Puericultura · Primeiro ano

Consulta de puericultura — 1 mês

Ganho de peso, amamentação, choro e cólica, quadril, triagens pendentes, ferro do pré-termo e saúde mental materna

Roteiro para o pediatra na consulta de 1 mês: anamnese, exame físico, crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinas, triagens, orientações e sinais de alerta, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A consulta de 1 mês consta tanto do calendário da SBP (mensal até 6 meses) quanto do mínimo da Caderneta da Criança. Três prioridades: confirmar o ganho de peso e o sucesso da amamentação; fechar as pendências das triagens neonatais (resultado do pezinho, reconvocações e, se houve falha na orelhinha, diagnóstico audiológico até 3 meses); e cuidar de quem cuida, perguntando pela saúde mental materna — a AAP rastreia depressão materna já nesta visita. Reexamine quadril e reflexo vermelho. A vitamina D 400 UI/dia segue para todos (SBP, nov/2024). A mudança recente mais relevante está no ferro: pela SBP 2026, o pré-termo e o recém-nascido com peso < 2.500 g iniciam ferro com 30 dias em dose por kg conforme o peso de nascimento; o lactente a termo sem risco não recebe ferro agora. Não há vacina prevista para 1 mês nos calendários SBP 2026/2027 e PNI 2026: é hora de conferir BCG, hepatite B e a proteção contra o VSR.

1.Objetivos da consulta

  • Avaliar o ganho ponderal e a técnica de amamentação.
  • Fechar pendências das triagens neonatais.
  • Reexaminar quadril, reflexo vermelho, coração e genitália.
  • Iniciar ferro no pré-termo e no baixo peso (SBP 2026) e manter vitamina D.
  • Orientar sobre choro, cólica e sono seguro.
  • Rastrear sofrimento emocional materno e fortalecer a rede de apoio.

2.Anamnese dirigida

  • Alimentação
    • Aleitamento exclusivo? Frequência e duração das mamadas; mamadas noturnas.
    • Dor, fissuras, mastite, percepção de "leite fraco" ou insuficiente.
    • Uso de fórmula, água, chá ou chupeta; em uso de fórmula, volume e preparo.
  • Eliminações: diurese (fraldas molhadas por dia); padrão das fezes (variação ampla no bebê amamentado; perguntar por fezes claras).
  • Sono: posição, local, compartilhamento de cama.
  • Choro e cólica: horário, duração, fatores de melhora; resposta ao colo; sinais de refluxo com prejuízo do ganho de peso.
  • Desenvolvimento: fixa o olhar, acompanha o rosto, reage a sons, começa a sorrir.
  • Intercorrências: febre, icterícia persistente, internações, uso de medicamentos.
  • Família e saúde mental dos cuidadores
    • Humor, choro fácil, ansiedade, insônia, sentimento de incapacidade.
    • Pensamentos de fazer mal a si ou ao bebê.
    • Apoio do parceiro e da família; retorno ao trabalho previsto.
  • Triagens e vacinas: resultado do pezinho; reteste ou diagnóstico da orelhinha; BCG e hepatite B aplicadas; monoclonal contra o VSR ou vacina materna.

3.Exame físico: o essencial nesta idade

  • Pele: icterícia prolongada (após 2 semanas no termo, 3 semanas no pré-termo) pede dosagem de bilirrubina total e direta, mesmo com fezes de cor normal; acolia ou colúria tornam a investigação de colestase urgente; dermatite de fraldas; dermatite seborreica; hemangiomas em crescimento.
  • Crânio: fontanela anterior, suturas; início de assimetrias por posição.
  • Olhos: reflexo vermelho; fixação e seguimento do rosto.
  • Coração: sopros e pulsos femorais.
  • Abdome: cicatriz umbilical (granuloma), hérnia umbilical e inguinal.
  • Genitália: testículos palpáveis na bolsa; hidrocele.
  • Quadril: Ortolani, Barlow e, cada vez mais importante, limitação da abdução e assimetria de pregas.
  • Pescoço: torcicolo congênito (nódulo no esternocleidomastóideo, inclinação preferencial da cabeça).
  • Neurológico: tônus, reflexos primitivos simétricos; em prono, eleva o queixo.
  • Boca: monilíase oral.

