Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
Enurese é a perda intermitente de urina durante o sono em criança com 5 anos ou mais (ICCS; SBP). É monossintomática quando não há sintomas do trato urinário inferior durante o dia e não monossintomática quando há urgência, incontinência diurna, polaciúria, jato fraco ou esforço miccional. É primária se a criança nunca teve 6 meses seguidos seco e secundária se volta a molhar após 6 meses seco. A maioria dos casos é monossintomática primária, benigna, com resolução espontânea de cerca de 15% ao ano; é tratada em casa (🟢). O tratamento ativo começa aos 5–6 anos, quando incomoda a criança ou a família. As duas opções de primeira linha são o alarme (efeito mais duradouro) e a desmopressina (efeito rápido, recaída frequente, exige restrição hídrica noturna pelo risco de hiponatremia). Antes de tratar, investigar e tratar constipação e ronco/apneia. Sintomas diurnos, enurese secundária, infecção urinária de repetição e sinais neurológicos pedem investigação e, muitas vezes, encaminhamento (🟡). Poliúria com polidipsia e perda de peso (diabetes) e sinais de hiponatremia em uso de desmopressina levam ao pronto-socorro (🔴).
1.O que é e como se apresenta
- Definição (ICCS 2020; CPS 2023): incontinência intermitente durante o sono a partir dos 5 anos. A SBP (Departamento de Nefrologia) usa a mesma idade.
- Monossintomática (EMN): sem sintomas diurnos do trato urinário inferior.
- Não monossintomática (ENM): enurese associada a qualquer sintoma diurno — aumento ou diminuição da frequência miccional, urgência, incontinência diurna, manobras de contenção, jato fraco, esforço, sensação de esvaziamento incompleto, disúria sem infecção.
- Primária × secundária: secundária quando houve período seco maior que 6 meses. Na secundária, buscar causa orgânica (diabetes, infecção urinária, constipação) e fatores emocionais (separação dos pais, nascimento de irmão, bullying, maus-tratos).
- Mecanismos (SBP; ICCS): poliúria noturna (secreção noturna insuficiente de vasopressina), hiperatividade detrusora/capacidade vesical reduzida e dificuldade de despertar; forte componente genético.
- Epidemiologia: cerca de 15% aos 5 anos e 5% aos 10 anos (CPS); 1–3% no fim da adolescência (AAP). Mais comum em meninos.
- Comorbidades frequentes: constipação (tratá-la isoladamente resolve parte dos casos), TDAH, atraso do desenvolvimento, apneia obstrutiva do sono.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Enurese monossintomática primária, ≥ 5 anos, sem sintomas diurnos, exame físico normal (coluna, abdome, genitais, PA, crescimento), sem constipação ou já tratada | Orientação, diário miccional, medidas comportamentais; alarme ou desmopressina a partir de 5–6 anos se houver incômodo; retorno em 2–4 semanas após iniciar tratamento |
| 🟡 Moderada | Enurese não monossintomática; enurese secundária; infecção urinária de repetição; constipação importante; ronco com pausas respiratórias; falha de alarme e de desmopressina; sofrimento psicológico relevante | Exame de urina, tratar constipação, avaliar sono; encaminhar à nefrologia/urologia pediátrica, otorrinolaringologia ou saúde mental conforme o caso |
| 🔴 Grave | Poliúria e polidipsia com perda de peso, vômitos, desidratação ou respiração acidótica (suspeita de diabetes/cetoacidose); déficit neurológico novo nos membros inferiores, perda de controle esfincteriano ou dor lombar (lesão medular); cefaleia, vômitos, sonolência, confusão ou convulsão em uso de desmopressina (hiponatremia); hipertensão grave ou sinais de insuficiência renal | Pronto-socorro. Na suspeita de diabetes, glicemia capilar no consultório; não esperar exames ambulatoriais |
Fatores que elevam o risco de causa orgânica ou de má resposta
- Início recente (dias a semanas) ou enurese secundária.
- Sintomas diurnos, jato fraco, gotejamento contínuo (em menina, pensar em ureter ectópico).
- Déficit de crescimento, perda de peso, hipertensão (RCH).
- Estigmas lombossacros (fosseta, tufo de pelos, lipoma, assimetria da prega glútea), alteração da marcha ou dos reflexos.
- Ronco, pausas respiratórias, hipertrofia amigdaliana.
- Suspeita de maus-tratos ou abuso sexual, sobretudo na enurese secundária.
