Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF
A vasculite por IgA (VIgA), antiga púrpura de Henoch-Schönlein, é a vasculite primária mais frequente da criança: 90% dos casos antes dos 10 anos, média de 6 anos, muitas vezes após infecção de vias aéreas (SBP 2019). O diagnóstico é clínico: púrpura palpável ou petéquias com predomínio em membros inferiores e nádegas, sem plaquetopenia, mais dor abdominal, artrite ou artralgia, rim ou biópsia com IgA (EULAR/PRINTO/PReS 2010). Plaquetas baixas sugerem outro diagnóstico; púrpura com febre e mau estado é doença meningocócica até prova em contrário (🔴). A maioria é autolimitada e fica em casa: hidratação, repouso relativo e analgesia com paracetamol; anti-inflamatório só sem envolvimento renal (SBP 2019). O corticoide não previne a nefrite (SBP 2019; KDIGO 2025) e fica para a dor abdominal moderada a intensa e outras formas graves, por decisão do especialista ou do hospital. Dor abdominal intensa ou sangue nas fezes (invaginação), escroto agudo, síndrome nefrótica ou nefrítica e crise hipertensiva são 🔴. O prognóstico depende do rim: urina e pressão arterial no diagnóstico e ao menos mensalmente por 6 meses (KDIGO 2025), e seguimento de longo prazo com o reumatologista pediátrico (SBP 2019). A nefrite é conduzida conforme o documento de Nefrologia.
1.O que é e como se apresenta
Vasculite de pequenos vasos por imunocomplexos com IgA1 deficiente em galactose, que se depositam na pele, nas articulações, no intestino e no rim; é a mesma doença de base da nefropatia por IgA (ver "Nefropatia por IgA e Vasculite por IgA (Púrpura de Henoch-Schönlein)", Nefrologia). Epidemiologia (SBP 2019): 3 a 30 casos por 100.000 crianças por ano, predomínio masculino (1,5:1), mais no outono e no inverno; gatilhos possíveis: infecções de vias aéreas (30% a 50%), medicamentos e alimentos.
Critérios de classificação EULAR/PRINTO/PReS (Ankara 2008, publicados em 2010), adotados pela SBP (2019) e pela AEP (2020):
| Critério | Definição |
|---|---|
| Obrigatório | Púrpura (geralmente palpável) ou petéquias com predomínio em membros inferiores, não relacionada a plaquetopenia; distribuição atípica exige biópsia com IgA (AEP 2020) |
| + pelo menos 1 de | |
| Dor abdominal | Aguda, em cólica, difusa; inclui invaginação e sangramento digestivo |
| Histopatologia | Vasculite leucocitoclástica ou glomerulonefrite proliferativa com depósito predominante de IgA |
| Artrite ou artralgia | Aguda, com edema, dor ou limitação |
| Nefrite | Proteinúria > 0,3 g/24 h ou relação albumina/creatinina > 30 mmol/mg; hematúria > 5 hemácias/campo ou cilindros hemáticos |
Manifestações e frequências (SBP 2019):
- Pele (100%): petéquias e púrpura elevadas que não clareiam à vitropressão, em membros inferiores e nádegas, indolores; surtos a cada semana, por 1 a 2 meses, sem cicatriz. Edema subcutâneo doloroso de mãos, pés e couro cabeludo em cerca de 30%; lesões vesicobolhosas hemorrágicas em até 2%.
- Articulações (69% a 79%): artrite ou artralgia aguda e migratória de joelhos e tornozelos; pode preceder a púrpura e imitar febre reumática ou leucemia.
- Abdome (50% a 62%): dor periumbilical em cólica, vômitos, diarreia com sangue; precede a púrpura em cerca de 20% e imita apendicite. Dor intensa em 17% a 32%, sangramento digestivo em 10% a 17%. A complicação aguda mais grave é a invaginação (até 3,5%), em geral ileoileal; ultrassom é o exame de escolha.
- Escroto (9% a 20% dos meninos): edema escrotal agudo e doloroso (orquite ou orquiepididimite), às vezes antes da púrpura; o Doppler confirma e é obrigatório afastar torção. Petéquias na bolsa, sozinhas, não são orquite.
