Reumatologia pediátrica · Vasculites

Vasculite primária do sistema nervoso central na criança (cPACNS)

Formas de grandes vasos (angiografia positiva, progressiva e não progressiva) e de pequenos vasos (angiografia negativa, biópsia), diagnóstico diferencial com arteriopatia focal pós-varicela, moyamoya e encefalite autoimune, AVC agudo e tratamento com doses, segundo AEP 2020, SHARE, AHA/ASA e RCPCH

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A vasculite primária do sistema nervoso central da criança (cPACNS) é a inflamação dos vasos do cérebro e da medula em criança previamente sadia, sem doença sistêmica que a explique. É rara, mas tratável, e a recuperação depende de começar cedo (AEP 2020). Há três formas: não progressiva (angiografia positiva, um AVC isquêmico unilateral, monofásico), progressiva (angiografia positiva, déficits focais e difusos, cefaleia em 95%, novas lesões após 3 meses) e de pequenos vasos (angiografia normal; convulsões em 80%, inclusive estado de mal refratário, alteração de comportamento, sintomas psiquiátricos e queda escolar; confirmação por biópsia cerebral). Todo déficit focal agudo, crise prolongada ou alteração aguda da consciência é 🔴: SAMU para hospital com ressonância imediata e neurologia pediátrica, seguindo AVC na infância. Sintomas neurológicos ou psiquiátricos subagudos em criança estável pedem encaminhamento com urgência ao neurologista pediátrico (🟡). O diferencial principal é a arteriopatia focal pós-varicela, a moyamoya e a encefalite autoimune. O tratamento (corticoide, ciclofosfamida, micofenolato, antitrombótico) é do centro de referência; SBP e Ministério da Saúde não têm protocolo.

1.O que é e como se apresenta

Definição (critérios de Calabrese modificados por Benseler, 2006 — AEP 2020; Beelen 2019): déficit neurológico ou psiquiátrico adquirido em menor de 18 anos, com evidência angiográfica ou histológica de vasculite do SNC e sem condição sistêmica que explique os achados. As vasculites secundárias (infecção, lúpus, vasculites sistêmicas, doenças autoinflamatórias) ficam de fora e precisam ser excluídas.

Formas (AEP 2020; Beelen 2019):

Forma Vasos e imagem Quadro típico Laboratório e líquor
Não progressiva (angiografia positiva) Segmentos proximais da cerebral média ou anterior, carótida interna distal, unilateral; sem lesão nova na imagem de 3 meses AVC isquêmico súbito (hemiparesia, alteração sensitiva ou da motricidade fina); cefaleia em até 40%; crises e sintomas difusos raros Marcadores inflamatórios e líquor em geral normais
Progressiva (angiografia positiva) Proximais e distais, uni ou bilaterais; mais de um território ou progressão após 3 meses Déficit focal mais difuso (atenção, comportamento, cognição, psiquiátrico); cefaleia em 95%; instalação insidiosa, diagnóstico tardio Inflamação e líquor alterados com frequência
Pequenos vasos (angiografia negativa) Angiografia e angio-RM normais por definição; lesões multifocais na RM, raramente isquêmicas Convulsões em 80% (até estado de mal refratário), comportamento, sintomas psiquiátricos, queda escolar, febre e cansaço PCR e VHS elevadas com frequência; líquor com pressão alta, pleocitose e proteína; bandas oligoclonais em até 30%

As formas de grandes vasos predominam em meninos; a de pequenos vasos, em meninas (AEP 2020). A inflamação estreita a parede sem ocluir de todo, o que explica sintomas que oscilam ao longo de dias (AEP 2020). A forma não progressiva se sobrepõe à arteriopatia cerebral focal da infância, uma das principais causas de AVC isquêmico arterial (documento AVC na infância).

