Patologias do consultório · Urinário e genital

Vulvovaginites, sinéquia de pequenos lábios e sinais de abuso sexual

Vulvovaginite inespecífica e específica na menina pré-púbere, corpo estranho, líquen escleroso, sinéquia labial, sinais de alerta de abuso sexual e corrimento na adolescente

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Antes da puberdade, a mucosa vulvovaginal é fina, sem estrogênio e próxima do ânus, o que favorece a irritação. Cerca de dois terços das vulvovaginites pré-puberais são inespecíficas (higiene inadequada, irritantes, roupas justas) e melhoram com medidas de higiene, sem antibiótico. Corrimento purulento, sanguinolento, fétido, recorrente ou que persiste apesar da higiene pede cultura de secreção vaginal e exame cuidadoso para corpo estranho. Agentes específicos incluem Streptococcus pyogenes, Haemophilus influenzae, Staphylococcus aureus, Shigella e oxiúros; a candidíase é incomum antes da puberdade, exceto com fralda, antibiótico recente, diabetes ou imunossupressão. O líquen escleroso (placas brancas, fissuras e equimoses) trata-se com corticoide tópico ultrapotente e não deve ser confundido com abuso. A sinéquia de pequenos lábios assintomática é observada; se sintomática, usa-se estrogênio tópico por 2–6 semanas, sem separação forçada. A maioria dos quadros é tratada no consultório (🟢/🟡). IST em criança pré-púbere, lesão anogenital sem explicação ou relato da criança exigem avaliação para abuso sexual: é notificação obrigatória (compulsória), com comunicação ao Conselho Tutelar e encaminhamento a serviço de referência, com urgência se a violência for recente (🔴).

1.O que é e como se apresenta

  • Vulvovaginite inespecífica: prurido, ardor à micção, hiperemia vulvar, corrimento discreto. Fatores: limpeza de trás para frente, resíduos de fezes ou papel, banhos de espuma, sabonetes perfumados, roupas sintéticas e justas, obesidade, permanência com maiô molhado.
  • Vulvovaginites específicas (Ortiz Movilla, AEPap):
    • Streptococcus pyogenes: eritema vulvar intenso e bem delimitado, corrimento, às vezes após faringite ou com doença perianal estreptocócica.
    • Haemophilus influenzae, Staphylococcus aureus: corrimento purulento.
    • Shigella: corrimento mucopurulento, muitas vezes sanguinolento, nem sempre com diarreia.
    • Oxiúros (Enterobius vermicularis): prurido vulvar e perianal noturno.
    • Candida: rara na pré-púbere com controle esfincteriano (colonização de 3–4%); pensar em fralda, antibiótico recente, diabetes ou imunossupressão.
  • Corpo estranho vaginal: corrimento fétido, sanguinolento e persistente; o mais comum é papel higiênico. O NICE lembra que corrimento vaginal fétido pode indicar corpo estranho e que corpo estranho vaginal ou anal é alerta para abuso sexual.
  • Líquen escleroso: dermatose inflamatória crônica; placas brancas, atróficas e brilhantes em "oito" ao redor da vulva e do ânus, prurido intenso, fissuras, púrpura e sangramento. Não é causado por abuso sexual (NASPAG), embora possa ser confundido com ele.
  • Sinéquia (coalescência) de pequenos lábios: aderência dos pequenos lábios na linha média, mais comum em lactentes e pré-escolares, associada ao hipoestrogenismo e à irritação local. Geralmente assintomática; pode causar gotejamento pós-miccional, disúria, ITU ou, raramente, retenção urinária.
  • Adolescente: a leucorreia fisiológica (branca, sem odor ou prurido) começa meses antes da menarca. Corrimentos patológicos: candidíase, vaginose bacteriana, tricomoníase e cervicites por clamídia ou gonococo.

