Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF
A doença de Behçet (DB) é uma vasculite de vasos de qualquer calibre, arteriais e venosos, com crises e remissões, que se aproxima das doenças autoinflamatórias. Na criança começa em média por volta dos 12 anos, com aftas orais recorrentes em quase todos (a 1ª manifestação em 81%); o 2º sinal demora em média 3 anos (PEDBD 2016). Pense em DB diante de aftas ≥ 3 vezes por ano com úlcera genital (que deixa cicatriz), pseudofoliculite, lesões acneiformes ou eritema nodoso, uveíte, trombose ou sinais neurológicos: 3 desses 6 itens classificam a DB pediátrica (PEDBD 2016). A maioria das aftas recorrentes da criança não é Behçet: aftas simples, PFAPA (febre "de relógio" em pré-escolar, sem úlcera genital), neutropenia cíclica, doença inflamatória intestinal, doença celíaca e carências. Aftas isoladas e mucocutâneo leve ficam com o pediatra (🟢); a suspeita é 🟡, encaminhamento com prioridade ao reumatologista pediátrico, com exame oftalmológico mesmo sem queixa. São 🔴: olho vermelho doloroso, fotofobia ou baixa visual (oftalmologista com urgência), cefaleia com vômitos ou papiledema (trombose de seio venoso), déficit neurológico, membro inchado e doloroso, hemoptise, dor abdominal intensa ou sangramento e febre em uso de biológico.
1.O que é e como se apresenta
Definição (AEP 2020). Doença inflamatória sistêmica de causa multifatorial, com predisposição genética (HLA-B51 em cerca de 44%; 15–20% com casos na família) e disfunção da imunidade inata, sem autoanticorpos. A infiltração é perivascular, com trombose e necrose de capilares, veias e artérias de todos os tamanhos. Mais frequente na "rota da seda" (Turquia, Oriente Médio, Ásia), mas ocorre no Brasil; sem predomínio de sexo na criança. Início muito precoce ou familiar sugere a haploinsuficiência de A20 (gene TNFAIP3), quadro "Behçet-like" com febre, aftas, artrite, uveíte e colite (AEP 2020).
| Manifestação | Frequência na DB pediátrica e características (AEP 2020) |
|---|---|
| Aftas orais | 96–100%; 1ª manifestação em 81%; dolorosas, 2–10 mm, halo eritematoso e fundo amarelado, em gengiva, lábios, língua e orofaringe; curam em 5–10 dias sem cicatriz |
| Úlceras genitais | 55–83%, mais em meninas, por volta de 11–12 anos; maiores, mais profundas, bordas irregulares; deixam cicatriz; epididimite no menino |
| Pele | 22–53%: eritema nodoso, pseudofoliculite, nódulos acneiformes; patergia (pápula ou pústula > 2 mm 24–48 h após punção) |
| Olho | 35–45%, mais em meninos: panuveíte ou uveíte posterior, bilateral, vasculite retiniana, às vezes hipópio; principal determinante de sequela (catarata, sinéquias, edema macular, cegueira) |
| Articulações | 48–56%: artralgia ou artrite não erosiva de grandes articulações |
| Intestino | 40–59%: dor abdominal, diarreia (às vezes com sangue), úlceras sobretudo ileocecais; diferencial com doença de Crohn |
| Neurológico | Cefaleia em 44%; neuro-Behçet em 5–30%: parenquimatoso (tronco cerebral, meningoencefalite, convulsão, sinais piramidais) ou não parenquimatoso (trombose de seios venosos com hipertensão intracraniana, aneurismas) |
| Vascular | Trombose venosa em 15%: tromboflebite, trombose venosa profunda, de cava ou da veia central da retina; arterial em 3%: trombose e aneurismas, inclusive de artéria pulmonar; principal causa de morte na DB pediátrica |
| Febre | Episódios recorrentes em 43%, muitas vezes com aftas |
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Aftas orais recorrentes isoladas, criança bem, crescimento e exames normais, sem úlcera genital, olho, vaso ou SNC; ou DB já diagnosticada só mucocutânea, controlada | Seguimento pelo pediatra: tratamento tópico, higiene oral e dentista, diário das crises, investigar carências; na DB conhecida, com o reumatologista |