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve cPACNS em remissão, em manutenção ou já sem tratamento, sem sintoma novo; sequela estável Seguimento pelo pediatra com o neurologista e o reumatologista pediátricos; reabilitação, escola, plano de crise; vacinas pelo CRIE
🟡 Moderada Sem sintoma agudo, mas com cefaleia progressiva, mudança de comportamento ou sintomas psiquiátricos novos, queda do rendimento escolar ou crise epiléptica nova já cessada, em criança acordada e sem déficit; achado incidental de lesões na RM. Febre em uso só de micofenolato ou azatioprina, em bom estado Encaminhar com urgência ao neurologista pediátrico (RM com angio-RM); qualquer déficit, piora da consciência ou nova crise = 🔴. Febre: avaliação no mesmo dia (Febre e infecção na criança imunocomprometida)
🔴 Grave Déficit focal súbito, mesmo regredido; crise ≥ 5 min ou crises repetidas; rebaixamento ou confusão; cefaleia súbita e intensa; sinais de hipertensão intracraniana; psicose ou agitação aguda com sinais neurológicos; criança com cPACNS e sintoma neurológico novo; febre em uso de ciclofosfamida ou corticoide em dose imunossupressora Pronto-socorro já (SAMU 192), hospital com RM imediata e neurologia pediátrica; glicemia capilar, SpO2 94–98%, hora do início por escrito

Fatores de risco que elevam a gravidade ou a probabilidade

  • Forma progressiva ou de pequenos vasos; acometimento bilateral, distal ou posterior; atraso no tratamento (AEP 2020).
  • Varicela nos últimos 12 meses (arteriopatia pós-varicela; recorrência mais alta — AEP 2020); arteriopatia de qualquer causa, o maior preditor de recorrência do AVC (documento AVC na infância).
  • Síndrome de Down, neurofibromatose tipo 1, doença falciforme (moyamoya e vasculopatia); anticorpos antifosfolípides.
  • Estado de mal refratário, hipertensão intracraniana; imunossupressão com ciclofosfamida (infecções).

3.Diagnóstico no consultório

A suspeita é clínica; a confirmação é hospitalar, por imagem vascular e, na forma de pequenos vasos, por biópsia. Ao pediatra cabem a anamnese (hora do início, oscilação dos sintomas, varicela nos últimos 12 meses, infecções, trauma cervical, fármacos e drogas, doença reumática, síndrome de Down ou NF1, família com AVC precoce), o exame neurológico com PA e pele (livedo, úlceras orais, púrpura sugerem vasculite secundária) e a glicemia capilar.

Exames do centro de referência (AEP 2020):

  • Sangue: hemograma, PCR, VHS (normais não excluem), IgG, albumina, C3 e C4; coagulação com D-dímero e anticoagulante lúpico; FAN, ENA, anti-DNA, ANCA, fator reumatoide, antifosfolípides, anti-TPO, anti-aquaporina 4; fator de von Willebrand (marcador de atividade em estudo); urina.
  • Líquor: pressão de abertura, células, proteína, glicose, bandas oligoclonais, pesquisa infecciosa e anticorpos antineuronais (anti-NMDAR e outros) na suspeita de encefalite autoimune.
  • Ressonância com FLAIR, difusão e gadolínio; angio-RM com estudo da parede (espessamento e realce sugerem vasculite).
  • Angiografia convencional: padrão-ouro para vasos distais e circulação posterior; indicada com alta suspeita e angio-RM normal.
  • Biópsia cerebral: imprescindível na forma de pequenos vasos, de preferência antes do corticoide, de lesão vista na RM ou do lobo frontal não dominante; mostra infiltrado linfocitário perivascular e afasta desmielinização e infecção (AEP 2020).

Diagnóstico diferencial que não pode passar (AEP 2020):

