Puericultura · Primeiro ano

Consulta de puericultura — recém-nascido (1ª semana)

Primeira consulta entre 7 e 10 dias com foco em amamentação, peso, icterícia, triagens neonatais, vitamina D e saúde mental materna

Roteiro para o pediatra na consulta de RN (1ª semana): anamnese, exame físico, crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinas, triagens, orientações e sinais de alerta, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A SBP recomenda a primeira consulta de puericultura entre 7 e 10 dias de vida; a Caderneta da Criança (7ª ed., 2024) prevê uma consulta na 1ª semana. É a consulta de maior densidade do primeiro ano: rever pré-natal, parto e alta; conferir as cinco triagens neonatais (pezinho, orelhinha, olhinho, coraçãozinho e linguinha) e resolver pendências; avaliar a mamada e a evolução do peso; examinar icterícia, coto umbilical, quadril, genitália e reflexo vermelho; e perguntar ativamente pela saúde mental da mãe e pela rede de apoio. A vitamina D 400 UI/dia começa na 1ª semana (SBP, nov/2024). O ferro, nesta idade, só entra no pré-termo ou baixo peso, a partir de 30 dias (SBP 2026). Nas vacinas, conferir BCG e hepatite B e verificar a proteção contra o VSR: vacina materna a partir de 28 semanas ou anticorpo monoclonal no bebê (SBP), com nirsevimabe no SUS para prematuros e crianças com comorbidades desde fevereiro de 2026.

1.Objetivos da consulta

  • Rever história pré-natal, parto e alta e identificar fatores de risco.
  • Conferir resultados e pendências das triagens neonatais.
  • Avaliar aleitamento materno (pega, posição, frequência) e evolução do peso.
  • Detectar icterícia significativa, cardiopatia, displasia do quadril e alterações oculares.
  • Iniciar vitamina D e orientar sono seguro, transporte e cuidados com o coto.
  • Avaliar a saúde mental materna e a rede de apoio da família.
  • Conferir a caderneta de vacinas e a estratégia contra o VSR.

2.Anamnese dirigida

  • Gestação e parto
    • Idade gestacional, peso de nascimento, Apgar, tipo de parto, intercorrências e tempo de internação.
    • Sorologias maternas (sífilis, HIV, hepatites, toxoplasmose) e tipagem sanguínea materna e do RN.
    • Vacinas da gestante: dTpa, influenza, COVID-19 e VSR (Abrysvo®, a partir de 28 semanas) — e a data da dose de VSR em relação ao parto.
    • Registro de vitamina K e de hepatite B/BCG no resumo de alta.
  • Alimentação
    • Aleitamento materno exclusivo em livre demanda; número de mamadas (espera-se 8 a 12 vezes ao dia).
    • Dor mamilar, fissuras, ingurgitamento, uso de bicos, chupeta ou complemento.
    • Oferta de água, chá ou outros leites (não recomendados).
  • Eliminações: número de fraldas molhadas e evacuações; transição do mecônio.
  • Sono: onde e em que posição o bebê dorme.
  • Intercorrências: icterícia (início, progressão), febre, vômitos, recusa alimentar, sonolência excessiva.
  • Família e cuidadores
    • Humor materno, ansiedade, sono, sinais de depressão pós-parto; apoio do parceiro e da família.
    • Tabagismo no domicílio e violência doméstica.
    • Mãe que recebeu vacina de febre amarela durante a amamentação de bebê com menos de 6 meses deve suspender o aleitamento por 10 dias (SBP).
  • Triagens e vacinas: trazer a Caderneta e o resumo de alta para conferir cada teste.