- Rim (20% a 80%): hematúria e/ou proteinúria, em geral transitórias e nos 3 primeiros meses; síndrome nefrótica, nefrítica, lesão renal aguda ou crônica em 1% a 5%, às vezes anos depois. Na série espanhola, a nefrite surgiu em 84% até a 4ª semana, 91% até a 6ª e 97% até o 6º mês (AEP 2020).
- Raros: hemorragia pulmonar, vasculite cerebral.
Curso: autolimitado em 2 a 6 semanas; recorrência em até 33%, em geral nos 4 meses seguintes, mais com envolvimento renal (AEP 2020).
Edema agudo hemorrágico do lactente (4 a 24 meses, grandes placas purpúricas em medalhão na face, orelhas e membros, com edema e bom estado) é considerado variante da VIgA pela SBP (2019): ver "Vasculites cutâneas e edema agudo hemorrágico do lactente".
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | Púrpura com ou sem artralgia ou artrite, dor abdominal leve ou ausente, bom estado, hidratado, aceitando via oral, plaquetas normais, PA normal e urina normal | Casa: hidratação, repouso relativo, paracetamol; urina e PA no diagnóstico, em 1 semana e depois mensalmente por 6 meses (KDIGO 2025); depois, seguimento de longo prazo com o reumatologista pediátrico (encaminhamento eletivo — SBP 2019). Hematúria microscópica isolada com PA e função renal normais mantém essa vigilância, sem anti-inflamatório (SBP 2019) |
| 🟡 Moderada | Urina alterada pelos critérios do documento de Nefrologia — proteinúria persistente, hematúria com proteinúria ou alteração da função renal —, sem síndrome nefrótica ou nefrítica; PA ≥ p95 sem sintomas; dor abdominal moderada sem sinais de obstrução ou sangramento, aceitando líquidos; artrite que impede andar; edema subcutâneo intenso, lesões bolhosas ou necróticas; envolvimento escrotal com torção já excluída; púrpura atípica ou recorrente | Urina alterada ou PA elevada: encaminhar com urgência ao nefrologista pediátrico (condutas renais no documento de Nefrologia); dor abdominal moderada: avaliação no mesmo dia em serviço com ultrassom, e corticoide por decisão do especialista ou do hospital; demais: reavaliação em 24–48 h e encaminhamento prioritário ao reumatologista pediátrico |
| 🔴 Grave | Dor abdominal intensa, vômitos persistentes ou biliosos, sangue nas fezes, distensão, letargia ou palidez (invaginação, isquemia, perfuração); escroto agudo doloroso sem torção excluída; síndrome nefrótica ou nefrítica, oligúria, edema importante, queda da função renal; crise hipertensiva ou hipertensão com sintomas; hemoptise ou dispneia (hemorragia pulmonar); convulsão, cefaleia intensa, alteração de consciência; desidratação ou recusa de via oral; púrpura com febre e mau estado, ou com plaquetopenia (outro diagnóstico) | Pronto-socorro/hospital imediato (cirurgião pediátrico, nefrologia, UTI conforme o caso): estabilizar, oxigênio para SpO2 entre 94% e 98% se necessário, acesso venoso, SAMU (192) se instável |
Fatores que elevam a gravidade e o risco renal
- Fatores de mau prognóstico renal (AEP 2020): início após os 8 anos, acometimento abdominal, púrpura persistente, síndrome nefrítica ou nefrótica (risco 12 vezes maior de dano renal permanente que só alteração do sedimento), hipertensão e insuficiência renal no início; meninas têm risco 2,5 vezes maior de sequela renal.
- Dor abdominal intensa ou sangramento digestivo e edema escrotal (complicações agudas — SBP 2019).
- Seguimento não garantido (sem acesso a urina e PA nos retornos).
3.Diagnóstico no consultório
É clínico na púrpura típica com plaquetas normais (SBP 2019; AEP 2020). Em toda criança com púrpura: vitropressão e palpação das lesões, temperatura, estado geral, PA com manguito adequado (bolsa ≈ 40% da circunferência do braço), fita urinária, palpação abdominal entre as cólicas, exame do escroto em todo menino e das articulações.
