Resumo com convergências e divergências entre as atualizações de 2025–2026 em Neonatologia e as posições da Sociedade Brasileira de Pediatria, AAP, NICE, AEP/SENeo, Sociedade Italiana de Neonatologia, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins. 📄 Baixar em PDF
A Diretriz nº 193 da SBP (06/03/2025) é um documento de stewardship: hemocultura de ≥ 1 mL (duas amostras) antes do antibiótico, tratar infecção e não colonização, dizer não a cefalosporinas, carbapenêmicos e vancomicina sempre que possível, ampicilina ou penicilina cristalina + gentamicina ou amicacina na sepse precoce, oxacilina + amicacina na tardia e suspensão em 36–48 h se as culturas forem negativas. Em 2026, três referências avançaram: o NICE NG195 (mai/2026) passou a mandar parar o antibiótico em 36 h quando a suspeita é fraca e clínica, hemocultura e PCR são tranquilizadoras, incluiu a rotura de membranas > 24 h no termo como fator de risco e permitiu troca IV→VO a partir de 36 h no RN ≥ 35+0 semanas com hemocultura negativa; o consenso SENeo (fev/2026) adotou a calculadora de risco a partir de 34 semanas com observação frequente por 36–48 h e suspensão em 24–36 h; o pathway da Johns Hopkins All Children's (30/04/2026) suspende em 48 h e usa cefepima no RN grave com risco de E. coli resistente. A maior lacuna da SBP é não oferecer estratificação de risco do RN assintomático ≥ 35 semanas — calculadora de Kaiser (desenvolvida com dados de Harvard) ou observação clínica seriada, aceitas pela AAP desde 2018. Também diverge o uso de PCR: a SBP a usa para definir 5 dias de tratamento; AAP, SENeo e Johns Hopkins a desaconselham para decidir, e o NICE a usa em 0 e 18–24 h.
1.O que mudou em 2025–2026
| Data | Instituição | Documento | O que mudou |
|---|---|---|---|
| 06/03/2025 | SBP — Departamento Científico de Neonatologia | Diretriz nº 193, uso racional de antibióticos em unidades neonatais | Stewardship, esquemas empíricos, suspensão em 36–48 h, durações por foco e doses |
| 02/2026 | SENeo (Fernández Colomer et al.) | Manejo del recién nacido con riesgo de sepsis vertical, An Pediatr 104(2) | Calculadora ≥ 34 sem com observação frequente por 36–48 h; PCR não rotineira; suspensão em 24–36 h; sepse comprovada máximo 7 d |
| 30/04/2026 | Johns Hopkins All Children's | Early-Onset Sepsis Clinical Pathway | Ampicilina + gentamicina por IG; cefepima no lugar da gentamicina em casos graves de risco; sem PCR/PCT; suspensão em 48 h; cultura negativa máximo 5 d |
| 05/2026 | NICE | NG195, atualização | RPM > 24 h no termo como fator de risco; critérios de febre materna e corioamnionite emendados; "parar em 36 h" (antes "considerar"); troca IV→VO a partir de 36 h (≥ 35+0 sem, hemocultura negativa) |
2.Posição brasileira (SBP)
Documento: Diretriz nº 193, 06/03/2025, 16 p. Departamento Científico de Neonatologia (pres. Licia Moreira; relatores Jamil Caldas, Roseli Calil, Aurimery Chermont, Rita Silveira).