| 🟡 Moderada | Suspeita de DB: aftas ≥ 3 vezes por ano com úlcera genital ou cicatriz, pseudofoliculite, eritema nodoso, artrite ou dor abdominal e diarreia sem sinais de alarme; aftas intensas que impedem a alimentação; DB mucocutânea refratária; febre em bom estado só com azatioprina ou colchicina | Encaminhar com prioridade ao reumatologista pediátrico, com avaliação oftalmológica com lâmpada de fenda e fundo de olho mesmo sem sintomas; GI ao gastroenterologista; febre com imunossupressor convencional: avaliação no mesmo dia |
| 🔴 Grave | Olho vermelho doloroso, fotofobia, baixa visual, moscas volantes, hipópio; cefaleia intensa com vômitos, papiledema, diplopia, convulsão, déficit focal, alteração da consciência; membro edemaciado e doloroso, dor torácica, dispneia ou hemoptise (trombose, aneurisma de artéria pulmonar); dor abdominal intensa, sangramento digestivo, abdome agudo (perfuração); aftas que impedem beber, com desidratação; febre (axilar ≥ 37,5 °C) em uso de biológico, mesmo em bom estado | Olho: oftalmologista com urgência ou pronto-socorro com oftalmologia; demais: pronto-socorro/hospital (ver "Quando encaminhar") |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- Sexo masculino e início precoce: mais uveíte, pele e vasos (PEDBD 2016; AEP 2020).
- Uveíte posterior ou panuveíte, vasculite retiniana; neuro-Behçet; trombose ou aneurisma arterial.
- Acometimento intestinal (perfuração, sangramento).
- Imunossupressão de alto grau; tuberculose latente não tratada antes do anti-TNF.
3.Diagnóstico no consultório
O diagnóstico é clínico e costuma atrasar 3 a 6 anos (AEP 2020). Anote e fotografe as lesões, conte as crises de aftas no ano e examine a região genital (lesões ativas ou cicatrizes), a pele, as articulações e os olhos.
Critérios de classificação pediátricos — PEDBD 2016 (Koné-Paut, Ann Rheum Dis), adotados pela AEP
| Item (cada um de uma categoria) | Definição |
|---|---|
| Aftas orais recorrentes | ≥ 3 crises por ano |
| Úlceras ou aftas genitais | Tipicamente com cicatriz |
| Pele | Foliculite necrótica, lesões acneiformes, eritema nodoso |
| Olho | Uveíte anterior, uveíte posterior, vasculite retiniana |
| Neurológico | Exceto cefaleia isolada |
| Vascular | Trombose venosa, trombose arterial, aneurisma arterial |
≥ 3 itens classificam a DB pediátrica. Sensibilidade de 91,7% e especificidade de 42,9%; a patergia não melhora a especificidade; HLA-B51 não é critério (AEP 2020). A baixa especificidade obriga a excluir as outras causas (quadro abaixo). Para contexto, os critérios ICBD revisados (2014), de adultos, somam 2 pontos para aftas orais, genitais e lesão ocular e 1 para pele, vaso, sistema nervoso e patergia; ≥ 4 pontos (AEP 2020).
Exames que o pediatra pode pedir (AEP 2020): hemograma (incluindo hemogramas seriados se as aftas forem periódicas), PCR e VHS, função renal e hepática, albumina, urina tipo 1, coagulação, imunoglobulinas; ferritina, folato e vitamina B12; antitransglutaminase IgA com IgA total; calprotectina fecal se houver sintoma intestinal. Úlcera genital: sorologia para sífilis e pesquisa de herpes (e as demais IST no adolescente), conforme "Infecções sexualmente transmissíveis na adolescência", lembrando a úlcera de Lipschütz (não sexual). Com o especialista: HLA-B51, avaliação oftalmológica e cardiológica (ECG e ecocardiograma) mesmo sem sintomas, RM de encéfalo e angio-RM venosa se houver sinal neurológico, Doppler venoso, endoscopia, genética (TNFAIP3, MEFV) se início muito precoce ou familiar.
