Temas atualizados em Neonatologia · Ética e cuidados paliativos

Cuidados de fim de vida e paliativos na UTI neonatal

Ética das Diretrizes de Reanimação SBP 2026 e documentos SBP de paliativos de 2026 comparados com SCCM 2026 (copresidida por Boston Children's), BAPM 2026, NICE NG61, SENeo 2013, linhas italianas 2026 e AAP.

Resumo com convergências e divergências entre as atualizações de 2025–2026 em Neonatologia e as posições da Sociedade Brasileira de Pediatria, AAP, NICE, AEP/SENeo, Sociedade Italiana de Neonatologia, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O 1º semestre de 2026 trouxe três marcos internacionais. A diretriz da Society of Critical Care Medicine (SCCM, 20/03/2026) para UTIs pediátricas e neonatais — copresidida por Danielle DeCourcey, do Boston Children's/Harvard — faz 5 recomendações condicionais e 1 declaração de boa prática: planejamento antecipado de cuidados, consulta a cuidados paliativos, avaliação sistemática de sintomas, educação da equipe, processo estruturado de luto e mitigação ativa de iniquidades; as recomendações têm certeza de evidência muito baixa. O BAPM (09/02/2026) substituiu o marco de 2019 sobre o parto antes de 27 semanas, reforçando o cuidado de conforto para o RN com risco extremamente alto de morte e o aconselhamento conjunto obstetrícia–neonatologia. A Itália lançou em 28/05/2026 linhas nacionais de paliativos perinatais (SIEOG, SIMP, SIN). No Brasil, a SBP publicou em 2026 documentos sobre a Política Nacional de Cuidados Paliativos, cuidados paliativos pediátricos e comunicação de notícias difíceis (já comparados neste site), mas não tem documento específico sobre fim de vida na UTI neonatal; o tema aparece nas Diretrizes de Reanimação PRN-SBP 2026: na dúvida, reanimar; decisão compartilhada com a família no prematuro extremo; discutir a interrupção aos 20 minutos sem resposta a manobras avançadas. Há convergência sobre integração precoce e planejamento; as lacunas brasileiras são a equivalência ética entre não iniciar e retirar suporte, a nutrição e a hidratação no fim de vida, o manejo de sintomas e o luto — explícitos em SENeo 2013 e NICE NG61.

1.O que mudou em 2025–2026

Data Instituição Documento O que mudou
05/02/2026 SBP DC nº 25 — Política Nacional de Cuidados Paliativos e sua relevância para a Pediatria Posição da SBP frente à política nacional (pediatria geral)
09/02/2026 BAPM (Reino Unido) Perinatal management of extreme preterm birth before 27 weeks of gestation Substitui a versão de 2019; cuidado de conforto para risco extremamente alto de morte; dados atualizados; aconselhamento conjunto; infográfico de 2019 não deve mais ser usado com os pais
20/03/2026 SCCM (EUA) Guideline on the care and management of pediatric and neonatal intensive care patients at the end of life 5 recomendações condicionais + 1 boa prática (GRADE, literatura 2000–2025)
28/05/2026 SIEOG, SIMP e SIN (Itália) Linee di indirizzo — cuidados paliativos perinatais em condições limitantes da vida Acesso homogêneo no país; diagnóstico pré-natal, plano de parto, conforto, UTIN, hospice e luto
09/06/2026 SBP DC nº 48 — Cuidados paliativos pediátricos: o que são e qual sua importância? Conceitos de cuidados paliativos pediátricos (pediatria geral)
12/06/2026 SBP / PRN-SBP Diretrizes de Reanimação Neonatal 2026 Ética na sala de parto: decisão compartilhada no prematuro extremo; interrupção discutida aos 20 min
09/07/2026 SBP DC nº 52 — É possível comunicar notícias difíceis sem provocar sofrimento adicional? Comunicação de más notícias (pediatria geral)

2.Posição brasileira (SBP)

A SBP não tem documento de 2025–2026 dedicado ao fim de vida na UTI neonatal. A posição neonatal mais recente está no capítulo de ética das Diretrizes de Reanimação do PRN-SBP 2026 (12/06/2026; Almeida MFB, Guinsburg R; Departamento Científico de Neonatologia; base ILCOR 2025). Os DC nº 25, 48 e 52 (2026) tratam da pediatria em geral e já foram analisados nos comparativos deste site sobre cuidados paliativos pediátricos e comunicação de notícias difíceis.

