Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF
A mononucleose infecciosa (MI) é a infecção primária sintomática pelo vírus Epstein-Barr (EBV). Em lactentes e pré-escolares costuma ser leve ou inaparente; em adolescentes, a tríade febre, faringite exsudativa e linfonodomegalia cervical posterior, com fadiga e esplenomegalia, é típica. O diagnóstico é clínico, apoiado por hemograma (linfocitose com linfócitos atípicos) e por sorologia. O teste heterófilo (Monoteste, Paul-Bunnell) é pouco sensível abaixo de 4 anos e pode ser negativo na primeira semana; nesses casos, pedir sorologia específica (anti-VCA IgM e IgG, anti-EBNA). O tratamento é de suporte: hidratação, analgésico e antitérmico, repouso relativo. Antibiótico só se houver infecção bacteriana comprovada, e amoxicilina/ampicilina devem ser evitadas pelo exantema. Corticoide não é indicado na MI não complicada; fica reservado à obstrução de via aérea e a complicações graves. Esportes de contato e atividade física intensa ficam suspensos por pelo menos 3–4 semanas do início dos sintomas, pelo risco de ruptura esplênica. A maioria é 🟢/🟡. Estridor, sialorreia, incapacidade de deglutir, dor abdominal no hipocôndrio esquerdo, icterícia, sangramentos, palidez intensa ou toxemia exigem pronto-socorro (🔴).
1.O que é e como se apresenta
- Agente: vírus Epstein-Barr (herpesvírus humano 4), transmitido pela saliva. A excreção salivar pode durar meses (NHS).
- Faixa etária: a infecção na primeira infância é geralmente assintomática ou inespecífica; a forma clássica predomina entre 15 e 24 anos (AAFP 2023).
- Quadro clínico típico:
- febre, faringoamigdalite (exsudato em cerca de metade dos casos), petéquias no palato;
- linfonodomegalia cervical, sobretudo posterior, frequentemente bilateral e simétrica; pode ser generalizada;
- fadiga e mal-estar marcantes, que podem durar semanas;
- esplenomegalia (frequente, nem sempre palpável) e hepatomegalia;
- edema palpebral; exantema espontâneo em menos de 5% (AAFP 2023).
- Evolução: a maioria melhora em 2–4 semanas (NHS); a fadiga pode persistir por mais tempo.
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Febre, dor de garganta, linfonodomegalia, fadiga; deglute e se hidrata bem; sem dispneia; sem dor abdominal; sem icterícia ou sangramento | Suporte em casa; afastar de esportes de contato; retorno em 7–10 dias ou antes se piorar |
| 🟡 Moderada | Odinofagia importante com ingestão oral reduzida, mas ainda aceitando líquidos; hipertrofia amigdaliana acentuada sem sinais de obstrução; febre alta prolongada (> 7–10 dias); transaminases elevadas sem icterícia; plaquetopenia leve sem sangramento | Reavaliação em 24–48 h; hemograma e transaminases; considerar observação no PS se a hidratação oral for limítrofe |
| 🔴 Grave | Estridor, roncos com pausas, sialorreia, posição de tripé, incapacidade de deglutir saliva ou líquidos (obstrução de via aérea); desidratação; dor abdominal no hipocôndrio esquerdo ou dor referida no ombro esquerdo, palidez, taquicardia ou hipotensão (ruptura esplênica); icterícia ou sinais de insuficiência hepática; petéquias difusas, sangramento, palidez intensa (plaquetopenia grave, anemia hemolítica); febre persistente com citopenias e hepatoesplenomegalia (suspeita de síndrome hemofagocítica); sinais neurológicos; toxemia | Encaminhar ao pronto-socorro/hospital; na suspeita de ruptura esplênica ou obstrução de via aérea, acionar o SAMU (192) |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Crianças pequenas: a obstrução de via aérea por hipertrofia amigdaliana é mais comum nelas (Pediatría Integral; AAFP 2023).
- Imunodeficiência congênita ou adquirida, transplantados, uso de imunossupressores (risco de doença grave e linfoproliferação).
- Esplenomegalia volumosa; prática de esportes de contato ou colisão.
- Doença hepática ou hematológica prévia.
3.Diagnóstico no consultório
- Clínico, confirmado por laboratório quando muda a conduta. A linfonodomegalia cervical posterior tem o maior valor preditivo entre os achados clínicos (AAFP 2023).
