Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
O crupe (laringotraqueíte ou laringotraqueobronquite viral) é causado principalmente pelos vírus parainfluenza e se manifesta por tosse ladrante, rouquidão e estridor inspiratório, geralmente à noite, após 1–2 dias de coriza e febre baixa. O diagnóstico é clínico; exames e radiografia não são necessários no quadro típico. A gravidade é definida pela presença de estridor em repouso, tiragem, agitação ou sonolência e SpO2, e pode ser graduada pelo escore de Westley. Toda criança com crupe, inclusive a leve, se beneficia de uma dose única de dexametasona oral: 0,15 mg/kg no crupe leve (SBP, AEP, RCH) e até 0,6 mg/kg nos quadros moderados a graves (máximo 10–12 mg, conforme a referência). O crupe leve é tratado em casa (🟢). Crupe moderado, com estridor em repouso, exige corticoide e observação; se houver necessidade de adrenalina inalatória, a criança deve ficar em observação por 2 a 4 horas antes da alta (🟡). Estridor em repouso persistente, hipoxemia, agitação, sonolência, cianose, sialorreia ou aspecto toxêmico indicam encaminhamento imediato ao pronto-socorro (🔴), sem manipular a orofaringe e mantendo a criança no colo.
1.O que é e como se apresenta
- Definição: inflamação viral da laringe e da traqueia subglótica, com edema que estreita a via aérea na região mais estreita da criança (subglote). Quando há acometimento de brônquios, fala-se em laringotraqueobronquite.
- Etiologia: parainfluenza tipos 1 a 3 (cerca de 75% dos casos), seguido de VSR, influenza A e B, adenovírus, metapneumovírus e SARS-CoV-2 (AEP). Causas bacterianas (como Mycoplasma pneumoniae) são raras.
- Faixa etária: 6 meses a 3 anos, com pico no segundo ano de vida (AEP). Pode ocorrer de 3 meses até a idade escolar. Menores de 6 meses com estridor exigem avaliação mais cuidadosa (malformação de via aérea, hemangioma subglótico).
- Quadro típico: pródromo de coriza e febre baixa por 12–48 h, seguido de tosse metálica ("de cachorro", ladrante), rouquidão e estridor inspiratório, pior à noite e com o choro. Os sintomas costumam durar 3 a 7 dias, com pico nas primeiras 24–48 h.
- Crupe espasmódico: episódios súbitos noturnos, sem pródromo febril, que melhoram em horas.
2.Classificação de gravidade
O escore de Westley (0 a 17 pontos) soma: nível de consciência (normal 0; desorientado 5), cianose (ausente 0; com agitação 4; em repouso 5), estridor (ausente 0; com agitação 1; em repouso 2), entrada de ar (normal 0; diminuída 1; muito diminuída 2) e retrações (ausentes 0; leves 1; moderadas 2; graves 3). Os pontos de corte variam entre referências: no modelo de Alberta, reproduzido pela AAFP, leve ≤ 2, moderado 3–7, grave 8–11 e insuficiência respiratória iminente ≥ 12; a AEPap usa leve ≤ 3, moderado 4–5 e grave ≥ 6. Na prática, a presença ou ausência de estridor em repouso e de tiragem e o estado de consciência orientam a conduta.
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Bom estado geral, ativa; tosse ladrante; estridor ausente em repouso (só com choro ou agitação); sem tiragem ou tiragem mínima; FR normal; SpO2 normal (Westley ≤ 2) | Dexametasona oral 0,15 mg/kg dose única; orientação e tratamento domiciliar; retorno se piora |
| 🟡 Moderada | Estridor em repouso intermitente; tiragem supraesternal ou subcostal; FR aumentada; criança alerta, com agitação intermitente; SpO2 normal (Westley 3–7) | Dexametasona oral 0,15–0,6 mg/kg; observar 2–4 h. Se houver desconforto importante, adrenalina inalatória e observação mínima de 2–4 h após a última dose (idealmente no PS). Alta só sem estridor em repouso |
| 🔴 Grave | Estridor persistente ou bifásico em repouso; tiragem acentuada; agitação crescente ou sonolência; palidez; hipoxemia (SpO2 < 92%); cianose; murmúrio vesicular diminuído; estridor que "diminui" com piora do esforço (fadiga) (Westley ≥ 8) | Encaminhar imediatamente ao PS/hospital; adrenalina inalatória e dexametasona antes do transporte se disponíveis; oxigênio; criança no colo, sem manipulação |
Critérios adaptados de RCH Melbourne (2024), AAFP (2018), AEPap (2018) e TREKK (2023). A SBP (2017) ressalta que hipoxemia no crupe indica terapia intensiva, pois é sinal tardio de obstrução grave.
