Puericultura · Primeiro ano

Consulta de puericultura — 2 meses

Primeiras vacinas do esquema primário, crescimento, sorriso social, amamentação e planejamento do retorno materno ao trabalho

Roteiro para o pediatra na consulta de 2 meses: anamnese, exame físico, crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinas, triagens, orientações e sinais de alerta, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Aos 2 meses começa o esquema primário de vacinas, e a consulta precisa acomodar a conversa sobre as diferenças entre a SBP 2026/2027 e o PNI 2026: a SBP recomenda DTPa, Hib, VIP, hepatite B, rotavírus, pneumocócica VPC20 ou VPC15 (esquema 3+1) e o início de MenACWY e MenB; o SUS aplica pentavalente, VIP, rotavírus (RV1) e, desde junho de 2026, a VPC20 em esquema 2+1. Na vigilância do desenvolvimento, o marco central é o sorriso social e o interesse por rostos — sua ausência é sinal precoce de risco para TEA (SBP 2024). Reexamine quadril, testículos e reflexo vermelho. Mantenha a vitamina D 400 UI/dia; o ferro segue apenas para o pré-termo e o baixo peso (SBP 2026). Pergunte pela saúde mental materna — a AAP a rastreia nesta visita — e comece a planejar o retorno ao trabalho com ordenha e armazenamento do leite.

1.Objetivos da consulta

  • Aplicar ou orientar as vacinas dos 2 meses e explicar as diferenças SBP × PNI.
  • Avaliar crescimento e amamentação.
  • Verificar sorriso social, fixação visual e reação a sons.
  • Reexaminar quadril, genitália, coração e reflexo vermelho.
  • Manter vitamina D e ferro do pré-termo; orientar sobre reações vacinais.
  • Planejar o retorno materno ao trabalho e avaliar a saúde emocional da família.

2.Anamnese dirigida

  • Alimentação
    • Aleitamento exclusivo; frequência das mamadas; sinais de saciedade.
    • Data prevista de retorno ao trabalho; interesse em ordenha.
    • Uso de fórmula, água, chá, chupeta.
  • Eliminações: diurese e fezes; constipação verdadeira (fezes duras) × intervalo longo do bebê amamentado.
  • Sono: local e posição; despertares; cama compartilhada.
  • Choro: evolução da cólica; consolabilidade.
  • Desenvolvimento e comportamento: sorri em resposta; olha para rostos; emite sons; sustenta a cabeça por instantes.
  • Intercorrências: febre, infecções, internações, medicamentos.
  • Família e cuidadores: humor e sono da mãe; apoio; quem cuidará do bebê após a licença; violência doméstica; tabagismo.
  • Triagens e vacinas: resultados do pezinho e da orelhinha; diagnóstico audiológico em andamento, se houve falha; BCG, hepatite B e VSR.

3.Exame físico: o essencial nesta idade

  • Olhos: reflexo vermelho; fixa e segue; alinhamento ocular (o estrabismo fixo em qualquer idade é significativo).
  • Crânio: fontanela; formato (plagiocefalia posicional); perímetro cefálico.
  • Pescoço: torcicolo congênito.
  • Coração: sopros, pulsos femorais.
  • Abdome: hérnias umbilical e inguinal.
  • Genitália: testículos na bolsa; hidrocele; fimose fisiológica (não retrair).
  • Quadril: limitação da abdução e assimetria de membros (sinais que a PrevInfad destaca aos 2 meses; com o passar das semanas, Ortolani e Barlow tornam-se menos úteis).
  • Pele: dermatite seborreica, dermatite de fraldas, hemangiomas.
  • Neurológico: tônus, reflexos primitivos, controle cefálico inicial em prono.

4.Crescimento

  • Medidas: peso, comprimento e perímetro cefálico nas curvas OMS 2006 da Caderneta, por sexo.
  • Esperado: trajetória paralela a uma linha de escore-z; o ganho diário clássico de 25 a 35 g serve apenas como referência.
  • Quando se preocupar
    • Cruzamento de linhas de escore-z para baixo.
    • Perímetro cefálico que acelera (hidrocefalia) ou estaciona (microcefalia).
    • Ganho excessivo com fórmula em volumes altos.
  • A NICE (NG194) recomenda pesar e medir o perímetro cefálico na 1ª semana e por volta de 8 semanas; no Brasil, as medidas são feitas em toda consulta.

