Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF
As vasculites associadas ao ANCA (VAA) — granulomatose com poliangeíte (GPA), poliangeíte microscópica (MPA) e granulomatose eosinofílica com poliangeíte (EGPA) — inflamam e necrosam vasos pequenos, sobretudo do trato respiratório e do rim. Na criança são raras e quase sempre diagnosticadas tarde. Pense nelas diante de sinusite, otite ou rinite crônica com crostas, epistaxe ou destruição (nariz em sela), rouquidão ou estridor (estenose subglótica), nódulos ou cavidades pulmonares, hemoptise, hematúria com proteinúria e creatinina subindo e asma de início tardio com eosinofilia. A SBP (2020) indica pedir ANCA nessas situações; peça imunofluorescência e anti-PR3 e anti-MPO por ELISA juntos (SHARE 2019) — o PCDT (2025) registra que esses exames não estão disponíveis no SUS. Não há VAA para tratar em casa: a suspeita sem sinal de gravidade vai com urgência ao reumatologista e ao nefrologista pediátricos (🟡); hemoptise, queda da saturação, oligúria, creatinina em ascensão, hipertensão, estridor, perda visual ou déficit neurológico são 🔴 pronto-socorro/hospital. A indução (corticoide com ciclofosfamida ou rituximabe) e a manutenção são do especialista; o pediatra reconhece, encaminha, vigia infecções — febre em uso de rituximabe, ciclofosfamida ou corticoide em dose imunossupressora é 🔴 —, mantém as vacinas pelo CRIE e a profilaxia de Pneumocystis.
1.O que é e como se apresenta
Conceito (Chapel Hill 2012, adotado pelo PCDT 2025 e pela SHARE 2019): vasculite necrosante de pequenos vasos, com poucos ou nenhum depósito imune ("pauci-imune"), associada a anticorpos contra enzimas dos grânulos do neutrófilo: proteinase 3 (PR3), que dá o padrão citoplasmático (c-ANCA), e mieloperoxidase (MPO), padrão perinuclear (p-ANCA) (SBP 2020).
- GPA: inflamação granulomatosa das vias aéreas + vasculite. Na criança: vias aéreas superiores em 50–80% (rinite, úlceras nasais, epistaxe, sinusite, otite, mastoidite), pulmão em 70–90% (nódulos, cavidades, hemorragia, pleurite), rim em 50–80% (de hematúria isolada a glomerulonefrite rapidamente progressiva). Nariz em sela e estenose subglótica são típicos da idade pediátrica (AEP 2020). c-ANCA/PR3 em 50–87% (AEP 2020).
- MPA: sem granulomas; rim em quase 100%, 30% já com lesão renal aguda; a forma mais grave; hemorragia alveolar potencialmente fatal; p-ANCA/MPO em 55–90% (AEP 2020).
- EGPA: asma grave e rinite ou polipose nasal, depois eosinofilia e vasculite (pele quase sempre, infiltrados pulmonares, sinusite); acometimento cardíaco (miocardite eosinofílica, pericardite) em quase metade, mais grave e mais frequente na criança; ANCA negativo em dois terços (AEP 2020).
Sintomas gerais (febre, cansaço, perda de peso) precedem os demais em mais da metade dos casos (AEP 2020); pele (púrpura palpável, nódulos), olho (esclerite, proptose), articulações, intestino e nervo (mononeurite múltipla) completam o quadro. A GPA é classificada na criança pelos critérios EULAR/PRINTO/PReS (Ankara 2008), 3 de 6 (ver Classificação e abordagem das vasculites na criança); MPA e EGPA não têm critério pediátrico e usam a definição de Chapel Hill (SHARE 2019).
