Puericultura · Segundo ano

Consulta de puericultura — 18 meses

Triagem universal de TEA com M-CHAT-R/F, linguagem, comportamento, prontidão para o desfralde e reforços vacinais

Roteiro para o pediatra na consulta de 18 meses: anamnese, exame físico, crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinas, triagens, orientações e sinais de alerta, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A consulta dos 18 meses tem uma tarefa que não pode faltar: a triagem universal de TEA com o M-CHAT-R/F, recomendada pela SBP (Manual de Orientação nº 150, 2024) para todas as crianças aos 18 e aos 24 meses, mesmo sem suspeita, e incluída na Caderneta da Criança (7ª ed., 2024). O instrumento é validado para 16 a 30 meses; escore de 3 a 7 exige a entrevista de seguimento, e escore de 8 a 20 leva a encaminhamento direto. Além disso, a consulta avalia linguagem (vocabulário, compreensão de ordens, faz de conta), comportamento e prontidão para o desfralde. A SBP 2026 mantém o ferro pausado no lactente a termo sem risco (a profilaxia termina aos 24 meses) e o prematuro segue com 1 mg/kg/dia até 24 meses; a vitamina D permanece em 600 UI/dia. Na rede privada, é a idade da 2ª dose de hepatite A. No plano internacional, a AAP também faz triagem universal aos 18 e 24 meses; a AEP (2026) e o Reino Unido não fazem rastreio populacional, uma divergência a conhecer.

1.Objetivos da consulta

  • Aplicar o M-CHAT-R/F e conduzir conforme o escore.
  • Avaliar linguagem, comportamento, brincadeira simbólica e interação social.
  • Avaliar crescimento e alimentação; manter vitamina D; ferro só para prematuros ou em risco.
  • Aplicar a 2ª dose de hepatite A (SBP), a influenza e conferir pendências.
  • Orientar desfralde (prontidão), sono, limites e segurança.

2.Anamnese dirigida

  • Alimentação: refeições com a família, autonomia com colher e copo, seletividade, volume de leite, mamadeira, sucos, doces e ultraprocessados.
  • Suplementos: vitamina D em uso; ferro (termo: pausado desde os 15 meses; prematuro: contínuo); vitamina A nas áreas do programa.
  • Sono: duração em 24 h (referência SBP 1–2 anos: 11–14 h), cochilo, rotina, despertares, resistência para dormir.
  • Eliminações: padrão intestinal; sinais de prontidão para o desfralde (fica seco por períodos maiores, avisa ou demonstra desconforto com a fralda suja, interesse pelo banheiro).
  • Desenvolvimento e comportamento:
    • quantas palavras usa, se entende ordens simples sem gesto, se aponta figuras;
    • se brinca de faz de conta, se traz objetos para mostrar, se olha para o rosto dos pais ao brincar;
    • interesses restritos, movimentos repetitivos, reações exageradas a sons ou texturas;
    • birras, agressividade, perda de habilidades.
  • Intercorrências: infecções, sibilância, otites de repetição (relevante para a fala), traumas.
  • Família e cuidadores: creche, rede de apoio, estresse parental, práticas disciplinares, violência doméstica, novo irmão.
  • Triagens e vacinas pendentes: vacinas dos 12 e 15 meses, dentista, consulta oftalmológica, avaliação auditiva.

3.Exame físico: o essencial nesta idade

  • Antropometria: peso, comprimento, PC e IMC nas curvas da OMS.
  • Observação do comportamento durante a consulta: contato visual, resposta ao nome, atenção compartilhada, uso de gestos, brincadeira com objetos; a consulta é um momento privilegiado de observação direta.
  • Marcha e aparelho locomotor: marcha estável, corre, sobe degraus com apoio; marcha persistente na ponta dos pés, assimetria, claudicação.
  • Olhos: reflexo vermelho bilateral (até 3 anos, pelo menos 3 vezes por ano); alinhamento ocular.
  • Otoscopia: otite média com efusão pode contribuir para atraso de fala.
  • Boca: dentes, cárie precoce, placa.
  • Genitália: testículos tópicos; aderências labiais.
  • Pele: palidez, lesões compatíveis com maus-tratos.
  • Pressão arterial: apenas se houver fator de risco antes dos 3 anos (SBP).

4.Crescimento

  • Curvas OMS 2006 (0–5 anos) da Caderneta da Criança: peso, comprimento, PC e IMC por sexo.
  • PC: medir em toda consulta até os 2 anos.
  • Estado nutricional (0–5 anos, escore-z, referência OMS usada pela SBP): acima de +1, risco de sobrepeso; acima de +2, sobrepeso; acima de +3, obesidade; abaixo de −2, magreza; abaixo de −3, magreza acentuada.
  • O que esperar: crescimento mais lento e estável; o apetite pode oscilar bastante de um dia para outro.
  • Quando se preocupar: cruzamento de linhas de escore-z, IMC em ascensão rápida (atenção a excesso de leite e ultraprocessados), baixa estatura ou PC fora de ±2 escores-z.

