Patologias do consultório · Gastrointestinal

Parasitoses intestinais

Diagnóstico e tratamento das principais protozooses e helmintíases no Brasil, doses por idade e peso, política de desparasitação e complicações graves que exigem hospital

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

As parasitoses intestinais estão ligadas a saneamento, água e higiene e, no Brasil, persistem em áreas de maior vulnerabilidade. A maioria é leve ou assintomática e tratada em casa (🟢). O diagnóstico se faz pelo parasitológico de fezes — três amostras em dias diferentes aumentam a sensibilidade de cerca de 50% para 60–90% (SBP) — e pela fita adesiva perianal (método de Graham) na enterobíase. Albendazol 400 mg em dose única (200 mg entre 1 e 2 anos) trata ascaridíase e ancilostomíase; na tricuríase podem ser necessários 3 dias. Na enterobíase, repetir a dose após 2 semanas e tratar todos os moradores da casa. Giardíase: metronidazol 15 mg/kg/dia por 5–7 dias, ou tinidazol, secnidazol ou nitazoxanida. Estrongiloidíase: ivermectina 200 mcg/kg (acima de 15 kg). Anemia por ancilostomídeo, diarreia prolongada com perda de peso ou disenteria exigem reavaliação próxima (🟡). Encaminhar ao hospital (🔴): suboclusão ou obstrução intestinal por áscaris, icterícia, colangite ou pancreatite por migração biliar, abscesso hepático ou colite amebiana grave, hiperinfecção por estrongiloides em imunossuprimidos, desidratação ou anemia graves.

Veja também, nesta Biblioteca: Verminoses em Pediatria (Aula), na área Estudantes.

1.O que é e como se apresenta

  • Transmissão: fecal-oral (água, alimentos, mãos) — giárdia, ameba, áscaris, tricúris, oxiúros, toxocara (ovos de fezes de cães e gatos); penetração cutânea de larvas no solo — ancilostomídeos e Strongyloides.
  • Faixa etária: pré-escolares e escolares; a enterobíase é comum em creches e escolas mesmo em famílias de melhor condição.
  • Quadro clínico por agente:
    • Giardíase: diarreia aguda ou crônica, fezes volumosas e gordurosas, distensão, dor abdominal, flatulência; pode causar má absorção, intolerância à lactose secundária e déficit de crescimento.
    • Amebíase (Entamoeba histolytica): a maioria é portadora assintomática; colite com disenteria (fezes com muco e sangue, tenesmo); raramente abscesso hepático (febre, dor em hipocôndrio direito, hepatomegalia dolorosa). E. coli, E. dispar e Endolimax nana não são patogênicas.
    • Ascaridíase: geralmente assintomática; dor abdominal, eliminação de vermes; fase pulmonar (tosse, sibilância, infiltrado, eosinofilia — síndrome de Löffler); cargas altas causam suboclusão.
    • Ancilostomíase: anemia ferropriva, hipoalbuminemia, prurido no local de penetração.
    • Tricuríase: cargas altas causam disenteria crônica, anemia e prolapso retal.
    • Enterobíase (oxiuríase): prurido anal noturno, irritabilidade, sono agitado; vulvovaginite em meninas.
    • Estrongiloidíase: dor epigástrica, diarreia, urticária, larva currens, eosinofilia; autoinfecção permite persistência por décadas e, na imunossupressão (corticoide, HTLV-1, transplante), hiperinfecção com sepse por bactérias entéricas e alta mortalidade.
    • Toxocaríase (larva migrans visceral e ocular): eosinofilia, hepatomegalia, febre, sibilância; forma ocular com perda visual unilateral e leucocoria.
  • Pistas: eosinofilia sugere helmintos com fase tecidual (áscaris, ancilostomídeos, Strongyloides, toxocara); protozoários não causam eosinofilia.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Assintomático ou sintomas leves (dor abdominal, prurido anal, diarreia leve), hidratado, crescimento adequado, sem anemia importante Tratamento oral em casa, medidas de higiene, tratamento dos contactantes quando indicado
🟡 Moderada Diarreia prolongada com perda de peso, intolerância à lactose secundária, disenteria sem toxemia, anemia ferropriva moderada, eosinofilia elevada, síndrome de Löffler leve, dor abdominal recorrente com eliminação de muitos vermes Tratamento oral com reavaliação em 48–72 h (disenteria) ou em 2–4 semanas (anemia, crescimento); ferro; controle de cura
🔴 Grave Vômitos, distensão, cólica e massa palpável (suboclusão por áscaris); icterícia, dor em hipocôndrio direito, febre (colangite, abscesso hepático); pancreatite; colite amebiana grave; desidratação grave; anemia grave com repercussão; imunossuprimido com febre, diarreia e sintomas respiratórios (hiperinfecção por Strongyloides); toxocaríase ocular ou neurológica Encaminhar ao hospital: hidratação venosa, jejum e sonda gástrica na obstrução, avaliação cirúrgica, imagem e antimicrobianos conforme o caso