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Vulvite ou vulvovaginite inespecífica com corrimento discreto; sinéquia assintomática; leucorreia fisiológica Medidas de higiene; observação; retorno em 2–3 semanas se não melhorar
🟡 Moderada Corrimento purulento, sanguinolento, fétido ou recorrente; suspeita de agente específico; oxiúros; líquen escleroso; sinéquia sintomática; corrimento na adolescente; suspeita de abuso sem violência recente Cultura de secreção, tratamento dirigido; corticoide ou estrogênio tópico; notificação e encaminhamento a serviço de referência quando houver suspeita de abuso
🔴 Grave Sangramento genital com trauma; corpo estranho que não sai por irrigação ou com sangramento; retenção urinária; dor pélvica com febre na adolescente (doença inflamatória pélvica); violência sexual recente; criança que continuará exposta ao agressor Pronto-socorro ou serviço de referência para violência sexual no mesmo dia (exame sob sedação, profilaxias, proteção)

Fatores de risco e situações que elevam a gravidade

  • Menina pré-púbere com IST: gonorreia, sífilis, clamídia, tricomoníase e HIV adquiridos após o período perinatal indicam fortemente abuso sexual (CDC; NICE); herpes anogenital e verrugas anogenitais exigem considerar abuso.
  • Lesões anogenitais sem explicação plausível, gravidez, comportamento sexualizado incompatível com a idade, mudança súbita de comportamento.
  • Diabetes, imunossupressão, uso recente de antibiótico (candidíase).
  • Sangramento vaginal na pré-púbere: excluir corpo estranho, trauma, Shigella, S. pyogenes, líquen escleroso, prolapso uretral, puberdade precoce e tumor.

3.Diagnóstico no consultório

  • Exame com a criança em posição de rã (decúbito dorsal, joelhos afastados) ou genupeitoral, sempre com a presença de responsável, explicando cada passo e sem forçar. Tração suave dos grandes lábios para baixo e para fora permite ver o hímen e o terço inferior da vagina.
  • Não usar espéculo em menina pré-púbere no consultório.
  • Cultura de secreção vaginal (swab umedecido, sem tocar o hímen): corrimento purulento, sintomas intensos, recorrência ou persistência apesar da higiene (AEPap).
  • Fita adesiva perianal (método de Graham) na suspeita de oxiúros.
  • Corpo estranho: irrigação com soro fisiológico morno pode visualizar e remover; se não for possível, vaginoscopia sob sedação.
  • Líquen escleroso: diagnóstico clínico, seguido de teste terapêutico; biópsia ou encaminhamento se houver dúvida ou falha (NASPAG).
  • Suspeita de abuso sexual: testes para IST com métodos validados, preferencialmente no serviço de referência (CDC); registrar achados de forma descritiva, com desenho ou foto quando autorizado.
  • Adolescente: anamnese confidencial sobre atividade sexual, pH e aspecto do corrimento; teste de gravidez quando indicado; rastrear clamídia e gonorreia se sexualmente ativa.

Diagnóstico diferencial que não pode passar

  • Abuso sexual (lesões, IST, relato) — nunca atribuir tudo a "falta de higiene" sem examinar.
  • Corpo estranho e tumor vaginal (sangramento persistente).
  • Líquen escleroso confundido com trauma ou dermatite de fralda.
  • ITU (disúria com urina alterada; ver Infecção urinária) e dermatite de contato.
  • Puberdade precoce (sangramento com desenvolvimento mamário).

4.Tratamento em casa

Medidas gerais (vulvovaginite inespecífica)