Exames:
- Hemograma com plaquetas (nunca baixas na VIgA — plaquetopenia aponta para PTI, leucemia, SHU ou coagulação intravascular), PCR e VHS (normais ou elevadas), coagulograma se houver dúvida.
- Urina tipo 1 (hematúria, dismorfismo, cilindros) e relação proteína/creatinina em amostra isolada; ureia e creatinina se a urina estiver alterada ou a PA elevada (SBP 2019; KDIGO 2025).
- Ultrassom abdominal na dor abdominal moderada a intensa (invaginação, edema de parede); Doppler escrotal no escroto doloroso, no serviço de urgência.
- Biópsia de pele só na púrpura atípica (lesões extensas ou difusas, dúvida diagnóstica), em lesão recente (< 24–48 h), porque os depósitos de IgA desaparecem depois (AEP 2020). Biópsia renal pelo nefrologista: síndrome nefrótica ou nefrítica, lesão renal aguda ou crônica, hematúria ou proteinúria > 0,1 g/m²/dia persistente por mais de 3 meses (SBP 2019); critérios de proteinúria do KDIGO 2025 no documento de Nefrologia.
Diagnóstico diferencial que não pode passar (SBP 2019; AEP 2020):
- Doença meningocócica e sepse — púrpura com febre, mau estado, lesões que progridem em horas (🔴).
- PTI e leucemia — petéquias com plaquetopenia; leucemia também com dor óssea e outras citopenias (ver "Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança").
- Abdome cirúrgico — apendicite, invaginação; torção testicular (ver "Escroto agudo").
- Lúpus, poliarterite nodosa, vasculites associadas ao ANCA, doença inflamatória intestinal, Behçet, febre familiar do Mediterrâneo; dengue, mononucleose, citomegalovírus; glomerulonefrite pós-estreptocócica; doença relacionada a IgG4.
- Maus-tratos — equimoses em locais atípicos com plaquetas e coagulação normais.
4.Tratamento e seguimento
Formas leves (a maioria) — suporte em casa (SBP 2019): hidratação; repouso relativo no primeiro mês, porque a atividade física pode reativar a púrpura; dieta conforme tolerância; remover o gatilho provável (medicamento suspeito, tratar infecção estreptocócica documentada). As lesões de pele não respondem a anti-inflamatório nem a anti-histamínico; colchicina ou dapsona ficam com o especialista na púrpura recidivante ou crônica.
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação e referência |
|---|---|---|---|---|
| Paracetamol (dor) | 10–15 mg/kg/dose | 4–6 h (máx. 5 doses/dia) | Enquanto houver dor; reavaliar após 48–72 h | Máx. 75 mg/kg/dia; teto por dose da apresentação (bulas: gotas 200 mg/mL máx. 35 gotas, suspensão 32 mg/mL máx. 15 mL e 100 mg/mL máx. 2,5 mL abaixo de 12 anos; comprimidos só a partir de 12 anos; nunca > 1 g/dose). Analgésico de escolha (SBP 2019; padrão do site) |
| Dipirona (dor) | 15 mg/kg/dose | 6 h (máx. 4 doses/dia) | Enquanto houver dor | Não usar < 3 meses ou < 5 kg (bula; padrão do site) |
| Naproxeno (artrite) | 10 mg/kg/dia | 12/12 h | 1 a 2 semanas | Só com artrite e sem envolvimento renal (sem hematúria, proteinúria, lesão renal), sem sangramento digestivo (SBP 2019) |
| Ibuprofeno (alternativa ao naproxeno) | 5–10 mg/kg/dose | 6–8 h (máx. 200 mg/dose e 800 mg/dia) | Curta | A partir de 6 meses; mesmas restrições do naproxeno; evitar na suspeita de dengue ou desidratação (padrão do site; SBP 177/2024) |
| Ranitidina (sintomas digestivos) | 5 mg/kg/dia | 12/12 h | Enquanto houver sintomas | SBP 2019 indica em todo paciente com sintomas gastrintestinais, mesmo leves. Nota (Anvisa): a partir de 09/2019 a Anvisa suspendeu a importação e o uso do insumo de vários fabricantes por contaminação com nitrosamina (NDMA), e lotes foram recolhidos em 2019–2020; a disponibilidade no Brasil é limitada; na falta, a escolha do protetor gástrico é do especialista |
| Prednisolona ou prednisona (formas graves) | 1–2 mg/kg/dia | 1x/dia | 3 a 7 dias, com redução em 2 a 6 semanas | SBP 2019. Máx. 60 mg/dia (AEP 2020). Dor abdominal moderada a intensa, sangramento digestivo, orquiepididimite, nefrite grave, hemorragia pulmonar, comprometimento neuropsiquiátrico. Na dor abdominal, só após afastar abdome cirúrgico (AEP 2020). Decisão do especialista ou do hospital |
| Metilprednisolona IV em pulso | 30 mg/kg/dia (máx. 1 g) | 1x/dia | 3 dias | SBP 2019: nefrite grave, sangramento digestivo, invaginação. Hospital |
O corticoide não previne a nefrite: não use "para proteger o rim" na criança sem acometimento renal ou com micro-hematúria isolada (SBP 2019; KDIGO 2025, Recomendação 1.9.1.1, grau 1B, e Practice Point 1.10.1.2). Ele encurta a dor abdominal e articular e reduz o risco de invaginação, mas não muda a evolução renal nem as recorrências (AEP 2020).