2.Classificação de gravidade
| Gravidade | Critérios clínicos | Conduta |
|---|---|---|
| 🟢 Leve | VAA em remissão, em manutenção, sem sintoma novo; PA, urina e creatinina estáveis nos controles; sem febre | Seguimento pelo pediatra com o reumatologista e o nefrologista pediátricos; urina e PA em toda consulta; vacinas pelo CRIE; sinais de alerta por escrito |
| 🟡 Moderada | Suspeita sem sinal de gravidade: sinusite, otite ou rinite crônica com crostas, epistaxe ou perfuração septal; nódulos pulmonares em criança eupneica; hematúria com proteinúria com creatinina e PA normais; asma tardia com eosinofilia e sintomas gerais; púrpura palpável persistente. Recaída leve (nariz, articulações) em tratamento. Febre em uso só de imunossupressor convencional (azatioprina, metotrexato, micofenolato), em bom estado | Exames no mesmo dia (abaixo); encaminhar com urgência ao reumatologista pediátrico, com o nefrologista se houver alteração urinária; febre: avaliação no mesmo dia (Febre e infecção na criança imunocomprometida); qualquer piora = 🔴 |
| 🔴 Grave | Hemoptise, queda da hemoglobina sem outra causa, infiltrado difuso, taquipneia ou SpO2 < 94% (hemorragia alveolar); creatinina subindo, oligúria, edema ou hipertensão (GNRP); estridor ou dispneia alta (estenose subglótica); dor ocular com baixa visual ou proptose; déficit motor, mononeurite, convulsão ou rebaixamento; dor abdominal intensa ou sangramento intestinal; dor torácica, arritmia ou insuficiência cardíaca na EGPA; febre em uso de rituximabe, ciclofosfamida ou corticoide em dose imunossupressora, mesmo em bom estado | Pronto-socorro/hospital com UTI pediátrica, nefrologia (diálise) e reumatologia pediátricas; oxigênio para SpO2 entre 94% e 98%; acesso venoso; SAMU (192) se instável |
Fatores de risco que elevam a gravidade
- MPA, creatinina já elevada, crescentes na biópsia (AEP 2020); hemorragia alveolar com hipoxemia (KDIGO 2024).
- EGPA com acometimento cardíaco — principal causa de morte (ACR/VF 2021; SHARE 2019).
- Recaídas prévias, PR3, doença de ouvido, nariz e garganta, ANCA positivo ao fim da indução (KDIGO 2024).
- Rituximabe, ciclofosfamida, corticoide em dose alta; hipogamaglobulinemia.
3.Diagnóstico no consultório
O que é clínico: a suspeita. A SBP (DC nº 7/2020) lista as indicações para pedir ANCA: glomerulonefrite, hemorragia pulmonar, nódulos pulmonares múltiplos, neuropatia periférica, vasculite cutânea com sinais sistêmicos, esclerite, tumor retro-orbitário e supuração e hemorragia de vias aéreas superiores. Sem esse contexto, o ANCA isolado engana: aparece em neoplasias, tuberculose, HIV e linfoma, e o ANCA atípico na fibrose cística e na doença inflamatória intestinal (SBP 2020).
Exames no mesmo dia (sem atrasar o encaminhamento):
- Urina tipo 1 (hematúria dismórfica, cilindros), proteína/creatinina urinária, creatinina, ureia, eletrólitos — fita urinária e PA em toda suspeita.
- Hemograma (eosinófilos), PCR, VHS; C3 e C4 (normais na VAA); FAN e anti-DNA; IgE se EGPA.
- ANCA por imunofluorescência com PR3 e MPO por ELISA — a IFI isolada não basta; o título não mede atividade (SHARE 2019; ACR/VF 2021).
- Radiografia de tórax em todos, tomografia se alterada ou suspeita mantida (SHARE 2019); tomografia de seios na suspeita de GPA.
- EGPA: ECG e ecocardiograma em todos; excluir parasitose, síndrome hipereosinofílica e leucemia eosinofílica (SHARE 2019; ACR/VF 2021).
Pelo especialista: anti-membrana basal glomerular, biópsia (rim, nariz, pulmão) — desejável, mas sem atrasar o tratamento na doença grave (SHARE 2019); função pulmonar; nasofibrolaringoscopia; oftalmologia.
Diferencial que não pode passar: glomerulonefrite pós-estreptocócica (C3 baixo), lúpus, vasculite por IgA e doença anti-membrana basal — creatinina subindo em dias com C3 normal sugere VAA; infecção (tuberculose, fungos, endocardite podem dar ANCA positivo), bronquiectasias, fibrose cística; fármacos (dupla positividade PR3 e MPO — AEP 2020) e cocaína com levamisol (PCDT 2025); na EGPA, a asma grave comum — eosinofilia persistente, neuropatia ou púrpura no asmático pedem investigação.
4.Tratamento e seguimento
Pediatra: suspeitar, pedir os primeiros exames, medir a PA, encaminhar, vigiar infecções e toxicidade, manter vacinas e profilaxias. Especialista (reumatologista e nefrologista pediátricos, em centro de referência): indução, manutenção, plasmaférese, biópsia.
