Puericultura · Primeiro ano

Consulta de puericultura — 3 meses

Consulta mensal da SBP com foco em controle cefálico, interação social, sono, amamentação e meningocócica conforme o calendário

Roteiro para o pediatra na consulta de 3 meses: anamnese, exame físico, crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinas, triagens, orientações e sinais de alerta, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A consulta de 3 meses é própria do calendário da SBP (mensal até 6 meses); não faz parte do mínimo da Caderneta do MS nem do calendário da AAP, e no Reino Unido corresponde apenas a uma revisão opcional de 3–4 meses. É uma consulta de vigilância: crescimento, controle cefálico, sorriso e riso, mãos na linha média, sono e amamentação. É o prazo-limite da regra 1-3-6: quem falhou na triagem auditiva neonatal deve ter diagnóstico audiológico concluído até 3 meses. Uma mudança importante: pela SBP 2026, iniciar ferro aos 3 meses não é mais regra para nenhum grupo — o lactente a termo sem risco começa aos 6 meses (ou aos 4 meses, se usa leite de vaca integral), e o pré-termo e o baixo peso já estão em uso desde 30 dias. A vitamina D segue em 400 UI/dia. No SUS, a meningocócica C é aplicada aos 3 meses; na rede privada, as doses seguintes de MenACWY e MenB dependem da marca usada.

1.Objetivos da consulta

  • Acompanhar crescimento e aleitamento.
  • Avaliar controle cefálico, interação social e uso das mãos.
  • Confirmar o diagnóstico audiológico de quem falhou na triagem neonatal.
  • Reexaminar quadril, olhos e genitália.
  • Atualizar vacinas (MenC no SUS; MenACWY e MenB conforme a marca na rede privada).
  • Orientar sono, prevenção de quedas e estímulo ao desenvolvimento.

2.Anamnese dirigida

  • Alimentação
    • Aleitamento exclusivo; mamadas noturnas; sinais de saciedade.
    • Retorno ao trabalho: ordenha, armazenamento, quem oferecerá o leite.
    • Oferta de água, chá, suco ou outros leites (não indicada).
  • Eliminações: diurese e fezes; constipação.
  • Sono: onde dorme, posição, despertares; rotina noturna.
  • Desenvolvimento e comportamento: sustenta a cabeça; ri alto; acompanha objetos; junta as mãos; leva as mãos à boca.
  • Reações às vacinas dos 2 meses: febre, choro prolongado, reações locais.
  • Intercorrências: infecções, internações, medicamentos em uso.
  • Família e saúde mental dos cuidadores: humor e cansaço dos pais, rede de apoio, planejamento da creche.
  • Triagens e vacinas pendentes: diagnóstico audiológico (se falha), reconvocações do pezinho, caderneta.

3.Exame físico: o essencial nesta idade

  • Olhos: reflexo vermelho; alinhamento ocular (reflexo luminoso corneano simétrico); segue objetos.
  • Crânio: fontanela anterior; plagiocefalia posicional (achatamento occipital, desvio da orelha); perímetro cefálico.
  • Pescoço: torcicolo; preferência persistente de rotação da cabeça.
  • Coração: sopros e pulsos femorais.
  • Abdome: hérnias.
  • Genitália: testículos na bolsa; hérnia inguinal; hidrocele.
  • Quadril: limitação da abdução e assimetria de pregas e de comprimento dos membros.
  • Pele: hemangiomas (fase de crescimento), dermatites.
  • Neurológico: controle cefálico na tração para sentar e em prono; tônus; simetria; mãos abertas na maior parte do tempo; reflexos primitivos em regressão progressiva.

4.Crescimento

  • Medidas: peso, comprimento e perímetro cefálico nas curvas OMS 2006 da Caderneta, por sexo.
  • Esperado: manutenção do canal de crescimento; desacelerações leves do ganho podem ocorrer, mas a trajetória deve seguir paralela às linhas de escore-z.
  • Quando se preocupar
    • Queda cruzando linhas de escore-z ou peso estacionado.
    • Perímetro cefálico abaixo de −2 ou acima de +2 escores-z, ou cruzando linhas.
    • Ganho muito acelerado em uso de fórmula (volume e diluição).
  • Plagiocefalia importante ou fontanela fechando precocemente: avaliar craniossinostose.