Diagnóstico diferencial das aftas recorrentes (coerente com "Febres periódicas e síndromes autoinflamatórias", nesta área)
| Quadro | O que aponta |
|---|---|
| Aftas recorrentes simples | A causa mais comum: aftas pequenas, sem febre, sem úlcera genital, sem outros órgãos; criança bem |
| PFAPA | Início antes de 5 anos; febre de 3–7 dias a cada 3–6 semanas, "de relógio", com faringite, adenite cervical e aftas (50%); bem entre as crises, PCR normal fora delas; sem úlcera genital, sem olho, sem trombose; febre cede em horas com dose única de prednisona ou prednisolona 0,5–2 mg/kg (SBP 2017); tende a desaparecer |
| Doença de Behçet | Escolar ou adolescente; aftas irregulares, sem periodicidade; úlcera genital com cicatriz, pseudofoliculite, patergia, uveíte, trombose, sinais neurológicos; história familiar |
| Neutropenia cíclica | Ciclos de cerca de 21 dias com febre, aftas, gengivite e infecções de pele; hemogramas seriados mostram o nadir (ver "Neutropenias na infância") |
| Febres hereditárias | FMF (serosite, MEFV), deficiência de mevalonato quinase (início no lactente, diarreia), haploinsuficiência de A20 (Behçet de início muito precoce) |
| Intestino e nutrição | Doença de Crohn, doença celíaca; carência de ferro, folato ou B12 |
| Infecção | Gengivoestomatite herpética (vesículas, 1º episódio), herpangina e mão-pé-boca, HIV; IST na úlcera genital |
| Outras | Lúpus (úlcera indolor no palato), medicamentos, síndrome MAGIC, Sweet |
4.Tratamento e seguimento
O pediatra trata as aftas simples, investiga carências e diferenciais, garante o exame oftalmológico, encaminha com prioridade, faz a triagem de tuberculose e hepatites antes dos imunossupressores, mantém as vacinas e acompanha crescimento e infecções. O especialista escolhe o tratamento por órgão e gravidade (EULAR 2018; AEP 2020), com oftalmologista, gastroenterologista, neurologista e hematologista. A SBP não tem documento sobre DB; o MS trata da uveíte (PCDT das Uveítes Não Infecciosas, Portaria Conjunta nº 13/2019, e incorporação do adalimumabe para crianças e adolescentes com uveíte não associada à AIJ — Conitec, recomendação de 17/06/2026, e Portaria SCTIE/MS nº 46, de 20/07/2026). Nos demais pontos, o site segue a AEP 2020 e a EULAR 2018, com a atualização EULAR 2025 (resumo), cujo texto integral não pôde ser aberto.
Por órgão (AEP 2020, com a EULAR 2018):
- Aftas e pele: tópico (lidocaína 2% em solução aquosa, corticoide tópico), higiene oral e dentista; colchicina de base nas aftas frequentes, nas úlceras genitais e no eritema nodoso; refratárias, azatioprina, apremilaste, anti-TNF ou talidomida (teratogênica) (AEP 2020); na atualização EULAR 2025 (resumo), apremilaste ou anti-TNF quando a colchicina falha ou não é tolerada.
- Uveíte posterior ou panuveíte: sempre imunossupressão sistêmica, prednisona + azatioprina (ou ciclosporina, anti-TNF); ameaça à visão, anti-TNF monoclonal, de preferência o infliximabe, na atualização EULAR 2025 (resumo). No SUS, o adalimumabe está incorporado para a uveíte não infecciosa pediátrica refratária não associada à AIJ (Portaria SCTIE/MS nº 46/2026). Uveíte anterior: colírio de corticoide e midriático pelo oftalmologista.
