Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
Escabiose: prurido intenso, pior à noite, com pápulas e túneis em interdígitos, punhos, axilas, cintura, genitais e, no lactente, também palmas, plantas, face e couro cabeludo; contactantes com prurido reforçam o diagnóstico. Primeira escolha: permetrina 5% a partir de 2 meses, no corpo todo (incluindo couro cabeludo e face na criança pequena, poupando olhos e boca), por 8–14 h, repetindo em 7 dias. Ivermectina oral 200 mcg/kg (≥ 15 kg), repetida em 7–14 dias, é alternativa. Abaixo de 2 meses: enxofre precipitado 5–10% por 3 noites. Todos os contactantes próximos são tratados ao mesmo tempo, mesmo sem sintomas; roupas e roupas de cama lavadas em água quente. O prurido pode persistir 2–4 semanas sem indicar falha. A maioria é 🟢. Sarna crostosa, infecção secundária extensa com febre ou celulite e lactente pequeno com doença extensa exigem especialista ou hospital (🔴). Pediculose: diagnóstico com piolho vivo; remoção mecânica com pente fino é essencial; permetrina 1%, dimeticona 4% ou ivermectina (loção ou oral) conforme idade e resposta. Nenhuma criança saudável deve ser afastada da escola por piolhos ou lêndeas (AAP 2022, SBP).
1.O que é e como se apresenta
Escabiose (sarna)
- Agente: ácaro Sarcoptes scabiei var. hominis, que escava túneis na epiderme. Transmissão por contato pele a pele prolongado, sobretudo no domicílio; roupas e roupas de cama têm papel menor.
- Quadro clássico: prurido intenso e noturno que começa 3–6 semanas após a primeira infestação (1–3 dias na reinfestação); pápulas, vesículas, escoriações e túneis em espaços interdigitais, punhos, cotovelos, axilas, cintura, nádegas, aréolas e genitais.
- Lactente: acometimento de palmas, plantas, couro cabeludo e face, com vesículas e pústulas; irritabilidade e recusa alimentar.
- Escabiose nodular: nódulos eritematoacastanhados, pruriginosos, em axilas, virilhas e genitais, que podem persistir por semanas a meses após a cura (reação de hipersensibilidade, não falha terapêutica).
- Sarna crostosa (norueguesa): hiperinfestação com placas hiperceratósicas e crostosas, pouco prurido, em imunodeprimidos, crianças com deficiência neurológica ou desnutrição; altamente contagiosa.
- Complicações: impetiginização (estreptococo e estafilococo), celulite e, raramente, glomerulonefrite pós-estreptocócica.
Pediculose do couro cabeludo
- Agente: Pediculus humanus capitis; transmissão por contato direto cabeça a cabeça, mais comum em pré-escolares e escolares.
- Quadro: prurido do couro cabeludo e da nuca, escoriações, adenomegalia occipital ou cervical; muitas crianças são assintomáticas.
- Lêndeas (ovos) aderidas à haste do cabelo, próximas ao couro cabeludo; lêndeas a mais de 1 cm do couro cabeludo geralmente estão vazias.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Escabiose clássica ou pediculose sem infecção secundária, criança em bom estado | Tratamento tópico ou oral em casa; tratar contactantes; medidas com roupas; retorno em 2–4 semanas se persistir |
| 🟡 Moderada | Escabiose com impetiginização localizada; lesões extensas com sono prejudicado; lactente < 2 meses em bom estado; escabiose nodular; falha de 2 tratamentos corretos; pediculose com escoriações infectadas | Tratar a infecção (antibiótico tópico ou oral) junto com o escabicida; reavaliar em 1–2 semanas; confirmar técnica e tratamento dos contactantes; considerar ivermectina |
| 🔴 Grave | Sarna crostosa; infecção secundária extensa com febre, celulite ou toxemia; lactente pequeno com doença extensa e recusa alimentar; edema, hematúria ou hipertensão após escabiose infectada (glomerulonefrite); imunodeprimido com doença extensa | Encaminhar ao hospital ou especialista: tratamento combinado (ivermectina + permetrina), antibiótico sistêmico, isolamento de contato |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 2 meses (poucas opções terapêuticas seguras).
