Patologias do consultório · Crescimento, nutrição e endócrino

Ginecomastia e telarca precoce

Aumento mamário do recém-nascido, telarca precoce isolada da menina pequena e ginecomastia puberal — o que é fisiológico, o que investigar e quando encaminhar

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O aumento de tecido mamário na infância tem três cenários benignos e frequentes. (1) Hipertrofia mamária neonatal: efeito do estrogênio materno em 60–90% dos recém-nascidos de ambos os sexos (SEEP), às vezes com secreção ("leite de bruxa"); regride em semanas a meses; não se deve espremer. (2) Telarca precoce isolada: broto mamário uni ou bilateral em menina < 8 anos, sem pelos, sem aceleração do crescimento, mais comum nos primeiros 2 anos; em geral estabiliza ou regride, mas exige seguimento clínico (a SBP orienta reavaliação mensal a trimestral por pelo menos 6 meses) porque uma minoria evolui para puberdade precoce. (3) Ginecomastia puberal: tecido glandular subareolar, às vezes doloroso, em até 60% dos meninos na puberdade (SBP), com regressão espontânea na maioria em 1 a 3 anos. Tudo isso é tratado em casa, com orientação e retorno (🟢). Investigar e encaminhar (🟡) ginecomastia em menino pré-púbere, volumosa (≥ 5 cm), persistente, com testículos pequenos, massa testicular, uso de drogas ou anabolizantes, e telarca com progressão, aceleração do crescimento ou pelos. O 🔴 é raro: mastite ou abscesso mamário neonatal (hospital) e massa testicular ou sinais de tumor (avaliação urgente).

1.O que é e como se apresenta

Hipertrofia mamária neonatal

  • Definição: aumento mamário no recém-nascido de ambos os sexos pelo estrogênio materno, às vezes com secreção leitosa ("leite de bruxa"); nas meninas pode haver leucorreia e pequeno sangramento vaginal (crise genital).
  • Evolução: regride em semanas a poucos meses; em meninas pode persistir mais tempo ("minipuberdade"). A secreção mamilar do lactente não é motivo para suspender a amamentação (AAP).
  • Risco: espremer favorece a mastite neonatal (geralmente Staphylococcus aureus): mama vermelha, quente, endurecida, às vezes com flutuação e febre.

Telarca precoce isolada

  • Definição (SBP): surgimento isolado de mamas, uni ou bilateral, em menina antes dos 8 anos, sem outros sinais puberais (pelos pubianos ou axilares, aceleração do crescimento, odor, acne).
  • Idade: dois picos — antes dos 2 anos (mais frequente entre 6 e 24 meses, segundo a AEP) e após os 6 anos. A SBP alerta que entre 3 e 5 anos o risco de causa patológica é maior.
  • Evolução: benigna na maioria; estabiliza ou regride. A AEP descreve que um terço regride, metade permanece igual e cerca de 10% evolui para puberdade precoce verdadeira; a Sociedade Espanhola de Endocrinologia Pediátrica (SEEP) cita 14–18%. Não altera a estatura final nem a idade da menarca quando isolada (SBP).