5.Desenvolvimento

Domínio Marcos esperados (2–4 meses)
Social Sorriso social; resposta ativa ao contato; interesse por rostos
Motor grosso Em prono, levanta a cabeça apoiado nos antebraços (em progresso)
Motor fino Segura objetos colocados na mão
Linguagem Emite sons; começa a rir
Visão e audição Segue objetos e pessoas; reage à voz

Sinais de alerta - Ausência de sorriso social e desinteresse por rostos; contato visual ausente ou inconsistente (sinais precoces de TEA, SBP 2024). - Não reage a sons. - Mãos persistentemente fechadas com polegar incluso; hipertonia ou hipotonia. - Assimetria persistente de movimentos.

Instrumento: Caderneta da Criança (7ª ed., 2024), faixa de 0 a 6 meses; ausência de marco da própria faixa é alerta (estimular e reavaliar em 30 dias).

6.Alimentação e suplementação

  • Aleitamento materno exclusivo até 6 meses, sem água, chá, suco ou outros leites (Guia Alimentar MS, 2019).
  • Retorno ao trabalho: ensine a ordenha manual ou com bomba, o armazenamento e a oferta do leite em copinho; incentive a amamentação nos períodos em casa.
  • Vitamina D: 400 UI/dia (SBP, nov/2024).
  • Ferro (SBP 2026): pré-termo e baixo peso mantêm 2 a 4 mg/kg/dia conforme o peso de nascimento; termo sem risco não recebe ferro nesta idade.

7.Vacinas desta idade

Vacina SBP 2026/2027 PNI 2026
Difteria, tétano, coqueluche DTPa (preferida, menos reações) ou DTP Pentavalente (DTP de células inteiras + Hib + hepatite B)
Hib Sim Na pentavalente
Hepatite B Sim Na pentavalente
Poliomielite VIP VIP
Rotavírus RV1 ou RV5; 1ª dose até 11 meses e 29 dias RV1
Pneumocócica VPC20 ou VPC15 (esquema 3+1) VPC20 (esquema 2+1, desde junho de 2026)
Meningocócica ACWY Início a partir de 2 meses (preferida à MenC); doses seguintes conforme a marca Não aos 2 meses (MenC aos 3 e 5 meses)
Meningocócica B Início a partir de 2 meses (Bexsero®) Não oferecida (só CRIE)
  • Rotavírus: não repetir se a criança cuspir ou vomitar; completar com a mesma marca.
  • Bexsero®: a febre é mais comum; o paracetamol profilático nas duas primeiras doses é recomendado no Reino Unido — a SBP não o menciona, mas é uma opção a discutir.
  • Pré-termo: vacinar pela idade cronológica.

Confira a caderneta e consulte o documento "Vacinas – Atualizações 2026" do site.

8.Triagens e exames

  • Reflexo vermelho: repetir (ao menos 3 vezes por ano nos 3 primeiros anos, SBOP/SBP/CBO).
  • Quadril: exame clínico; ultrassonografia só com fator de risco ou exame alterado (PrevInfad 2026).
  • Audição: vigilância a cada consulta (reação a sons); falha na triagem neonatal exige diagnóstico até 3 meses (MS).
  • Pezinho: confirmar que todos os resultados foram entregues e normais.
  • Saúde mental materna: a AAP rastreia depressão materna nesta visita; no Brasil, pergunte ativamente.
  • Exames laboratoriais: nenhum de rotina.

9.Orientações antecipatórias

  • Reações vacinais: dor local, febre e irritabilidade nas primeiras 48 h; uso de antitérmico conforme orientação médica; procurar atendimento se houver choro persistente, hipotonia ou convulsão.
  • Quedas: o bebê começa a se mexer mais — nunca deixá-lo sozinho no trocador ou na cama.
  • Transporte: bebê-conforto voltado para trás, preso corretamente.
  • Brinquedos: seguros, sem peças pequenas, sem cordões.
  • Estímulo: conversar, cantar e olhar nos olhos do bebê; brincar de barriga para baixo apenas acordado e sob supervisão.
  • Sono seguro: barriga para cima, berço próprio no quarto dos pais, sem objetos soltos.
  • Telas: nenhuma exposição antes dos 2 anos (SBP).
  • Fumo: ambiente livre de tabaco.