- Imunodepressão, desnutrição, deficiência neurológica (sarna crostosa).
- Aglomeração domiciliar, instituições (abrigos, creches) e dificuldade de tratar todos os contactantes.
- Dermatite atópica associada (maior risco de infecção secundária).
3.Diagnóstico no consultório
- Escabiose: diagnóstico clínico (distribuição típica, prurido noturno, contactantes com prurido). Dermatoscopia (sinal da "asa-delta") ou raspado com óleo e microscopia confirmam, quando disponíveis; um exame negativo não exclui.
- Pediculose: diagnóstico pela visualização de pelo menos um piolho vivo (AAFP); lêndeas isoladas não confirmam infestação ativa. O pentear com pente fino no cabelo molhado com condicionador aumenta a detecção.
- Exames: desnecessários. Urina tipo 1 e pressão arterial se houver edema ou urina escura após escabiose infectada.
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Dermatite atópica, prurigo estrófulo (picadas de inseto), dermatite de contato.
- Impetigo e varicela (vesículas, febre, lesões em diferentes estágios).
- Acropustulose infantil e histiocitose de células de Langerhans no lactente (lesões palmoplantares, couro cabeludo, lesões persistentes).
- Pediculose: dermatite seborreica, caspa, moldes de queratina (se deslocam facilmente pela haste).
4.Tratamento em casa
Escabiose
- Permetrina 5%: aplicar no corpo todo, do pescoço para baixo, incluindo interdígitos, sob as unhas, axilas, umbigo e genitais; na criança pequena, incluir couro cabeludo e face, poupando olhos e boca (SBP). Deixar por 8–14 h (à noite) e lavar pela manhã. Repetir em 7 dias (SBP, NHS; AEPap: 7–10 dias). Cortar as unhas antes.
- Ivermectina oral: alternativa ou complemento, útil em surtos, má adesão ao tópico ou falha. Menos eficaz que a permetrina em dose única (SBP).
- Menores de 2 meses: enxofre precipitado 5–10% em vaselina ou creme, 3 noites seguidas, com banho pela manhã, repetindo em 7 dias (SBP); AEPap cita 6–10%. Não usar permetrina 5% abaixo de 2 meses (fora da aprovação).
- Contactantes: tratar todos os contactantes íntimos ao mesmo tempo, mesmo sem lesões (SBP, NHS).
- Ambiente: lavar roupas, toalhas e roupas de cama usadas nos últimos 3 dias em água quente (> 50 °C) e secar em calor, passar a ferro quente, ou guardar em saco plástico fechado por 7 dias (SBP). Não é preciso dedetizar a casa.
- Prurido: anti-histamínico oral de 2ª geração conforme idade e bula (os sedativos de 1ª geração não devem ser usados, exceto por problema social — prurido noturno que impede o sono da família —, por curto período e fora da faixa de contraindicação), emoliente e, após o escabicida, corticoide tópico de baixa potência em áreas eczematizadas. Explicar que o prurido pode durar 2–4 semanas após a cura (NHS).
- Infecção secundária: tratar junto (ver Impetigo, celulite e abscessos).
- Critério de cura: 1 semana após o tratamento, sem lesões novas e com prurido noturno mínimo (SBP).
Pediculose
- Remoção mecânica: "mais importante que qualquer medicação" (SBP). Nenhum tratamento tem eficácia de 100% e a resistência aos piretroides aumentou; a eficácia clínica caiu, em alguns locais, de quase 100% para até 25% (AAP 2022).
- Pente fino com cabelo molhado e condicionador (wet combing): nos dias 1, 5, 9 e 13 (NHS), 10–30 minutos por sessão. Opção sem medicamento, útil em lactentes.
- Permetrina 1% loção: no cabelo limpo e úmido, deixar 10 minutos, pentear e enxaguar; reaplicar em 7–14 dias se necessário (AAFP: 7 dias; SBP: 14 dias).
- Dimeticona 4%: ação física (não inseticida), sem resistência descrita; alternativa quando a permetrina falha (AAFP).
- Ivermectina 0,5% loção: aprovada nos EUA a partir de 6 meses, em aplicação única (AAP 2022); verificar disponibilidade.