5.Desenvolvimento

Domínio Marcos esperados (em torno de 3 meses)
Motor grosso Controle cefálico em progresso; em prono, apoia-se nos antebraços e eleva a cabeça
Motor fino Mãos abertas; leva as mãos à linha média e à boca; segura objeto colocado na mão
Social Sorriso social consolidado; ri; responde ao contato
Linguagem Vocaliza em resposta à fala
Visão Segue objetos em arco amplo

Sinais de alerta - Não sustenta a cabeça em prono. - Mãos sempre fechadas (polegar incluso), assimetria ou hipertonia. - Ausência de sorriso social, desinteresse por faces, contato visual pobre, irritabilidade ao colo (sinais precoces de TEA antes de 12 meses, SBP 2024). - Não reage a sons nem à voz.

Instrumento: Caderneta da Criança (7ª ed., 2024), faixa de 0 a 6 meses. Ausência de marco da própria faixa: orientar estimulação e reavaliar em 30 dias; ausência de marcos da faixa anterior: encaminhar.

6.Alimentação e suplementação

  • Aleitamento materno exclusivo até 6 meses (Guia Alimentar MS, 2019): sem água, chá, suco ou papinhas.
  • Não antecipar a alimentação complementar; o interesse do bebê pela comida dos adultos ainda não é sinal de prontidão.
  • Vitamina D: 400 UI/dia (SBP, nov/2024).
  • Ferro (SBP 2026)
    • A indicação de iniciar ferro aos 3 meses em lactentes com risco, presente no consenso de 2021, foi substituída.
    • Termo sem risco: ciclo I de 10–12,5 mg/dia de 6 a 9 meses; se usa leite de vaca integral, início aos 4 meses.
    • Pré-termo e baixo peso: manter 2 a 4 mg/kg/dia (conforme o peso de nascimento), ajustando a dose ao peso atual.
  • Leite de vaca integral antes de 1 ano: desaconselhado tradicionalmente pela SBP; se já estiver em uso, antecipa o ferro.

7.Vacinas desta idade

Vacina SBP 2026/2027 PNI 2026
Meningocócica C / ACWY MenACWY: conforme a marca; com início aos 2 meses, Nimenrix® e Menveo® exigem intervalo de 2 meses, e a dose seguinte em geral fica para os 4 meses (seguir a bula) Meningocócica C (1ª dose)
Meningocócica B No esquema adotado pela SBP (2 doses com intervalo ≥ 2 meses + reforço), com início aos 2 meses a 2ª dose fica para os 4 meses Não oferecida (só CRIE)
Demais vacinas Conferir e atualizar; próximas doses aos 4 meses Conferir e atualizar; próximas doses aos 4 meses
  • Na rede privada, completar o esquema primário com a mesma marca sempre que possível.
  • A criança do SUS (MenC aos 3 e 5 meses e ACWY aos 12 meses) pode complementar na rede privada com MenB e reforços de ACWY.

Confira a caderneta e consulte o documento "Vacinas – Atualizações 2026" do site.

8.Triagens e exames

  • Audição: quem falhou no reteste da triagem neonatal deve ter diagnóstico audiológico até 3 meses e intervenção até 6 meses (MS, regra 1-3-6). Crianças com indicador de risco seguem em monitoramento mesmo com triagem normal.
  • Reflexo vermelho: repetir (ao menos 3 vezes por ano nos 3 primeiros anos, SBOP/SBP/CBO).
  • Quadril: exame clínico; se houver fator de risco maior (apresentação pélvica, parente de 1º grau afetado) ou exame alterado e a ultrassonografia ainda não foi feita, solicite agora.
  • Hemograma e ferritina: não fazem parte da rotina (SBP 2026).
  • Saúde mental dos cuidadores: pergunte sobre humor, sono e apoio.