- Artrite: AINE, infiltração, colchicina; grave, prednisona < 0,5 mg/kg/dia com azatioprina, metotrexato ou anti-TNF. Intestino: confirmar por endoscopia, excluir lesão por AINE; prednisona com azatioprina ou sulfassalazina; graves, anti-TNF.
- Trombose venosa: prednisona com azatioprina, ciclofosfamida IV ou ciclosporina; anti-TNF se refratária. Anticoagulação sem consenso: a EULAR a admite com baixo risco de sangramento e aneurisma de artéria pulmonar excluído.
- Aneurisma arterial: corticoide em dose alta com ciclofosfamida IV; anti-TNF se refratário (AEP 2020). A atualização EULAR 2025 (resumo) passou a preferir o infliximabe, com a ciclofosfamida como alternativa.
- Neuro-Behçet parenquimatoso: pulso de metilprednisolona e prednisona com azatioprina, evitando a ciclosporina (neurotóxica); graves ou refratários, anti-TNF (AEP 2020), de preferência o infliximabe na atualização EULAR 2025 (resumo). Trombose de seio venoso: corticoide em dose alta (AEP 2020), com anti-TNF monoclonal e avaliação cirúrgica se houver hipertensão intracraniana com risco visual (atualização EULAR 2025, resumo).
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação e referência |
|---|---|---|---|---|
| Colchicina VO | 0,5–2 mg/dia, ajustada à gravidade e à tolerância digestiva | 1 tomada ou dividida | Contínua | AEP 2020 (Behçet). Diferença com a FMF: em "Febres periódicas e síndromes autoinflamatórias", o site usa as faixas por idade da EULAR/PReS 2024 (< 5 anos ≤ 0,5 mg/dia; 5–10 anos 0,5–1 mg/dia; > 10 anos 1–1,5 mg/dia; máx. 2 mg/dia), mas nem a AEP nem a EULAR estratificam a dose por idade no Behçet; o teto de 2 mg/dia é o mesmo. Diarreia; interações com macrolídeos e azólicos |
| Apremilaste VO | Adulto: 30 mg; criança ≥ 6 anos (psoríase): 20 a < 50 kg 20 mg; ≥ 50 kg 30 mg; sempre com titulação inicial | 12/12 h | Contínuo | Bula europeia (EMA): úlceras orais da DB só no adulto; psoríase pediátrica a partir de 6 anos e 20 kg (também FDA 2024). Na criança com DB, fora da bula; diarreia, náusea, cefaleia |
| Prednisona ou prednisolona VO | 1 mg/kg/dia (uveíte posterior, trombose); 0,5–1 (intestino); < 0,5 (artrite) | 1 vez ao dia | Reduzir conforme a resposta | AEP 2020; teto de 60 mg/dia como nas vasculites (SHARE 2019) |
| Metilprednisolona IV (pulso) | 30 mg/kg/dia (máx. 1 g) | 1 vez ao dia | 3–5 dias | AEP 2020; trombose grave, neuro-Behçet, uveíte grave; hospitalar |
| Azatioprina VO | 2–2,5 mg/kg/dia | 1 vez ao dia | Manutenção | Dose citada no Relatório Conitec nº 1.113/2026 para a uveíte posterior da DB (MS; azatioprina prevista no PCDT das Uveítes Não Infecciosas, 2019); a AEP 2020 não fixa dose; dosar TPMT; hemograma e transaminases |
| Adalimumabe SC | < 30 kg 20 mg; ≥ 30 kg 40 mg | A cada 14 dias | Contínuo | Bula (uveíte pediátrica a partir de 2 anos, com metotrexato), dose adotada no Relatório Conitec nº 1.113/2026; no SUS para a uveíte não infecciosa pediátrica não associada à AIJ (Portaria SCTIE/MS nº 46, de 20/07/2026); fora da bula nas outras manifestações da DB. Divergência: o PCDT da AIJ 2026 usa 24 mg/m² (máx. 40 mg) na uveíte da AIJ |
| Infliximabe IV | 5 mg/kg | Semanas 0, 2 e 6, depois a cada 8 semanas | Contínuo | Padrão do site: dose de uveíte do PCDT AIJ 2026; anti-TNF monoclonal preferido na uveíte grave, no vaso e no SNC (atualização EULAR 2025, resumo); fora da bula na DB e sem cobertura do SUS na DB |
Antes de imunossupressor ou biológico: PPD ou IGRA e radiografia de tórax, hepatites B e C, HIV, IgG para varicela, conforme "Biológicos na reumatologia pediátrica".
