Patologias do consultório · Respiratório e otorrino

Pneumonia adquirida na comunidade

Reconhecer a pneumonia pela frequência respiratória e pela tiragem, classificar a gravidade, tratar em casa com amoxicilina por curto prazo e encaminhar sem demora os casos graves

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A PAC é diagnóstico clínico: tosse ou dificuldade respiratória com taquipneia para a idade (≥ 60 irpm < 2 meses; ≥ 50 irpm de 2 a 11 meses; ≥ 40 irpm de 1 a 4 anos), com ou sem febre e achados focais. A tiragem subcostal, a SpO2 < 92%, os sinais de perigo (não consegue beber, convulsão, letargia, gemência, cianose) e a idade < 2 meses definem a pneumonia grave, que vai ao hospital. A criança com apenas taquipneia, bom estado geral, hidratada e com SpO2 ≥ 95% é tratada em casa com amoxicilina oral — 50 mg/kg/dia (AIDPI/SBP; em 2 ou 3 tomadas) ou 90 mg/kg/dia (dose alta; AAP/IDSA; a OMS 2024 usa 80 mg/kg/dia), esta preferível pelo mecanismo de resistência do pneumococo — e reavaliada em 48–72 h; SpO2 de 92–94% pede observação e reavaliação em serviço. A radiografia de tórax não é rotina no paciente ambulatorial. A duração tende a ser curta: a SBP (2021) já admite cursos menores que 7 dias, o NICE recomenda 5 dias e os ensaios SAFER e CAP-IT (2021) mostraram que cursos de 3 a 5 dias não são inferiores. Macrolídeo fica para a suspeita de pneumonia atípica, em geral no escolar. Veja também, nesta Biblioteca: Antibioticoterapia na Pneumonia (Pneumologia).

1.O que é e como se apresenta

Infecção aguda do parênquima pulmonar adquirida fora do hospital, em criança previamente hígida; importante causa de internação e morte abaixo dos 5 anos.

  • Etiologia
    • Vírus predominam no lactente e no pré-escolar (VSR, rinovírus, metapneumovírus, influenza, parainfluenza, adenovírus, SARS-CoV-2). Coinfecção vírus–bactéria é comum.
    • Streptococcus pneumoniae é a principal bactéria; S. aureus e S. pyogenes são menos frequentes e associam-se a formas complicadas.
    • Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae ("atípicos") predominam no escolar e no adolescente.
    • Abaixo de 2 meses entram agentes perinatais (estreptococo do grupo B, gram-negativos, Chlamydia trachomatis) e a coqueluche no diagnóstico diferencial.
  • Quadro típico
    • Febre, tosse e taquipneia — a taquipneia é o sinal isolado mais sensível (é a base do algoritmo AIDPI/OMS).
    • Tiragem subcostal, batimento de asa de nariz, gemência, crepitações ou sopro tubário localizados, macicez (derrame).
    • Dor abdominal ou torácica pleurítica; no lactente, recusa alimentar.
    • Sibilância difusa com febre baixa sugere etiologia viral ou atípica, e não pneumococo.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Idade ≥ 2 meses; taquipneia para a idade sem tiragem subcostal; SpO2 ≥ 95% em ar ambiente; bebe e se alimenta; hidratada; estado geral preservado; sem sinais de perigo; família com condições de cuidar e voltar Amoxicilina oral em casa, antitérmico, hidratação; retorno em 48–72 h (ou antes, se piora)
🟡 Moderada Taquipneia mais intensa ou esforço leve a moderado, febre alta persistente, ingesta reduzida mas ainda aceitando líquidos, SpO2 limítrofe (92–94%: observação/reavaliação em serviço), lactente de 2–6 meses, dúvida sobre adesão ou retorno, falha de 48–72 h de antibiótico sem sinais de gravidade Observação no consultório ou PS, oximetria seriada, radiografia e reavaliação em 24 h; baixo limiar para internar
🔴 Grave Tiragem subcostal; SpO2 < 92%; FR > 70 irpm (< 12 meses) ou > 50 irpm (maiores); gemência, batimento de asa de nariz, apneia, cianose; não consegue beber, vômitos de tudo, convulsão, letargia ou inconsciência; desidratação; aspecto toxêmico; idade < 2 meses; suspeita de complicação (derrame, abscesso, pneumotórax) Encaminhar ao hospital: oxigênio, primeira dose de antibiótico quando indicado, transporte monitorado

Limiares de taquipneia: AIDPI/OMS, adotados pela SBP (2018). Os critérios de internação por FR (> 70 e > 50 irpm) e SpO2 < 92% constam do documento da SBP de 2021 e da BTS (2011); a IDSA/PIDS usa SpO2 < 90% e a OMS também adota < 90% como hipoxemia. Conduta adotada: tratamento em casa somente com SpO2 ≥ 95%; 92–94% = observação/reavaliação em serviço; < 92% = internação.