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Idade < 6 meses.
- Estenose subglótica conhecida, intubação prévia, malformações de via aérea, síndrome de Down.
- Episódio anterior de crupe moderado a grave ou necessidade prévia de internação.
- Doença cardíaca, pulmonar crônica ou neuromuscular.
- Retorno ao serviço em menos de 24 h, dificuldade de acesso ou de retorno, cuidadores sem condições de vigilância noturna.
- Necessidade de mais de uma dose de adrenalina inalatória.
3.Diagnóstico no consultório
- Clínico. Tosse ladrante, rouquidão e estridor inspiratório em criança de 6 meses a 3 anos com pródromo viral fecham o diagnóstico.
- Exame: observar a criança no colo do cuidador, sem agitação; avaliar estridor em repouso, tiragem, cor, consciência, FR e SpO2. Não examinar a orofaringe com abaixador se houver suspeita de epiglotite ou sialorreia. Evitar procedimentos que causem choro (RCH).
- Exames complementares: não são necessários. Radiografia cervical (sinal da "torre de igreja") não é indicada rotineiramente; reservar para casos atípicos, em ambiente hospitalar. Teste viral apenas se mudar a conduta (influenza em grupo de risco).
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Epiglotite: início abrupto, febre alta, aspecto toxêmico, sialorreia, disfagia, voz abafada, ausência de tosse ladrante, posição em tripé. Rara após a vacina Hib, mas ainda possível (não vacinados, outros agentes). Emergência: não deitar, não examinar a garganta, transportar com oxigênio e equipe de via aérea.
- Traqueíte bacteriana: quadro de crupe que piora após melhora inicial, febre alta, aspecto toxêmico, secreção purulenta, má resposta à adrenalina. Principal agente Staphylococcus aureus; acomete sobretudo menores de 6 anos (SBP). Requer antibiótico parenteral e frequentemente via aérea artificial.
- Corpo estranho em via aérea ou esôfago: início súbito com engasgo, sem pródromo viral nem febre; estridor ou sibilo localizado.
- Abscesso retrofaríngeo ou periamigdaliano: febre, dor cervical, torcicolo, trismo, disfagia, sialorreia.
- Anafilaxia ou angioedema: exposição a alérgeno, urticária, edema de face, sintomas sistêmicos. Tratar com adrenalina intramuscular.
- Outros: trauma de via aérea, hemangioma subglótico (lactente pequeno), difteria em não vacinados.
4.Tratamento em casa
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Dexametasona oral | 0,15 mg/kg (leve); 0,15–0,6 mg/kg (moderado a grave) | Dose única | Única | SBP 2017 e TREKK 0,15–0,6 mg/kg; máximo 10 mg (AEPap) ou 12 mg (RCH, TREKK). Pode ser IM se vômitos |
| Prednisolona oral | 1 mg/kg (RCH, leve a moderado) | Dose única | Única | Alternativa quando não houver dexametasona |
| Budesonida inalatória | 2 mg nebulizada (AEPap) | Dose única | Única | Alternativa se não tolerar via oral; efeito semelhante, custo e tempo maiores |
| Paracetamol ou ibuprofeno | Paracetamol 10–15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia); ibuprofeno 5–10 mg/kg/dose | Paracetamol 4–6 h (máx. 5 doses/dia); ibuprofeno 6–8 h, conforme bula | Enquanto houver febre ou desconforto | Criança calma respira melhor |
Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.