- Família desmotivada ou sem condições de usar o alarme; criança que não acorda com o alarme.
3.Diagnóstico no consultório
O diagnóstico é clínico.
- História dirigida: primária ou secundária; número de noites molhadas por semana e de episódios por noite; sintomas diurnos; ingestão hídrica (sobretudo à noite); hábito intestinal (escala de Bristol); ronco; comportamento, escola, desenvolvimento; história familiar; impacto emocional.
- Diário miccional e de ingestão (48 h diurnas e 2 semanas de noites, conforme ICCS): frequência, volume máximo urinado (capacidade vesical) e peso da fralda ao acordar (poliúria noturna). Ajuda a separar EMN de ENM e a escolher o tratamento.
- Exame físico: peso, estatura e pressão arterial; abdome (fecaloma, bexiga palpável); genitais (quando pertinente e com consentimento); coluna lombossacra; marcha, força e reflexos dos membros inferiores; amígdalas.
- Exame de urina: a ICCS/CPS dispensa na EMN primária típica. O NICE CG111 indica fita/urina quando a enurese começou nos últimos dias ou semanas, há sintomas diurnos, sinais de doença, suspeita de infecção urinária ou de diabetes. A AAP inclui urinálise na avaliação, especialmente na enurese secundária. Na prática, a fita urinária (glicose, densidade, nitrito, leucócitos) é barata e dirime dúvidas sobre diabetes e infecção.
- Imagem e outros exames: ultrassonografia de rins e vias urinárias com resíduo pós-miccional e urofluxometria apenas na ENM, na suspeita de uropatia ou antes de anticolinérgico (CPS). Ressonância da coluna se houver sinais neurológicos ou estigmas lombossacros.
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Diabetes mellitus tipo 1 (poliúria, polidipsia, perda de peso) e diabetes insípido.
- Infecção urinária; bexiga neurogênica (disrafismo oculto, medula presa).
- Ureter ectópico (menina que "está sempre molhada", dia e noite).
- Válvula de uretra posterior (menino com jato fraco, bexiga palpável).
- Doença renal crônica (poliúria por perda de concentração).
- Apneia obstrutiva do sono; epilepsia noturna.
- Abuso sexual e estresse psicossocial.
4.Tratamento em casa
Medidas gerais (para todos; NICE, ICCS, SBP)
- Explicar que não é culpa da criança; proibir punição.
- Ingestão hídrica adequada distribuída durante o dia; não restringir líquidos de forma rígida (NICE), mas evitar grande volume e bebidas cafeinadas ou açucaradas nas 1–2 horas antes de deitar.
- Urinar regularmente durante o dia e antes de dormir; acesso fácil ao banheiro à noite.
- Tratar a constipação primeiro (veja também, nesta Biblioteca: Constipação intestinal).
- Sistemas de recompensa por comportamentos combinados (beber água de dia, urinar antes de dormir, ajudar a trocar a roupa de cama), e não por noites secas (NICE).
- Não usar fralda de forma permanente em criança maior motivada; acordar a criança para urinar não trata a enurese a longo prazo.
Escolha do tratamento ativo (a partir de 5–6 anos, se houver incômodo)
- Alarme: primeira linha no NICE; indicado sobretudo com baixa capacidade vesical, família motivada e ao menos 2 noites molhadas por semana. Resposta inicial de 60–80% e cura permanente em até metade; abandono em cerca de 30% (CPS).
- Desmopressina: preferir na poliúria noturna com capacidade vesical normal, quando o alarme é inviável, falhou ou a família precisa de resultado rápido (viagem, acampamento). Cerca de 30% de resposta completa e 40% parcial; recaída de até 70% ao suspender (CPS).
- Combinação alarme + desmopressina: opção quando um deles isolado falha, especialmente na poliúria noturna que não responde ao alarme.