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Idade < 6 meses.
  • Prematuridade, displasia broncopulmonar, cardiopatia congênita, doença neuromuscular, fibrose cística, imunodeficiência, anemia falciforme, desnutrição.
  • Esquema vacinal incompleto (pneumocócica, Hib, influenza, coqueluche).
  • Pneumonias de repetição no mesmo lobo (corpo estranho, malformação).
  • Contexto social: dificuldade de retorno ou de compreensão das orientações.

3.Diagnóstico no consultório

O diagnóstico é clínico. Contar a FR por um minuto inteiro, com a criança calma e sem febre alta no momento (a febre eleva a FR), observar a tiragem e medir a SpO2 em toda criança com suspeita de pneumonia (IDSA/PIDS; a OMS reforça a oximetria na atenção primária).

  • Radiografia de tórax: não é rotina na criança que será tratada em casa (SBP 2018/2021, BTS 2011, IDSA/PIDS 2011). Indicar se hipoxemia ou esforço importante, dúvida diagnóstica, falha terapêutica em 48–72 h, suspeita de complicação ou internação.
  • Laboratório: hemograma, PCR e procalcitonina não são necessários no caso leve; têm mais utilidade no paciente internado.
  • Pesquisa viral (teste rápido ou painel de nasofaringe): quando disponível, ajuda a evitar antibiótico em quadro claramente viral (SBP 2021; a IDSA/PIDS recomenda testar influenza).
  • Micoplasma: considerar em escolar com febre, tosse arrastada, sibilos ou manifestações extrapulmonares; testes específicos têm acesso limitado no consultório.

Diferenciais que não podem passar

  • Bronquiolite e asma/sibilância induzida por vírus (taquipneia com sibilos difusos, sem sinais focais).
  • Corpo estranho (início súbito, engasgo, sinais unilaterais persistentes).
  • Coqueluche no lactente (paroxismos, apneia, linfocitose).
  • Tuberculose (tosse > 2–3 semanas, contato, perda de peso, pneumonia que não responde).
  • Insuficiência cardíaca, sepse e cetoacidose diabética (taquipneia sem doença pulmonar).

4.Tratamento em casa

A amoxicilina oral é a primeira escolha em todas as diretrizes consultadas. Nos pré-escolares com quadro claramente viral, a IDSA/PIDS lembra que o antibiótico não é rotineiramente necessário.

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Amoxicilina (AIDPI/SBP) 50 mg/kg/dia (máx. 4 g/dia) Em 2 ou 3 tomadas (12/12 h ou 8/8 h) 7 dias na norma nacional; SBP 2021 admite cursos menores (5 dias com eficácia equivalente) Dose baseada em estudos brasileiros; primeira escolha a partir de 2 meses
Amoxicilina (dose alta — AAP/IDSA; AEP 80–90) 90 mg/kg/dia (máx. 4 g/dia) 12/12 h (IDSA) ou 8/8 h (AEP) OMS 2024: 5 dias (3 dias na pneumonia de respiração rápida em áreas de baixa prevalência de HIV); NICE: 5 dias Preferível (ver nota abaixo), sobretudo com pneumococo de sensibilidade reduzida, criança < 2 anos em creche ou uso recente de betalactâmico
Azitromicina (suspeita de atípico) IDSA: 10 mg/kg no 1º dia, depois 5 mg/kg/dia do 2º ao 5º dia; SBP 2021: 10 mg/kg/dia 1 vez ao dia 5 dias (AEP: 10 mg/kg/dia por 3 dias; máx. 500 mg/dia) Reservar para suspeita clínica de atípico, sobretudo > 5 anos
Claritromicina (alternativa) 15 mg/kg/dia (máx. 1 g/dia) 12/12 h 7–10 dias (SBP); 7 dias (AEP) Alternativa à azitromicina
Alergia não IgE à penicilina Cefalosporina (cefuroxima) conforme bula — Mesma duração SBP 2021
Alergia IgE (tipo 1) Macrolídeo ou clindamicina conforme bula — Mesma duração SBP 2021

Dose de amoxicilina — conduta adotada: 50 mg/kg/dia (AIDPI/SBP; em 2 ou 3 tomadas) ou 90 mg/kg/dia (dose alta; AAP/IDSA; a OMS 2024 usa 80 mg/kg/dia); a dose de 90 mg/kg/dia é preferível pelo tipo de resistência do pneumococo: a resistência se deve à alteração das proteínas ligadoras de penicilina (PBP), e não à betalactamase — por isso é vencida por concentrações mais altas de amoxicilina e não pelo clavulanato.