4.Crescimento

  • Medidas: peso, comprimento e perímetro cefálico nas curvas OMS 2006 da Caderneta, por sexo; perímetro cefálico a cada consulta até 2 anos.
  • Esperado: peso de nascimento recuperado e ganho sustentado; como referência clássica, o ganho diário costuma ficar em torno de 25 a 35 g nos primeiros meses. Mais importante que o número isolado é a trajetória sobre a curva.
  • Quando se preocupar
    • Peso de nascimento ainda não recuperado (a NICE usa como referência 3 semanas).
    • Queda cruzando linhas de escore-z ou ganho insuficiente com mamadas ineficazes.
    • Perímetro cefálico que cruza linhas para cima ou para baixo.
  • Com ganho inadequado: observar a mamada, avaliar a produção de leite, a frequência e a transferência de leite, e rever em curto intervalo.

5.Desenvolvimento

Domínio Marcos esperados (1–2 meses)
Social Sorriso social surgindo a partir de cerca de 6 semanas
Visual Fixa e acompanha o rosto do cuidador
Motor Em prono, levanta o queixo; movimenta ativamente os membros
Motor fino Mãos começam a se abrir
Linguagem e audição Reage a sons; emite sons guturais

Sinais de alerta - Não fixa nem acompanha o rosto. - Não reage a sons. - Hipotonia ou hipertonia; assimetria persistente. - Irritabilidade extrema e inconsolável sem explicação.

Instrumento: Caderneta da Criança (7ª ed., 2024), faixa de 0 a 6 meses. Pela classificação clássica da Caderneta, a ausência de um marco da própria faixa é alerta (orientar estimulação e reavaliar em 30 dias); a ausência de marcos da faixa anterior é provável atraso (encaminhar).

6.Alimentação e suplementação

  • Aleitamento materno exclusivo em livre demanda, sem água, chás ou outros leites (Guia Alimentar MS, 2019).
  • A percepção de "pouco leite" costuma responder a mais mamadas e melhor pega; evite indicar fórmula sem avaliar a mamada e o peso.
  • Se o bebê não é amamentado: fórmula infantil adequada à idade, com preparo e diluição corretos.
  • Vitamina D: 400 UI/dia (SBP, nov/2024).
  • Ferro (SBP 2026)
    • Termo, peso adequado, sem risco: ainda não (ciclo I aos 6 meses; aos 4 meses só se houver uso de leite de vaca integral).
    • Pré-termo ou peso de nascimento < 2.500 g: iniciar com 30 dias — 2 mg/kg/dia (1.500–2.500 g), 3 mg/kg/dia (1.000–1.500 g), 4 mg/kg/dia (< 1.000 g), até 12 meses; depois 1 mg/kg/dia de 12 a 24 meses.
    • Transfundidos com mais de 100 mL: avaliação individual.

7.Vacinas desta idade

Vacina SBP 2026/2027 PNI 2026
Sem dose prevista com 1 mês Conferir e atualizar (BCG, hepatite B ao nascer) Conferir e atualizar (BCG, hepatite B ao nascer)
VSR Monoclonal para bebê de mãe não vacinada que ainda não recebeu (nirsevimabe 50 mg se < 5 kg ou 100 mg se ≥ 5 kg; ou clesrovimabe 105 mg) Nirsevimabe para prematuros até 36 semanas e 6 dias e para menores de 2 anos com comorbidades (na sazonalidade)
Preparação para os 2 meses DTPa, Hib, VIP, hepatite B, rotavírus, VPC20 ou VPC15, MenACWY e MenB Pentavalente, VIP, rotavírus (RV1) e VPC20

Confira a caderneta em toda consulta e consulte o documento "Vacinas – Atualizações 2026" do site. BCG sem cicatriz não se revacina (SBP).

8.Triagens e exames

  • Pezinho: confirme o resultado; se houve reconvocação, verifique se a nova coleta foi feita.
  • Orelhinha: se houve falha no reteste, o diagnóstico audiológico deve estar concluído até 3 meses (MS, regra 1-3-6). Crianças com indicador de risco precisam de acompanhamento audiológico mesmo com triagem normal.
  • Reflexo vermelho: repetir (ao menos 3 vezes por ano nos 3 primeiros anos, SBOP/SBP/CBO).
  • Quadril: exame clínico. A PrevInfad (AEP, 2026) indica ultrassonografia dirigida, idealmente entre 4 e 6 semanas, só para fatores de risco maiores (apresentação pélvica, parente de 1º grau afetado) ou exame alterado, e desaconselha a ultrassonografia universal.
  • Saúde mental materna: a AAP rastreia depressão materna nas consultas de 1, 2, 4 e 6 meses (por exemplo, com a Escala de Edimburgo, EPDS, que tem versão em português). No Brasil não há instrumento padronizado na consulta da criança, mas a pergunta direta é recomendável em toda consulta.
  • Exames laboratoriais: nenhum de rotina.