Adrenalina inalatória (no consultório equipado ou no PS) para crupe moderado com desconforto importante ou grave: L-adrenalina 1:1.000 (1 mg/mL), 0,5 mL/kg, máximo 5 mL, sem diluir ou completando com soro fisiológico, nebulizada com oxigênio (AAFP, AEPap). O efeito começa em minutos e dura cerca de 2 horas; por isso a criança precisa ser observada por 2 a 4 horas após a dose (mínimo de 2 h pela AAFP e TREKK; 3 h pela RCH; 2–4 h pela AEPap). Pode ser repetida a cada 15–20 min em casos graves, já com encaminhamento em curso. Necessidade de segunda dose é critério de internação (AEPap).
O que não usar
- Antibióticos: o crupe é viral; só há indicação se houver suspeita de traqueíte bacteriana ou outra infecção bacteriana.
- Antitussígenos e descongestionantes: sem benefício e potencialmente danosos (RCH).
- Nebulização com soro fisiológico ou "vapor quente" (banheiro com chuveiro): sem benefício demonstrado e com risco de queimadura. Ar frio noturno pode aliviar subjetivamente, mas não substitui o corticoide.
- Beta-2 agonistas (salbutamol): sem papel no crupe, a menos que haja sibilância associada.
- Sedativos: contraindicados, pois mascaram a agitação da hipóxia.
Medidas de suporte
- Manter a criança calma e no colo; evitar choro e procedimentos desnecessários.
- Oferecer líquidos fracionados; antitérmico se febre.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Estridor em repouso que persiste após o corticoide ou retorna em até 2–4 h após adrenalina.
- Necessidade de mais de uma dose de adrenalina inalatória.
- Tiragem acentuada, esforço respiratório crescente ou fadiga.
- SpO2 < 92% em ar ambiente, cianose ou palidez.
- Agitação crescente, sonolência, confusão ou hipotonia.
- Sialorreia, disfagia, voz abafada, aspecto toxêmico, febre alta com piora rápida (suspeita de epiglotite ou traqueíte bacteriana).
- Idade < 6 meses, fatores de risco anatômicos ou doença de base.
- Condições sociais que impeçam vigilância ou retorno rápido, sobretudo à noite.
Como encaminhar
- Manter a criança no colo do cuidador, sentada, na posição que ela escolher. Não deitar e não examinar a orofaringe.
- Oferecer oxigênio umidificado sem forçar máscara (blow-by, com o cuidador segurando), se SpO2 < 92% ou desconforto.
- Se disponível e sem suspeita de epiglotite: adrenalina inalatória 0,5 mL/kg (máx. 5 mL) e dexametasona 0,6 mg/kg (VO ou IM, máximo 10–12 mg) antes do transporte.
- Não atrasar a transferência para colher exames ou fazer radiografia.
- Contatar o serviço de destino relatando SpO2, escore, medicações e horários; em caso de sinais de obstrução grave ou suspeita de epiglotite, transporte por SAMU (192) com equipe capaz de manejar via aérea.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "O crupe é causado por vírus. A tosse de cachorro e a rouquidão costumam melhorar em 3 a 5 dias e pioram à noite."
- "O remédio (corticoide) é dado uma única vez e começa a fazer efeito em poucas horas. Não precisa repetir."
- "Mantenha a criança calma; o choro piora a falta de ar. Ofereça líquidos."
- Retornar ao consultório se: a tosse ou a rouquidão não melhoram em 5–7 dias; febre por mais de 3 dias; quadros repetidos de crupe.