Nefrite: conduta do nefrologista pediátrico, conforme "Nefropatia por IgA e Vasculite por IgA" (Nefrologia).
O que não usar: anti-inflamatório com nefrite, hipertensão, sangramento digestivo, suspeita de dengue ou desidratação; ácido acetilsalicílico; corticoide antes de afastar abdome cirúrgico ou torção; anti-histamínico "para a púrpura".
Vigilância renal — conduta do site (igual à do documento de Nefrologia):
- Urina tipo 1 com relação proteína/creatinina e PA no diagnóstico, mesmo sem alteração inicial.
- Retorno em 1 semana e ao menos mensalmente por 6 meses (KDIGO 2025), e a cada recorrência da púrpura. A AEP (2020) e a UKKA/RCPCH (2022) começam com controles semanais.
- Depois, seguimento de longo prazo com o reumatologista pediátrico e função renal periódica, por toda a vida (SBP 2019): num estudo brasileiro, 28% das crianças sem nefrite nos 3 primeiros meses tiveram alteração renal anos depois. Na gestação futura, pré-natal atento (SBP 2019).
- Encaminhar com urgência ao nefrologista pediátrico (🟡) se houver proteinúria persistente, hematúria com proteinúria, alteração da função renal ou PA ≥ p95 sem sintomas (critérios do documento de Nefrologia). Síndrome nefrótica ou nefrítica, oligúria, edema importante, queda da função renal e crise hipertensiva ou hipertensão com sintomas são 🔴 (pronto-socorro).
Vacinas: sem restrição na forma leve; em uso de corticoide em dose alta ou imunossupressor, seguir "Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE)".
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
Todos os critérios da linha 🔴, em especial: dor abdominal intensa ou sangue nas fezes (invaginação), escroto doloroso até excluir torção, síndrome nefrótica ou nefrítica e crise hipertensiva (PA ≥ p95 + 30 mmHg abaixo de 13 anos; > 180/120 mmHg no adolescente; ou hipertensão com sintomas). Também: dor que não cede com analgesia oral e artrite que exige internação.
Como encaminhar
- Abdome: jejum, analgesia, sem corticoide antes do ultrassom e do cirurgião; hidratação IV se desidratada (ver "Invaginação intestinal na criança").
- Escroto: encaminhar sem pedir exame, com a hora do início da dor, em jejum (ver "Escroto agudo").
- Rim e PA: não baixar a PA no consultório nem dar nifedipino de liberação imediata; sem expansão se houver edema ou oligúria (ver "Crise hipertensiva na criança e no adolescente").
- Púrpura febril: ceftriaxona 100 mg/kg IV/IM (máx. 4 g) antes da transferência, se não atrasar a remoção (padrão do site); doença meningocócica é de notificação obrigatória (compulsória).
- Oxigênio para SpO2 entre 94% e 98% se necessário; acesso venoso; SAMU (192) se instável; contato prévio com o serviço.
- Relatório: início e evolução da púrpura, fotos, PA, fita urinária, hemograma, medicamentos já usados.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "As manchas são inflamação dos vasinhos, não falta de plaquetas; podem voltar em ondas por semanas e somem sem cicatriz."