Duração — o que mudou. O ensaio SAFER (JAMA Pediatrics, 2021; crianças de 6 meses a 10 anos tratadas em ambulatório) comparou 5 × 10 dias de amoxicilina em dose alta: cura clínica de 85,7% × 84,1%. O CAP-IT (JAMA, 2021; > 6 meses e até 24 kg, Reino Unido e Irlanda) comparou dose baixa (35–50 mg/kg/dia) × alta (70–90 mg/kg/dia) e 3 × 7 dias: retratamento, eventos adversos e colonização por pneumococo não suscetível foram semelhantes; a tosse resolveu um pouco mais depressa com 7 dias. Em conjunto, sustentam cursos de cerca de 5 dias para a PAC não complicada tratada em casa, com reavaliação obrigatória.

Não usar

  • Antitussígenos, mucolíticos, descongestionantes e anti-histamínicos.
  • Corticoide sistêmico de rotina (exceto se houver asma associada, conforme protocolo próprio).
  • Broncodilatador sem sibilância.
  • Amplo espectro ou macrolídeo de rotina "para cobrir tudo".

Suporte: antitérmico/analgésico conforme bula, líquidos fracionados, lavagem nasal com soro fisiológico, manter aleitamento materno.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Idade < 2 meses com suspeita de pneumonia (SBP/AIDPI); considerar internação no lactente de 3–6 meses com suspeita de pneumonia bacteriana (IDSA/PIDS).
  • Tiragem subcostal, gemência, batimento de asa de nariz, apneia ou cianose.
  • SpO2 < 92% (SBP, BTS; < 90% na IDSA/PIDS e OMS).
  • FR > 70 irpm no lactente ou > 50 irpm na criança maior.
  • Não consegue beber, vômitos persistentes, desidratação; convulsão, letargia.
  • Aspecto toxêmico; suspeita de derrame pleural, abscesso, pneumotórax ou pneumonia necrosante.
  • Doença de base relevante; falha de 48–72 h de tratamento oral adequado; impossibilidade de retorno ou de cuidado seguro em casa.

Como encaminhar

  1. Oxigênio por cateter nasal ou máscara se SpO2 < 92% ou esforço importante; manter a criança no colo, em posição confortável (semissentada).
  2. Aspirar ou lavar as narinas se obstrução nasal no lactente.
  3. Antitérmico se febre; não oferecer via oral se rebaixamento ou esforço grave.
  4. Se o transporte for demorado, considerar a primeira dose de antibiótico conforme protocolo local, sem atrasar o encaminhamento.
  5. Contatar o serviço de destino (FR, SpO2, sinais de gravidade, medicações); transporte em ambulância com oxigênio nos casos graves.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • Retorno obrigatório em 48–72 h (SBP), mesmo se a criança parecer melhor. Cerca de 90% ficam sem febre em 48–72 h de tratamento adequado.
  • A tosse pode durar 2 a 3 semanas sem significar falha.
  • Voltar imediatamente ou procurar o pronto-socorro se:
    • Respiração muito rápida, "barriga afundando" abaixo das costelas, gemido ao respirar ou lábios arroxeados.
    • Não consegue mamar ou beber, vomita tudo, urina pouco.
    • Muito sonolenta, difícil de acordar, ou teve convulsão.
    • Febre que persiste após 48–72 h de antibiótico, ou volta depois de ter cessado.
    • Dor no peito que piora, ou falta de ar ao falar.
  • Completar o antibiótico conforme orientado; não guardar sobras para outra ocasião.
  • Conferir a caderneta: vacinas pneumocócica, Hib, influenza e coqueluche.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Critérios de gravidade AIDPI: taquipneia por idade, tiragem, sinais de perigo; SpO2 < 92% IDSA/PIDS 2011: desconforto moderado a grave e SpO2 < 90% BTS 2011: SpO2 < 92%, FR > 70 (lactente) ou > 50 Segue o NICE/BTS Reavaliação clínica em 48 h (consenso SEIP/SENP 2015)
Radiografia Não rotineira no ambulatorial Não rotineira no ambulatorial Não rotineira; não fazer se não internar (BTS) Segue o NICE Não necessária no caso não complicado
Antibiótico de 1ª escolha Amoxicilina 50 mg/kg/dia Amoxicilina 90 mg/kg/dia em 2 doses Amoxicilina (doses pelo BNFC) Segue o NICE Amoxicilina 80–90 mg/kg/dia de 8/8 h
Duração 7 dias na norma; SBP 2021 admite menos 10 dias os mais estudados (2011); cursos curtos em revisão 5 dias, prolongar se instável Segue o NICE 7 dias
Atípico Macrolídeo se suspeita, > 5 anos Azitromicina no escolar com suspeita Considerar macrolídeo associado Segue o NICE Azitromicina 3 dias ou claritromicina 7 dias
Internação < 2 meses, tiragem, SpO2 < 92%, toxemia, desidratação < 3–6 meses com suspeita bacteriana, hipoxemia, desconforto BTS: SpO2 < 92% encaminhar ao hospital Segue o NICE Não detalhada no documento ambulatorial consultado