5.Desenvolvimento

Instrumentos: Caderneta da Criança (7ª ed.), faixa de 1,5 a 3,5 anos, e M-CHAT-R/F (incluído na Caderneta). Marcos de referência para 18–24 meses (conferir na Caderneta):

Domínio Marcos esperados
Motor grosso Anda com segurança; corre; chuta bola
Motor fino Faz torre de 3 cubos; rabisca; usa colher
Linguagem Vocabulário em expansão; aponta figuras quando nomeadas; entende ordens simples
Social e afetivo Tira peças de roupa; imita adultos; começa o faz de conta; mostra objetos ao cuidador

M-CHAT-R/F (SBP 2024):

  • Escore 0–2: baixo risco; repetir aos 24 meses.
  • Escore 3–7: aplicar a entrevista de seguimento; se o resultado for 2 ou mais, encaminhar para avaliação diagnóstica e intervenção.
  • Escore 8–20: encaminhar diretamente para avaliação diagnóstica e intervenção, sem aguardar a entrevista.
  • Triagem positiva não é diagnóstico; triagem negativa não afasta TEA se houver preocupação clínica ou dos pais.

Sinais de alerta:

  • Poucas palavras (menos de cerca de 6), não aponta, não entende ordens simples.
  • Não brinca de faz de conta; não mostra objetos; pouco interesse por outras crianças.
  • M-CHAT-R/F positivo.
  • Regressão de linguagem ou de habilidades sociais em qualquer idade.
  • Sinais de TEA a partir de 12 meses (SBP 2024): atraso de comunicação, falha na atenção compartilhada, uso repetitivo de objetos, alterações sensoriais, estereotipias.
  • Ausência de marcos da faixa anterior: provável atraso, encaminhar; ausência de marcos da faixa atual: alerta, estimular e reavaliar em 30 dias.

6.Alimentação e suplementação

  • Comida da família: 3 refeições e 2 lanches, à mesa, com a família e sem telas; alimentos in natura ou minimamente processados.
  • Sem açúcar e sem ultraprocessados até 2 anos; sem suco; água como bebida principal.
  • Leite: manter o aleitamento materno; leite de vaca não deve substituir refeições; volume excessivo reduz o apetite e favorece a deficiência de ferro.
  • Seletividade: oferecer o mesmo alimento várias vezes, em pequenas porções, sem pressão nem recompensa.
  • Ferro (SBP 2026):
    • termo sem risco adicional: pausado desde os 15 meses; a profilaxia termina aos 24 meses, sem novos ciclos;
    • pré-termo ou baixo peso: 1 mg/kg/dia contínuo até 24 meses.
  • Vitamina D (SBP 2024): 600 UI/dia.
  • Vitamina A (MS, PNSVA): nas áreas do programa, 200.000 UI a cada 6 meses (12 a 59 meses).
  • Creme dental (SBP): 2 vezes ao dia, creme com pelo menos 1.100 ppm de flúor, quantidade de um grão de arroz cru até 2 anos; escovação feita pelos pais.

7.Vacinas desta idade

Vacina SBP 2026/2027 PNI 2026
Hepatite A 2ª dose (6 meses após a 1ª) Dose única já aplicada aos 15 meses (conferir)
Influenza Anual Anual (6 meses a menores de 6 anos)
Meningocócica B Reforço no 2º ano, se ainda pendente Não oferecida (só CRIE)
Esquema dos 12 e 15 meses Conferir SCR/varicela/SCRV, pneumocócica, MenACWY, DTPa, Hib e VIP Conferir SCR, varicela, VPC20, MenACWY, DTP e VIP
VSR (grupos de risco) Nirsevimabe 200 mg de 12 a 23 meses com maior risco Nirsevimabe para menores de 2 anos com comorbidades, na sazonalidade

Confira a caderneta em toda consulta e consulte o documento Vacinas – Atualizações 2026 do site.

8.Triagens e exames

  • TEA: M-CHAT-R/F universal aos 18 meses (SBP; Caderneta da Criança). Repetir aos 24 meses.
  • Visão: reflexo vermelho (SBP/SBOP/CBO: pelo menos 3 vezes por ano nos 3 primeiros anos); a próxima consulta oftalmológica completa é recomendada entre 3 e 5 anos.
  • Audição: toda criança com atraso de fala ou suspeita de TEA deve fazer avaliação auditiva; manter acompanhamento das crianças com indicador de risco (MS).
  • Anemia: sem exames de rotina (SBP 2026); investigar se houver fator de risco ou sinais clínicos.
  • Saúde bucal: acompanhamento odontológico regular.
  • Pressão arterial: apenas em condições de risco antes dos 3 anos (SBP).