Tema Conteúdo
Princípio geral Sem certeza sobre não reanimar → reanimar
Prematuro extremo Decisão de iniciar a reanimação compartilhada com a família, considerando idade gestacional, condições do RN, prognóstico e diretrizes institucionais
Interrupção da reanimação Discutir a interrupção aos 20 minutos após o nascimento se não houver resposta às manobras avançadas (≥ 34 e < 34 semanas)
Presença dos pais Possível durante a reanimação (qualidade/indicadores)
Cuidados paliativos em geral DC nº 25 (Política Nacional), DC nº 48 (conceitos) e DC nº 52 (comunicação de notícias difíceis), todos de 2026

Não aborda (nos trechos analisados): limite de viabilidade em semanas; equivalência ética entre não iniciar e retirar suporte vital na UTI neonatal; nutrição e hidratação medicamente fornecidas no fim de vida; protocolo de manejo de sintomas (dor, dispneia, agitação, convulsões) e sedação paliativa; cuidado de conforto planejado para o RN periviável; plano de parto paliativo após diagnóstico pré-natal de condição limitante; luto parental e da equipe.

3.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
EUA — SCCM SCCM — Guideline on pediatric and neonatal end-of-life care (Pediatr Crit Care Med, 20/03/2026) 21 membros, GRADE: (1) processo de planejamento antecipado de cuidados (certeza muito baixa); (2) consulta a cuidados paliativos em condições limitantes ou ameaçadoras da vida; (3) avaliação sistemática, não ad hoc, de sintomas, dor e conforto; (4) educação da equipe; (5) processo estruturado de luto durante e após o óbito; (6) boa prática — mitigação ativa de iniquidades (humildade cultural, racismo estrutural)
EUA — AAP AAP — Pediatric palliative care and hospice care commitments, guidelines, and recommendations (Pediatrics 2013); Weise KL et al. — Guidance on forgoing life-sustaining medical treatment (Pediatrics 2017); Diekema DS, Botkin JR — Forgoing medically provided nutrition and hydration in children (Pediatrics 2009); Cummings J; COFN — Antenatal counseling regarding resuscitation and intensive care before 25 weeks (Pediatrics 2015) Conjunto de relatórios sobre cuidados paliativos, suspensão de tratamento de suporte vital, nutrição e hidratação e aconselhamento antes de 25 semanas; textos não revisados nesta análise; sem relatório da AAP de 2024–2026 específico sobre UTIN localizado
Reino Unido — NICE NICE NG61 — End of life care for infants, children and young people with life-limiting conditions (dez/2016, atualizada jul/2019) 0–17 anos, incluindo RN: planejamento antecipado com a família; equipe multiprofissional; cuidado e óbito em casa como opção; manejo de dor, agitação, convulsões e desconforto respiratório; hidratação e nutrição como tema próprio; luto para pais e profissionais
Reino Unido — BAPM BAPM — Perinatal management of extreme preterm birth before 27 weeks (2019); versão 09/02/2026 2019: abordagem por risco (22, 23, 24+ semanas), vias "sobrevida" × "paliativa". 2026: cuidado de conforto para RN com risco extremamente alto de morte, dados atualizados, aconselhamento conjunto obstetrícia–neonatologia
Espanha — SENeo Tejedor Torres JC et al. (GT Ética SENeo) — Recomendaciones sobre toma de decisiones y cuidados al final de la vida en neonatología (An Pediatr 2013;78:190.e1–14) Não iniciar e retirar são eticamente equivalentes; nutrição e hidratação artificiais = medidas de suporte passíveis de limitação; < 24 semanas → decisão individualizada; presença dos pais durante todo o processo; sedação paliativa para aliviar sofrimento; reunião com os pais enlutados (até ~2 meses). Não localizamos atualização
Itália — SIEOG / SIMP / SIN Linee di indirizzo sulle cure palliative perinatali (28/05/2026); SIN — cuidados paliativos (2024–2026) Acesso homogêneo e apropriado em todo o país; diagnóstico pré-natal, plano de parto, conforto, UTIN, hospice e luto. SIN (21/05/2024): paliativos especializados garantidos a só 15–18% dos RN e crianças que precisam
Harvard — Boston Children's Copresidência da diretriz SCCM 2026 (Danielle DeCourcey) Posição expressa pela diretriz SCCM
Johns Hopkins JH All Children's — Management of Periviable Births (protocolo institucional, rev. 09/03/2023) Sem documento sobre fim de vida na UTI neonatal localizado. No nascimento periviável: < 22 semanas, só conforto; 22+0–23+6 semanas, conduta individualizada (intubação se os pais desejarem, sem massagem nem adrenalina); ≥ 24 semanas, reanimação recomendada