- Ivermectina oral: 200 mcg/kg em 2 doses com intervalo de 7–14 dias; 400 mcg/kg em casos resistentes (AAP 2022; SBP); apenas acima de 15 kg.
- Contactantes: examinar todos os moradores; tratar os que têm piolho vivo e os que dividem a cama (AAP 2022).
- Objetos: lavar em água quente roupas de cama, bonés, toalhas, pentes e escovas de uso recente; itens não laváveis ficam 2 semanas sem uso (SBP).
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Permetrina 5% (loção ou creme) | Corpo todo; face e couro cabeludo na criança pequena | Dose única, deixar 8–14 h | Repetir em 7 dias | Escabiose; a partir de 2 meses |
| Enxofre precipitado 5–10% | Corpo todo | 1 vez à noite, 3 noites seguidas | Repetir em 7 dias | Escabiose em < 2 meses (SBP) |
| Ivermectina oral | 200 mcg/kg (0,2 mg/kg) | Dose única, com alimento | Repetir em 7 dias (SBP) ou 7–14 dias (CDC, AEPap) | ≥ 15 kg; escabiose e pediculose; 400 mcg/kg na pediculose resistente (AAP) |
| Permetrina 1% loção | Cabelo úmido, 10 min | Dose única | Reaplicar em 7–14 dias se piolhos vivos | Pediculose; a partir de 2 meses (SBP, AAP) |
| Dimeticona 4% | Cabelo seco, conforme produto | Conforme bula | Conforme bula; repetir se piolhos vivos | Pediculose; sem resistência por ação física |
| Ivermectina 0,5% loção | Cabelo seco, 10 min | Dose única | — | Pediculose; ≥ 6 meses (FDA/AAP), quando disponível |
- Não usar: lindano (toxicidade neurológica); querosene, inseticidas domésticos ou produtos veterinários; escabicida repetido muitas vezes por conta do prurido residual (irrita a pele); raspar a cabeça como rotina; produtos "preventivos" para piolho (NHS).
- Sarna crostosa não é de manejo ambulatorial isolado: exige esquema combinado de permetrina 5% em noites consecutivas e ivermectina nos dias 1, 2 e 8 (podendo estender para 9 e 15, ou 9, 15, 22 e 29), segundo a SBP (o CDC também indica o esquema combinado), com especialista.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Sarna crostosa, sobretudo em imunodeprimido ou institucionalizado (tratamento combinado, isolamento e investigação da imunodepressão).
- Infecção secundária extensa com febre, celulite, linfangite ou toxemia.
- Lactente pequeno com doença extensa, recusa alimentar ou desidratação.
- Edema, urina escura, oligúria ou hipertensão nas semanas após escabiose infectada (glomerulonefrite pós-estreptocócica).
- Surtos em instituições (creches, abrigos): acionar a vigilância local para tratamento coordenado.
Como encaminhar
- Iniciar o antibiótico se houver infecção com sinais sistêmicos e o transporte for demorado, após contato com o serviço.
- Antitérmico e hidratação oral.
- Informar o serviço sobre suspeita de sarna crostosa (precaução de contato).
- Relatório com tratamentos já feitos (produto, técnica, datas) e situação dos contactantes.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "Todos que moram na casa e têm contato próximo usam o remédio na mesma noite, mesmo sem coceira."
- "Passe o creme no corpo todo, inclusive entre os dedos, embaixo das unhas e nos genitais; na criança pequena, também no couro cabeludo e no rosto, sem pegar nos olhos e na boca."
- "A coceira pode continuar por 2 a 4 semanas; isso não quer dizer que o tratamento falhou. Não repita o remédio por conta própria."
- "Lave roupas e roupas de cama em água quente, ou guarde em saco plástico fechado por uma semana."
- Escola ou creche: na escabiose, a criança pode voltar após o primeiro tratamento (NHS: acima de 5 anos logo após iniciar, evitando contato próximo nas primeiras 24 h; menores de 5 anos 24 h após o primeiro tratamento; AEPap: no dia seguinte). Na pediculose, não há necessidade de afastamento.
- "Para piolho, o pente fino no cabelo molhado com condicionador é parte do tratamento. Repita conforme orientado e examine toda a família."