Referência adotada: a SBP não tem documento de tratamento; o site segue o PCDT do Ministério da Saúde (2025) na indução da GPA e da MPA. O PCDT é feito para o adulto, não trata da manutenção e exclui a EGPA; nesses pontos e nas doses pediátricas, segue a SHARE 2019 (consenso pediátrico adotado pela AEP 2020), com ACR/VF 2021 e KDIGO 2024. Há indução até a remissão (3–6 meses) e manutenção por pelo menos 18–24 meses; na doença não grave (nariz, articulações), metotrexato ou micofenolato com corticoide (AEP 2020; ACR/VF 2021).
| Medicamento | Dose | Intervalo | Duração | Observação e referência |
|---|---|---|---|---|
| Metilprednisolona IV (pulso) | 30 mg/kg/dia, máx. 1 g | 1 vez ao dia | 3 dias | Bula FDA do rituximabe, criança ≥ 2 anos (2021); SHARE/AEP 2020: 10–30 mg/kg (máx. 1 g); PCDT 2025: 1 g/dia por até 3 dias (adulto) |
| Prednisona ou prednisolona VO | 1–2 mg/kg/dia, máx. 60 mg/dia | 1 vez ao dia | Redução progressiva | SHARE/AEP 2020; PCDT 2025: 1 mg/kg/dia (máx. 80 mg com rituximabe, adulto). Redução rápida preferida (ACR/VF 2021; KDIGO 2024: cerca de 5 mg/dia aos 6 meses após ciclofosfamida; retirada até 6 meses após rituximabe) |
| Ciclofosfamida IV | 15 mg/kg/pulso | Semanas 0, 2 e 4; depois a cada 3 semanas | 3–6 meses ou até a remissão | PCDT 2025 (ajuste pelos linfócitos, cerca de 1.000/mm³) e KDIGO 2024 (reduzir 2,5 mg/kg se filtração < 30). SHARE/AEP 2020: 500–1.000 mg/m² (máx. 1,2 g) a cada 3–4 semanas. Hidratação, mesna (SHARE 2019), antiemético (PCDT); criopreservação de sêmen no pós-púbere (SHARE) |
| Rituximabe IV — indução | 375 mg/m² | 1 vez por semana | 4 semanas | Divergência: PCDT 2025 — no SUS, só ≥ 18 anos; bula FDA (2021) e bula brasileira (MabThera®) — GPA e MPA a partir de 2 anos (não usar abaixo de 2 anos); KDIGO 2024 e ACR/VF 2021 o preferem quando se quer preservar a fertilidade. Abaixo de 18 anos, a indicação é do especialista (fora do PCDT) |
| Rituximabe IV — manutenção | 250 mg/m² | 2 doses com 2 semanas; depois a cada 6 meses | Conforme o especialista | Bula FDA, criança ≥ 2 anos (adulto: 500 mg); ACR/VF 2021 prefere rituximabe na manutenção da GPA/MPA grave; pré-medicação (analgésico, anti-histamínico, corticoide) |
| Azatioprina VO — manutenção | 1,5–2 mg/kg/dia | 1 vez ao dia | Até cerca de 1 ano do diagnóstico, depois redução lenta | KDIGO 2024; SHARE/AEP 2020 (1ª linha, iniciar ≥ 14 dias após a ciclofosfamida); TPMT antes, se disponível (SHARE 2019) |
| Micofenolato de mofetila VO — manutenção | 800–1.200 mg/m²/dia | 12/12 h | 18–24 meses | Dose pediátrica da AEP 2020 (protocolo de vasculite do SNC); KDIGO 2024: alternativa à azatioprina (adulto 2 g/dia) |
| Mepolizumabe SC (EGPA recidivante ou refratária) | ≥ 12 anos: 300 mg; 6–11 anos: 200 mg (≥ 40 kg) ou 100 mg (< 40 kg) | A cada 4 semanas | Revisão anual | EMA (SmPC do Nucala®, 2021); bula brasileira: só adultos na EGPA — na criança, uso fora da bula. ACR/VF 2021: mepolizumabe na EGPA não grave |
| Sulfametoxazol-trimetoprima VO — profilaxia de Pneumocystis | SMX 750 mg/m²/dia + TMP 150 mg/m²/dia | 3 dias por semana (1–2 tomadas/dia) | Durante a ciclofosfamida e ≥ 6 meses após o último rituximabe | Dose: padrão do site (PCDT HIV 2024, documento HIV na criança); duração: KDIGO 2024 e bula do rituximabe; SHARE 2019 recomenda em toda VAA (também reduz recaídas nasais na GPA) |
Plasmaférese: não rotineira (PCDT 2025; PEXIVAS não reduziu morte nem doença renal terminal; ACR/VF 2021 contra, inclusive na hemorragia alveolar). O KDIGO 2024 a considera com creatinina > 3,4 mg/dL (valor do adulto), diálise, hemorragia alveolar com hipoxemia ou anti-membrana basal positivo; SHARE e AEP 2020 a admitem nos graves. Decisão do centro (posição do site: MS).