4.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP AAP NICE/UK AEP/SENeo Itália Harvard J. Hopkins Leitura
Integração precoce de paliativos DC 25/48 (pediatria geral) Relatório 2013 NG61 Sim Linhas 2026 SCCM rec. 2 — Convergência
Planejamento antecipado Decisão compartilhada na sala de parto — NG61 Deliberação compartilhada Plano de parto SCCM rec. 1 — Convergência
Não iniciar × retirar Interrupção da RCP aos 20 min Relatório 2017 — Equivalentes — — — SBP restrita à sala de parto
Nutrição e hidratação Não aborda Relatório 2009 Tema próprio Limitáveis — — — Lacuna SBP
Manejo de sintomas Não aborda — Dor, agitação, convulsões, dispneia Sedação paliativa Conforto Avaliação sistemática — Lacuna SBP
Família e comunicação Presença na reanimação; DC 52 — Sim Presença contínua Sim Equidade (rec. 6) — Convergência
Luto Não aborda — Pais e equipe Reunião ~2 meses Sim Processo estruturado — Lacuna SBP
Periviabilidade Decisão compartilhada; sem limite em semanas < 25 sem (2015) Por risco, < 27 sem (2026) < 24 sem individualizar — — — UK 2026 mais atual

5.Síntese

A diretriz da SCCM de 2026 traduz em recomendações o que NICE NG61, SENeo e as novas linhas italianas já afirmavam: cuidados paliativos devem ser oferecidos cedo e em paralelo ao tratamento; o planejamento antecipado com a família é um processo contínuo; sintomas devem ser avaliados de modo sistemático; e o cuidado não termina com o óbito, estendendo-se ao luto dos pais e da equipe. A novidade da SCCM é a equidade como boa prática; todas as recomendações são condicionais, de certeza muito baixa.

A posição brasileira é mais estreita. A SBP investiu em 2026 em cuidados paliativos pediátricos e comunicação de notícias difíceis — temas já comparados neste site —, mas, no período neonatal, sua orientação formal está no capítulo de ética da reanimação: reanimar em caso de dúvida, compartilhar com a família a decisão no prematuro extremo e discutir a interrupção aos 20 minutos. É uma posição coerente com o ILCOR, mas restrita à sala de parto. Não há documento que trate da retirada de suporte na UTI neonatal, da equivalência ética entre não iniciar e retirar (explícita na SENeo desde 2013 e tema de relatório da AAP de 2017), da nutrição e hidratação no fim de vida (limitáveis para a SENeo; tema próprio no NICE) ou do luto.