  • Arteriopatia focal pós-varicela: reativação do vírus até 12 meses após a varicela, com estenose unilateral da carótida interna distal ou do início da cerebral média ou anterior e realce da parede; pode progredir por até 6 meses e recorrer. É a causa infecciosa/inflamatória mais comum de AVC na criança.
  • Vasculites secundárias: infecções (meningite bacteriana, tuberculose, Mycoplasma, sífilis, VZV, CMV, EBV, HIV, fungos); lúpus, vasculites sistêmicas (ANCA, Takayasu, PAN, Behçet, Kawasaki, IgA), dermatomiosite; doenças autoinflamatórias (DADA2, CAPS, SAVI, Aicardi-Goutières); HLH; neoplasias; fármacos e radiação.
  • Vasculopatias não inflamatórias (principal diferencial das formas de grandes vasos): moyamoya (isolada ou com Down, NF1, Alagille; estenose da carótida distal com rede colateral), dissecção (trauma cervical banal, dor cervical), displasia fibromuscular, tromboembolismo (cardiopatia, síndrome antifosfolípide, homocistinúria), doença falciforme, síndrome de vasoconstrição cerebral reversível, CADASIL, Fabry, PHACE.
  • DADA2 merece menção à parte: AVC isquêmico precoce (muitas vezes lacunar) ou hemorragia, com febre, livedo ou citopenias; o consenso internacional de 2023 recomenda pesquisá-la no AVC criptogênico da criança, e nela heparina e AAS devem ser evitados e o tratamento é anti-TNF (ver Poliarterite nodosa e deficiência de adenosina deaminase 2 (DADA2)).
  • Doenças inflamatórias não vasculíticas (principal diferencial da forma de pequenos vasos): ADEM, esclerose múltipla, neuromielite óptica, encefalite anti-NMDAR (psiquiátrico, discinesias, crises — documento Encefalites agudas), encefalite de Hashimoto, Rasmussen, neurossarcoidose; MELAS e outras mitocondriais.
  • Mimetizadores do AVC: hipoglicemia, paralisia de Todd, enxaqueca hemiplégica — só depois que a imagem exclui o AVC (documento AVC na infância).

4.Tratamento e seguimento

Pediatra: reconhecer, estabilizar, encaminhar, manter crises controladas, vacinas, profilaxias, reabilitação e escola. Centro de referência (neurologia e reumatologia pediátricas, neurorradiologia, neurocirurgia para biópsia): indução e manutenção.

Referência adotada: SBP e Ministério da Saúde não têm protocolo de cPACNS, e a SHARE 2019 não a incluiu. Não há ensaio randomizado (Beelen 2019). O site segue o protocolo da AEP/SERPE (2020), que reproduz o esquema do grupo BrainWorks (Toronto), por ser o único protocolo pediátrico com doses entre as nove referências; no AVC agudo, o documento AVC na infância do site (AHA/ASA e RCPCH).

Componentes (AEP 2020): imunossupressão conforme a forma; antitrombótico — heparina de baixo peso molecular por 2 semanas e depois AAS em dose baixa (excluída a DADA2, em que antitrombóticos são evitados — consenso 2023); proteção óssea com cálcio e vitamina D; tratamento das crises e dos sintomas.