| Medicamento / método | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Alarme de enurese | — | Todas as noites | Reavaliar em 2 semanas; suspender se nada mudar em 6 semanas; curso típico de 12–16 semanas | Sucesso = 14 noites secas consecutivas (CPS/ICCS); a AEP mantém 2–3 meses após as 14 noites. Os pais precisam acordar a criança no início |
| Desmopressina comprimido | 0,2 mg; se resposta parcial, 0,4 mg | 1x/dia, 30–60 min antes de deitar | 4 semanas para avaliar resposta (NICE); se resposta, ciclos de 3 meses com pausa para reavaliar | Dose máxima citada pela CPS/AAFP 0,6 mg. 0,2 mg de comprimido equivale a 120 mcg de liofilizado |
| Desmopressina liofilizado oral (sublingual), onde disponível | 120 mcg; se resposta parcial, 240 mcg | 1x/dia, 30–60 min antes de deitar | Igual ao comprimido; a AEP suspende se não houver resposta em 2 semanas | Não depende de água para engolir. Não usar a forma nasal para enurese (risco maior de hiponatremia; RCH) |
| Retirada da desmopressina | Metade da dose por 2 semanas antes de parar (CPS) | — | — | A retirada gradual pode reduzir recaídas |
Regras obrigatórias com desmopressina
- Restrição hídrica: no máximo um gole ao escovar os dentes (ou até cerca de 200 mL) desde 1 hora antes da dose até 8 horas depois (NICE CG111; CPS; AEP).
- Hiponatremia (intoxicação hídrica): orientar toda família. Suspender a dose em noites de muita ingestão (festa, esporte noturno) e em doenças com vômitos, diarreia ou febre com necessidade de hidratação. Sinais: cefaleia, náuseas, vômitos, sonolência, confusão, convulsão.
- A CPS sugere eletrólitos a cada 3 meses no uso contínuo.
- Contraindicada se a criança não consegue cumprir a restrição hídrica (polidipsia habitual, psicogênica).
O que não usar no consultório
- Imipramina (tricíclico): risco cardíaco e de intoxicação fatal por superdosagem; apenas em casos excepcionais e sob especialista (ICCS/CPS; AAP alerta sobre o risco de overdose). O NICE não a recomenda como primeira linha.
- Anticolinérgico (oxibutinina) isolado: ineficaz na EMN; na ENM ou em associação, só após avaliar resíduo pós-miccional e, de preferência, com especialista (CPS).
- Desmopressina intranasal, restrição hídrica isolada como tratamento, punições.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Suspeita de diabetes com descompensação: poliúria, polidipsia, perda de peso, vômitos, dor abdominal, desidratação, respiração rápida e profunda ou sonolência. Fazer glicemia capilar e fita urinária (glicosúria, cetonúria) no consultório; se hiperglicemia com qualquer sinal de gravidade, encaminhar imediatamente.
- Hiponatremia em uso de desmopressina: cefaleia intensa, vômitos, confusão, sonolência, convulsão.
- Déficit neurológico agudo (fraqueza ou alteração de sensibilidade em membros inferiores, retenção urinária, perda do controle intestinal, dor lombar) — suspeita de compressão medular.
- Retenção urinária ou bexiga palpável dolorosa.
- Pielonefrite com toxemia, vômitos ou desidratação.
- Hipertensão grave ou sinais de insuficiência renal.
Encaminhamento ambulatorial (não urgente): nefrologia ou urologia pediátrica na ENM com sintomas intensos ou atípicos, infecção urinária de repetição, suspeita de uropatia ou bexiga neurogênica; especialista em enurese quando falham alarme e desmopressina (NICE; CPS); otorrinolaringologia se ronco com apneia; saúde mental/psicologia se TDAH, sofrimento importante ou suspeita de maus-tratos.
Como encaminhar (urgência)
- Na suspeita de cetoacidose, não oferecer grande volume de líquido por via oral nem insulina no consultório; manter a criança em repouso, monitorar consciência e acionar o SAMU (192) se houver rebaixamento.
- Na convulsão por hiponatremia: posição lateral de segurança, oxigênio se disponível, suspender a desmopressina e não oferecer água; transporte com SAMU.
- Relatório com glicemia capilar, fita urinária, medicamentos e doses (especialmente desmopressina e horário da última dose).
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "Fazer xixi na cama nessa idade é comum e não é preguiça nem birra. Muitas crianças melhoram sozinhas; o tratamento acelera esse processo."
- "Anote as noites secas e molhadas e o que a criança bebe e urina durante o dia; traga o diário no retorno."
- Alarme: "Nas primeiras semanas vocês vão precisar acordá-la quando o alarme tocar. Voltem em 2 semanas; o resultado costuma aparecer entre 6 e 16 semanas."
- Desmopressina: "Dê 30 a 60 minutos antes de dormir. Depois da dose, só um gole de água até de manhã. Não dê o remédio em dias de vômito, diarreia, febre alta ou se ela tiver bebido muito."