EGPA (fora do PCDT; ACR/VF 2021): grave — corticoide com ciclofosfamida (preferida no coração) ou rituximabe; não grave — corticoide com mepolizumabe; manutenção com metotrexato, azatioprina ou micofenolato.
Avacopan — não usar. Citado pelo KDIGO 2024 em adultos, teve a autorização europeia revogada por decisão da Comissão Europeia de 04/08/2026 (recomendação da EMA de 26/06/2026); no Reino Unido, a MHRA a suspendeu para novos pacientes em 01/09/2026 (revogação prevista para 01/03/2027), porque problemas de integridade dos dados do estudo principal (ADVOCATE) impedem confiar na eficácia; o NICE retirou a TA825. Sem uso pediátrico. Situação na Anvisa não confirmada na base oficial (consulta indisponível em 10/2026).
O que não fazer: atrasar a remoção esperando ANCA ou biópsia; anti-inflamatório com urina ou creatinina alterada; nifedipino de liberação imediata (SBP 2019); etanercepte na GPA (AEP 2020); antibiótico prolongado para "sinusite" que destrói o septo, sem investigar. Antitérmico: paracetamol 10–15 mg/kg/dose (máx. 75 mg/kg/dia) ou dipirona 15 mg/kg/dose.
Antes da imunossupressão (PCDT 2025): HIV, hepatites B e C, sífilis; tuberculose (PPD ou IGRA, radiografia; latente tratada, rituximabe após 4 semanas); IgG basal; tratar parasitoses (estrongiloidíase disseminada).
Seguimento (pediatra com o especialista):
- Em atividade, consulta e exames mensais; na remissão, a cada 2–3 meses (PCDT 2025): hemograma, creatinina, transaminases, urina e proteinúria; PA em toda consulta; IgG antes e 4–6 meses após cada rituximabe (PCDT 2025).
- Retirar a manutenção lentamente só após 12 meses de remissão (SHARE 2019), idealmente 24 (AEP 2020). Recaídas são frequentes, mesmo anos depois.
- Crescimento, osso (cálcio e vitamina D com corticoide — SHARE 2019), glicemia, saúde mental, fertilidade.
- Vacinas (Manual dos CRIE 2023, como no site): calendário completo, influenza anual, pneumocócica (VPC20 pela NT 52/2026) e hepatite B antes do rituximabe; não vivas pelo menos 2 semanas e vivas pelo menos 4 semanas antes da imunossupressão; vivas contraindicadas com rituximabe, ciclofosfamida ou corticoide imunossupressor (≥ 2 mg/kg/dia até 10 kg ou ≥ 20 mg/dia por ≥ 14 dias) e só ≥ 6 meses após o último rituximabe; vacinar os conviventes.
5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar
Imediatamente (🔴): todos os critérios 🔴 da tabela — hemoptise ou suspeita de hemorragia alveolar, SpO2 < 94% ou desconforto respiratório, creatinina em ascensão, oligúria, edema ou hipertensão, estridor, baixa visual ou proptose dolorosa, déficit neurológico ou convulsão, dor abdominal intensa, sinais cardíacos na EGPA e febre em uso de rituximabe, ciclofosfamida ou corticoide imunossupressor.
Como encaminhar
- Via aérea, respiração e circulação; oxigênio para SpO2 entre 94% e 98%; hemoptise: sentada e em jejum; estridor: posição confortável, sem manipular a orofaringe.
- Acesso venoso; não hidratar com oligúria, edema ou hipertensão; hipertensão grave segue Crise hipertensiva.
- Colher, se não atrasar: hemograma, creatinina, potássio, gasometria, urina, ANCA, C3 e C4. Sem corticoide no consultório.
- Febre no imunossuprimido: Febre e infecção na criança imunocomprometida e com dispositivos.
- SAMU (192) se instável; hospital com UTI pediátrica, diálise e reumatologia pediátrica, com contato prévio.
- Relatório: sintomas, PA, diurese, creatinina anterior, medicamentos e datas (rituximabe, ciclofosfamida, corticoide), vacinas recentes.