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação e referência
Metilprednisolona IV (pulso) 30 mg/kg/dia, máx. 1 g 1 vez ao dia 3–5 dias (não progressiva); 3–7 dias (progressiva e pequenos vasos) AEP 2020; inquéritos internacionais de 2021 (Keenan; Quan): 20–30 mg/kg por 5 dias
Prednisona VO — forma não progressiva 2 mg/kg/dia (máx. 60 mg) no 1º mês; 1,5 mg/kg/dia no 2º; 1 mg/kg/dia no 3º 1 vez ao dia 3 meses; repetir a imagem; sem progressão, retirada semanal AEP 2020. Com progressão na imagem, reclassificar como progressiva
Prednisona VO — progressiva e pequenos vasos 2 mg/kg/dia (máx. 60 mg) 1 vez ao dia Redução mensal lenta ao longo de 18 meses AEP 2020
Ciclofosfamida IV — progressiva e pequenos vasos 500–750 mg/m² Mensal 7 doses (indução, 0–6 meses) AEP 2020; Beelen 2019 (6 meses de ciclofosfamida). Exige profilaxia de Pneumocystis; hidratação e antiemético pelo serviço
Micofenolato de mofetila VO — manutenção 800–1.200 mg/m²/dia (ou ácido micofenólico 500–800 mg/m²/dia) 12/12 h Do 7º ao 18º mês AEP 2020; preferido à azatioprina (mais remissão — AEP 2020; Beelen 2019); inquérito 2021: 900–1.200 mg/m²/dia, por 24 meses
Azatioprina VO — manutenção (alternativa) 2–3 mg/kg/dia, máx. 150 mg 1 vez ao dia Do 7º ao 18º mês AEP 2020; mais falhas e intolerância que o micofenolato
Enoxaparina SC (fase aguda) ≥ 2 meses: 1 mg/kg/dose 12/12 h 2 semanas (AEP 2020) Dose do documento Trombose venosa e trombofilias (AEP Pediamécum 2020); decisão do especialista, após a imagem excluir hemorragia
AAS (depois da heparina) 3–5 mg/kg/dia (máx. 80 mg/dia) 1 vez ao dia Longo prazo, conforme o especialista Dose do documento AVC na infância (AHA/ASA 2019), com o teto de 80 mg/dia do site (SBP); a AEP 2020 indica "dose baixa" sem fixar valor. Só após a imagem; vacina influenza inativada anual (Reye). Não usar na DADA2 (antiagregantes e anticoagulantes a evitar — consenso internacional 2023)
Sulfametoxazol-trimetoprima VO (profilaxia de Pneumocystis) SMX 750 mg/m²/dia + TMP 150 mg/m²/dia 3 dias por semana Durante a ciclofosfamida Indicação: AEP 2020; Beelen 2019. Dose: padrão do site (PCDT HIV 2024, documento HIV na criança)
Cálcio e vitamina D VO Cálcio 1.000 mg/dia + vitamina D 1.000 UI/dia 1 vez ao dia Enquanto durar o corticoide AEP 2020
  • Refratários ou recaída (especialista): metotrexato, infliximabe, imunoglobulina IV (AEP 2020).
  • Arteriopatia focal da infância: o papel do corticoide não está definido — está em teste no ensaio FOCAS (metilprednisolona 30 mg/kg/dia, máx. 1 g, por 3 dias e prednisolona em 4 semanas, imediata × só na progressão) e no PASTA (Europa); até o resultado, decisão caso a caso no centro.
  • AVC agudo: a recanalização (alteplase, trombectomia) segue o documento AVC na infância; para o RCPCH (2017), cPACNS ou vasculite secundária do SNC já diagnosticadas contraindicam a trombólise, mas a arteriopatia focal da infância não.
  • Moyamoya: hidratação no jejum e nas doenças intercorrentes, não baixar a PA rapidamente (documento Crise hipertensiva) e avaliação de revascularização cirúrgica; não é tratada como vasculite.
  • Crises: estado de mal segue o Protocolo de Estado de Mal Convulsivo do site (crise ≥ 5 min; midazolam IN 0,2, bucal 0,3 ou IM 0,2 mg/kg, máx. 10 mg); anticonvulsivante de manutenção pelo neurologista.

Não fazer: AAS, heparina ou corticoide antes da imagem; corticoide antes da biópsia quando ela for planejada, salvo deterioração (AEP 2020); atribuir mudança de comportamento ou queda escolar a "problema emocional" sem exame neurológico e RM quando houver cefaleia, crise ou déficit; AAS como antitérmico — usar paracetamol 10–15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia) ou dipirona 15 mg/kg/dose.

Seguimento (pediatra com os especialistas):

  • Imagem de controle aos 3 meses em todas as formas — define se a não progressiva pode suspender o tratamento (AEP 2020); depois, conforme o centro.
  • Recaídas são possíveis, sobretudo na retirada; sintoma neurológico novo = 🔴.
  • Neuropsicologia e escola: déficit cognitivo, sobretudo de memória de trabalho, é frequente na forma de pequenos vasos (Beelen 2019); reabilitação motora e de linguagem.
  • Corticoide prolongado: PA, glicemia, crescimento, osso, olhos; ciclofosfamida: hemograma, urina, fertilidade.
  • Vacinas (Manual dos CRIE 2023, como no site): calendário completo, influenza anual (obrigatória com AAS), pneumocócica (VPC20 — NT 52/2026); vivas contraindicadas com ciclofosfamida ou corticoide imunossupressor (≥ 2 mg/kg/dia até 10 kg ou ≥ 20 mg/dia por ≥ 14 dias) e até 1 mês após o corticoide; varicela em suscetíveis antes da imunossupressão e nos conviventes. A bula da varicela orienta evitar salicilatos por 6 semanas após a vacina — decidir com o especialista (AVC na infância).

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

Imediatamente (🔴): os critérios 🔴 da tabela — déficit focal súbito (mesmo regredido), crise ≥ 5 min ou repetida, rebaixamento, cefaleia súbita e intensa, sinais de hipertensão intracraniana, psicose aguda com sinal neurológico, sintoma novo em criança com cPACNS e febre em uso de ciclofosfamida ou corticoide imunossupressor.