3.Exame físico: o essencial nesta idade

  • Estado geral e hidratação: atividade, tônus, choro, mucosas.
  • Pele: icterícia (extensão craniocaudal, sempre à luz natural), cianose, palidez, lesões; observar hematomas ou lesões sem explicação (sinal de maus-tratos).
  • Crânio: fontanelas (tamanho e tensão), suturas, bossa ou céfalo-hematoma em resolução.
  • Olhos: reflexo vermelho bilateral, leucocoria, nistagmo, secreção.
  • Boca: palato, freio lingual (se Bristol 4–5 na alta, observar a mamada).
  • Coração: ritmo, sopros, pulsos femorais (coarctação).
  • Abdome e coto umbilical: sinais de onfalite (hiperemia periumbilical, secreção fétida), hérnias, visceromegalias.
  • Genitália: testículos na bolsa, hipospádia, genitália ambígua; em meninas, secreção vaginal fisiológica.
  • Quadril: manobras de Ortolani e Barlow, assimetria de pregas, limitação da abdução.
  • Neurológico: postura em flexão, reflexos primitivos (Moro, sucção, preensão palmar e plantar), simetria de movimentos, hipotonia ou hipertonia.
  • Observação da mamada sempre que possível.

4.Crescimento

  • Medidas: peso (bebê despido), comprimento e perímetro cefálico, registrados nas curvas OMS 2006 (0–5 anos) da Caderneta da Criança, por sexo.
  • Perda de peso: a perda fisiológica dos primeiros dias costuma ficar abaixo de 10% do peso de nascimento, com recuperação por volta de 10 a 15 dias. A diretriz britânica de déficit de crescimento (NICE NG75) usa como referência perda ≥ 10% e peso de nascimento não recuperado até 3 semanas.
  • Quando se preocupar
    • Perda próxima de 10% ou peso ainda em queda na consulta.
    • Poucas fraldas molhadas, fezes ainda meconiais, sonolência nas mamadas.
    • Perímetro cefálico abaixo de −2 ou acima de +2 escores-z.
  • Nesses casos, corrigir a técnica de mamada e reavaliar o peso em poucos dias.

5.Desenvolvimento

Domínio Marcos esperados (0–1 mês)
Motor Postura em flexão; movimentos simétricos dos quatro membros; em prono, eleva a cabeça brevemente
Visual e social Fixa o olhar no rosto do cuidador
Auditivo e linguagem Reage a sons (sobressalto, piscar, parada do movimento); choro e sons guturais
Reflexos Moro, sucção, busca e preensão presentes e simétricos

Sinais de alerta - Hipotonia ou hipertonia; assimetria persistente de movimentos ou de reflexos. - Ausência de reação a sons. - Perímetro cefálico fora de ±2 escores-z. - Sucção fraca ou incoordenada.

Instrumento: Caderneta da Criança (7ª ed., 2024), "Instrumento de Avaliação do Desenvolvimento Integral da Criança", faixa de 0 a 6 meses. Registre os marcos a cada consulta.

6.Alimentação e suplementação

  • Aleitamento materno exclusivo em livre demanda, sem água, chá, sucos ou outros leites, mesmo em dias quentes (Guia Alimentar MS para menores de 2 anos, 2019).
  • Corrija pega e posição na própria consulta; se houver complemento, discuta o motivo e o plano de retirada.
  • Vitamina D: 400 UI/dia desde a 1ª semana de vida (SBP, nov/2024). Não é necessário dosar 25(OH)D para iniciar. No pré-termo, 400 UI/dia quando o peso for superior a 1.500 g e houver boa tolerância enteral.
  • Ferro (SBP 2026)
    • Termo, peso adequado, sem risco: não há ferro nesta idade (o ciclo I começa aos 6 meses).
    • Pré-termo ou peso de nascimento < 2.500 g: iniciar com 30 dias de vida — 2 mg/kg/dia (1.500–2.500 g), 3 mg/kg/dia (1.000–1.500 g), 4 mg/kg/dia (< 1.000 g). Programe o início já nesta consulta.
  • Vitamina A: não se aplica nesta idade (programa do MS a partir de 6 meses).

