Puericultura · Primeiro ano

Consulta de puericultura — 6 meses

Introdução alimentar, início do ciclo I de ferro profilático, vacinas do 6º mês e primeira dentição

Roteiro para o pediatra na consulta de 6 meses: anamnese, exame físico, crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinas, triagens, orientações e sinais de alerta, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Três temas não podem faltar: introdução da alimentação complementar com manutenção do aleitamento materno, início do ciclo I de ferro profilático e vacinas do 6º mês, que agora incluem influenza e COVID-19 na rotina. A grande mudança é o ferro: a SBP 2026 (17/03/2026) substituiu o consenso de 2021 e recomenda, para o lactente a termo sem risco adicional, dose fixa de 10–12,5 mg/dia de ferro elementar dos 6 aos 9 meses, seguida de pausa de 3 meses, unificando a conduta com o PNSF do MS, e não recomenda hemograma de rotina no lactente saudável. A vitamina D segue em 400 UI/dia. É a janela para a primeira consulta oftalmológica completa (6–12 meses) e para orientar a escovação desde o primeiro dente. No exame, atenção a testículos (criptorquidia persistente aos 6 meses deve ser encaminhada), quadril, alinhamento ocular e sinais precoces de TEA.

1.Objetivos da consulta

  • Avaliar crescimento e desenvolvimento, com atenção a sinais precoces de TEA.
  • Orientar a introdução da alimentação complementar responsiva, sem açúcar e sem ultraprocessados.
  • Iniciar o ferro profilático (ciclo I) e manter a vitamina D; vitamina A nas áreas do programa.
  • Aplicar as vacinas do 6º mês e conferir as pendentes.
  • Programar a primeira consulta oftalmológica completa e a primeira consulta odontológica.
  • Acolher a família: retorno ao trabalho e saúde mental dos cuidadores.

2.Anamnese dirigida

  • Alimentação: aleitamento exclusivo até agora? Ordenha se a mãe voltou ao trabalho; uso de fórmula ou de leite de vaca (se antes dos 6 meses, o ferro deveria ter começado aos 4); oferta prévia de chás, sucos ou açúcar; sinais de prontidão (sustento do tronco, interesse pela comida).
  • Sono: duração em 24 h (SBP, 4–12 meses: 12–16 h), despertares, local e posição.
  • Eliminações: padrão intestinal, diurese.
  • Desenvolvimento: interesse por pessoas, balbucio, rolar, sentar com apoio, levar objetos à boca.
  • Intercorrências: infecções, internações, reações a vacinas.
  • Família e cuidadores: quem cuida, creche; humor e sono da mãe (a AAP rastreia depressão materna até os 6 meses); tabagismo, violência, insegurança alimentar.
  • Triagens e vacinas pendentes: pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho; seguimento audiológico se falha ou indicador de risco; caderneta.

3.Exame físico: o essencial nesta idade

  • Antropometria: peso, comprimento e perímetro cefálico (PC), registrados nas curvas da OMS.
  • Olhos: reflexo vermelho bilateral; fixação e alinhamento (Hirschberg, Brückner); estrabismo fixo em qualquer idade é significativo; leucocoria, nistagmo.
  • Quadril: limitação da abdução, assimetria de pregas e de comprimento dos membros. As manobras de Ortolani e Barlow perdem sensibilidade nesta idade.
  • Genitália: criptorquidia persistente aos 6 meses deve ser encaminhada (PrevInfad); hérnias.
  • Boca: erupção dentária, placa, candidíase.
  • Neurológico: tônus, controle de tronco, simetria, preensão voluntária; persistência de reflexos primitivos (como Moro) além do esperado merece atenção.
  • Pele e demais sistemas: hemangiomas, equimoses em lactente que ainda não se desloca (maus-tratos), sopros, pulsos femorais.