9.Orientações antecipatórias

  • Brincar de barriga para baixo: várias vezes ao dia, sempre acordado e sob supervisão, para fortalecer pescoço e tronco e prevenir plagiocefalia.
  • Rolar: o bebê pode rolar a qualquer momento — nunca deixá-lo sozinho em superfícies altas.
  • Objetos pequenos: o bebê leva tudo à boca; manter fora do alcance moedas, botões, baterias e peças pequenas.
  • Sono: barriga para cima, berço próprio no quarto dos pais, sem objetos; começar uma rotina curta e previsível antes de dormir.
  • Transporte: bebê-conforto voltado para trás.
  • Estímulo: conversar, responder às vocalizações, cantar, mostrar rostos e objetos coloridos.
  • Telas: nenhuma exposição antes dos 2 anos (SBP).
  • Creche: orientar sobre a escolha do cuidador e a continuidade da amamentação.

10.Sinais de alerta e encaminhamento

  • Falha auditiva sem diagnóstico concluído: encaminhamento prioritário.
  • Não sustenta a cabeça, mãos persistentemente fechadas, hipertonia ou assimetria: avaliação neurológica.
  • Ausência de sorriso social e desinteresse por rostos: reavaliar e considerar encaminhamento precoce.
  • Estrabismo fixo, reflexo vermelho alterado ou leucocoria: oftalmologista.
  • Quadril com limitação da abdução: ultrassonografia e ortopedista.
  • Plagiocefalia com suspeita de craniossinostose.
  • Queda na curva de peso ou de perímetro cefálico.
  • Febre alta, prostração, recusa alimentar: atendimento imediato.

11.Comparação com as referências internacionais

Item SBP / MS AAP (Bright Futures) NICE / Healthy Child Programme Oxford / Cambridge AEP (PrevInfad)
Consulta aos 3 meses SBP sim; fora do mínimo do MS Sem visita nesta idade Revisão opcional de 3–4 meses (não obrigatória) Segue o HCP; revisão local de 3 meses não localizada Sem bloco específico (faixa de 2–4 meses)
Diagnóstico audiológico Até 3 meses após falha (1-3-6) Triagem neonatal com seguimento Triagem auditiva neonatal Oxford: audiologia infantil do OUH segue as falhas Triagem universal e seguimento dos grupos de risco
Desenvolvimento Caderneta (vigilância) Sem instrumento nesta idade ASQ na revisão opcional Segue o HCP Vigilância (Haizea-Llevant)
Ferro Não é mais iniciado aos 3 meses (SBP 2026) Sem visita nesta idade Sem profilaxia de rotina Segue o HCP Só grupos de risco
Vitamina D 400 UI/dia 400 UI/dia para amamentados (política da AAP, fora do calendário de consultas) 8,5–10 µg/dia se amamentado Segue o HCP 400 UI/dia se amamentado

Leitura. A consulta dos 3 meses é uma particularidade brasileira: a SBP mantém contato médico mensal no primeiro semestre, enquanto a AAP salta dos 2 para os 4 meses e o Reino Unido oferece apenas uma revisão opcional. Há convergência na meta de diagnóstico auditivo precoce e na vitamina D para o lactente amamentado. No ferro, a SBP 2026 aproximou o Brasil do modelo do MS e retirou a indicação de início aos 3 meses, mas o país segue mais intervencionista que Espanha e Reino Unido, que restringem a profilaxia aos grupos de risco.

Pontos práticos
  1. Use a consulta para fechar o diagnóstico audiológico de quem falhou na triagem — o prazo é 3 meses.
  2. Não inicie ferro aos 3 meses no lactente a termo sem risco (SBP 2026); planeje para os 6 meses, ou 4 meses se houver leite de vaca integral.
  3. Controle cefálico e mãos abertas são os marcos-chave; mãos sempre fechadas merecem exame neurológico cuidadoso.
  4. Oriente o tempo de barriga para baixo acordado para prevenir plagiocefalia.
  5. Na rede privada, confira a marca da MenACWY e da MenB para definir as datas das próximas doses.

12.Próxima consulta

Aos 4 meses, tanto pelo calendário mensal da SBP quanto pela Caderneta da Criança do MS, com a segunda dose do esquema primário de vacinas.

13.Fontes