Ginecomastia puberal

  • Definição: aumento do tecido glandular mamário no menino, por desequilíbrio transitório entre estrogênios e androgênios no início da puberdade. Diferente da lipomastia (pseudoginecomastia), acúmulo de gordura sem disco glandular, comum na obesidade.
  • Frequência e idade: até 60% dos adolescentes (SBP); a AAP cita cerca de metade. Surge no início a meio da puberdade (Tanner 2–4), geralmente entre 10 e 14 anos, uni ou bilateral, às vezes assimétrica.
  • Quadro: disco firme, móvel, sob a aréola, muitas vezes doloroso nos primeiros meses. A repercussão emocional (evitar piscina e vestiário) é o principal problema.
  • Evolução: regressão espontânea na maioria em 1 a 3 anos (AAP: 2–3 anos; SEEP: 90% em até 3 anos quando < 4 cm). Após 2 anos de evolução, a fibrose torna a regressão menos provável.
  • Ginecomastia pré-puberal (menino sem sinais de puberdade) é sempre anormal e deve ser investigada.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Hipertrofia mamária neonatal sem sinais inflamatórios; telarca isolada em menina < 2 anos (ou 6–8 anos) sem pelos, sem aceleração do crescimento, com estatura e curva normais; ginecomastia puberal < 4–5 cm, em Tanner 2–4, testículos compatíveis com a puberdade, sem medicamentos ou drogas implicados Orientação à família; não espremer; seguimento clínico com medida de estatura, velocidade de crescimento e estadiamento de Tanner (telarca: mensal a trimestral por ≥ 6 meses; ginecomastia: a cada 3–6 meses)
🟡 Moderada Telarca com progressão em 6 meses, aceleração do crescimento, pelos, corrimento, início entre 3 e 5 anos (SBP); ginecomastia pré-puberal, ≥ 5 cm (macroginecomastia), persistente > 2 anos ou após o fim da puberdade, progressão rápida, testículos pequenos ou assimétricos, uso de anabolizantes, drogas ou medicamentos, doença hepática, renal ou tireoidiana, sofrimento psicológico importante Exames dirigidos (ver Diagnóstico) e encaminhamento eletivo prioritário ao endocrinologista pediátrico ou hebiatra; cirurgião plástico se volumosa e persistente
🔴 Grave Mastite ou abscesso mamário neonatal (hiperemia, calor, endurecimento, flutuação, febre, recusa alimentar); massa testicular palpável; nódulo mamário duro, fixo, com retração de pele, adenomegalia axilar ou secreção sanguinolenta; sinais de virilização rápida ou massa abdominal Mastite neonatal: pronto-socorro/hospital para antibiótico parenteral e eventual drenagem. Massa testicular, abdominal ou nódulo suspeito: avaliação especializada urgente (urologia/oncologia/endocrinologia) com exames já iniciados

Fatores que elevam a preocupação

  • Obesidade (aromatização periférica de androgênios; confunde com lipomastia).
  • Exposição a estrogênios exógenos: cremes e medicamentos da família, produtos com óleo de lavanda ou de melaleuca (tea tree), fitoestrógenos em excesso (SBP e Pediatric Endocrine Society).
  • Medicamentos e drogas: anabolizantes e suplementos contaminados, maconha, anfetaminas, opioides, espironolactona, cetoconazol, antiulcerosos, antipsicóticos e metoclopramida.
  • Doença crônica: hepatopatia, doença renal crônica, hipertireoidismo, desnutrição com realimentação.
  • Testículos pequenos e firmes para o estadiamento puberal (síndrome de Klinefelter), criptorquidia, hipogonadismo.

3.Diagnóstico no consultório

É clínico na grande maioria. Anamnese e exame físico bastam na hipertrofia neonatal, na telarca típica do lactente e na ginecomastia puberal típica (SBP).

Roteiro de exame

  • Estatura, peso e velocidade de crescimento no gráfico (OMS); comparar com medidas anteriores. Na telarca, aceleração (mudança de canal em menos de 6 meses) sugere puberdade precoce (SBP).
  • Estadiamento de Tanner completo; pelos pubianos e axilares; acne, odor.
  • Mamas: paciente deitado, palpar em pinça (polegar e indicador) da periferia para o mamilo: disco firme subareolar = glândula; tecido mole difuso = lipomastia. Medir o diâmetro em centímetros.
  • Testículos (orquidômetro): ≥ 4 mL indica puberdade; pequenos e firmes para o estágio puberal sugerem Klinefelter; assimetria ou nódulo sugere tumor.
  • Tireoide, abdome (massa), pele (manchas café com leite — McCune-Albright).

Quando pedir exames

  • Telarca com sinais de progressão (SBP): radiografia de mão e punho para idade óssea (avanço ≥ 2 desvios-padrão é sinal de alerta), LH basal (em ensaio sensível, < 0,2 UI/L favorece telarca isolada; > 0,3 U/L sugere ativação do eixo), FSH, estradiol e ultrassonografia pélvica com examinador experiente; teste de estímulo com GnRH e ressonância de crânio ficam com o endocrinologista.
  • Ginecomastia atípica (pré-puberal, volumosa, rápida, persistente, testículos alterados): testosterona total, LH, FSH, estradiol, beta-hCG, prolactina, TSH e T4 livre, DHEA-S, função hepática e renal (SEEP; SBP orienta direcionar à causa suspeita); ultrassonografia testicular se massa, assimetria ou beta-hCG/estradiol elevados; cariótipo se suspeita de Klinefelter.
  • Ultrassonografia mamária: só em nódulo endurecido, excêntrico ou dúvida com lipomastia.