4.Crescimento

  • Curvas OMS 2006 (0–5 anos) da Caderneta da Criança: peso, comprimento, PC e IMC por sexo.
  • PC: em toda consulta até os 2 anos; fora de ±2 escores-z é alerta para o desenvolvimento.
  • Estado nutricional (0–5 anos, escore-z, referência OMS usada pela SBP): acima de +1, risco de sobrepeso; acima de +2, sobrepeso; acima de +3, obesidade; abaixo de −2, magreza; abaixo de −3, magreza acentuada.
  • O que esperar e quando se preocupar: o ganho de peso desacelera em relação ao primeiro trimestre; vale a trajetória, não o ponto isolado. Cruzamento de linhas de escore-z (queda na transição alimentar ou ganho excessivo com fórmula ou farinhas) e estagnação do PC pedem investigação.

5.Desenvolvimento

A Caderneta da Criança (7ª ed.) traz o Instrumento de Avaliação do Desenvolvimento Integral da Criança, com faixas de 0–6 meses e de 6 meses a 1,5 ano. Marcos de referência (conferir na Caderneta):

Domínio Marcos esperados
Motor grosso Rola; senta com apoio, progredindo para sentar sem apoio entre 6 e 9 meses
Motor fino Busca e pega objetos; leva à boca; começa a transferir de uma mão para a outra
Linguagem Balbucio; localiza a fonte do som; início da duplicação de sílabas
Social e afetivo Sorriso social; interesse por rostos; brinca de esconde-achou; estranha pessoas desconhecidas

Sinais de alerta:

  • Não senta nem com apoio, não rola, hipotonia ou hipertonia.
  • Não segura objetos ou não os leva à linha média; assimetria persistente.
  • Não localiza sons, ausência de balbucio.
  • Sinais precoces de TEA antes de 12 meses (SBP 2024): sorriso social pobre, desinteresse por rostos, contato visual ausente ou inconsistente, irritabilidade no colo.
  • Ausência de marcos da faixa anterior (0–6 meses) indica provável atraso: encaminhar. Ausência de marcos da própria faixa indica alerta: orientar estimulação e reavaliar em 30 dias.

6.Alimentação e suplementação

  • Aleitamento materno: manter, idealmente até 2 anos ou mais.
  • Alimentação complementar a partir dos 6 meses (MS, Guia Alimentar para Crianças Menores de 2 Anos, 2019; SBP 2023):
    • começar com 1 refeição principal (almoço) + 1 lanche de fruta; após cerca de 30 dias (7 meses), acrescentar a 2ª refeição principal e outro lanche de fruta;
    • alimentos in natura ou minimamente processados, amassados (não liquidificados), com variedade de grupos;
    • oferecer água desde o início da alimentação complementar;
    • sem açúcar, sem ultraprocessados e sem suco até 2 anos (preferir a fruta inteira); pouco sal;
    • sem mel antes de 1 ano (risco de botulismo);
    • alimentação responsiva, sem telas.
  • Leite de vaca antes de 12 meses: a SBP tradicionalmente o contraindica; a nota SBP 2023 relata a flexibilização da OMS (2023) para não amamentados de 6 a 11 meses. Ponto de divergência: individualizar.
  • Ferro (SBP 2026):
    • termo, peso adequado, sem risco adicional: 10–12,5 mg/dia de ferro elementar, ciclo I dos 6 aos 9 meses (3 meses contínuos), depois pausa de 3 meses; ciclo II dos 12 aos 15 meses;
    • pré-termo ou baixo peso (já em uso desde 30 dias): 1.500–2.500 g, 2 mg/kg/dia; 1.000–1.500 g, 3 mg/kg/dia; menos de 1.000 g, 4 mg/kg/dia, até 12 meses (depois 1 mg/kg/dia dos 12 aos 24 meses).
  • Vitamina D (SBP 2024): 400 UI/dia até 12 meses; grupos de risco, 1.200–1.800 UI/dia com monitoramento.
  • Vitamina A (MS, PNSVA): nas áreas cobertas (Norte, Nordeste, municípios selecionados das demais regiões e DSEI), 100.000 UI em dose única entre 6 e 11 meses, na UBS.
  • Flúor e creme dental (SBP): escovar desde o 1º dente, 2 vezes ao dia, com creme dental com pelo menos 1.100 ppm de flúor, em quantidade equivalente a um grão de arroz cru, com a escovação feita pelos pais.