| Tema | Conteúdo |
|---|---|
| Contexto | 83–94% dos RN tratados por suspeita de sepse têm hemocultura negativa; ≥ 5 dias de antibiótico empírico no extremo baixo peso aumentam ECN e morte (Cotten); UNICAMP (20 anos): menos cefalosporina/vancomicina e cursos ≤ 5 d reduziram sepse tardia e multirresistentes sem aumentar mortalidade |
| Princípios | Hemocultura antes do antibiótico, ≥ 1 mL por amostra, 2 amostras (diferenciar estafilococo coagulase-negativo contaminante); não cultivar pele nem ponta de cateter; tratar infecção, não contaminação nem colonização; dizer NÃO a cefalosporinas, carbapenêmicos e vancomicina sempre que possível; parar quando a infecção for descartada |
| Sepse precoce (≤ 48 h) | Ampicilina ou penicilina cristalina + gentamicina ou amicacina |
| Sepse tardia | 1ª opção oxacilina + amicacina; 2ª vancomicina + cefotaxima ou cefepima; vancomicina empírica só com MRSA prevalente; cefalosporinas de 3ª/4ª geração só em meningite, insuficiência renal ou resistência a aminoglicosídeo; ceftriaxona contraindicada com cálcio EV; ESBL → carbapenêmico |
| Suspensão e duração | Suspender em 36–48 h se culturas negativas (hemocultura automatizada); 5 d se infecção não complicada, hemocultura negativa e PCR < 10 mg/L no 4º–5º dia; sepse clínica sem confirmação 5–7 d; ITU 7–10 d; meningite 14 d (gram-positivo) / 21 d (gram-negativo); S. aureus ≥ 14 d; demais bacteremias 7–10 d; remover cateter precocemente |
| Doses | Tabelas por peso e IG; gentamicina ≤ 29 sem 5 mg/kg 48/48 h a ≥ 35 sem 4 mg/kg 24/24 h; níveis séricos de aminoglicosídeos e vancomicina |
| Profilaxia | Só em malformações urinárias/bexiga neurogênica (cefalexina 20 mg/kg/dia) e profilaxia cirúrgica |
Não aborda: estratificação de risco da sepse precoce (calculadora de Kaiser, observação clínica seriada, abordagem categórica por fatores de risco — RPM, febre materna, EGB, profilaxia intraparto); quando não iniciar antibiótico no RN assintomático ≥ 35 semanas; pré-termo de baixo risco; PCR ou procalcitonina seriadas como regra de suspensão; rastreio universal do EGB materno; indicações de punção lombar; métricas de uso de antibiótico e benchmarking; antifúngico profilático; 7 vs 14 dias na sepse confirmada; troca para via oral.
3.Posição das referências internacionais
Os pathways da Johns Hopkins All Children's são protocolos institucionais.
| Referência | Documento e ano | Posição resumida |
|---|---|---|
| EUA — AAP | Puopolo KM et al. — RN ≥ 35 sem (Pediatrics 2018;142:e20182894); RN ≤ 34 6/7 sem (Pediatrics 2018;142:e20182896); EGB (2019); calculadora atualizada (2024) | ≥ 35 sem: aceita três abordagens — categórica por fatores de risco, calculadora multivariada e observação clínica aprimorada do RN bem. Hemocultura ≥ 1 mL; ampicilina + gentamicina; suspender em 36–48 h se cultura negativa; PCR/PCT sem papel para iniciar ou definir duração. ≤ 34 6/7 sem: baixo risco (cesárea por indicação materna, sem trabalho de parto, sem RPM, sem suspeita de infecção intra-amniótica) pode dispensar avaliação e antibiótico. Sem novo relatório AAP 2024–2026 localizado. |
| Reino Unido — NICE | NICE NG195 — Neonatal infection: antibiotics for prevention and treatment (atualização mai/2026) | Novo fator de risco RPM > 24 h no termo (pré-termo > 18 h); febre materna e corioamnionite emendadas "por preocupações de segurança". Calculadora aceita > 34+0 sem com auditoria prospectiva. PCR basal e 18–24 h após o início. Benzilpenicilina 25 mg/kg 12/12 h + gentamicina 5 mg/kg. "Stop antibiotics at 36 hours" se hemocultura negativa, suspeita inicial fraca e clínica e PCR tranquilizadoras. Troca IV→VO a partir de 36 h no RN ≥ 35+0 sem com hemocultura negativa, se clínica e PCR tranquilizadoras (total até 7 d). 7 dias IV se cultura positiva ou forte suspeita. Sepse tardia: espectro estreito, p. ex. flucloxacilina + gentamicina. |