- Ir ao pronto-socorro imediatamente se: ruído respiratório (estridor) com a criança calma ou dormindo; afundamento das costelas ou do pescoço ao respirar; lábios roxos ou palidez; criança muito agitada ou muito sonolenta; baba, dificuldade para engolir ou não consegue falar; febre alta com aparência muito doente; piora depois de ter melhorado.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Classificação | Clínica; hipoxemia indica UTI (SBP 2017) | Sem diretriz própria; referência norte-americana (AAFP 2018) usa Westley: leve ≤ 2, moderado 3–7, grave 8–11, ≥ 12 falência iminente | CKS Croup (não foi possível acessar para confirmação) | Segue o NICE | Westley: leve ≤ 3, moderado 4–5, grave ≥ 6 (AEPap) |
| Dexametasona | 0,15 mg/kg (leve) a 0,6 mg/kg (grave), dose única, VO ou parenteral | AAFP: 0,6 mg/kg a mais usada; dose única em qualquer gravidade | Não confirmado | Segue o NICE | 0,15 mg/kg (leve); 0,6 mg/kg (moderado/grave); máximo 10 mg |
| Adrenalina inalatória | Efeito ultrarrápido; indicada em moderado/grave | L-adrenalina 1:1.000 0,5 mL/kg (máx. 5 mL) | Não confirmado | Segue o NICE | 0,5 mL/kg (máx. 5 mL), repetível a cada 15–20 min |
| Observação pós-adrenalina | Não especificada no material consultado | ≥ 2 h | Não confirmado | Segue o NICE | 2–4 h; 2ª dose indica internação |
| Exames | Não rotineiros | Não rotineiros; radiografia só se atípico | Não confirmado | Segue o NICE | Não rotineiros |
| Diferenciais | Traqueíte bacteriana (S. aureus) e epiglotite | Epiglotite, traqueíte, corpo estranho, abscessos | Não confirmado | Segue o NICE | Epiglotite, traqueíte, abscesso retrofaríngeo, corpo estranho, alergia |
Leitura: há forte convergência no essencial: diagnóstico clínico, corticoide em dose única para todas as gravidades, adrenalina inalatória apenas nos quadros moderados a graves e observação por pelo menos 2 horas depois dela, e nenhuma indicação de antibiótico. As divergências são de detalhe: a dose de dexametasona (0,15 mg/kg no leve para SBP, AEP e RCH; 0,6 mg/kg "para todos" como prática frequente nos EUA), a dose máxima (10 mg na AEPap, 12 mg na RCH e no TREKK) e os pontos de corte do escore de Westley, que diferem entre Alberta/AAFP e AEPap. A RCH Melbourne, referência internacional frequente, pede 3 h de observação após adrenalina. A AAP não tem diretriz específica de crupe. Não foi possível acessar o NICE CKS para confirmar suas doses; por isso a coluna não traz números.
- Dê dexametasona a toda criança com crupe, inclusive a leve; 0,15 mg/kg basta no leve, e a dose única dispensa receita para casa.
- O que define a conduta é o estridor em repouso: sem estridor em repouso, casa; com estridor em repouso, corticoide e observação; persistente ou com hipoxemia, PS.
- Após adrenalina inalatória, observar no mínimo 2 h (idealmente até 4 h) antes de liberar; o efeito passa, o edema pode voltar.
- Febre alta, aspecto toxêmico, sialorreia e ausência de tosse ladrante sugerem epiglotite ou traqueíte bacteriana: não examinar a garganta e transferir com oxigênio.
- SpO2 baixa no crupe é sinal tardio e grave; estridor que diminui com piora do esforço pode indicar fadiga.
- Crupe recorrente, em menores de 6 meses ou atípico merece avaliação de via aérea com otorrinolaringologista.
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Crupe viral e bacteriano (Documento Científico, 2017), resumo em Portal Afya. portal.afya.com.br
- Grupo de Vías Respiratorias da AEPap. El Pediatra de Atención Primaria y la laringitis aguda – Crup, 2018. PDF
- Arroba Basanta ML. Laringitis aguda (Crup). Anales de Pediatría, 2003. analesdepediatria.org
- Smith DK, McDermott AJ, Sullivan JF. Croup: Diagnosis and Management. American Family Physician, 2018. aafp.org
- The Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guideline — Croup (laryngotracheobronchitis), atualizado em 2024. rch.org.au
- TREKK (Translating Emergency Knowledge for Kids, Canadá). Bottom Line Recommendations — Croup, v4.0, 2023. PDF
- Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed. Oxford University Press, 2021 (obra de referência).