Vacinas (Manual dos CRIE 2023, como em "Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE)"): calendário completo e influenza anual; vivas contraindicadas com biológico e com corticoide ≥ 2 mg/kg/dia (até 10 kg) ou ≥ 20 mg/dia por ≥ 14 dias; vivas ≥ 4 semanas antes de iniciar. Colchicina isolada não é imunossupressora.
Seguimento: reumatologista e oftalmologista periódico, mesmo sem queixa ocular; crescimento, dentes, adesão; transição para o serviço de adultos.
O que não fazer: rotular aftas recorrentes de pré-escolar febril como Behçet sem excluir PFAPA e neutropenia cíclica; corticoide "de teste"; prescrever colírio de corticoide (é do oftalmologista); anticoagular trombose de DB sem o especialista (aneurisma de artéria pulmonar sangra); talidomida sem contracepção rigorosa.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
- Olho vermelho com dor, fotofobia, baixa visual, moscas volantes ou hipópio: oftalmologista com urgência ou pronto-socorro com oftalmologia, sem colírio de corticoide ou anestésico (como em "Olho vermelho que não é conjuntivite — uveíte, ceratite, episclerite e o olho nas doenças sistêmicas").
- Cefaleia intensa e persistente com vômitos, papiledema, diplopia, sonolência, convulsão, déficit focal (neuro-Behçet, trombose de seio venoso).
- Edema doloroso de membro, dor torácica, dispneia, hemoptise (trombose, embolia, aneurisma de artéria pulmonar).
- Dor abdominal intensa, sangramento digestivo, abdome agudo.
- Aftas que impedem a ingestão, com desidratação.
- Febre (axilar ≥ 37,5 °C) em uso de biológico, mesmo em bom estado; com imunossupressor convencional isolado (azatioprina, metotrexato, ciclosporina), febre em bom estado é 🟡 (avaliação no mesmo dia), e com toxemia, 🔴 (padrão do site).
Como encaminhar
- Contato prévio com o serviço (oftalmologia de urgência, neurologia, UTI pediátrica).
- Hemoptise ou dispneia: oxigênio para manter SpO2 entre 94% e 98%, acesso venoso, SAMU (192).
- Sinais neurológicos: horário de início, glicemia capilar, SAMU para hospital com RM e venografia.
- Não iniciar anticoagulante nem corticoide no consultório.
- Relatório: crises e fotos das lesões, exame oftalmológico prévio, medicamentos com dose e data do último biológico, PPD ou IGRA.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "Aftas que voltam muitas vezes são, na maioria das crianças, benignas. Anote quando aparecem, quanto duram e se há febre ou feridas em outros lugares."
- "Feridas nos genitais devem ser mostradas ao médico, mesmo que sarem sozinhas."
- "O exame dos olhos é obrigatório, mesmo sem queixa: a inflamação do olho pode começar sem dor."
- "Não pare a colchicina ou as injeções por conta própria."