9.Orientações antecipatórias

  • Telas: nenhuma exposição antes dos 2 anos (SBP), inclusive passiva; sem telas nas refeições e antes de dormir.
  • Sono: 11–14 h em 24 h; rotina curta (até 30 minutos), horários regulares, adormecer na própria cama.
  • Disciplina positiva: rotina previsível, limites claros e consistentes, reforço do comportamento desejado; sem castigo físico; orientar como lidar com birras e mordidas.
  • Desfralde: iniciar apenas quando houver sinais de prontidão, sem pressão; muitas crianças ainda não estão prontas nesta idade.
  • Linguagem: leitura diária, conversa, nomear sentimentos e objetos, brincadeira de faz de conta com o adulto.
  • Segurança:
    • afogamento (piscinas, baldes, banheiras);
    • quedas de janelas e escadas; fixar móveis;
    • queimaduras (cozinha, líquidos quentes);
    • intoxicações (medicamentos, produtos de limpeza);
    • transporte em dispositivo de retenção adequado ao peso e à altura, no banco traseiro.
  • Saúde bucal: escovação noturna, sem mamadeira para dormir.

10.Sinais de alerta e encaminhamento

  • M-CHAT-R/F de alto risco (8–20) ou entrevista de seguimento positiva: avaliação diagnóstica e intervenção precoce, sem aguardar confirmação para iniciar a estimulação.
  • Regressão de linguagem ou social: avaliação imediata.
  • Vocabulário muito restrito, ausência de apontar e de faz de conta: avaliação auditiva e fonoaudiológica.
  • Não anda com segurança, quedas frequentes, assimetria motora.
  • Queda de canal de crescimento, PC fora de ±2 escores-z, IMC em ascensão rápida.
  • Reflexo vermelho alterado, estrabismo.
  • Sinais de violência ou negligência; sofrimento importante dos cuidadores.

11.Comparação com as referências internacionais

Item SBP / MS AAP (Bright Futures) NICE / Healthy Child Programme Oxford / Cambridge AEP (PrevInfad)
Consulta aos 18 meses SBP e MS: sim Sim Sem revisão de rotina; próxima revisão universal aos 2–2½ anos Segue o HCP; sem contato local específico nesta idade Parte do bloco de 12–18 m
Triagem de TEA M-CHAT-R/F universal aos 18 e 24 m M-CHAT-R/F universal aos 18 e 24 m Sem triagem populacional; detecção por vigilância e na revisão de 2–2½ anos Segue o HCP M-CHAT-R/F só em crianças de risco (16–30 m); vigilância para todos de 0 a 36 m (2026)
Triagem do desenvolvimento Vigilância pela Caderneta Triagem padronizada aos 18 m ASQ-3 aos 2–2½ anos Oxford: revisão aos 2–2½ anos em consulta com ASQ Vigilância; sinais de alerta aos 18 m
Ferro e anemia Termo: ferro pausado; sem exames de rotina Avaliação de risco Sem rotina Segue o HCP Rastreio só com fatores de risco
Saúde bucal Escovação fluoretada; dentista Serviço odontológico de referência + verniz fluoretado Saúde bucal na revisão de 2–2½ anos Segue o HCP 1.000 ppm, quantidade mínima

Leitura. O rastreio de TEA é o ponto de maior divergência nesta idade. Brasil (SBP e Caderneta) e AAP convergem na triagem universal com M-CHAT-R/F aos 18 e 24 meses. A AEP (PrevInfad, junho de 2026) considera a evidência insuficiente para o rastreio universal e reserva o instrumento a crianças de risco, com vigilância para todos; o Reino Unido não faz rastreio populacional e concentra a detecção na revisão de 2–2½ anos com ASQ-3. Todas as referências concordam que a preocupação dos pais e a regressão exigem avaliação imediata, e que a vigilância contínua do desenvolvimento é indispensável, com ou sem instrumento.

Pontos práticos
  1. Aplique o M-CHAT-R/F em toda criança de 18 meses, com a versão da Caderneta; registre o escore e repita aos 24 meses.
  2. Escore 3–7: faça a entrevista de seguimento na própria consulta ou agende retorno breve; escore 8–20: encaminhe direto.
  3. Diante de triagem positiva, peça avaliação auditiva e inicie estimulação sem aguardar o diagnóstico.
  4. Lembre a 2ª dose de hepatite A (rede privada) e confira os esquemas dos 12 e 15 meses.
  5. Mantenha telas zero e oriente disciplina positiva, sem castigo físico.
  6. Desfralde só com sinais de prontidão; explique à família que não há idade fixa.

12.Próxima consulta

Pelo calendário da SBP, as consultas passam a ser semestrais dos 18 meses aos 5 anos, e a próxima é aos 24 meses; a Caderneta da Criança do MS também prevê consulta aos 24 meses, quando se repete o M-CHAT-R/F.

13.Fontes