Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
O impetigo (não bolhoso ou bolhoso) é causado por Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes. Lesões localizadas são tratadas com antibiótico tópico (mupirocina, ácido fusídico ou retapamulina) por 5–7 dias; o NICE prefere peróxido de hidrogênio 1% creme como primeira opção no impetigo localizado. Impetigo extenso (SBP: > 2% da superfície corporal ou mais de um segmento), bolhoso ou com sintomas sistêmicos recebe antibiótico oral, de preferência cefalexina 25–50 mg/kg/dia (IDSA), por 5–7 dias. A celulite sem sinais sistêmicos em criança maior é tratada em casa com cefalexina por 5 dias (IDSA), com reavaliação em 48 h (🟡). O abscesso é tratado com drenagem; antibiótico é acrescentado se houver sinais sistêmicos, celulite extensa ou fatores de risco, com cobertura para estafilococo resistente adquirido na comunidade (sulfametoxazol-trimetoprima ou clindamicina). Encaminhar ao hospital (🔴): celulite periorbitária em lactente ou com qualquer sinal orbitário, celulite facial extensa, toxemia, lactente < 1–3 meses, falha do antibiótico oral, síndrome da pele escaldada estafilocócica e suspeita de fasciite necrosante (dor desproporcional, progressão rápida, bolhas hemorrágicas, crepitação).
Veja também, nesta Biblioteca: Dermatite atópica no consultório (infecção secundária e eczema herpético).
1.O que é e como se apresenta
- Impetigo não bolhoso: a forma mais comum (cerca de 70%). Vesícula ou pústula que se rompe e forma crosta melicérica, em face (perinasal, perioral) e membros; pode ocorrer sobre picadas, escoriações, escabiose ou dermatite atópica. S. aureus e S. pyogenes.
- Impetigo bolhoso: bolhas flácidas de conteúdo claro ou turvo que deixam erosões com colarete; toxina esfoliativa do S. aureus; mais comum no lactente, inclusive na área das fraldas.
- Ectima: forma ulcerada e mais profunda, com crosta aderente.
- Celulite e erisipela: área eritematosa, quente, edemaciada e dolorosa, de bordas mal definidas (celulite) ou elevadas e nítidas (erisipela, mais estreptocócica), com ou sem febre. Porta de entrada: trauma, picada, varicela, eczema.
- Celulite periorbitária (pré-septal): edema e eritema palpebral sem comprometimento do globo ocular; pode vir de lesão de pele ou de sinusite. Celulite orbitária (pós-septal): proptose, dor à movimentação ocular, oftalmoplegia, diminuição da acuidade visual, quemose — emergência.
- Abscesso e furúnculo: coleção purulenta flutuante; furúnculo centrado em folículo piloso. S. aureus, inclusive resistente à meticilina adquirido na comunidade (CA-MRSA), cuja prevalência varia por região.
- Síndrome da pele escaldada estafilocócica (SSSS): febre, irritabilidade, eritema doloroso que evolui para descolamento superficial (sinal de Nikolsky), com crostas periorificiais; principalmente em menores de 2 anos (SBP). Emergência pediátrica.
- Fasciite necrosante: infecção rara, de progressão rápida para necrose da fáscia; pode evoluir para sepse, choque e morte em até 40% dos casos (SBP). Risco após varicela.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Impetigo localizado, poucas lesões, sem febre; furúnculo pequeno; criança em bom estado | Tratamento tópico (impetigo) ou compressas mornas e drenagem espontânea (furúnculo); higiene; retorno se piorar |
| 🟡 Moderada | Impetigo extenso ou bolhoso; celulite limitada sem sinais sistêmicos em criança > 1 ano; celulite periorbitária pré-septal leve em criança maior, bom estado, olho normal; abscesso drenável | Antibiótico oral; drenagem do abscesso; demarcar bordas com caneta; reavaliação em 24–48 h |
| 🔴 Grave | Febre alta com toxemia, taquicardia, hipotensão ou má perfusão; celulite orbitária ou qualquer sinal ocular; celulite periorbitária em lactente; celulite facial extensa; lactente < 1–3 meses; imunodeprimido; progressão apesar de 48 h de antibiótico oral; SSSS; suspeita de fasciite necrosante, osteomielite ou artrite séptica | Pronto-socorro/hospital: antibiótico parenteral, avaliação cirúrgica ou oftalmológica, imagem |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 1 ano (NICE: < 1 mês exige orientação especializada) e recém-nascidos.