- Procurar atendimento no mesmo dia (pronto-socorro ou oftalmologista) se houver: olho vermelho com dor, luz incomodando ou visão embaçada; dor de cabeça forte com vômitos, visão dupla, convulsão ou fraqueza de um lado; perna ou braço inchado e doloroso; tosse com sangue ou falta de ar; dor de barriga forte ou sangue nas fezes; febre em quem usa injeção para a imunidade.
7.Comparação com as referências
Versões consultadas: SBP — sem documento sobre DB (PFAPA: DC nº 1/2017); MS — PCDT das Uveítes Não Infecciosas (Portaria Conjunta nº 13, 11/09/2019) Relatório Conitec nº 1.113 (06/2026) e Portaria SCTIE/MS nº 46 (20/07/2026), adalimumabe na uveíte pediátrica não associada à AIJ; AAP — sem diretriz própria localizada; NICE — sem diretriz; NHS England D12/P/b (07/2015): infliximabe não financiado de rotina na uveíte pediátrica refratária; AEP — Enfermedad de Behçet, Protocolos de Reumatología (2020); Johns Hopkins — Vasculitis Center (adultos); Harvard — sem posição localizada; Oxford e Cambridge — sem protocolo local localizado. Apoio: PEDBD (2016), EULAR (2018; atualização 2025 lida só em resumo).
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Critérios | Sem documento | Sem PCDT de DB | Sem diretriz | Sem diretriz | PEDBD 2016 (≥ 3 de 6); ICBD no adulto | Página de adultos | Sem posição localizada | Segue o NICE |
| Aftas e pele | — | — | — | — | Tópico; colchicina 0,5–2 mg/dia; apremilaste, azatioprina, anti-TNF | Corticoide tópico, colchicina, dapsona; apremilaste (adulto) | — | Segue o NICE |
| Uveíte posterior | — | Azatioprina 2–2,5 mg/kg/dia; adalimumabe no adulto (2018) e na criança (Portaria nº 46/2026) | — | NHS England: infliximabe pediátrico não financiado de rotina (2015) | Prednisona + azatioprina; anti-TNF | — | — | Segue o NICE |
| Trombose | — | — | — | — | Corticoide + imunossupressor; anticoagular só sem aneurisma pulmonar | — | — | Segue o NICE |
| Neuro e aneurisma | — | — | — | — | Neuro: corticoide + azatioprina, sem ciclosporina; aneurisma: corticoide + ciclofosfamida; anti-TNF se refratário | — | — | Segue o NICE |
| Diferencial PFAPA | PFAPA: Thomas, dose única de corticoide (DC 2017) | — | — | — | PFAPA e HA20 no diferencial | — | — | Segue o NICE |
Leitura: há convergência em que o diagnóstico é clínico e de exclusão, nos critérios PEDBD para a criança (sensíveis, pouco específicos), na avaliação oftalmológica mesmo sem sintomas, no tratamento guiado pelo órgão acometido, na colchicina como base mucocutânea, na imunossupressão sistêmica obrigatória na uveíte posterior e na imunossupressão, e não na anticoagulação, como base da trombose. Diferenças: a atualização EULAR 2025 (resumo) passou a preferir o anti-TNF monoclonal (de preferência o infliximabe) na uveíte grave, no vaso e no SNC, enquanto a AEP 2020 coloca a azatioprina (ou a ciclofosfamida no aneurisma) com o corticoide em primeiro lugar e o anti-TNF na refratariedade; o apremilaste tem indicação só no adulto; a dose pediátrica de adalimumabe difere entre a bula, adotada pela Conitec e pelo site (20 mg abaixo de 30 kg; 40 mg a partir de 30 kg), e o PCDT da AIJ (24 mg/m² na uveíte); a colchicina tem faixas por idade na FMF, mas não no Behçet; o NHS England não financia o infliximabe de rotina na uveíte pediátrica. SBP sem posição; o site segue o Ministério da Saúde onde ele fala (uveíte: azatioprina e adalimumabe, na dose da bula) e, no restante, a AEP 2020 (critérios PEDBD e tratamento por órgão), atualizada pela EULAR; no diferencial com a PFAPA, a SBP 2017, como em "Febres periódicas e síndromes autoinflamatórias".