  • Limpeza de frente para trás; urinar com os joelhos afastados; banhos de assento mornos, sem sabonete na vulva (água ou sabonete neutro só por fora); secar sem esfregar.
  • Calcinha de algodão, evitar roupas justas, banhos de espuma e permanência com roupa de banho molhada.
  • Creme de barreira (vaselina ou óxido de zinco) na irritação.
Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Amoxicilina (S. pyogenes) 50 mg/kg/dia (máx. 1 g/dia) 1x/dia ou 12/12 h 10 dias Mesmo esquema da faringoamigdalite estreptocócica; alternativa penicilina V (AEPap)
Amoxicilina-clavulanato (H. influenzae produtor de betalactamase) Conforme bula e antibiograma 8/8 h ou 12/12 h 7–10 dias Orientar pela cultura (AEPap)
Albendazol (oxiúros) 400 mg (200 mg de 1 a 2 anos) Dose única Repetir em 2 semanas Tratar todos os moradores; alternativa mebendazol 100 mg dose única repetida em 2 semanas
Nistatina ou imidazólico tópico (candidíase na área de fralda) Aplicação na pele afetada Conforme bula Conforme bula Candidíase é rara na pré-púbere sem fatores de risco
Clobetasol 0,05% pomada (líquen escleroso) Fina camada 1x/dia até o controle dos sintomas Indução por algumas semanas, depois manutenção com corticoide reduzido ou inibidor de calcineurina (NASPAG) Acompanhamento com dermatologista ou ginecologista infanto-puberal
Estrogênio tópico (sinéquia sintomática) Fina camada sobre a linha de fusão, com leve pressão 1–2x/dia 2–6 semanas Estradiol 0,01% (Pediatría Integral 2024); no Brasil, usar o estrogênio tópico disponível conforme bula; efeitos reversíveis: sensibilidade mamária e hiperpigmentação vulvar
Betametasona 0,05% (sinéquia, alternativa) Fina camada 12/12 h 4–6 semanas Alternativa ao estrogênio (Pediatría Integral 2024)
  • Sinéquia de pequenos lábios: cerca de 80% resolvem espontaneamente em até 1 ano (Pediatría Integral); assintomática, apenas observar e orientar higiene. Tratar se houver sintomas urinários, ITU ou retenção. Não separar à força no consultório: é doloroso, traumático e a recidiva é frequente. A separação manual ou cirúrgica, com analgesia ou anestesia, fica para falha do tratamento tópico ou retenção urinária. Após a separação, manter creme de barreira por algumas semanas. A recidiva é comum (até 41% nos lactentes de fralda) até a puberdade.
  • Corrimento na adolescente (PCDT-IST, Ministério da Saúde, 2022):
    • Candidíase vulvovaginal: miconazol creme vaginal 2% ou clotrimazol creme vaginal 1% por 7 dias; alternativa fluconazol 150 mg VO dose única.
    • Vaginose bacteriana e tricomoníase: metronidazol oral conforme o PCDT-IST. A vaginose não exige tratamento da parceria; a tricomoníase, sim.
    • Cervicite ou suspeita de IST: tratar a paciente e as parcerias conforme o PCDT-IST, oferecer testes para HIV, sífilis e hepatites e reforçar preservativo e vacina contra HPV.
  • Não usar: antibiótico sem cultura na vulvovaginite inespecífica; antifúngico empírico repetido na pré-púbere; espéculo ou manobras forçadas; duchas vaginais.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Violência sexual recente: encaminhar no mesmo dia a serviço de referência para profilaxias. A profilaxia pós-exposição ao HIV deve começar o mais rápido possível, idealmente nas primeiras 2 horas e no máximo em 72 horas (PCDT-IST 2022); contracepção de emergência nas púberes.
  • Criança em risco de continuar exposta ao agressor.
  • Sangramento genital com trauma ou sangramento importante de causa não esclarecida.
  • Corpo estranho não removível por irrigação.
  • Retenção urinária (sinéquia completa, dor intensa).
  • Adolescente com dor pélvica, febre, dor à mobilização do colo ou toxemia (doença inflamatória pélvica); gravidez com dor ou sangramento.

Como encaminhar e proteger

  1. Escutar sem interrogar: registrar as palavras da criança entre aspas, sem perguntas indutivas e sem repetir a entrevista; a escuta especializada e o depoimento especial são feitos pela rede de proteção (Lei 13.431/2017).
  2. Não lavar nem trocar a roupa se a violência for recente (preservação de vestígios), quando possível.
  3. Notificação obrigatória (compulsória) na ficha de violência do SINAN e comunicação ao Conselho Tutelar, que é obrigatória nos casos suspeitos ou confirmados de maus-tratos (ECA, art. 13); a omissão do médico constitui infração administrativa (ECA, art. 245). Não é necessário ter certeza para comunicar.
  4. Contatar o serviço de referência para violência sexual do município; se houver risco imediato, acionar Conselho Tutelar, polícia (190) ou Disque 100.
  5. Relatório descritivo, sem conclusões sobre autoria, com data, hora, relato e achados do exame.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "A irritação da vulva na menina pequena quase sempre melhora com higiene: limpar de frente para trás, banho morno sem sabonete na região e calcinha de algodão."
  • "Se o corrimento ficar amarelado, esverdeado, com sangue ou mau cheiro, ou não melhorar em 2 a 3 semanas, volte."
  • "A colagem dos lábios costuma se desfazer sozinha. Não tente separar em casa."
  • "Coceira anal à noite pode ser verme; toda a família deve tomar o remédio."
  • "Se a criança contar algo sobre alguém que tocou suas partes íntimas, acredite, acolha e procure o pediatra ou o Conselho Tutelar."
  • Voltar imediatamente se houver sangramento, dor para urinar com retenção, febre ou dor intensa.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE Oxford / Cambridge AEP
Vulvovaginite pré-puberal Documento SBP de 2025 de acesso restrito, não consultado Não consultado Sem diretriz NG específica Segue o NICE Maioria inespecífica; higiene; cultura se purulenta, persistente ou recorrente (AEPap)
Sinéquia labial Não consultado Não consultado Sem diretriz NG específica Segue o NICE Observar; estradiol 0,01% por 2–6 semanas ou betametasona; separação só após falha
Líquen escleroso Não consultado NASPAG (EUA, 2021): clobetasol, manutenção, não é abuso Sem diretriz NG específica Segue o NICE Não consultado
IST e abuso sexual Comunicação ao Conselho Tutelar em casos suspeitos ou confirmados (ECA; manual SBP/CFM 2018); notificação obrigatória CDC 2021: gonorreia, sífilis, clamídia, tricomoníase e HIV indicam fortemente abuso CG89: suspeitar com gonorreia, clamídia, sífilis, herpes genital, hepatite C, HIV e tricomoníase; considerar com verrugas e hepatite B Segue o NICE Gonococo, clamídia, HPV e herpes obrigam investigar abuso (AEPap)
Corrimento na adolescente PCDT-IST 2022: miconazol ou clotrimazol 7 dias ou fluconazol 150 mg; metronidazol na vaginose e tricomoníase Não consultado Sem diretriz NG específica Segue o NICE Não consultado