| Espanha — SENeo / AEP | Fernández Colomer et al. — Manejo del recién nacido con riesgo de sepsis vertical (An Pediatr 2026;104:504106); protocolo de sepse tardia SENeo/AEP (2008) | Calculadora ≥ 34 sem (−40–60% de antibiótico) e observação frequente nas primeiras 36–48 h. PCR não rotineira no RN bem (PCR seriada normal em 48 h tranquiliza); PCT sobe fisiologicamente nas primeiras 24–48 h. Ampicilina + gentamicina/amicacina; evitar cefalosporina de 3ª geração e carbapenêmico. Suspender em 24–36 h se cultura negativa e RN estável; sepse clínica até 5 d; sepse comprovada máximo 7 d (S. aureus/Listeria ≥ 10 d; meningite 14–21 d). Pré-termo de baixo risco: sem antibiótico ou suspensão em 24–48 h. Sepse tardia (2008): sem empírico consensuado; mais usado vancomicina ou teicoplanina + aminoglicosídeo. |
| Itália — SIN / SIP | Berardi A et al. — observação clínica seriada (Ital J Pediatr 2018;44); SIN — comunicado sobre sepse neonatal (set/2026) | Modelo regional (Emilia-Romagna): RN ≥ 35 sem bem recebe 7 avaliações (3–6–12–18–24–36–48 h), sem exames nem antibiótico empírico; 2.092 RN observados, 1,1% tratados, nenhum caso perdido. Não localizamos diretriz nacional formal da SIN sobre sepse precoce; o comunicado de 2026 enfatiza stewardship e a rede INN-SIN. |
| Harvard — BWH / BIDMC / Boston Children's (pesquisa) | Puopolo KM et al. — Estimating the probability of neonatal early-onset infection (Pediatrics 2011;128:e1155) | A calculadora de Kaiser nasceu em parte em Harvard: coorte de 608.014 nascidos ≥ 34 sem (Kaiser, BWH e BIDMC), com autores de Harvard; o modelo (c = 0,800) superou os limiares por fatores de risco. Sem protocolo institucional público atual localizado. |
| Johns Hopkins All Children's | Early-Onset Sepsis Clinical Pathway (30/04/2026) | Fatores de risco: febre intraparto, corioamnionite, RPM > 18 h. Não menciona a calculadora. Hemocultura ≥ 1 mL. Ampicilina 100 mg/kg 8/8 h + gentamicina (< 29 sem 5 mg/kg 48/48 h; 30–34 sem 4,5 mg/kg 36/36 h; > 35 sem 4 mg/kg 24/24 h); cefepima 50 mg/kg 12/12 h substitui a gentamicina no RN grave com RPM, exposição materna a betalactâmico ou suspeita de infecção intra-amniótica (risco de E. coli resistente à ampicilina). Sem PCR/PCT. Suspende em 48 h; cultura negativa máximo 5 d; sepse confirmada conforme agente, com infectologia. Pré-termo de baixo risco pode dispensar avaliação. |
4.Concordâncias e discordâncias
| Tema | SBP | AAP | NICE/UK | AEP/SENeo | Itália | Harvard | J. Hopkins | Leitura |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Estratificação ≥ 35 sem | Não aborda | Categórica, calculadora ou observação | Fatores de risco; calculadora > 34 sem com auditoria | Calculadora ≥ 34 sem + observação 36–48 h | Observação seriada 48 h, sem exames | Origem da calculadora (2011) | Fatores de risco; sem calculadora | Maior lacuna da SBP |
| Pré-termo de baixo risco | Não aborda | Pode dispensar | — | Evitar ou suspender em 24–48 h | — | — | Pode dispensar | SBP silente |
| RPM como fator de risco | Não aborda | 18 h | > 18 h pré-termo; > 24 h termo (2026) | Na calculadora | Na observação | Na calculadora | > 18 h | NICE diverge em 2026 |
| Hemocultura | ≥ 1 mL, 2 amostras | ≥ 1 mL | Antes do antibiótico | ≥ 1 mL | — | — | ≥ 1 mL | Concordância |
| Empírico precoce | Amp/penicilina + genta/amica | Amp + genta | Benzilpenicilina + genta | Amp + genta/amica | — | — | Amp + genta (cefepima se grave) | Concordância; JH amplia |
| PCR/PCT | PCR normal no 4º–5º d para 5 d | Não usar para decidir | PCR 0 e 18–24 h | Não rotineira | Sem exames | — | Não recomenda | Divergência |