Como encaminhar (como em AVC na infância):

  1. SAMU (192); avisar o hospital, que precisa de RM imediata e neurologia pediátrica.
  2. Hora do início (ou última vez vista bem) por escrito, sinais, varicela recente, medicamentos.
  3. Vias aéreas, respiração e circulação; posição lateral se vômitos ou rebaixamento; oxigênio para SpO2 entre 94% e 98%.
  4. Glicemia capilar; se < 60 mg/dL, glicose IV 0,5–1 g/kg (SG 25% 2–4 mL/kg; SG 10% 5–10 mL/kg no lactente), conforme o Protocolo de Estado de Mal Convulsivo.
  5. Crise ≥ 5 min: midazolam IN 0,2, bucal 0,3 ou IM 0,2 mg/kg (máx. 10 mg) ou diazepam retal 0,5 mg/kg (máx. 10 mg).
  6. Nada por boca; febre com paracetamol ou dipirona; sem AAS, heparina, corticoide ou anti-hipertensivo antes da imagem.
  7. Criança imunossuprimida com febre: Febre e infecção na criança imunocomprometida e com dispositivos.

Internação: todo AVC, toda suspeita de cPACNS em atividade (imagem vascular, líquor, biópsia, início da indução) e estado de mal.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "A inflamação dos vasos do cérebro tem tratamento; quanto antes começa, melhor a recuperação."
  • "O tratamento é longo (até 18 meses ou mais); não suspenda o corticoide, o micofenolato ou o AAS por conta própria."
  • "Durante o tratamento, nada de vacina de vírus vivo sem liberação; a da gripe é todo ano."
  • "Conte à escola: atenção, memória e comportamento podem mudar e precisam de apoio."
  • Ligue 192 ou vá ao pronto-socorro já se houver boca torta, fraqueza ou dormência de um lado, fala enrolada ou dificuldade para entender, perda de visão, desequilíbrio súbito, convulsão, dor de cabeça muito forte e repentina, sonolência ou confusão — mesmo que melhore; anote a hora. Também: qualquer febre durante a ciclofosfamida ou com corticoide em dose alta.
  • Procure o pediatra ou o neurologista com prioridade se notar dor de cabeça que vem piorando, mudança de comportamento, queda nas notas ou esquecimentos novos.

7.Comparação com as referências

Item SBP Ministério da Saúde AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Versão consultada DC de Neurologia, Sinais de alerta, 2020; sem documento de cPACNS Sem protocolo localizado Sem documento localizado NG128 só ≥ 16 anos; RCPCH 2017 nas crianças Protocolo AEP/SERPE, Vasculitis primarias del SNC, 2020 Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Seguem o NICE (RCPCH)
Reconhecimento Déficit motor agudo é sinal de alerta — — RCPCH: vasculite do SNC é fator de risco de AVC Calabrese-Benseler; três formas — — Seguem o NICE
Investigação Neuroimagem no déficit agudo — — RCPCH: imagem imediata no AVC RM, angio-RM, angiografia; biópsia na forma de pequenos vasos — — —
Indução Sem posição localizada — — — Pulso + prednisona 3 meses (não progressiva); + ciclofosfamida 7 doses (demais) — — —
Manutenção e antitrombótico Sem posição localizada — — RCPCH: cPACNS contraindica trombólise; arteriopatia focal não Micofenolato ou azatioprina até 18 meses; heparina 2 semanas e AAS — — —

Leitura: as referências concordam em que o déficit neurológico agudo da criança é emergência e precisa de imagem imediata (SBP 2020; RCPCH 2017; AVC na infância), e a AEP e a literatura de apoio (Beelen 2019; inquéritos de 2021) concordam no esquema básico — pulso de metilprednisolona e prednisona; ciclofosfamida por 6 meses nas formas progressiva e de pequenos vasos; micofenolato na manutenção, preferido à azatioprina; antitrombótico nas formas de grandes vasos. Divergem na duração (18 meses na AEP; 24 meses foi a resposta mais frequente nos inquéritos de 2021), nos dias de pulso (3 a 7) e no uso de ciclofosfamida, mais frequente na América do Norte que na Europa. O papel do corticoide na arteriopatia focal está em teste (FOCAS e PASTA). SBP e Ministério da Saúde não têm protocolo de cPACNS; AAP, NICE, Johns Hopkins e Harvard não têm posição específica localizada, e Oxford e Cambridge seguem o NICE e o RCPCH. Posição do site: SBP no reconhecimento (déficit agudo = sinal de alerta, imagem imediata); AEP 2020 no diagnóstico e no tratamento, por ser o único protocolo pediátrico com doses entre as nove referências; AVC na infância no AVC agudo.