- Hemograma: linfocitose (> 50% de linfócitos) com linfócitos atípicos > 10% reforça o diagnóstico; quanto maior a proporção de atípicos, maior a probabilidade (> 10%: RV+ 9; > 20%: RV+ 28; > 40%: RV+ 50 — AAFP 2023). Plaquetopenia leve em 25–50% (AEPap 2014). Blastos, citopenias em mais de uma linhagem ou anemia importante sugerem leucemia — não rotular como MI.
- Transaminases: elevadas em grande parte dos casos (AEPap cita 95%; AAFP, 58–100% em ambulatório); icterícia é rara.
- Teste heterófilo (Monoteste, Paul-Bunnell): sensibilidade de 87% e especificidade de 91% (AAFP 2023), com falsos negativos em até 25% na primeira semana (dado de adultos) e alta taxa de falso negativo em menores de 5 anos (AAFP 2023). Positividade por idade (AEPap 2014): < 2 anos, 10–30%; 2–4 anos, cerca de 50%; > 4 anos, 85–90%.
- Sorologia específica (preferir em < 4 anos, heterófilo negativo ou quadro atípico): o anti-VCA IgM surge cedo e desaparece em 4–6 semanas; o anti-VCA IgG persiste por toda a vida; o anti-EBNA surge 2–4 meses após o início e também persiste (CDC). Interpretação no quadro abaixo.
- Ultrassonografia de abdome: não é rotina; indicada se houver dor abdominal, esplenomegalia dolorosa ou suspeita de complicação.
- Teste para estreptococo: colher se houver dúvida clínica; a coinfecção existe, mas o exsudato amigdaliano da MI não indica antibiótico por si só. Veja também, nesta Biblioteca: Faringoamigdalite (viral × estreptocócica).
| Sorologia (padrão) | Interpretação (CDC) |
|---|---|
| Anti-VCA IgM positivo, anti-EBNA negativo | Infecção primária (aguda ou recente) |
| Anti-VCA IgG e anti-EBNA positivos, IgM negativo | Infecção passada |
| Anti-VCA negativo | Suscetível — considerar outro diagnóstico ou repetir se a coleta foi muito precoce |
Diagnóstico diferencial que não pode passar
- Leucemia e linfoma: linfonodomegalia generalizada, hepatoesplenomegalia, palidez, petéquias, dor óssea, citopenias. Veja também, nesta Biblioteca: Linfonodomegalias.
- Faringite estreptocócica, abscesso periamigdaliano ou retrofaríngeo, epiglotite.
- Síndrome "mononucleose-like" por citomegalovírus, toxoplasmose, HIV agudo, adenovírus (heterófilo negativo).
- Doença de Kawasaki (lactente e pré-escolar febril com linfonodo cervical, conjuntivite não exsudativa e alterações de mucosa).
4.Tratamento em casa
O tratamento é de suporte; não há antiviral indicado na MI não complicada (AAFP 2023).
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação |
|---|---|---|---|---|
| Paracetamol | 10–15 mg/kg/dose | 4–6 h (máx. 5 doses/dia) | Enquanto houver dor ou febre | Máx. 75 mg/kg/dia, nunca > 4 g/dia; sem exceder a dose se houver hepatite (AAFP 2023) |
| Ibuprofeno | 5–10 mg/kg/dose | 6–8 h, conforme bula | Enquanto houver dor ou febre | A partir de 6 meses; evitar se houver plaquetopenia ou sangramento |
| Prednisona ou prednisolona (somente complicações) | 1 mg/kg/dia (máx. 60 mg/dia) | 1x/dia | Curso curto, até 2 semanas, conforme a complicação | Via aérea, hemólise, plaquetopenia grave, acometimento neurológico ou miocárdico (fontes espanholas); em geral conduta hospitalar |
| Penicilina G benzatina (se estreptococo confirmado) | < 20 kg: 600.000 UI; ≥ 20 kg: 1.200.000 UI | IM, dose única | — | Evita a amoxicilina durante a MI. Alternativa: macrolídeo (Pediatría Integral) |
Paracetamol. Atenção ao efeito cumulativo: o uso repetido por 48–72 h, especialmente em doses no limite máximo, em criança desidratada, desnutrida, com jejum prolongado ou somando mais de um produto com paracetamol, aumenta o risco de hepatotoxicidade — não ultrapassar a dose diária, não usar por mais de 48–72 h sem reavaliação médica e conferir outros medicamentos que contenham paracetamol.