Diagnóstico diferencial que não pode passar

  • Puberdade precoce central ou periférica (telarca + aceleração do crescimento + idade óssea avançada; cistos ovarianos; McCune-Albright).
  • Tumores produtores de hormônios: testículo, suprarrenal, fígado (produtor de hCG).
  • Síndrome de Klinefelter (47,XXY): ginecomastia persistente, testículos pequenos, dificuldades escolares.
  • Uso de anabolizantes em adolescente atleta ou frequentador de academia (testículos pequenos por supressão, acne, labilidade).
  • Mastite, abscesso, cisto e, excepcionalmente, neoplasia mamária.

4.Tratamento em casa

A conduta é orientação e seguimento. Não há medicamento indicado na telarca isolada (SBP) nem na ginecomastia puberal típica.

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Paracetamol 10–15 mg/kg/dose 4–6 h (máx. 5 doses/dia) Só nos dias de dor mamária Máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia; ver alerta abaixo
Ibuprofeno 5–10 mg/kg/dose 6–8 h Só nos dias de dor A partir de 6 meses; evitar em desidratação, suspeita de dengue e varicela
Tamoxifeno Conforme o endocrinologista — — Uso fora de bula na ginecomastia puberal dolorosa ou persistente; prescrição apenas pelo especialista
Antibiótico na mastite neonatal Parenteral, no hospital — — Não tratar mastite neonatal em casa com antibiótico oral

Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.

  • Recém-nascido: não espremer nem massagear as mamas; higiene habitual; manter o aleitamento materno.
  • Telarca isolada: suspender cremes, cosméticos e medicamentos com estrogênio usados na casa ou pela cuidadora (SBP); não usar análogos de GnRH (não reduzem a mama isolada — SEEP).
  • Ginecomastia puberal: explicar que é frequente e passageira; suspender o agente suspeito (anabolizantes, maconha, produtos com lavanda ou melaleuca, suplementos de academia de procedência duvidosa); se houver obesidade, orientar alimentação e atividade física (reduz a lipomastia associada); camiseta de compressão pode ajudar no constrangimento (Pediatric Endocrine Society); acolher o sofrimento emocional e investigar bullying.
  • Cirurgia: ginecomastia volumosa e persistente, com fibrose, em geral após a estabilização puberal, com o cirurgião plástico.
  • Não usar: antibiótico "preventivo" na hipertrofia neonatal; hormônios, fitoterápicos ou "chás para secar a mama"; exames hormonais de rotina na ginecomastia puberal típica.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Recém-nascido ou lactente com mama vermelha, quente, endurecida ou com flutuação, com ou sem febre (febre = temperatura axilar ≥ 37,5 °C), recusa alimentar, irritabilidade ou prostração.
  • Qualquer lactente jovem febril (conduzir conforme "Como Conduzir uma Criança com Febre", em Urgências e Emergências).
  • Celulite extensa da parede torácica ou sinais de sepse.

Como encaminhar

  1. Não espremer nem puncionar a mama no consultório.
  2. Antitérmico se houver febre e desconforto (paracetamol 10–15 mg/kg/dose; no recém-nascido, a cada 6 h, máx. 60 mg/kg/dia — ver "Dor no recém-nascido"; dipirona não deve ser usada abaixo de 3 meses ou 5 kg).
  3. Contato com o serviço de destino; relatório com idade, peso, início, temperatura e achados; manter o aleitamento.