9.Orientações antecipatórias

  • Choro e cólica: explicar que o choro costuma atingir o pico por volta de 6 semanas e melhorar até os 3–4 meses; técnicas de acalmar (colo, contenção, ruído branco suave, balanço); pausas para o cuidador; nunca sacudir o bebê.
  • Sono seguro: barriga para cima, berço próprio no quarto dos pais, sem objetos no berço; não dormir com o bebê no sofá.
  • Quedas: nunca deixar o bebê sozinho no trocador, na cama ou no sofá.
  • Transporte: bebê-conforto voltado para trás.
  • Sol: o banho de sol não substitui a vitamina D.
  • Telas: nenhuma exposição antes dos 2 anos (SBP).
  • Fumo: ambiente livre de tabaco.
  • Vacinas dos 2 meses: antecipar possíveis reações e o uso de antitérmico conforme orientação.

10.Sinais de alerta e encaminhamento

  • Febre em lactente com menos de 3 meses: avaliação imediata.
  • Icterícia persistente com fezes claras ou urina escura: investigar colestase com urgência.
  • Ganho de peso insuficiente apesar de ajuste da amamentação.
  • Vômitos em jato progressivos (estenose hipertrófica de piloro) ou biliosos.
  • Choro inconsolável com prostração, palidez ou recusa alimentar.
  • Reflexo vermelho alterado; quadril com instabilidade ou limitação da abdução.
  • Falha na orelhinha sem diagnóstico agendado.
  • Pezinho alterado sem seguimento.
  • Sintomas depressivos maternos importantes: encaminhar para cuidado em saúde mental.

11.Comparação com as referências internacionais

Item SBP / MS AAP (Bright Futures) NICE / Healthy Child Programme Oxford / Cambridge AEP (PrevInfad)
Consulta com 1 mês Sim (SBP e Caderneta) Visita até 1 mês Sem revisão universal; próxima às 6–8 semanas Segue o HCP Controle de 1 mês em muitos programas regionais
Depressão materna Pergunta clínica, sem instrumento padronizado Rastreamento universal (1, 2, 4 e 6 meses) Bem-estar da mãe avaliado em todo contato Segue o HCP Sem rastreamento padronizado
Quadril Exame clínico seriado Exame clínico NIPE às 6–8 semanas Segue o HCP USG dirigida às 4–6 semanas só com risco ou exame alterado
Ferro no pré-termo 2–4 mg/kg/dia desde 30 dias, conforme peso Fora do calendário de consultas; a AAP também orienta ferro ao pré-termo amamentado a partir de 1 mês Sem profilaxia de rotina Segue o HCP Profilaxia no pré-termo e baixo peso
Vitamina D 400 UI/dia 400 UI/dia para amamentados (política da AAP, fora do calendário de consultas) 8,5–10 µg/dia se amamentado Segue o HCP 400 UI/dia se amamentado

Leitura. O Brasil e a AAP mantêm consulta médica com 1 mês; no Reino Unido, o próximo contato universal é às 6–8 semanas, e a Espanha costuma ter controle de enfermagem e pediatria. Todos convergem em vitamina D para o lactente amamentado e em exame clínico seriado do quadril; a Espanha delimita com clareza a ultrassonografia a grupos de risco. A maior divergência está na saúde mental materna: a AAP a rastreia de forma estruturada na consulta da criança, e o Reino Unido a avalia em todo contato, enquanto no Brasil depende da iniciativa do pediatra.

Pontos práticos
  1. Pré-termo ou baixo peso: prescreva o ferro com 30 dias em mg/kg conforme o peso de nascimento (SBP 2026).
  2. Falha na orelhinha: garanta o diagnóstico audiológico até 3 meses.
  3. Pergunte diretamente pela saúde emocional da mãe; considere a EPDS quando houver dúvida.
  4. Examine a abdução do quadril e o pescoço (torcicolo); pense em ultrassonografia se houver fator de risco maior.
  5. Não troque aleitamento por fórmula sem observar a mamada e analisar a curva.
  6. Revise BCG, hepatite B e proteção contra o VSR e prepare a família para as vacinas dos 2 meses.

12.Próxima consulta

Aos 2 meses, pelo calendário da SBP e pela Caderneta da Criança do MS, coincidindo com as primeiras vacinas do esquema primário.

13.Fontes