Na periviabilidade, o Reino Unido é hoje a referência mais atual: o BAPM 2026 mantém a abordagem por risco antes de 27 semanas e reforça que, quando o risco de morte é extremamente alto, o cuidado de conforto planejado é uma via legítima, decidida em aconselhamento conjunto de obstetras e neonatologistas. A SBP não fixa limite em semanas nos trechos analisados e remete às diretrizes institucionais, o que exige protocolo escrito em cada serviço.

Observações críticas
  1. Aconselhamento antenatal conjunto (obstetrícia–neonatologia) para toda ameaça de parto periviável ou diagnóstico pré-natal de condição limitante, registrando a decisão compartilhada e o plano de parto, inclusive o cuidado de conforto planejado.
  2. Protocolo institucional escrito sobre limites de viabilidade e interrupção da reanimação, como pede o PRN-SBP 2026; na sala de parto, discutir a interrupção aos 20 minutos sem resposta às manobras avançadas.
  3. Acionar a equipe de cuidados paliativos cedo, em paralelo ao tratamento, em condições limitantes da vida, e não apenas na iminência do óbito (SCCM 2026, NICE NG61).
  4. Tratar não iniciar e retirar suporte como decisões eticamente equivalentes (SENeo), discutindo também nutrição e hidratação medicamente fornecidas como medidas de suporte, sempre com a família e documentadas.
  5. Avaliar sintomas de forma sistemática — dor, desconforto respiratório, agitação, convulsões —, garantindo a presença contínua dos pais.
  6. Organizar o luto: acompanhamento estruturado da família durante e após o óbito (a SENeo sugere reunião em até ~2 meses) e apoio à equipe.

6.Fontes

  • SBP / Programa de Reanimação Neonatal. Almeida MFB, Guinsburg R. Diretrizes 2026 — reanimação do recém-nascido ≥ 34 semanas e do prematuro < 34 semanas. 12/06/2026. doi 10.25060/PRN-SBP-2026-1.
  • SBP. Política Nacional de Cuidados Paliativos e sua relevância para a Pediatria. Documento Científico nº 25, 05/02/2026. sbp.com.br
  • SBP. Cuidados paliativos pediátricos: o que são e qual sua importância? Documento Científico nº 48, 09/06/2026. sbp.com.br
  • SBP. É possível comunicar notícias difíceis sem provocar sofrimento adicional? Documento Científico nº 52, 09/07/2026. sbp.com.br
  • Derrington S, DeCourcey D et al. Guideline on the care and management of pediatric and neonatal intensive care patients at the end of life 2026. Pediatr Crit Care Med, 20/03/2026. sccm.org
  • AAP Section on Hospice and Palliative Medicine, Committee on Hospital Care. Pediatric palliative care and hospice care commitments, guidelines, and recommendations. Pediatrics 2013. doi
  • Weise KL et al. Guidance on forgoing life-sustaining medical treatment. Pediatrics 2017. doi
  • Diekema DS, Botkin JR. Forgoing medically provided nutrition and hydration in children. Pediatrics 2009. doi
  • Cummings J; Committee on Fetus and Newborn. Antenatal counseling regarding resuscitation and intensive care before 25 weeks of gestation. Pediatrics 2015. doi
  • NICE. End of life care for infants, children and young people with life-limiting conditions: planning and management. NG61, 2016 (atualizada 2019). nice.org.uk
  • BAPM. Perinatal management of extreme preterm birth before 27 weeks of gestation. 2019 bapm.org; versão de 09/02/2026 bapm.org
  • Tejedor Torres JC et al.; Grupo de Ética da SENeo. Recomendaciones sobre toma de decisiones y cuidados al final de la vida en neonatología. An Pediatr 2013;78:190.e1–14. analesdepediatria.org
  • SIEOG, SIMP, SIN. Cure palliative perinatali — linee di indirizzo, 28/05/2026. sin-neonatologia.it