- Imunodepressão, diabetes, desnutrição, doença crônica de pele (dermatite atópica).
- Varicela recente ou em curso (risco de estreptococo invasivo e fasciite necrosante).
- Localização em face, órbita, mãos, períneo e genitais.
- Infecções recorrentes ou contato domiciliar com infecção por CA-MRSA.
3.Diagnóstico no consultório
- Clínico na grande maioria dos casos.
- Cultura de secreção: impetigo recorrente ou refratário, abscesso drenado (orienta o antibiótico e mostra a resistência local), surtos.
- Hemograma, PCR e hemocultura: apenas se sinais sistêmicos ou no hospital.
- Ultrassonografia: útil para diferenciar celulite de abscesso quando não há flutuação evidente.
- Tomografia de órbitas: no hospital, na suspeita de celulite orbitária.
- Demarcar a borda do eritema com caneta para acompanhar a evolução.
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Eczema herpético sobre dermatite atópica (vesículas agrupadas, erosões em "saca-bocado").
- Herpes simples, varicela infectada, queimadura (inclusive por maus-tratos), necrólise epidérmica tóxica (mucosas acometidas, uso de medicamento).
- Picadas de inseto com reação local exuberante (prurido, sem dor intensa, sem febre).
- Celulite orbitária, osteomielite e artrite séptica sob a celulite.
- Fasciite necrosante (dor desproporcional ao achado de pele).
4.Tratamento em casa
Impetigo localizado
- Limpeza com água e sabão e remoção delicada das crostas.
- NICE NG153: considerar peróxido de hidrogênio 1% creme, 2–3 vezes ao dia por 5 dias; se inadequado, antibiótico tópico de curta duração (ácido fusídico). Essa apresentação é pouco disponível no Brasil.
- SBP e IDSA: antibiótico tópico (mupirocina, ácido fusídico ou retapamulina).
Impetigo extenso, bolhoso ou com sintomas sistêmicos: antibiótico oral (NICE: 5 dias, até 7 conforme a evolução; IDSA: 7 dias).
Celulite sem sinais sistêmicos: antibiótico oral com cobertura para estreptococo e estafilococo sensível à meticilina; duração de 5 dias, prolongando se não houver melhora (IDSA); NICE 5–7 dias. Elevar o membro. Reavaliar em 48 h.
Celulite periorbitária pré-septal leve em criança maior, olho normal, bom estado e retorno garantido: o NICE recomenda amoxicilina-clavulanato por 7 dias com orientação especializada. Quando associada a sinusite ou infecção respiratória, o pneumococo é agente possível: usar amoxicilina-clavulanato com dose alta de amoxicilina (90 mg/kg/dia, formulação 14:1).
Abscesso e furúnculo
- Drenagem é o tratamento principal (IDSA; AEP: em imunocompetentes, muitas vezes suficiente sem antibiótico). Furúnculos pequenos: compressas mornas.
- Antibiótico após a drenagem se houver sinais de resposta inflamatória sistêmica (febre, taquicardia, taquipneia, leucocitose — IDSA), celulite extensa ao redor, abscessos múltiplos, imunodepressão, lactente ou falha da drenagem. Escolher droga ativa contra CA-MRSA: sulfametoxazol-trimetoprima ou clindamicina; duração de pelo menos 7 dias (SBP).
- Recorrência: descolonização com mupirocina nasal 2 vezes ao dia por 5 dias para o paciente e os contactantes (SBP), higiene das mãos, não compartilhar toalhas.