- Suporte: hidratação, alimentos frios e pastosos, repouso relativo (não absoluto), gargarejos com água e sal nos maiores (AAP).
- Corticoide — conduta adotada: somente para obstrução de via aérea e complicações. Não há evidência suficiente para corticoide na MI não complicada (AAFP 2023); a AAP o reserva para complicações como amígdalas que obstruem a via aérea. Sem diagnóstico firmado, pode mascarar leucemia ou linfoma.
- Não usar:
- amoxicilina ou ampicilina: provocam exantema maculopapular em grande proporção dos pacientes com MI (AAFP 2023 cita 90–100% com uso nos 10 dias anteriores; Pediatría Integral, 90% com ampicilina). O exantema não significa, necessariamente, alergia verdadeira — registrar o contexto antes de rotular a criança como alérgica;
- antibiótico "para o exsudato" sem estreptococo comprovado;
- aciclovir ou outros antivirais em imunocompetentes;
- ácido acetilsalicílico.
- Retorno ao esporte e à atividade física:
- suspender esportes de contato ou colisão, levantamento de peso e atividade física intensa por pelo menos 3 semanas do início dos sintomas (AAFP 2023; Pediatría Integral); o NHS Borders orienta 1 mês. 73,8% das rupturas ocorrem até o 21º dia e 90% até o 31º (AAFP 2023);
- conduta prática: liberar esportes de contato apenas após 3–4 semanas, com a criança afebril, bem clinicamente e sem esplenomegalia palpável; retorno gradual, começando por atividade leve sem contato (AAFP 2023);
- a palpação do baço é pouco sensível; o ultrassom não é exigido de rotina para liberar.
- Escola: não há período de afastamento obrigatório; a criança pode voltar quando se sentir bem (NHS). Orientar a não compartilhar copos, talheres e escovas e a evitar beijos durante a doença.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Obstrução de via aérea: estridor, roncos intensos com apneias, sialorreia, voz abafada com trismo, incapacidade de deglutir saliva, desconforto respiratório.
- Desidratação ou incapacidade de ingerir líquidos apesar da analgesia (NHS Borders).
- Suspeita de ruptura esplênica: dor abdominal súbita no hipocôndrio esquerdo, dor no ombro esquerdo (sinal de Kehr), palidez, taquicardia, hipotensão, síncope — mesmo sem trauma (80–86% das rupturas são espontâneas — AAFP 2023).
- Hepatite grave: icterícia, vômitos persistentes, alteração do estado mental, sangramentos (coagulopatia).
- Complicações hematológicas: petéquias difusas, sangramento mucoso, plaquetas < 20.000/mm³, palidez intensa com icterícia (anemia hemolítica), neutropenia grave.
- Suspeita de síndrome hemofagocítica (HLH): febre persistente, citopenias progressivas, hepatoesplenomegalia, piora do estado geral.
- Sinais neurológicos: convulsão, alteração de consciência, ataxia, paralisia facial, fraqueza ascendente (encefalite, Guillain-Barré — CDC).
- Dor torácica, arritmia ou sinais de insuficiência cardíaca (miocardite).
- Abscesso periamigdaliano (trismo, abaulamento do palato, desvio da úvula).
Como encaminhar
- Obstrução de via aérea: criança sentada, no colo do responsável; não usar abaixador de língua; oxigênio sem agitá-la; SAMU (192). O corticoide é iniciado no serviço de emergência.
- Suspeita de ruptura esplênica: decúbito dorsal, jejum, oxigênio, acesso venoso calibroso se disponível, SAMU (192); não palpar o abdome repetidamente.
- Desidratação: iniciar hidratação oral fracionada e analgesia antes da saída, se a criança aceitar.
- Contatar o serviço de destino e enviar relatório com início dos sintomas, hemograma, transaminases, sorologias e medicamentos usados (inclusive se recebeu amoxicilina).
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "É uma infecção viral; antibiótico não ajuda e a amoxicilina pode causar manchas na pele. O cansaço pode durar semanas. Ofereça líquidos com frequência e o analgésico nos horários combinados."
- "Nada de futebol, lutas, basquete, trampolim ou brincadeiras brutas por pelo menos 3 a 4 semanas, até a liberação no retorno."
- Retorno programado em 7–10 dias e antes da liberação esportiva.