7.Vacinas desta idade

Vacina SBP 2026/2027 PNI 2026
Difteria, tétano, coqueluche, Hib, hepatite B DTPa (acelular preferida) + Hib + hepatite B Pentavalente (DTP/Hib/hepatite B), 3ª dose
Poliomielite VIP, 3ª dose VIP, 3ª dose
Pneumocócica conjugada VPC20 ou VPC15, 3ª dose (esquema 3+1) Sem dose aos 6 meses (esquema 2+1, reforço aos 12 meses)
Rotavírus 3ª dose só se RV5 Esquema RV1 encerrado aos 4 meses
Meningocócicas ACWY e B Doses conforme a marca e a idade de início (conferir bula) MenC já aplicada aos 3 e 5 meses; MenB não oferecida
Influenza 1ª dose; 2 doses com 1 mês de intervalo na primeira vez 1ª dose; 2 doses com 30 dias de intervalo na primeira vez
COVID-19 Início da série, com a versão mais atualizada 1ª dose (2ª aos 7 meses e 3ª aos 9 meses)

Confira a caderneta em toda consulta e consulte o documento Vacinas – Atualizações 2026 do site.

8.Triagens e exames

  • Reflexo vermelho nesta consulta (SBP/SBOP/CBO: pelo menos 3 vezes por ano nos 3 primeiros anos).
  • Primeira consulta oftalmológica completa entre 6 e 12 meses (SBP/SBOP/CBO): encaminhar agora ou até os 12 meses.
  • Saúde bucal: com a erupção do 1º dente, orientar escovação e primeira consulta odontológica até 1 ano (SBP).
  • Anemia: sem hemograma de rotina no lactente saudável com alimentação e crescimento adequados (SBP 2026). Nos grupos de risco, hemograma, ferritina e PCR idealmente entre 9 e 12 meses.
  • Audição: vigilância; crianças com indicador de risco mantêm acompanhamento audiológico mesmo com triagem neonatal normal (MS).
  • Pressão arterial: apenas em condições de risco antes dos 3 anos (SBP).
  • Saúde mental materna: a AAP rastreia depressão perinatal até os 6 meses; no Brasil não há instrumento padronizado, mas perguntar ativamente é boa prática.

9.Orientações antecipatórias

  • Engasgo e reflexo de gag: explicar a diferença; evitar alimentos duros e redondos inteiros; ensinar a manobra de desengasgo.
  • Quedas: não deixar sozinha no trocador, na cama ou no sofá; andador contraindicado.
  • Intoxicações e objetos pequenos: medicamentos, produtos de limpeza e pilhas fora do alcance.
  • Transporte: bebê-conforto voltado para trás, no banco traseiro.
  • Sono seguro: dormir de barriga para cima, em berço sem objetos soltos; rotina curta e regular.
  • Telas: evitar qualquer exposição antes dos 2 anos, inclusive passiva (SBP).
  • Saúde bucal: escovação desde o 1º dente; não adoçar chupeta nem oferecer mamadeira para dormir.
  • Estímulo: conversar, cantar, ler e brincar no chão; nomear objetos e pessoas.
  • Tabagismo passivo: ambiente livre de fumo.