Leitura. Há ampla convergência em três pontos: diagnóstico clínico com oximetria, radiografia dispensável no paciente ambulatorial e amoxicilina oral como primeira escolha. As divergências estão na dose — a SBP (com OMS/AIDPI) usa 50 mg/kg/dia com base em estudos nacionais, enquanto IDSA/PIDS (AAP) e AEP preferem 80–90 mg/kg/dia (o CAP-IT não mostrou diferença entre dose baixa e alta); a conduta adotada aceita as duas e prefere 90 mg/kg/dia, porque a resistência do pneumococo (alteração de PBP) é vencida por concentração mais alta — e na duração, em que a norma brasileira e a AEP ainda falam em 7 dias, a IDSA/PIDS de 2011 em 10 dias, e o NICE e a OMS em 5 dias (ou 3). O limiar de hipoxemia varia entre 90% e 92%; a conduta adotada exige SpO2 ≥ 95% para tratamento em casa (92–94%: observação em serviço).

Pontos práticos
  1. Contar a FR por um minuto inteiro e medir a SpO2 em toda criança com tosse e febre; tiragem subcostal ou SpO2 < 92% significam hospital; SpO2 de 92–94% pede observação em serviço, e só com ≥ 95% trata-se em casa.
  2. Toda criança < 2 meses com suspeita de pneumonia deve ser encaminhada.
  3. Amoxicilina oral é a primeira escolha — 50 mg/kg/dia ou, preferencialmente, 90 mg/kg/dia; macrolídeo só com suspeita de atípico.
  4. Cinco dias de amoxicilina bastam na maioria dos casos leves, desde que haja reavaliação.
  5. Reavaliar em 48–72 h; febre persistente pede radiografia e busca de complicação (derrame, abscesso) ou de diagnóstico alternativo.

8.Fontes

  • SBP, Departamento de Pneumologia. Abordagem diagnóstica e terapêutica das pneumonias adquiridas na comunidade não complicadas. Documento Científico nº 6, 2021. sbp.com.br
  • SBP, Departamento de Pneumologia. Pneumonia adquirida na comunidade na infância. Documento Científico nº 3, 2018. sbp.com.br
  • OMS. Guideline on management of pneumonia and diarrhoea in children up to 10 years of age, 2024. NCBI Bookshelf
  • NICE. Pneumonia (community-acquired): antimicrobial prescribing (NG138), 2019. nice.org.uk
  • British Thoracic Society. Guidelines for the management of community acquired pneumonia in children: update 2011. brit-thoracic.org.uk
  • Bradley JS et al. (PIDS/IDSA). Management of community-acquired pneumonia in infants and children older than 3 months of age. Clin Infect Dis, 2011. academic.oup.com
  • American Family Physician. PIDS and IDSA issue management guidelines for community-acquired pneumonia in infants and young children, 2012. aafp.org
  • Pernica JM et al. Short-course antimicrobial therapy for pediatric community-acquired pneumonia: the SAFER randomized clinical trial. JAMA Pediatrics, 2021. PMC
  • CAP-IT Trial Group (Bielicki JA et al.). Amoxicillin duration and dose for community-acquired pneumonia in children: the CAP-IT factorial non-inferiority RCT, 2021. NCBI Bookshelf
  • Moreno-Pérez D et al. (SEIP/SENP/AEP). Neumonía adquirida en la comunidad: tratamiento ambulatorio y prevención. An Pediatr, 2015. analesdepediatria.org
  • Oxford Handbook of Paediatrics, 3ª ed., Oxford University Press, 2021 (obra de referência).