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Mupirocina 2% pomada | Aplicar nas lesões | 2–3 vezes ao dia | 5 dias (IDSA); 7–10 dias (SBP) | Impetigo localizado; evitar uso prolongado (resistência) |
| Ácido fusídico 2% creme | Aplicar nas lesões | 2–3 vezes ao dia | 5–7 dias | Opção tópica do NICE e da AEP |
| Retapamulina 1% pomada | Aplicar nas lesões | 2 vezes ao dia | 5 dias | Quando disponível |
| Cefalexina | 25–50 mg/kg/dia (IDSA) | 6/6 h ou 8/8 h | Impetigo 5–7 dias; celulite 5 dias, estender se necessário | Primeira escolha oral (SBP, IDSA); a bula permite dobrar (até 100 mg/kg/dia) em infecção mais grave; máx. 4 g/dia |
| Cefadroxila | 30 mg/kg/dia (AEP) | 12/12 h | Impetigo 5–7 dias; celulite 7–10 dias (AEP) | Posologia cômoda |
| Amoxicilina-clavulanato | Impetigo e celulite de origem cutânea: 25 mg/kg/dia de amoxicilina (IDSA) a 40 mg/kg/dia (AEP); celulite facial ou periorbitária com foco respiratório: 90 mg/kg/dia de amoxicilina (formulação 14:1) | 12/12 h ou 8/8 h, conforme formulação | 5–7 dias; 7 dias na periorbitária (NICE) | Na face com sinusite, não usar dose baixa (pneumococo) |
| Clindamicina | Impetigo 20 mg/kg/dia; celulite ou abscesso 25–30 mg/kg/dia (IDSA) | 8/8 h | 5–10 dias | Alergia a betalactâmico; CA-MRSA; sabor ruim da suspensão |
| Sulfametoxazol-trimetoprima | 8–12 mg/kg/dia de trimetoprima (IDSA) | 12/12 h | ≥ 7 dias após drenagem (SBP) | CA-MRSA; cobertura fraca para estreptococo — em celulite não purulenta, associar ou preferir betalactâmico |
| Claritromicina | Por peso (NICE: < 8 kg 7,5 mg/kg/dose; 8–11 kg 62,5 mg; 12–19 kg 125 mg; 20–29 kg 187,5 mg; 30–40 kg 250 mg) | 12/12 h | 5–7 dias | Alergia à penicilina; resistência crescente em S. aureus e S. pyogenes |
- Não usar: antibiótico tópico em lesões extensas; antibiótico sem drenagem em abscesso flutuante; corticoide tópico ou combinações de corticoide com antibiótico no impetigo; doxiciclina em menores de 8 anos (IDSA).
- Afastamento: manter a criança fora da creche ou escola até 24–48 h de tratamento ou até as lesões secarem, conforme a regra local.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Sinais de sepse ou toxemia: febre alta com prostração, taquicardia, hipotensão, tempo de enchimento capilar aumentado.
- Celulite orbitária ou qualquer sinal ocular (proptose, dor à movimentação ocular, oftalmoplegia, baixa visual); celulite periorbitária em lactente ou sem melhora em 24–48 h (NICE: encaminhar infecção próxima aos olhos ou ao nariz).
- Celulite facial extensa, de mãos com comprometimento funcional ou perineal.
- Lactente < 1–3 meses com celulite ou impetigo bolhoso extenso. A AEP cita lactentes, imunodeprimidos, envolvimento sistêmico e lesões > 5 cm como critérios de internação; o NICE pede orientação especializada abaixo de 1 mês.
- Progressão apesar de 48 h de antibiótico oral adequado ou incapacidade de ingerir o medicamento.
- SSSS: emergência (SBP): internação, oxacilina ou clindamicina IV, analgesia, hidratação e cuidados de pele.
- Suspeita de fasciite necrosante: dor intensa desproporcional, endurecimento lenhoso além do eritema, bolhas hemorrágicas, pele acinzentada, crepitação, anestesia local, progressão em horas, choque. Exige antibiótico IV de amplo espectro com clindamicina e desbridamento cirúrgico precoce (SBP, AEP).
- Suspeita de osteomielite ou artrite séptica sob a celulite.
- Abscesso extenso, profundo ou em local de risco (face central, mão, períneo) que exija drenagem sob sedação.
Como encaminhar
- Avaliar via aérea, respiração e circulação; oxigênio se SpO2 < 92% ou choque.
- Acesso venoso e expansão com cristaloide se má perfusão, se houver estrutura.
- Analgesia adequada (a dor da fasciite é intensa); antitérmico.
- Se houver demora no transporte e suspeita de sepse, considerar a primeira dose de antibiótico parenteral após contato com o serviço.
- Demarcar a borda da lesão e anotar o horário, para documentar a progressão.
- Contatar o serviço de destino (cirurgia pediátrica ou oftalmologia, conforme o caso); acionar o SAMU (192) se instabilidade.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "Lave as feridas com água e sabão, retire as crostas com delicadeza e aplique a pomada. Corte as unhas e lave as mãos com frequência."
- "Não compartilhe toalhas, roupas ou lâminas."
- "Com antibiótico, a vermelhidão deve parar de crescer em 48 horas. Se ultrapassar a marca de caneta, volte no mesmo dia."