Pontos práticos
  1. Déficit focal súbito, mesmo regredido, crise ≥ 5 min ou confusão aguda é 🔴: SAMU, glicemia, SpO2 94–98%, hora do início por escrito, nada de AAS ou corticoide antes da imagem.
  2. Pergunte sempre por varicela nos últimos 12 meses: a arteriopatia pós-varicela é o principal diferencial da forma não progressiva.
  3. Convulsões de difícil controle com mudança de comportamento, sintomas psiquiátricos e queda escolar podem ser vasculite de pequenos vasos: angiografia normal não exclui; a biópsia confirma.
  4. Antes de rotular cPACNS, exclua lúpus, vasculites sistêmicas, infecções, moyamoya, dissecção, encefalite anti-NMDAR e ADEM.
  5. Tratamento do centro (AEP 2020): metilprednisolona 30 mg/kg (máx. 1 g); prednisona 2 mg/kg/dia (máx. 60 mg); ciclofosfamida 500–750 mg/m² mensal por 7 doses nas formas progressiva e de pequenos vasos; micofenolato até 18 meses.
  6. Febre durante a ciclofosfamida ou com corticoide imunossupressor é 🔴; sem vacinas vivas na imunossupressão; influenza anual com AAS.

Veja também, nesta Biblioteca: AVC na infância (acidente vascular cerebral) e Epilepsias na infância (Neurologia); Protocolo de Estado de Mal Convulsivo e Hipertensão intracraniana e sinais de herniação na criança (Urgências); Encefalites agudas na criança — infecciosas e autoimunes e Febre e infecção na criança imunocomprometida e com dispositivos (Infectologia); Cefaleia e enxaqueca (Patologias do consultório); Trombose venosa e trombofilias na criança e no adolescente (Hematologia); Classificação e abordagem das vasculites na criança, Poliarterite nodosa e deficiência de adenosina deaminase 2 (DADA2), Lúpus eritematoso sistêmico juvenil e Vasculites associadas ao ANCA (nesta área); Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE) (Imunizações).

8.Fontes

  • AEP/SERPE. Rodríguez Diez L. Vasculitis primarias del sistema nervioso central en la infancia. Protoc diagn ter pediatr, 2020;2:249–58. PDF
  • SBP, Departamento Científico de Neurologia. Sinais de alerta na avaliação neurológica da criança e do adolescente, 2020. PDF
  • Beelen J, Benseler SM, Dropol A, Ghali B, Twilt M. Strategies for treatment of childhood primary angiitis of the central nervous system. Neurol Neuroimmunol Neuroinflamm, 2019;6(4):e567. PMC
  • Keenan P et al. Diagnosis and treatment of small vessel childhood primary angiitis of the CNS (sv-cPACNS): an international survey. Front Pediatr, 2021. Frontiers
  • Quan AS et al. Diagnosis and treatment of angiography positive medium to large vessel childhood primary angiitis of CNS (p-cPACNS): an international survey. Front Pediatr, 2021. PMC
  • RCPCH. Stroke in childhood — clinical guideline for diagnosis, management and rehabilitation, 2017. PDF
  • NIH StrokeNet. Focal Cerebral Arteriopathy Steroid (FOCAS) Trial — descrição do estudo, consultada em 10/2026. nihstrokenet.uc.edu
  • Lee PY et al. Evaluation and Management of Deficiency of Adenosine Deaminase 2: An International Consensus Statement. JAMA Netw Open, 2023;6(5):e2315894. Repositório Utrecht
  • de Graeff N et al. SHARE initiative — rare paediatric vasculitides. Rheumatology (Oxford), 2019;58(4):656–71 (não inclui a cPACNS). PDF