- "Repouso relativo no primeiro mês: nada de esporte ou brincadeiras muito intensas, que podem trazer novas manchas."
- "Para dor, paracetamol (ou dipirona) na dose do peso. Não dê ibuprofeno ou outros anti-inflamatórios sem o médico liberar."
- "O mais importante é o rim: faça o exame de urina e meça a pressão em todos os retornos, todo mês por pelo menos 6 meses, mesmo sem manchas. Depois, o acompanhamento continua com o reumatologista."
- Procurar o pronto-socorro se houver: dor de barriga forte ou em crises, vômitos que não param ou verdes, sangue nas fezes, criança pálida e mole; testículo inchado ou dolorido; urina escura, com sangue ou em pouca quantidade; inchaço do rosto ou do corpo; dor de cabeça forte, convulsão ou sonolência; tosse com sangue ou falta de ar; manchas roxas com febre e criança abatida.
7.Comparação com as referências
Versões consultadas: SBP — DC de Reumatologia nº 5 (11/2019), o mais recente; MS — sem protocolo de VIgA localizado; AAP — sem diretriz localizada; NICE — sem diretriz NG (o resumo CKS não é acessível fora do Reino Unido e não é conteúdo do NICE); AEP — Borlán Fernández, Protocolos de Reumatología Pediátrica (2020); Johns Hopkins — sem posição pediátrica localizada; Harvard — Boston Children's Hospital, página Henoch-Schönlein purpura (sem data); Oxford e Cambridge — sem protocolo local localizado; no Reino Unido, UK Kidney Association/RCPCH (versão final 12/2022, publicada em 05/2023, processo acreditado pelo NICE). Apoio: EULAR/PRINTO/PReS 2010, SHARE 2019, KDIGO 2025.
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Diagnóstico | EULAR/PRINTO/PReS; plaquetas nunca baixas | Sem posição específica localizada | Sem diretriz localizada | Sem diretriz localizada | EULAR/PRINTO/PReS; biópsia de pele se atípica, lesão < 24–48 h | Sem posição específica localizada | Critérios do ACR | Sem protocolo local; UKKA: EULAR/PRINTO/PReS |
| Analgesia e AINE | Paracetamol; naproxeno só sem envolvimento renal | — | — | — | AINE ou paracetamol; AINE aceito com micro-hematúria isolada | — | Hidratação e analgesia | UKKA: analgesia adequada e repouso |
| Corticoide | Não previne nefrite; dor abdominal moderada a intensa, orquite, nefrite grave | — | — | — | Controverso; após afastar abdome cirúrgico; máx. 60 mg | — | Uma das opções | — |
| Vigilância renal | Urina e função renal por toda a vida | — | — | — | Semanal no 1º mês, quinzenal no 2º–3º, 6º e 12º mês | — | Sem duração definida | UKKA: urina frequente por 6 meses; PA no diagnóstico |
| Encaminhamento | Reumatologista em todos; nefrologista se nefrite | — | — | — | Nefrologia se proteinúria grave ou queda da filtração | — | — | UKKA: especialista se digestivo grave, nefrite significativa, SNC, pulmão |
| Internação | Formas graves (digestivo, nefrite, escroto) | — | — | — | Maioria ambulatorial | — | — | — |
Leitura: as referências convergem no diagnóstico clínico pelos critérios EULAR/PRINTO/PReS com plaquetas normais, no tratamento de suporte em casa na maioria dos casos, na ideia de que o corticoide não previne a nefrite e fica para as formas graves, e na necessidade de rastrear o rim mesmo com urina inicial normal, porque a nefrite surge quase sempre nos primeiros meses. As divergências: anti-inflamatório — a SBP o restringe a quem não tem nenhum envolvimento renal, a AEP o aceita com micro-hematúria isolada; frequência do rastreio — o KDIGO 2025 pede ao menos mensal por 6 meses, a AEP e a UKKA/RCPCH começam semanal, e a SBP estende o seguimento da função renal por toda a vida; corticoide — a SBP o indica sempre nas formas graves, a AEP o chama de controverso e fixa teto de 60 mg; protetor gástrico — só a SBP indica ranitidina de rotina nos sintomas digestivos. O Ministério da Saúde, a AAP e o NICE não têm protocolo específico. O site adota a SBP (critérios, analgesia, restrição do anti-inflamatório, indicações e doses do corticoide, seguimento de longo prazo) e, onde a SBP não fixa frequência, o mínimo do KDIGO 2025, igual ao documento de Nefrologia.