7.Vacinas desta idade

Vacina SBP 2026/2027 PNI 2026
BCG Ao nascer, dose única, com peso > 2 kg; não revacinar quem não tem cicatriz; adiar até 6 meses se a mãe usou imunossupressor ou biológico na gestação Ao nascer
Hepatite B Nas primeiras 12 horas; filho de mãe HBsAg positiva recebe também imunoglobulina (idealmente nas primeiras 12 horas, até o 7º dia); peso ≤ 2 kg ou < 33 semanas: 4 doses (0, 2, 4, 6 meses) Ao nascer
VSR Vacina materna ou anticorpo monoclonal no bebê de mãe não vacinada, de preferência na maternidade — nirsevimabe 50 mg (< 5 kg) ou 100 mg (≥ 5 kg), ou clesrovimabe 105 mg Vacina materna desde 12/2025; nirsevimabe para prematuros até 36 semanas e 6 dias (qualquer época) e menores de 2 anos com comorbidades (na sazonalidade)

Se o bebê de mãe não vacinada (ou vacinada menos de 14 dias antes do parto) saiu da maternidade sem o monoclonal, providencie nesta consulta. Confira a caderneta e consulte o documento "Vacinas – Atualizações 2026" do site.

8.Triagens e exames

  • Teste do pezinho (Lei 14.154/2021, ampliação em 5 etapas, implantação desigual entre estados): confirme que a coleta foi feita, habitualmente entre o 3º e o 5º dia, e acompanhe o resultado e eventuais reconvocações.
  • Teste da orelhinha (MS, Guia Nacional de TAN, nov/2025): EOAE sem indicador de risco; EOAE + PEATE-A com indicador de risco. Falha: reteste em até 15 dias; falha no reteste, mesmo unilateral, exige encaminhamento imediato. Meta 1-3-6 (triagem até 1 mês, diagnóstico até 3, intervenção até 6).
  • Teste do olhinho: realizado antes da alta; repita o reflexo vermelho nesta consulta (SBOP/SBP/CBO recomendam ao menos 3 vezes por ano nos 3 primeiros anos).
  • Teste do coraçãozinho (SBP 2022): RN ≥ 35 semanas, entre 24 e 48 h. Normal: SpO₂ ≥ 95% e diferença ≤ 3% entre membro superior direito e inferior. Confirme o registro; se não foi feito, avalie pulsos e sopros com atenção redobrada.
  • Teste da linguinha (NT Conjunta MS nº 52/2023, protocolo de Bristol): escore 4–5 na alta indica avaliar a mamada nesta consulta; encaminhar à equipe multiprofissional só se houver interferência confirmada. A SBP pediu a revogação da obrigatoriedade e alerta para frenotomias desnecessárias.
  • Icterícia: a inspeção visual é imprecisa; se houver icterícia significativa, progressiva ou dúvida, dose a bilirrubina (transcutânea ou sérica) e interprete pela idade em horas e pelos fatores de risco, conforme o protocolo do serviço.
  • Pressão arterial: não é rotina antes dos 3 anos; meça só em condições de risco (prematuridade, cardiopatia, doença renal).

9.Orientações antecipatórias

  • Sono seguro: sempre de barriga para cima, em berço próprio no quarto dos pais, sem travesseiros, protetores, bichos ou cobertores soltos.
  • Transporte: bebê-conforto voltado para trás em toda viagem de carro.
  • Coto umbilical: manter limpo e seco; procurar atendimento se houver vermelhidão ao redor, secreção fétida ou sangramento.
  • Choro: nunca sacudir o bebê; ensine estratégias para acalmar e peça ajuda quando o cuidador estiver no limite.
  • Ambiente: casa livre de fumo.
  • Telas: evitar qualquer exposição antes dos 2 anos, inclusive passiva (SBP).
  • Aleitamento: não oferecer água ou chá; procurar ajuda cedo se houver dor ou dúvidas.

