível.
- Sangramento digestivo, palidez, icterícia, massa abdominal.
- Toxemia, desidratação moderada a grave, sinais de choque.
- Suspeita de cetoacidose diabética, síndrome hemolítico-urêmica ou pancreatite.
- Vasculite por IgA com dor moderada a intensa ou sangramento digestivo.
Como encaminhar
- Jejum (não oferecer alimento nem líquidos por boca se houver suspeita cirúrgica).
- Analgesia antes da saída — não retardar por medo de mascarar o diagnóstico.
- Acesso venoso e expansão com soro fisiológico 20 mL/kg se houver sinais de choque ou desidratação importante, quando disponível.
- Oxigênio se houver desconforto respiratório ou choque; posição de conforto (lateral se vômitos com rebaixamento de consciência).
- Na suspeita de torção de testículo, contato imediato com serviço que tenha cirurgia pediátrica ou urologia disponível.
- Contatar o serviço de destino; acionar o SAMU (192) se houver choque, rebaixamento de consciência ou suspeita de volvo.
- Relatório com horário de início da dor, evolução, escore calculado, exames, medicamentos e doses.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "A maior parte das dores de barriga melhora sozinha em 1 a 2 dias. Mas a apendicite no começo pode parecer uma dor comum; por isso, se a dor não melhorar, a criança precisa ser reexaminada."
- "Volte amanhã para reavaliação (ou no horário combinado), mesmo que tenha melhorado parcialmente."
- "Pode dar o analgésico prescrito; ele não esconde a apendicite."
- Ir ao pronto-socorro se:
- A dor ficar mais forte, constante ou se fixar do lado direito, na parte de baixo da barriga.
- A criança não quiser andar, pular ou se mexer por causa da dor.
- Vômito verde, com sangue ou que não para; barriga inchada e dura.
- Fezes com sangue ou com aspecto de geleia; crises de choro com palidez e moleza.
- Dor ou inchaço no saco escrotal ou na virilha.
- Febre alta com prostração, sonolência, respiração rápida ou muito funda.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Estratificação da apendicite | Sem escore oficial; protocolos brasileiros usam PAS, Alvarado ou AIR | Sem diretriz clínica específica | Sem diretriz NG específica para apendicite | Segue o NICE | PAS: 1–3 baixo; 4–7 ultrassonografia; 8–10 cirurgião |
| Imagem | Ultrassonografia inicial (protocolos brasileiros) | Ultrassonografia antes de tomografia (Seção de Cirurgia, Choosing Wisely) | — | Segue o NICE | Ultrassonografia é a técnica de escolha; Doppler nas torções |
| Analgesia | Analgesia conforme idade e escala de dor | — | — | Segue o NICE | "A analgesia não enmascara o diagnóstico"; opioide se necessário |
| Vasculite por IgA | Dor em 50–62%; invaginação em 1–3,5%; ultrassonografia (SBP) | — | — | Segue o NICE | Causa extra-abdominal a lembrar |
| Encaminhamento | Sinais peritoneais, vômitos biliosos, distensão, sangue nas fezes, massa | — | — | Segue o NICE | Dor localizada, fixa, > 6 h e progressiva exige cirurgião |
Leitura: as referências convergem em três pontos — o diagnóstico da apendicite é clínico e evolutivo (escores ajudam, mas o reexame seriado é decisivo), a ultrassonografia é o primeiro exame de imagem e a tomografia fica para casos duvidosos, e a analgesia deve ser oferecida sem receio de mascarar o quadro. Não há diretriz NICE específica sobre dor abdominal aguda ou apendicite na criança. A SBP não tem documento único sobre o tema; aborda as causas em documentos específicos (como a vasculite por IgA). A AEP (protocolo da SEUP) é a mais operacional, com pontos de corte do PAS vinculados a condutas.
- Examine sempre o escroto, as regiões inguinais, a orofaringe e os pulmões na criança com dor abdominal.
- Vômito bilioso no lactente é volvo até prova em contrário — pronto-socorro imediato.
- Lactente com crises de choro, palidez e letargia: pense em invaginação antes de aparecer sangue nas fezes.
- Dê analgesia; ela não mascara a apendicite e facilita o exame.
- Glicemia capilar na dor abdominal com vômitos e taquipneia: cetoacidose diabética simula abdome agudo.
- Dor sem diagnóstico definido exige reavaliação garantida em até 24 h; escores e exames normais no início não excluem apendicite.
8.Fontes
- Alonso Cadenas JA, de la Torre Espí M. Diagnóstico y tratamiento del dolor abdominal agudo (abdomen agudo) en Urgencias. Protocolos diagnósticos y terapéuticos en Urgencias de Pediatría, SEUP/AEP, 2020. PDF
- American Academy of Pediatrics, Section on Surgery. Choosing Wisely — Avoid CT as first-line imaging in suspected appendicitis in children (AAFP). aafp.org
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein), Documento Científico. PDF
- Hospital Israelita Albert Einstein. Guia do episódio de cuidado — Dor abdominal aguda em crianças e adolescentes, 2025. PDF
- Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed., 2021 (obra de referência).