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Desnutrição, idade < 2 anos, anemia prévia, pica.
  • Imunossupressão: corticoide sistêmico, quimioterapia, transplante, HTLV-1 — risco de hiperinfecção por Strongyloides.
  • Ausência de saneamento, água não tratada, andar descalço, contato com cães e gatos não vermifugados.

3.Diagnóstico no consultório

  • Parasitológico de fezes: três amostras em dias diferentes (SBP); preferir métodos de concentração (Hoffman/Lutz, Faust para cistos, Baermann-Moraes para larvas de Strongyloides). Kato-Katz quantifica ovos.
  • Enterobíase: fita adesiva perianal (Graham) pela manhã, antes do banho, em 3 dias; o parasitológico comum raramente detecta.
  • Estrongiloidíase: sensibilidade baixa do exame direto; Baermann-Moraes e sorologia (SBP) aumentam o rendimento. Rastrear ou tratar empiricamente antes de corticoide prolongado ou imunossupressão (SBP, CDC).
  • Amebíase: a microscopia não distingue E. histolytica de E. dispar; antígeno fecal ou PCR quando disponíveis. Ultrassonografia na suspeita de abscesso hepático.
  • Toxocaríase: hemograma (eosinofilia), sorologia (ELISA), avaliação oftalmológica.

Diagnóstico diferencial que não pode passar

  • Diarreia crônica: doença celíaca, intolerância à lactose, alergia à proteína do leite de vaca, doença inflamatória intestinal.
  • Disenteria: shigelose, Campylobacter, E. coli enteroinvasiva e produtora de toxina Shiga (síndrome hemolítico-urêmica).
  • Obstrução intestinal: invaginação, volvo, bridas, fecaloma.
  • Prurido anal: dermatite de fraldas, candidíase, dermatite estreptocócica perianal, abuso sexual.

4.Tratamento em casa

Parasito Medicamento Dose Intervalo e duração Observação
Ascaris, ancilostomídeos Albendazol 400 mg (200 mg de 1 a 2 anos) Dose única SBP, MS, OMS; alternativa mebendazol 100 mg 12/12 h por 3 dias
Trichuris Albendazol 400 mg 1x/dia por 3 dias (SBP até 3–7 dias nas cargas altas) Mebendazol 100 mg 12/12 h por 3 dias (CDC)
Enterobius Albendazol 400 mg (200 mg de 1 a 2 anos) Dose única, repetir em 2 semanas Alternativas: mebendazol 100 mg dose única repetida em 2 semanas; pamoato de pirvínio 10 mg/kg dose única (SBP); tratar todos os moradores
Strongyloides Ivermectina 200 mcg/kg 1x/dia por 1–2 dias (SBP 2 dias) Somente ≥ 15 kg; alternativa albendazol 400 mg 12/12 h por 7 dias (CDC)
Toxocara (visceral) Albendazol 400 mg 12/12 h por 5 dias (SBP) Forma ocular: tratamento especializado com corticoide
Giardia Metronidazol 15 mg/kg/dia (máx. 250 mg/dose) 8/8 h por 5–7 dias Gosto metálico; evitar com álcool (adolescentes)
Giardia Tinidazol 50 mg/kg (máx. 2 g) Dose única A partir de 3 anos
Giardia Secnidazol 30 mg/kg (máx. 2 g) Dose única SBP; bula
Giardia Nitazoxanida 7,5 mg/kg/dose (ou por idade: 1–3 anos 100 mg; 4–11 anos 200 mg; ≥ 12 anos 500 mg) 12/12 h por 3 dias A partir de 1 ano; urina pode ficar esverdeada
E. histolytica invasiva (colite) Metronidazol 35–50 mg/kg/dia (máx. 750 mg/dose) 8/8 h por 7–10 dias Seguir com amebicida luminal (etofamida ou teclozana, conforme bula; paromomicina onde disponível)
E. histolytica invasiva Tinidazol ou secnidazol Tinidazol 50 mg/kg/dia (máx. 2 g) por 3 dias; secnidazol 30 mg/kg dose única — Tinidazol a partir de 3 anos; também seguir com agente luminal
E. histolytica, portador assintomático Amebicida luminal Conforme bula — Tratar apenas E. histolytica confirmada ou provável
Taenia Praziquantel 5–10 mg/kg Dose única Controle de ovos em 1 e 3 meses (SBP); na T. solium com sintomas neurológicos, afastar neurocisticercose antes (risco de convulsões)
Hymenolepis nana Praziquantel 25 mg/kg Dose única Pode ser necessário repetir em 10 dias
  • Nitazoxanida tem amplo espectro (protozoários e helmintos) e é alternativa prática, 7,5 mg/kg 12/12 h por 3 dias (SBP); não substitui a ivermectina na estrongiloidíase nem o albendazol como primeira escolha nos geo-helmintos.
  • Albendazol em menores de 2 anos: 200 mg (metade da dose), a partir de 1 ano, conforme OMS e Ministério da Saúde; abaixo de 1 ano, avaliar caso a caso.
  • Ivermectina: segurança não estabelecida abaixo de 15 kg (CDC).
  • Enterobíase — medidas de higiene por pelo menos 2 semanas após o tratamento: unhas curtas, lavar as mãos, banho matinal, troca e lavagem de roupas íntimas, de cama e toalhas; os ovos sobrevivem cerca de 2 semanas no ambiente (NHS).
  • Controle de cura: parasitológico 7, 14 e 21 dias após o tratamento nas infecções sintomáticas, ou repetir o tratamento se não for possível (SBP). Tratar a família nas helmintíases, principalmente na enterobíase (SBP).
  • Suporte: hidratação oral, retirada temporária de lactose se houver intolerância secundária, ferro na anemia (hemograma e ferritina na ancilostomíase e na tricuríase maciça).
  • Não usar: antiparasitário repetido sem diagnóstico em criança com dor funcional; ivermectina em menores de 15 kg; anti-helmíntico no quadro de obstrução por áscaris (a morte dos vermes pode piorar o enovelamento) antes da resolução da obstrução.