10.Sinais de alerta e encaminhamento

  • Febre em lactente com menos de 3 meses, exceto a febre baixa e transitória nas primeiras 48 h após vacina, em bebê em bom estado geral: avaliar.
  • Ausência de sorriso social e de interesse por rostos: reavaliar em curto prazo e considerar encaminhamento.
  • Não reage a sons ou falha auditiva sem diagnóstico: encaminhamento audiológico.
  • Reflexo vermelho alterado, leucocoria ou estrabismo fixo: oftalmologista.
  • Limitação da abdução do quadril: ultrassonografia e ortopedista.
  • Testículo não palpável: registrar e reavaliar; persistência aos 6 meses exige encaminhamento (PrevInfad).
  • Perímetro cefálico cruzando linhas de escore-z.
  • Mãe com sinais de depressão: rede de saúde mental.

11.Comparação com as referências internacionais

Item SBP / MS AAP (Bright Futures) NICE / Healthy Child Programme Oxford / Cambridge AEP (PrevInfad)
Consulta Sim (SBP e Caderneta) Visita dos 2 meses Revisão de 6–8 semanas com visitador de saúde + exame NIPE pelo clínico geral Segue o HCP; Cambridge descreve revisão às 6 semanas e pesagem pelos próprios pais de 6 semanas a 2 anos Controle dos 2 meses
Exame físico estruturado Quadril, olhos, coração, genitália Exame completo NIPE: coração, quadril, olhos, testículos Segue o HCP Quadril, alinhamento ocular, reflexo vermelho, genitália
Depressão materna Pergunta clínica Rastreamento universal Saúde mental parental na revisão de 6–8 semanas Segue o HCP Vínculo e apoio familiar
Vitamina D 400 UI/dia 400 UI/dia para amamentados (política da AAP, fora do calendário de consultas) Vitamina D na revisão de 6–8 semanas Segue o HCP 400 UI/dia
Ferro Só pré-termo e baixo peso Fora do calendário de consultas (orientação da AAP só para pré-termo amamentado) Sem profilaxia de rotina Segue o HCP Só se houver risco

Leitura. Os 2 meses são o ponto de maior convergência do primeiro semestre: todas as referências têm um contato nesta idade, com exame físico estruturado (o NIPE britânico repete coração, quadril, olhos e testículos às 6–8 semanas), vitamina D e início das vacinas. A diferença está em quem faz e no que se rastreia: a AAP incorpora o rastreamento da depressão materna, e o Reino Unido divide a consulta entre o visitador de saúde e o clínico geral. No calendário vacinal, a SBP inclui MenACWY e MenB desde os 2 meses e pneumocócica em 3+1; o PNI, com VPC20 em 2+1, oferece um esquema completo.

Pontos práticos
  1. Explique à família que o esquema do SUS é completo; o da SBP acrescenta proteção individual na rede privada (MenB, ACWY desde 2 meses, pneumo 3+1).
  2. Rotavírus: a 1ª dose precisa ser dada até 11 meses e 29 dias; não perca a janela.
  3. Registre o sorriso social; se ausente, junto com desinteresse por rostos, reavalie em curto prazo.
  4. Examine a abdução do quadril e os testículos em toda consulta do semestre.
  5. Planeje o retorno ao trabalho com ordenha e oferta em copinho para proteger a amamentação exclusiva.
  6. Mantenha vitamina D 400 UI/dia e, no pré-termo, confira a dose de ferro pelo peso atual.

12.Próxima consulta

Pela SBP, aos 3 meses (consultas mensais até 6 meses); pela Caderneta da Criança do MS, a próxima consulta mínima é aos 4 meses. No SUS, a MenC aos 3 meses pode ser feita na sala de vacina.

13.Fontes