- Retornar se: lesões novas depois de 2 semanas; feridas com pus ou crostas amareladas; febre; inchaço no rosto ou nas pernas, urina escura ou pouca urina.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP / CDC | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Escabiose — primeira escolha | Permetrina 5%, 8–14 h, repetir em 7 dias; face e couro cabeludo na criança | CDC: permetrina 5% ≥ 2 meses, 8–14 h; 1 aplicação costuma bastar, 2 com 1 semana de intervalo se necessário | NHS: creme ou loção no corpo todo, repetir em 7 dias; < 2 anos avaliado pelo médico | Segue o NICE | AEPap: permetrina 5% > 2 meses, repetir em 7–10 dias |
| Ivermectina oral | 200 mcg/kg, repetir em 7 dias; não < 15 kg | CDC: 200 mcg/kg, 2 doses com 7–14 dias; segurança < 15 kg não estabelecida | Não detalhada nas páginas do NHS | Segue o NICE | 200 mcg/kg, repetir em 7–14 dias; evitar < 15 kg |
| < 2 meses | Enxofre 5–10%, 3 noites | Não aprovado permetrina < 2 meses | Encaminhar ao médico | Segue o NICE | Enxofre 6–10% ou crotamiton 10% |
| Contactantes | Todos, ao mesmo tempo | Contactantes próximos | Todos da casa, ao mesmo tempo | Segue o NICE | Todos, ao mesmo tempo |
| Pediculose — tratamento | Pente fino essencial; permetrina 1%, ivermectina, dimeticona | Permetrina 1% ≥ 2 meses, ivermectina 0,5% loção ≥ 6 meses, espinosade ≥ 6 meses, ivermectina oral > 15 kg (AAP 2022) | Pente fino molhado nos dias 1, 5, 9 e 13; loções se falhar | Segue o NICE | Não consultado |
| Escola | Desaconselha exclusão por piolhos | Nenhuma criança saudável deve ser afastada (AAP 2022) | Sem afastamento por piolhos | Segue o NICE | AEPap: retorno no dia seguinte ao tratamento da escabiose |
Leitura: há convergência quanto à permetrina 5% como primeira escolha na escabiose a partir de 2 meses, à ivermectina oral 200 mcg/kg acima de 15 kg, ao tratamento simultâneo dos contactantes e à orientação de que o prurido persiste semanas após a cura. As diferenças estão no número de aplicações (duas de rotina na SBP, no NHS e na AEPap; uma, com segunda se necessário, no CDC) e nas alternativas para menores de 2 meses. Na pediculose, todas destacam a remoção mecânica e a resistência crescente aos piretroides; a AAP 2022 e o NHS são os mais enfáticos contra o afastamento escolar e contra as políticas de "zero lêndeas", posição também adotada pela SBP.
- Escabiose se trata na família inteira, na mesma noite, com repetição em 7 dias.
- Na criança pequena, a permetrina 5% inclui couro cabeludo e face; abaixo de 2 meses, enxofre precipitado 5–10%.
- Ivermectina oral 200 mcg/kg só acima de 15 kg, com segunda dose em 7–14 dias.
- Prurido residual por 2–4 semanas é esperado; lesões novas após 2 semanas sugerem falha, reinfestação ou contactante não tratado.
- Sarna crostosa e escabiose infectada com febre ou celulite vão ao especialista ou ao hospital; lembrar da glomerulonefrite.
- Pediculose: confirmar piolho vivo, pente fino sempre, permetrina 1% ou dimeticona; não afastar da escola.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Dermatologia. Infecções cutâneas parasitárias — aspectos clínicos e atualização terapêutica, Documento Científico nº 4, 2019. PDF
- American Academy of Pediatrics (Nolt et al.). Head lice — clinical report. Pediatrics, 2022. PDF
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical care of scabies. cdc.gov
- American Family Physician. Lice and scabies — treatment update, 2019. aafp.org
- NHS. Scabies. nhs.uk
- NHS. Head lice and nits. nhs.uk
- Guía-ABE (Grupo de Patología Infecciosa da AEPap). Sarna, versão 1.1, 2021. guia-abe.es