Tratamento coletivo (desparasitação em massa)

  • A OMS e o Ministério da Saúde (Guia Prático para o Controle das Geo-helmintíases, 2018) recomendam tratamento coletivo com albendazol em escolares conforme a prevalência local: > 50%, duas vezes ao ano; 20–50%, uma vez ao ano; < 20%, tratar apenas os casos positivos.
  • Há divergência entre documentos da SBP: o Guia Prático de 2020 (Gastroenterologia e Infectologia) registra que o Brasil deixou a situação endêmica de geo-helmintíases em 2016, sem necessidade de administração em massa em nível nacional; o documento de Pediatria Ambulatorial (2020) admite tratamento empírico de amplo espectro 2 a 3 vezes ao ano em áreas de risco. Na prática, a decisão depende da prevalência local e das condições de saneamento.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Suboclusão ou obstrução intestinal por áscaris: cólicas, vômitos (às vezes com vermes), distensão, massa palpável, parada de eliminação de fezes. No hospital: hidratação venosa, sonda nasogástrica, óleo mineral por sonda até eliminação retal e anti-helmíntico somente após a resolução; cirurgia se houver sinais de isquemia, perfuração ou volvo (SBP).
  • Migração biliar ou pancreática de áscaris: icterícia, dor em hipocôndrio direito, febre (colangite), dor epigástrica intensa (pancreatite).
  • Abscesso hepático amebiano ou colite amebiana grave (disenteria com toxemia, distensão, suspeita de megacólon tóxico).
  • Hiperinfecção por Strongyloides: imunossuprimido com febre, diarreia, dor abdominal, tosse, infiltrado pulmonar, sepse por gram-negativos ou meningite.
  • Desidratação moderada a grave ou vômitos incoercíveis.
  • Anemia grave com taquicardia, dispneia ou insuficiência cardíaca.
  • Toxocaríase com acometimento ocular (encaminhamento oftalmológico) ou neurológico.