- Púrpura palpável em pernas e nádegas com plaquetas normais é vasculite por IgA; com febre e mau estado, trate como doença meningocócica (🔴).
- Em toda consulta: PA, fita urinária, abdome entre as cólicas e escroto em todo menino.
- Forma leve fica em casa com hidratação, repouso relativo e paracetamol; anti-inflamatório só sem qualquer alteração renal.
- Corticoide alivia a dor abdominal, mas não previne a nefrite: não use para "proteger o rim"; na dor moderada a intensa, só depois de afastar invaginação e abdome cirúrgico, por decisão do especialista ou do hospital.
- Dor abdominal intensa, sangue nas fezes, escroto doloroso, síndrome nefrótica ou nefrítica e crise hipertensiva vão ao pronto-socorro.
- Urina e PA no diagnóstico, em 1 semana e depois todo mês por 6 meses (KDIGO 2025); depois, seguimento de longo prazo com o reumatologista pediátrico e função renal (SBP 2019); urina alterada ou PA ≥ p95 sem sintomas: nefrologista pediátrico com urgência; nefrite segue o documento de Nefrologia.
Veja também, nesta Biblioteca: Classificação e abordagem das vasculites na criança e Vasculites cutâneas e edema agudo hemorrágico do lactente (nesta área); Nefropatia por IgA e Vasculite por IgA (Púrpura de Henoch-Schönlein) e Lesão renal aguda na criança (Nefrologia); Hematúria, proteinúria e edema e Dor abdominal aguda (Patologias do consultório); Invaginação intestinal na criança e Escroto agudo — torção testicular, torção de apêndice e orquiepididimite (Cirurgia pediátrica); Púrpura trombocitopênica imune (PTI) na criança (Hematologia); A pele como sinal de doença sistêmica na criança (Dermatologia); Crise hipertensiva na criança e no adolescente (Urgências); Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE) (Imunizações).
8.Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein) deve ser acompanhada em longo prazo? Documento Científico nº 5, novembro de 2019. PDF
- Ozen S et al. EULAR/PRINTO/PRES criteria for Henoch-Schönlein purpura, childhood polyarteritis nodosa, childhood Wegener granulomatosis and childhood Takayasu arteritis: Ankara 2008. Part II: Final classification criteria. Ann Rheum Dis, 2010;69:798–806. PubMed
- Ozen S et al. European consensus-based recommendations for diagnosis and treatment of immunoglobulin A vasculitis — the SHARE initiative. Rheumatology (Oxford), 2019;58:1607–1616. PubMed (resumo; recomendações sobre corticoide citadas pela AEP 2020)
- KDIGO. KDIGO 2025 Clinical Practice Guideline for the Management of Immunoglobulin A Nephropathy (IgAN) and Immunoglobulin A Vasculitis (IgAV). Kidney Int, 2025;108(4S):S1–S71 (Practice Point 1.10.1.2). PDF
- AEP. Borlán Fernández S. Vasculitis por IgA (púrpura de Schönlein-Henoch). Protocolos diagnósticos y terapéuticos en Reumatología Pediátrica, 2020;2:225–238. PDF
- UK Kidney Association e RCPCH. Oni L et al. Clinical Practice Guideline — The initial management of IgA vasculitis (Henoch Schönlein Purpura) in children and young people, versão final de dezembro de 2022 (publicada em 22/05/2023). PDF
- Boston Children's Hospital. Henoch-Schönlein purpura (HSP) (página institucional, sem data). childrenshospital.org
- Documentos do site: Nefropatia por IgA e Vasculite por IgA (Nefrologia, conduta renal e KDIGO 2025); Invaginação intestinal na criança; Escroto agudo; A pele como sinal de doença sistêmica na criança; padrões de antitérmicos e de ceftriaxona na púrpura febril (PADRÕES do site).