- Ir ao pronto-socorro se: respiração ruidosa ou difícil, baba, não consegue engolir nem água; dor forte na barriga, principalmente do lado esquerdo, ou dor no ombro esquerdo; palidez, tontura ou desmaio; olhos ou pele amarelos; manchas roxas ou sangramentos; sonolência excessiva, confusão ou convulsão; menos xixi e boca seca.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP / MS | AAP | NICE | Oxford / Cambridge | AEP |
|---|---|---|---|---|---|
| Diagnóstico | Hemograma, heterófilo e sorologia anti-EBV (Jornal de Pediatria, 1999) | Hemograma e anticorpos contra EBV; heterófilo frequentemente negativo em crianças (CDC) | Hemograma, Monospot e provas hepáticas (serviço NHS) | Segue o NICE | Heterófilo positivo em 10–30% < 2 anos e ~50% 2–4 anos; sorologia VCA/EBNA (AEPap) |
| Antibiótico | — | Não tratar com antibacterianos | "Antibióticos não funcionam"; evitar amoxicilina (NHS) | Segue o NICE | Evitar aminopenicilinas; macrolídeo se necessário |
| Corticoide | — | Só em complicações, como amígdalas obstruindo a via aérea | Não abordado para crianças; protocolo escocês usa dose única em adulto | Segue o NICE | Só em complicações graves, 1 mg/kg/dia, curso curto |
| Esporte | — | Até regredir a esplenomegalia; ≥ 3 semanas, retorno gradual (AAFP) | Evitar esporte de contato por 1 mês (NHS Borders) | Segue o NICE | ≥ 3 semanas e até normalizar a esplenomegalia |
| Internação | — | Complicações | Não consegue ingerir líquidos, dificuldade respiratória, dor abdominal intensa | Segue o NICE | Via aérea, hepática, hematológica, neurológica, HLH, plaquetas < 20.000 |
Leitura: há ampla convergência de que a MI é tratada com suporte, sem antibiótico nem antiviral, e de que o corticoide não deve ser usado nos casos não complicados. Todas as fontes alertam para o exantema por amoxicilina e para o risco de ruptura esplênica. A divergência está no prazo para o esporte (3 semanas como mínimo na AAFP e na Espanha; 1 mês em protocolo do NHS; "até regredir o baço" na AAP), o que justifica a conduta prática de 3–4 semanas com reavaliação. As fontes espanholas são as mais explícitas sobre a baixa sensibilidade do teste heterófilo em menores de 4 anos. Não localizamos documento científico recente da SBP ou do Ministério da Saúde específico sobre MI; o NICE não tem diretriz própria (usamos material do NHS).
- Abaixo de 4 anos, Monoteste negativo não exclui MI: pedir anti-VCA IgM/IgG e anti-EBNA.
- Hemograma com blastos ou citopenias não é MI até prova em contrário — pensar em leucemia antes de qualquer corticoide.
- Não prescrever amoxicilina a adolescente com faringite exsudativa e linfonodos cervicais posteriores sem considerar MI.
- Corticoide apenas para obstrução de via aérea e complicações graves, nunca "para a garganta".
- Esportes de contato suspensos por pelo menos 3–4 semanas; dor no hipocôndrio ou no ombro esquerdo é emergência.
- Estridor, sialorreia ou recusa de líquidos: pronto-socorro, com a criança sentada e sem manipular a orofaringe.
8.Fontes
- Infectious Mononucleosis: Rapid Evidence Review. American Family Physician, 2023. aafp.org
- American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org). Mononucleosis. healthychildren.org
- Centers for Disease Control and Prevention. Laboratory Testing for Epstein-Barr Virus (EBV). cdc.gov
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Overview of Epstein-Barr Virus. cdc.gov
- NHS. Glandular fever. nhs.uk
- NHS Borders (Right Decisions, NHS Scotland). Glandular fever. rightdecisions.scot.nhs.uk
- AEPap (Grupo de Patología Infecciosa). Diagnóstico de la infección por virus de Epstein-Barr en la edad pediátrica, 2014. PDF
- Martín Ruano J, Lázaro Ramos J. Mononucleosis infecciosa en la infancia. Pediatría Integral (SEPEAP), 2014. PDF
- Hospital Universitario Virgen del Rocío. Manual clínico de urgencias de pediatría — Mononucleosis infecciosa, 2022. manualclinico.hospitaluvrocio.es
- Falleiros-Carvalho LH. Mononucleose infecciosa. Jornal de Pediatria, 1999. jped.com.br