Encaminhamento especializado urgente (não necessariamente pronto-socorro): massa testicular, massa abdominal, nódulo mamário duro e fixo, virilização rápida, sinais de hipertensão intracraniana com puberdade precoce (cefaleia, vômitos, alteração visual) — neste último caso, pronto-socorro.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • Recém-nascido: "O inchaço das mamas vem dos hormônios da mãe e some sozinho. Não esprema. Procure o pronto-socorro se ficar vermelho, quente, duro, ou se o bebê tiver febre ou mamar mal."
  • Telarca: "O broto de mama isolado nessa idade costuma ser benigno. Vamos medir e reexaminar a cada 1 a 3 meses por pelo menos 6 meses. Antecipe o retorno se a mama crescer rápido, surgirem pelos, cheiro de suor, sangramento vaginal ou se ela espichar muito depressa."
  • Ginecomastia: "É comum na puberdade e costuma sumir em 1 a 3 anos. Não use anabolizantes, suplementos duvidosos nem maconha. Volte se crescer rápido, ficar duro, sair secreção, aparecer caroço no testículo ou se estiver atrapalhando a vida dele."
  • Retorno programado: telarca, mensal a trimestral por ≥ 6 meses (SBP); ginecomastia, a cada 3–6 meses com Tanner, volume testicular e diâmetro mamário anotados.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Hipertrofia neonatal Fisiológica (estrogênio materno) Fisiológica; secreção não contraindica aleitamento Sem diretriz NG específica Segue o NICE Fisiológica, 60–90% dos recém-nascidos (SEEP)
Telarca precoce < 8 anos, isolada; seguimento mensal a trimestral ≥ 6 meses; exames só se progressão (SBP 2023) Sem documento específico localizado Sem diretriz NG específica Segue o NICE 1/3 regride, 1/2 estável, ~10% evolui para puberdade precoce; revisões periódicas
Ginecomastia puberal — frequência Até 60% dos adolescentes Cerca de metade; regride em 2–3 anos Resumo de atenção primária (CKS), não acessado Segue o NICE 38–65% (SEEP); 90% regride em 3 anos
Investigar Unilateral, secreção, massa testicular, progressão rápida, dor intensa, sofrimento Persistente além de 2–3 anos ou uso de drogas: avaliar causa hormonal; Pediatric Endocrine Society: testículos que não crescem (Klinefelter) — Segue o NICE Pré-puberal (sempre), dura, assimétrica, hipogonadismo
Tratamento Observação; tamoxifeno e cirurgia em casos selecionados Observação; cirurgia se persistente — Segue o NICE Tamoxifeno em casos selecionados; cirurgia na macroginecomastia (SEEP)

Leitura: as referências convergem em que a hipertrofia mamária neonatal, a telarca isolada do lactente e a ginecomastia puberal são variantes benignas, de diagnóstico clínico e conduta expectante com seguimento de crescimento e estadiamento puberal. A telarca exige vigilância porque uma minoria (10–18%) evolui para puberdade precoce — a SBP é a mais explícita quanto ao intervalo de retorno. Na ginecomastia, o consenso é investigar a forma pré-puberal, volumosa, persistente ou com alteração testicular, e as diferenças estão nos limites de tamanho (a pediatria espanhola usa ≥ 5 cm para macroginecomastia) e no espaço dado ao tamoxifeno, que é uso fora de bula e fica com o especialista. O NICE não tem diretriz NG específica para esses temas.

Pontos práticos
  1. Palpe em pinça: disco glandular subareolar é ginecomastia; tecido mole difuso é lipomastia.
  2. Examine sempre os testículos do menino com ginecomastia: pequenos sugerem Klinefelter; nódulo exige ultrassonografia urgente.
  3. Ginecomastia em menino sem sinais de puberdade é sempre patológica.
  4. Telarca isolada pede régua e gráfico: aceleração do crescimento, pelos ou progressão em 6 meses indicam investigação de puberdade precoce.
  5. Pergunte ativamente por anabolizantes, suplementos, maconha e produtos com lavanda ou melaleuca.
  6. Mama vermelha e quente no recém-nascido é mastite: hospital, não antibiótico oral em casa.

Veja também, nesta Biblioteca: Puberdade precoce e puberdade atrasada (Crescimento, nutrição e endócrino), Consulta de puericultura — 12 anos (Puericultura) e Whey protein e creatina em crianças e adolescentes (Temas atualizados pela SBP).

8.Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Endocrinologia. Adrenarca precoce e telarca precoce (documento científico), 2023. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Endocrinologia (Lages L, Alves C). Ginecomastia da adolescência. PDF
  • American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org), Section on Plastic Surgery. Abnormal breast growth in boys and girls, 2015. healthychildren.org
  • Pediatric Endocrine Society. Pubertal gynecomastia (patient resource). pedsendo.org
  • AEP. Protocolos de Endocrinología — Pubertad precoz y variantes de la normalidad (Martínez-Aedo Ollero, Godoy Molina), 2019. PDF
  • Sociedad Española de Endocrinología Pediátrica. Consenso — Capítulo 10: Pubarquia precoz, telarquia aislada, ginecomastia. PDF
  • Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed., 2021 (obra de referência).