10.Sinais de alerta e encaminhamento

  • Queda de canal de crescimento ou PC fora de ±2 escores-z.
  • Reflexo vermelho alterado, leucocoria, estrabismo fixo: oftalmologia com prioridade.
  • Testículo não palpável ou fora da bolsa aos 6 meses: cirurgia pediátrica ou urologia.
  • Limitação da abdução do quadril ou assimetria: imagem e ortopedia.
  • Não senta com apoio, não segura objetos, não reage a sons, ausência de sorriso social ou de interesse por pessoas.
  • Suspeita de perda auditiva (falha na triagem sem diagnóstico até 3 meses).
  • Sintomas depressivos importantes ou risco no cuidador; sinais de violência ou negligência.

11.Comparação com as referências internacionais

Item SBP / MS AAP (Bright Futures) NICE / Healthy Child Programme Oxford / Cambridge AEP (PrevInfad)
Consulta aos 6 meses SBP: sim (mensal até 6 m, depois bimestral); MS: sim Sim Revisão de 6 meses opcional (dirigida), não obrigatória Segue o HCP; revisão opcional de 6 meses não encontrada no site de Oxford; Cambridge oferece pesagem por autoatendimento (6 semanas a 2 anos) Bloco específico de 6 meses
Ferro Profilaxia universal: 10–12,5 mg/dia dos 6 aos 9 m (SBP 2026, PNSF) Sem profilaxia universal nesta visita Sem profilaxia de rotina Segue o HCP Rastreio de anemia só em grupos de risco
Vitaminas Vit. D 400 UI/dia; vit. A só em áreas do PNSVA Vit. D 400 UI para amamentados (política AAP) Vitaminas A, C e D para todos de 6 meses a 5 anos Segue o HCP Vit. D 400 UI/dia no 1º ano para amamentados
Saúde bucal Escovação desde o 1º dente, ≥ 1.100 ppm, grão de arroz; dentista até 1 ano Avaliação de risco, verniz fluoretado desde a erupção Saúde bucal na revisão de 6 meses Segue o HCP 1.000 ppm (quantidade mínima); suplemento de flúor só com alto risco
Saúde mental materna Sem instrumento padronizado Rastreio de depressão materna (último aos 6 m) Avaliação parental em todo contato Segue o HCP Sem rastreio padronizado

Leitura. Há convergência sobre aleitamento, início da alimentação complementar aos 6 meses, vitamina D no primeiro ano e vigilância ocular. A principal divergência é o ferro: Brasil (SBP e MS, agora unificados) mantém profilaxia universal em ciclos, enquanto NHS e AEP reservam suplementação e rastreio a grupos de risco e a AAP não faz profilaxia universal em ciclos (mas dosa Hb/Ht em todos aos 12 meses). Só o Reino Unido estende vitaminas A, C e D a todas as crianças até 5 anos. A AAP se destaca pelo verniz fluoretado aplicado pelo pediatra e pelo rastreio formal de depressão materna, práticas sem equivalente sistemático no Brasil.

Pontos práticos
  1. Prescreva o ferro em dose fixa de 10–12,5 mg/dia por 3 meses (6 a 9 meses) e já agende a pausa; não peça hemograma de rotina no lactente saudável.
  2. Oriente por escrito: 1 refeição principal + fruta agora, 2ª refeição aos 7 meses, água, sem açúcar, suco ou ultraprocessados.
  3. Aproveite a consulta para aplicar influenza e COVID-19, que entraram na rotina do lactente, e agende a 2ª dose de ambas.
  4. Encaminhe para a primeira consulta oftalmológica completa e oriente a primeira consulta odontológica até 1 ano.
  5. Examine os testículos: criptorquidia persistente aos 6 meses não deve aguardar.
  6. Pergunte sobre o humor da mãe e a rede de apoio, sobretudo no retorno ao trabalho.

12.Próxima consulta

Pelo calendário da SBP, as consultas passam a ser bimestrais entre 6 e 12 meses (próxima por volta dos 8 meses); pela Caderneta da Criança do MS, a próxima consulta mínima é aos 9 meses. Lembrar a 2ª dose de COVID-19 aos 7 meses (PNI) e a 2ª dose de influenza após 1 mês.

13.Fontes