- Aftas recorrentes em pré-escolar com febre "de relógio" e criança bem entre as crises: pense primeiro em PFAPA e faça hemogramas seriados (neutropenia cíclica).
- Aftas com úlcera genital, pseudofoliculite, uveíte, trombose ou sinal neurológico: pense em Behçet; 3 itens do PEDBD classificam.
- Úlcera genital: examine, fotografe e afaste sífilis, herpes e outras IST antes de atribuí-la ao Behçet.
- Todo suspeito de Behçet faz exame oftalmológico com lâmpada de fenda e fundo de olho, mesmo sem queixa; olho vermelho doloroso ou baixa visual é urgência.
- Cefaleia intensa com vômitos ou papiledema em criança com Behçet é trombose de seio venoso até prova em contrário: pronto-socorro.
- Trombose no Behçet se trata com imunossupressão; anticoagulante só com o especialista, depois de excluir aneurisma de artéria pulmonar.
Veja também, nesta Biblioteca: Classificação e abordagem das vasculites na criança, Febres periódicas e síndromes autoinflamatórias, Arterite de Takayasu e Poliarterite nodosa e deficiência de adenosina deaminase 2 (DADA2) (nesta área); Olho vermelho que não é conjuntivite — uveíte, ceratite, episclerite e o olho nas doenças sistêmicas (Oftalmologia); Neutropenias na infância (fora da quimioterapia) e Trombose venosa e trombofilias na criança e no adolescente (Hematologia); Doença inflamatória intestinal na criança e no adolescente (Gastroenterologia); Infecções sexualmente transmissíveis na adolescência (Infectologia); A pele como sinal de doença sistêmica na criança (Dermatologia); Biológicos na reumatologia pediátrica (Imunoterapias); Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE) (Imunizações).
8.Fontes
- Koné-Paut I et al. Consensus classification criteria for paediatric Behçet's disease from a prospective observational cohort: PEDBD. Ann Rheum Dis, 2016;75:958–964. Europe PMC
- AEP. Calzada-Hernández J. Enfermedad de Behçet. Protoc diagn ter pediatr, 2020;2:201–212. PDF
- Hatemi G et al. 2018 update of the EULAR recommendations for the management of Behçet's syndrome. Ann Rheum Dis, 2018;77:808–818. Europe PMC
- RheumNow. EULAR 2025 Update — Behçet's Syndrome (resumo da atualização: Hatemi G et al., EULAR recommendations for the management of Behçet's syndrome — 2025 update, Ann Rheum Dis, 2026;85(6):1010–1025; texto integral não aberto). rheumnow.com
- Ministério da Saúde, Conitec. Relatório de Recomendação nº 1.113 — Adalimumabe para o tratamento de uveítes não infecciosas em crianças e adolescentes, junho de 2026 (cita o PCDT das Uveítes Não Infecciosas, Portaria Conjunta nº 13, de 11/09/2019; recomendação final de incorporação em 17/06/2026; posologia da bula). gov.br/conitec
- Ministério da Saúde. Portaria SCTIE/MS nº 46, de 20/07/2026 — incorpora o adalimumabe para uveítes não infecciosas em crianças e adolescentes não associadas à AIJ (Conass Informa nº 131/2026). conass.org.br
- NHS England. D12/P/b — Infliximab as anti-TNF alpha treatment option for paediatric patients with severe refractory uveitis, julho de 2015. PDF
- EMA. Otezla (apremilaste) — Resumo das características do medicamento (EPAR, português). PDF; Amgen, aprovação FDA na psoríase pediátrica, agosto de 2024. amgen.com
- Johns Hopkins Vasculitis Center. Behcet's Disease (página informativa). hopkinsvasculitis.org
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Síndrome PFAPA. Documento Científico nº 1, maio de 2017. PDF