- Retornar em 48 h em toda celulite e após a drenagem de abscesso.
- Ir ao pronto-socorro se: febre alta com a criança muito abatida; dor muito forte que piora rápido; manchas roxas, bolhas escuras ou pele acinzentada; inchaço do olho com olho "saltado", dor ao mexer o olho ou visão embaçada; pele que descola como queimadura; vômitos ou recusa do remédio.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP / IDSA | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Impetigo localizado | Mupirocina, ácido fusídico ou retapamulina tópicos, 5–10 dias | IDSA 2014 (referência nos EUA): mupirocina ou retapamulina, 5 dias | Peróxido de hidrogênio 1% por 5 dias; se inadequado, ácido fusídico | Segue o NICE | Mupirocina ou ácido fusídico, 5–7 dias |
| Impetigo extenso | Oral se > 2% da superfície ou > 1 segmento; cefalexina de escolha | Cefalexina 25–50 mg/kg/dia, 7 dias (IDSA) | Tópico ou oral; oral se bolhoso ou sistemicamente doente; flucloxacilina 5 (até 7) dias | Segue o NICE | Cefadroxila 30 mg/kg/dia, 5–7 dias |
| Celulite ambulatorial | Cefalexina ou amoxicilina-clavulanato | Cefalexina, 5 dias (IDSA) | Flucloxacilina 5–7 dias; face e periorbitária: amoxicilina-clavulanato 7 dias com orientação especializada | Segue o NICE | Cefadroxila ou amoxicilina-clavulanato, 7–10 dias |
| Abscesso | Drenagem; SMX-TMP ou clindamicina ≥ 7 dias | Drenagem; antibiótico se sinais sistêmicos (IDSA) | Encaminhar se não responde ou grave | Segue o NICE | Drenagem muitas vezes suficiente; clindamicina ou SMX-TMP se CA-MRSA |
| Internação | Celulite grave: cefazolina, oxacilina, ceftriaxona IV; SSSS e fasciite | Sinais sistêmicos, fasciite | < 1 mês (especialista); órbita, osteomielite, artrite séptica, fasciite, sepse; perto de olhos ou nariz | Segue o NICE | Lactentes, imunodeprimidos, sistêmico, > 5 cm |
Leitura: todas as referências tratam o impetigo localizado topicamente e reservam o antibiótico oral para doença extensa, bolhosa ou sistêmica; o NICE se diferencia ao propor o peróxido de hidrogênio para poupar antibióticos. O antibiótico oral preferido varia pela disponibilidade local — cefalexina (SBP, IDSA), cefadroxila (AEP), flucloxacilina (NICE) —, todos com cobertura antiestafilocócica e antiestreptocócica. Há convergência sobre a drenagem como base do tratamento do abscesso e sobre a cobertura de CA-MRSA com sulfametoxazol-trimetoprima ou clindamicina quando o antibiótico é necessário. O NICE é o mais explícito nos critérios de encaminhamento da celulite periorbitária e facial.
- Impetigo localizado: tratamento tópico por 5–7 dias; oral só se extenso, bolhoso ou com sintomas sistêmicos.
- Cefalexina 25–50 mg/kg/dia é a primeira escolha oral para impetigo extenso e celulite de pele.
- Abscesso flutuante se drena; antibiótico apenas se houver sinais sistêmicos ou fatores de risco, com cobertura para CA-MRSA.
- Demarcar a celulite com caneta e reavaliar em 48 h.
- Celulite periorbitária: examinar sempre o olho; qualquer sinal orbitário ou lactente vai ao hospital; com sinusite, amoxicilina-clavulanato com 90 mg/kg/dia de amoxicilina.
- Dor desproporcional, progressão em horas ou pele que descola: fasciite necrosante ou SSSS até prova em contrário.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos Científicos de Dermatologia e Infectologia. Infecções bacterianas superficiais cutâneas, 2022. PDF
- Infectious Diseases Society of America (Stevens et al.). Practice guidelines for the diagnosis and management of skin and soft tissue infections, 2014. academic.oup.com
- NICE. NG153 — Impetigo: antimicrobial prescribing, 2020 (resumo visual). PDF
- NICE. NG141 — Cellulitis and erysipelas: antimicrobial prescribing, 2019. nice.org.uk
- AEP. Protocolos de Infectología — Infecciones de piel y partes blandas (Marín Cruz, Carrasco Colom), 2023. PDF