Leitura: as referências consultadas convergem em que a vulvovaginite pré-puberal é, em geral, inespecífica e tratada com higiene, que a candidíase é incomum antes da puberdade e que corrimento persistente ou sanguinolento exige cultura e busca de corpo estranho. Também concordam que gonorreia, sífilis, clamídia, tricomoníase e HIV adquiridos fora do período perinatal indicam abuso sexual, enquanto verrugas e herpes exigem avaliação contextual; o NICE inclui o herpes genital e a hepatite C entre os achados que levam a suspeitar. A diferença mais relevante é jurídica: nos EUA, todas as jurisdições exigem comunicação aos serviços de proteção (CDC); no Brasil, a comunicação ao Conselho Tutelar é obrigatória já na suspeita (ECA), somada à notificação compulsória no SINAN. Na sinéquia, o tratamento tópico por poucas semanas e a recusa à separação forçada são consenso.

Pontos práticos
  1. Vulvovaginite pré-puberal é, na maioria, inespecífica: higiene antes de antibiótico ou antifúngico.
  2. Corrimento purulento, sanguinolento, fétido ou persistente pede cultura e exclusão de corpo estranho.
  3. Placas brancas com equimoses e fissuras sugerem líquen escleroso: corticoide ultrapotente e encaminhamento, sem concluir por abuso.
  4. Sinéquia assintomática se observa; sintomática recebe estrogênio tópico; nunca separar à força.
  5. IST na criança pré-púbere, lesão anogenital sem explicação ou relato da criança: notificação obrigatória (compulsória) e comunicação ao Conselho Tutelar já na suspeita.
  6. Violência sexual recente é urgência: serviço de referência no mesmo dia para profilaxia do HIV (até 72 h), contracepção de emergência e proteção.

8.Fontes

  • Ortiz Movilla R, Acevedo Martín B. Vulvovaginitis infantil. Revista de Pediatría de Atención Primaria (AEPap), 2011. pap.es
  • Pontón Martino B, Cebrián Muiños C. Patologías genitourinarias más frecuentes. Pediatría Integral (SEPEAP/AEP), 2024. pediatriaintegral.es
  • Souto Romero H et al. Cirugía programada — calendario quirúrgico. Pediatría Integral, 2024. pediatriaintegral.es
  • NASPAG. Clinical Opinion — Diagnosis and Management of Lichen Sclerosis in Pediatric and Adolescent Patients, 2021 (resumo). contemporarypediatrics.com
  • CDC. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines — Sexual Assault or Abuse of Children, 2021. cdc.gov
  • NICE. CG89 — Child maltreatment: when to suspect maltreatment in under 18s. nice.org.uk
  • Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Atenção Integral às Pessoas com IST, 2022. PDF
  • Brasil. Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069/1990. planalto.gov.br
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Sociedade de Pediatria de São Paulo, Conselho Federal de Medicina. Manual de atendimento às crianças e adolescentes vítimas de violência, 2ª ed., 2018. sbp.com.br
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Vulvovaginites na infância e adolescência — atualização, 2025 (texto integral de acesso restrito). sbp.com.br