10.Sinais de alerta e encaminhamento

  • Febre ou hipotermia em recém-nascido: avaliação imediata.
  • Icterícia que progride para abdome e membros, icterícia após 2 semanas ou fezes claras (acolia) e urina escura: investigar colestase.
  • Recusa alimentar, sucção fraca, sonolência excessiva, vômitos biliosos.
  • Perda de peso ≥ 10% ou peso ainda em queda.
  • Cianose, desconforto respiratório, sopro com pulsos femorais diminuídos.
  • Reflexo vermelho ausente, assimétrico ou leucocoria: oftalmologista com urgência.
  • Ortolani ou Barlow positivo: ortopedista e ultrassonografia.
  • Falha no reteste da orelhinha: encaminhamento audiológico imediato.
  • Pezinho alterado ou reconvocação: seguir a orientação do serviço de referência.
  • Mãe com sintomas depressivos importantes ou ideação de autoagressão: acionar a rede de saúde mental.

11.Comparação com as referências internacionais

Item SBP / MS AAP (Bright Futures) NICE / Healthy Child Programme Oxford / Cambridge AEP (PrevInfad)
Momento da consulta SBP 7–10 dias; MS 1ª semana Visita aos 3–5 dias Revisão do visitador de saúde (health visitor) de 1 dia a 2 semanas (na prática 10–14 dias) Segue o HCP; Cambridge descreve visita nas 2 primeiras semanas Controle da 1ª semana
Triagem de cardiopatia Coraçãozinho universal, 24–48 h Oximetria após 24 h, antes da alta Exame clínico (NIPE) em até 72 h Rosie (Cambridge): oximetria de rotina às 4–8 h Ausculta cardíaca
Vitamina D 400 UI/dia desde a 1ª semana 400 UI/dia para amamentados (política da AAP, fora do calendário de consultas) 8,5–10 µg/dia para amamentados; dispensada com > 500 mL/dia de fórmula Segue o HCP 400 UI/dia para amamentados desde os primeiros dias
Quadril Ortolani/Barlow Exame físico NIPE em até 72 h Segue o HCP Exame de ambos os quadris; USG só com fator de risco ou exame alterado
Saúde mental materna Avaliação clínica, sem instrumento padronizado Rastreamento a partir da visita de 1 mês Bem-estar psicológico avaliado em todo contato pós-natal Segue o HCP Apoio familiar e indicadores de maus-tratos

Leitura. Há convergência ampla em amamentação exclusiva, sono seguro, confirmação das triagens metabólica e auditiva e exame clínico do quadril e dos olhos. O Brasil se destaca pelo pacote legal de cinco triagens e pela oximetria universal, que a AAP também adota e que o NIPE britânico não exige — embora o Rosie Hospital, em Cambridge, a faça de rotina. A vitamina D é universal no Brasil desde a 1ª semana, enquanto o Reino Unido a dispensa para quem toma mais de 500 mL/dia de fórmula. A principal lacuna brasileira é a ausência de rastreamento padronizado da depressão materna, que a AAP incorpora à consulta da criança.

Pontos práticos
  1. Não encerre a consulta sem conferir as cinco triagens e agendar o que estiver pendente (reteste da orelhinha em até 15 dias).
  2. Prescreva vitamina D 400 UI/dia e, no pré-termo ou baixo peso, já programe o ferro a partir de 30 dias conforme o peso de nascimento (SBP 2026).
  3. Verifique a proteção contra o VSR: se a mãe não foi vacinada, ou foi vacinada há menos de 14 dias do parto, o bebê precisa do monoclonal.
  4. Observe uma mamada; a maioria dos problemas de peso nesta fase se resolve com ajuste de pega e frequência.
  5. Pergunte à mãe como ela está dormindo e se sentindo; a depressão pós-parto afeta o bebê e raramente é relatada espontaneamente.
  6. No teste da linguinha com escore 4–5, avalie a mamada antes de indicar qualquer procedimento.

12.Próxima consulta

Com 1 mês de vida, tanto pelo calendário da SBP (consultas mensais até 6 meses) quanto pela Caderneta da Criança do MS. Antecipe o retorno em poucos dias se o peso ou a icterícia exigirem.

13.Fontes