Como encaminhar

  1. Jejum e, se houver vômitos e distensão, posição lateral; não administrar anti-helmíntico na suspeita de obstrução.
  2. Acesso venoso e soro fisiológico 20 mL/kg se houver sinais de desidratação grave ou choque.
  3. Oxigênio se houver desconforto respiratório ou anemia grave com instabilidade.
  4. Contatar o serviço de destino (cirurgia pediátrica na obstrução ou migração biliar); SAMU (192) se houver instabilidade.
  5. Relatório com exames, parasitos identificados, medicamentos já administrados e uso de imunossupressores.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "Os vermes passam pelas fezes e pela terra: lave as mãos após usar o banheiro e antes de comer, lave bem frutas e verduras, use água tratada ou fervida e calçados."
  • "No caso do oxiúro, toda a família toma o remédio junto e repete em 2 semanas; unhas curtas, banho de manhã e troca de roupas de cama."
  • Retorno para controle de cura e, se houver anemia, para acompanhar o hemograma em 4–8 semanas.
  • Procurar o pronto-socorro se: vômitos repetidos, barriga inchada e dura, cólicas fortes, parada das fezes; olhos ou pele amarelados; sangue nas fezes com febre alta ou prostração; sinais de desidratação; palidez intensa com cansaço ou falta de ar.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Geo-helmintos Albendazol 400 mg dose única (200 mg < 2 anos) CDC: albendazol 400 mg; mebendazol 100 mg 12/12 h 3 dias ou 500 mg Sem diretriz NG específica Segue o NICE Mebendazol ou albendazol; albendazol na bula espanhola > 6 anos, OMS a partir de 1 ano (Guía-ABE)
Enterobíase Albendazol ou mebendazol, repetir em 2 semanas; tratar a família CDC: dose única repetida em 2 semanas Mebendazol para todos da casa ≥ 2 anos; higiene por 2 semanas (NHS) Segue o NICE Mebendazol ou pamoato de pirantel, repetir em 2 semanas; tratar toda a família
Giardíase Metronidazol 15 mg/kg/dia 5–7 dias; tinidazol, secnidazol, nitazoxanida CDC: metronidazol, tinidazol ou nitazoxanida — Segue o NICE Metronidazol 15 mg/kg/dia (máx. 250 mg/dose) 5–7 dias; tinidazol dose única
Estrongiloidíase Ivermectina 200 mcg/kg por 2 dias; prolongar na hiperinfecção CDC: ivermectina 200 mcg/kg 1–2 dias; ≥ 15 kg; rastrear antes de imunossupressão — Segue o NICE Ivermectina 200 mcg/kg (≥ 15 kg)
Tratamento coletivo MS/OMS: por prevalência (> 50% 2x/ano; 20–50% 1x/ano) — — — —

Leitura: as doses de albendazol, mebendazol, metronidazol e ivermectina são semelhantes entre SBP, CDC e a referência espanhola; há consenso em repetir o tratamento da enterobíase após 2 semanas, tratar toda a família e respeitar o limite de 15 kg para a ivermectina. As diferenças estão na idade mínima do albendazol (1 ano pela OMS, MS e SBP; bula espanhola mais restritiva) e na maior variedade de opções usadas no Brasil (secnidazol, nitazoxanida, pamoato de pirvínio). O tratamento coletivo é uma política de saúde pública de países endêmicos (OMS, MS), sem equivalente nas referências dos EUA, do Reino Unido e da Espanha.

Pontos práticos
  1. Peça três amostras de fezes e a fita adesiva quando suspeitar de oxiúros; um exame negativo não exclui parasitose.
  2. Albendazol 400 mg dose única; 200 mg entre 1 e 2 anos.
  3. Enterobíase: tratar toda a casa e repetir em 2 semanas, com higiene rigorosa.
  4. Antes de corticoide prolongado ou imunossupressão, pense em Strongyloides: rastrear ou tratar com ivermectina (≥ 15 kg).
  5. Na suspeita de obstrução por áscaris, não dê anti-helmíntico — encaminhe ao hospital.
  6. Portador de E. dispar ou E. coli não precisa de tratamento; a colite amebiana exige metronidazol seguido de amebicida luminal.

8.Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamentos de Gastroenterologia e Infectologia. Parasitoses intestinais — diagnóstico e tratamento, Guia Prático de Atualização, 2020. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Pediatria Ambulatorial. Parasitoses intestinais, Documento Científico, 2020. PDF
  • Ministério da Saúde. Guia prático para o controle das geo-helmintíases, 2018. PDF
  • World Health Organization. Soil-transmitted helminth infections (fact sheet). who.int
  • CDC. Clinical care of soil-transmitted helminths. cdc.gov
  • CDC. Clinical care of Strongyloides. cdc.gov
  • NHS. Threadworms. nhs.uk
  • Guía-ABE. Parasitosis intestinales, 2021; Antiparasitarios en pediatría, 2022. Parasitosis; Antiparasitarios
  • AEP/SEGHNP. Protocolos diagnósticos y terapéuticos en Gastroenterología, Hepatología y Nutrición Pediátrica, 2023 (capítulo Parasitosis intestinales). PDF