6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família
- "A doença do seu filho inflama pequenos vasos do nariz, do pulmão e do rim; tratada cedo, a maioria entra em remissão, mas pode voltar, por isso o acompanhamento é longo."
- "Não suspenda nem mude o corticoide ou o imunossupressor por conta própria; leve sempre a lista de remédios e os últimos exames."
- "Durante o tratamento, nenhuma vacina de vírus vivo sem liberação do especialista; a da gripe é todo ano."
- "Meça a pressão e faça o exame de urina nas datas combinadas."
- Pronto-socorro imediatamente se houver: tosse com sangue, falta de ar, cansaço para respirar; urina escura ou com sangue, pouca urina, inchaço ou dor de cabeça forte; barulho ao respirar ou rouquidão nova; olho vermelho doloroso ou visão embaçada; fraqueza de um lado, convulsão; dor de barriga forte; dor no peito ou palpitação; qualquer febre em quem recebeu rituximabe ou ciclofosfamida ou usa corticoide em dose alta.
7.Comparação com as referências
| Item | SBP | Ministério da Saúde | AAP | NICE | AEP | Johns Hopkins | Harvard | Oxford / Cambridge |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Versão consultada | DC nº 7, Reumatologia, abr/2020 (autoanticorpos) | PCDT da VAA, Portaria Conjunta nº 5, 01/07/2025 | Sem documento localizado | TA308 (26/03/2014); TA825 (21/09/2022), retirada em 2026 | Protocolo AEP/SERPE, 2020 (baseado na SHARE 2019) | Sem posição específica localizada | Sem posição específica localizada | Seguem o NICE |
| Diagnóstico e ANCA | Indicações do ANCA; c-ANCA/PR3 na GPA, p-ANCA/MPO na MPA | Clínica e biópsia; ANCA não disponível no SUS | — | — | Critérios Ankara 2008; IFI confirmada por ELISA | — | — | — |
| Indução GPA/MPA | Sem posição localizada | Corticoide + ciclofosfamida 15 mg/kg; rituximabe só ≥ 18 anos | — | Rituximabe em adultos, se ciclofosfamida inadequada | Corticoide + ciclofosfamida; rituximabe em casos selecionados | — | — | Seguem o NICE |
| Plasmaférese | Sem posição localizada | Não rotineira (PEXIVAS) | — | — | Considerar na GNRP ou hemorragia alveolar | — | — | — |
| Manutenção | Sem posição localizada | Fora do PCDT | — | — | Azatioprina ou micofenolato 1–3 anos; prednisolona 0,1–0,2 mg/kg/dia | — | — | — |
| EGPA | Sem posição localizada | Excluída do PCDT | — | — | Esquema geral da SHARE | — | — | — |
| Profilaxia | Sem posição localizada | Rastrear TB, hepatites, parasitoses; vacinar antes | — | — | SMX-TMP na GPA; mupirocina nasal | — | — | — |
Leitura: as referências concordam que a VAA é emergência potencial, que a biópsia não deve atrasar o tratamento e que há indução com corticoide e ciclofosfamida ou rituximabe seguida de manutenção longa. A SBP só se posiciona no diagnóstico; o PCDT do Ministério da Saúde (2025) é a posição nacional de tratamento, mas pensa no adulto: rituximabe só a partir de 18 anos, sem manutenção nem EGPA. Divergem o rituximabe na criança (bulas FDA e brasileira a partir de 2 anos na GPA e na MPA; PCDT só a partir de 18 anos; KDIGO e ACR/VF o preferem para preservar a fertilidade — abaixo de 18 anos, indicação do especialista), a dose da ciclofosfamida (15 mg/kg no PCDT e no KDIGO; 500–1.000 mg/m² na SHARE e na AEP), a plasmaférese (não rotineira no PCDT e na ACR/VF; considerada nos graves por KDIGO, SHARE e AEP) e o mepolizumabe na EGPA (EMA a partir de 6 anos; no Brasil, só adultos). O NICE avaliou só adultos e retirou o avacopan em 2026. AAP, Johns Hopkins e Harvard sem posição específica localizada; Oxford e Cambridge seguem o NICE. Posição do site: SBP no diagnóstico; PCDT do MS na indução e na plasmaférese; onde o PCDT não alcança a criança, a SHARE 2019, com as doses das bulas.