- Retorno em 4 semanas para avaliar resposta à desmopressina e a cada 3 meses no uso prolongado.
- Voltar antes se aparecer: xixi de dia, dor ou ardência para urinar, febre, jato fraco, prisão de ventre, ronco com paradas respiratórias.
- Ir ao pronto-socorro se: muita sede e muito xixi com emagrecimento, vômitos ou respiração acelerada; dor de cabeça forte, vômitos, sonolência ou convulsão em uso de desmopressina; fraqueza nas pernas ou perda do controle do xixi e das fezes.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Definição e idade | Perda de urina no sono > 5 anos; tratar a partir de 6 anos se incomoda (SBP 2023) | Comum até 7 anos; avaliar enurese secundária | Não excluir menores de 7 anos do tratamento; < 5 anos, tranquilizar | Segue o NICE | Tratamento ativo em geral a partir de 6–7 anos |
| Exame de urina | Não especificado no texto para famílias | Urinálise na avaliação, sobretudo na secundária | Só se início recente, sintomas diurnos, doença, suspeita de ITU ou diabetes | Segue o NICE | Encaminhar se sintomas diurnos ou suspeita de uropatia |
| Primeira linha | Alarme ou desmopressina | Alarme ou desmopressina | Alarme; desmopressina se alarme inadequado ou efeito rápido | Segue o NICE | Alarme ou desmopressina liofilizada |
| Desmopressina | Sem dose no texto para famílias | Restrição hídrica após a dose | > 7 anos (considerar 5–7); avaliar em 4 semanas, ciclos de 3 meses; restrição de 1 h antes a 8 h depois | Segue o NICE | 120–240 mcg liofilizado; suspender se sem resposta em 2 semanas; 200 mL de 1 h antes a 8 h depois |
| Imipramina | — | Aprovada, mas com risco de superdosagem | Não como primeira linha; especialista | Segue o NICE | Uso restrito |
| Encaminhamento | Se persistir ou houver incontinência diurna | Urologia se refratário ou suspeita de anomalia | Se sem resposta a alarme e/ou desmopressina | Segue o NICE | Jato alterado, incontinência contínua, ENM, casos resistentes |
Leitura: há convergência na definição (5 anos, primária/secundária, mono/não monossintomática — ICCS), no alarme e na desmopressina como tratamentos de primeira linha, na restrição hídrica noturna com desmopressina e no tratamento prévio da constipação. O NICE é o mais explícito em preferir o alarme e em restringir o exame de urina a situações específicas; a AAP inclui a urinálise de forma mais liberal. A idade para iniciar tratamento ativo varia (5 anos na ICCS, 6 na SBP, 6–7 na AEP; o NICE insiste que idade isolada não exclui). Todas desaconselham tricíclicos como primeira escolha.
- Pergunte sempre por sintomas diurnos, hábito intestinal e ronco: eles mudam o diagnóstico (EMN × ENM) e o tratamento.
- Enurese secundária ou de início recente exige fita urinária com glicose e busca de causa orgânica e emocional.
- Poliúria e polidipsia com perda de peso é diabetes até prova em contrário: glicemia capilar no consultório.
- Alarme dá resultado mais duradouro; desmopressina dá resultado rápido, mas recai com frequência ao suspender.
- Desmopressina só com restrição hídrica de 1 h antes a 8 h depois da dose; suspender em dias de vômitos, diarreia ou febre. Nunca usar a forma nasal para enurese.
- Não prescrever imipramina no consultório; ENM e casos refratários vão para o especialista.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Nefrologia. Enurese (xixi na cama) — Pediatria para Famílias, 2023. sbp.com.br
- International Children's Continence Society. Nevéus T et al. Management and treatment of nocturnal enuresis — an updated standardization document. J Pediatr Urol, 2020 (consultado por meio da CPS 2023).
- Canadian Paediatric Society. Evaluation and management of enuresis in the general paediatric setting, 2023. PMC
- NICE. CG111 — Bedwetting in under 19s, 2010 (versão do NCBI Bookshelf). NCBI
- American Academy of Pediatrics. Bedwetting in children and teens (HealthyChildren.org), 2026. healthychildren.org
- American Academy of Family Physicians. Enuresis in children — common questions and answers, 2022. aafp.org
- Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guideline — Enuresis. rch.org.au
- AEP. Protocolos de Nefrología — Enuresis nocturna (Fernández Fernández, Cabrera Sevilla), 2014. PDF