- Sinusite ou otite crônica destrutiva, estridor, nódulos pulmonares, hemoptise ou hematúria com creatinina subindo: pense em VAA e peça ANCA com PR3 e MPO (SBP 2020; SHARE 2019).
- Fita urinária e PA em toda suspeita; C3 normal com creatinina subindo em dias não é pós-estreptocócica.
- Hemorragia alveolar e glomerulonefrite rapidamente progressiva são 🔴: oxigênio para SpO2 94–98%, sem hidratação, sem corticoide no consultório, SAMU.
- Indução no hospital: metilprednisolona 30 mg/kg (máx. 1 g) por 3 dias e ciclofosfamida 15 mg/kg (PCDT 2025) ou rituximabe 375 mg/m² por 4 semanas (bula a partir de 2 anos; SUS só a partir de 18 anos — abaixo disso, decisão do especialista); manutenção longa pelo especialista.
- Febre em uso de rituximabe, ciclofosfamida ou corticoide imunossupressor é 🔴; profilaxia de Pneumocystis até 6 meses após o último rituximabe.
- Vacinas pelo CRIE: influenza anual, hepatite B antes do rituximabe, nenhuma viva sob imunossupressão nem antes de 6 meses do último rituximabe.
Veja também, nesta Biblioteca: Classificação e abordagem das vasculites na criança, Lúpus eritematoso sistêmico juvenil e Vasculite primária do sistema nervoso central (nesta área); Glomerulonefrite pós-estreptocócica e síndrome nefrítica e Lesão renal aguda na criança (Nefrologia); Hematúria, proteinúria e edema (Patologias do consultório); Biológicos na reumatologia pediátrica (Imunoterapias); Asma grave e de difícil controle na criança e no adolescente (Pneumologia); Febre e infecção na criança imunocomprometida e com dispositivos e HIV na criança (Infectologia); Vacinação da criança imunocomprometida e com doenças crônicas (CRIE) (Imunizações); Crise hipertensiva na criança e no adolescente (Urgências).
8.Fontes
- SBP, Departamento Científico de Reumatologia. Auto anticorpos na prática da reumatologia pediátrica (DC nº 7), abril de 2020. PDF
- Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Vasculite Associada aos Anticorpos Anti-citoplasma de Neutrófilos (Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 1º/07/2025). gov.br/conitec
- de Graeff N et al. European consensus-based recommendations for the diagnosis and treatment of rare paediatric vasculitides — the SHARE initiative. Rheumatology (Oxford), 2019;58(4):656–71. PDF
- AEP/SERPE. Alcobendas Rueda RM, Remesal Camba A, Fernández Fraga P. Vasculitis asociadas a ANCA positivo. Protoc diagn ter pediatr, 2020;2:239–48. PDF
- AEP/SERPE. Rodríguez Diez L. Vasculitis primarias del sistema nervioso central en la infancia. Protoc diagn ter pediatr, 2020;2:249–58 (dose pediátrica do micofenolato). PDF
- Chung SA et al. 2021 American College of Rheumatology/Vasculitis Foundation Guideline for the Management of ANCA-Associated Vasculitis. Arthritis Care Res, 2021;73(8):1088–105. PMC
- KDIGO 2024 Clinical Practice Guideline for the Management of ANCA-Associated Vasculitis. Kidney Int, 2024;105(3S):S71–S116. PDF
- FDA. Rituxan (rituximab) — prescribing information, 2021 (GPA e MPA pediátricas a partir de 2 anos). PDF
- MabThera® (rituximabe) — bula para o paciente, consultada em 10/2026. bula.com.br
- EMA. New add-on treatment for rare autoimmune inflammatory disorder (Nucala, EGPA a partir de 6 anos), 17/09/2021. ema.europa.eu
- Nucala® (mepolizumabe) 100 mg — resumo das características do medicamento (SmPC), posologia na EGPA. medicines.org.uk
- GSK Brasil. Nucala® pó liofilizado — bula para o profissional (EGPA em adultos). PDF
- NICE. Rituximab in combination with glucocorticoids for treating ANCA-associated vasculitis (TA308), 2014. nice.org.uk
- NICE. Avacopan for treating severe active GPA or MPA (TA825), 2022 — retirada em 2026. nice.org.uk
- EMA. Tavneos (avacopan) — EPAR, autorização revogada em 04/08/2026. ema.europa.eu
- MHRA. MHRA concludes review of Avacopan Vifor following reassessment of benefit-risk balance, 01/09/2026 (suspensão para novos pacientes; revogação prevista para 01/03/2027). gov.uk