| Suspensão com cultura negativa | 36–48 h | 36–48 h | Parar em 36 h | 24–36 h | Sem antibiótico se exame normal | — | 48 h | Tendência a ≤ 36 h |
| Sepse comprovada | 7–10 d (por foco) | — | 7 d IV (VO só com hemocultura negativa) | Máximo 7 d | — | — | Por agente, com infectologia | NICE inova com VO |
| Sepse tardia empírica | Oxacilina + amicacina | Sem documento específico localizado | Flucloxacilina + genta | Vanco/teico + aminoglicosídeo (2008) | — | — | Fora do escopo | SBP ≈ NICE |
| Métricas de stewardship | Sem metas | — | Auditoria | −40–60% com calculadora | Rede INN-SIN | — | — | SBP sem indicadores |
5.Síntese
A Diretriz nº 193 é um bom documento de stewardship e se alinha às referências internacionais no que é essencial: hemocultura de volume adequado antes do antibiótico, betalactâmico + aminoglicosídeo na sepse precoce, recusa ao uso rotineiro de cefalosporinas, carbapenêmicos e vancomicina, e suspensão precoce quando as culturas são negativas. Na sepse tardia, a opção por oxacilina + amicacina, reservando a vancomicina a serviços com alta prevalência de MRSA, é conceitualmente idêntica à do NICE (flucloxacilina + gentamicina) e mais restritiva que o protocolo espanhol de 2008.
A maior lacuna está antes do início do antibiótico: não há orientação sobre quem não precisa dele. AAP (2018), NICE, SENeo (2026) e o modelo italiano oferecem ferramentas para o RN assintomático ≥ 34–35 semanas — calculadora de risco, desenvolvida com dados de Kaiser e de hospitais de Harvard, ou observação clínica seriada — e, segundo a SENeo, a calculadora reduz em 40–60% a exposição a antibióticos; na Itália, só 1,1% dos RN observados foram tratados. AAP e Johns Hopkins também dispensam avaliação no pré-termo de baixo risco. O próprio documento lembra que 83–94% dos RN tratados por suspeita de sepse têm hemocultura negativa — é nesse grupo que a estratificação atua.
Na suspensão, a SBP (36–48 h) acompanha AAP e Johns Hopkins, mas a tendência é encurtar: o NICE passou de "considerar" para "parar em 36 h" e a SENeo aceita 24–36 h. O NICE também inovou com a troca para via oral a partir de 36 h no RN ≥ 35 semanas com hemocultura negativa. O uso de PCR é o ponto mais heterogêneo: a SBP condiciona o curso de 5 dias a uma PCR normal no 4º–5º dia, o NICE a mede em 0 e 18–24 h, enquanto AAP, SENeo e Johns Hopkins não a usam para decidir início ou duração.
- Hemocultura antes do antibiótico, ≥ 1 mL por amostra (SBP, AAP, SENeo e Johns Hopkins) — é o que dá segurança para suspender o tratamento em 36–48 h.
- RN assintomático ≥ 35 semanas com fator de risco: considerar calculadora de risco ou observação clínica seriada em vez de antibiótico automático, com protocolo local e auditoria.
- Suspender com cultura negativa em até 36–48 h se o RN estiver bem; NICE e SENeo já trabalham com 36 h ou menos.
- Não usar PCR ou procalcitonina isoladas para iniciar antibiótico; na suspensão, a PCR tem apenas papel de apoio.
- Sepse tardia: oxacilina + amicacina como 1ª escolha; vancomicina empírica só com MRSA prevalente, não por estafilococo coagulase-negativo.
- Medir o uso de antibiótico na unidade (p. ex. taxa de uso de antibióticos) para acompanhar o efeito das medidas de stewardship — ponto ausente na diretriz.
6.Fontes
- SBP. Diretrizes para uso racional de antibióticos em unidades neonatais. Diretriz nº 193, Departamento Científico de Neonatologia, 06/03/2025.
- Puopolo KM et al.; AAP. Sepse bacteriana precoce no RN ≥ 35 semanas. Pediatrics 2018;142(6):e20182894. doi
- AAP. Sepse bacteriana precoce no RN ≤ 34 6/7 semanas. Pediatrics 2018;142(6):e20182896. doi
- Puopolo KM, Lynfield R, Cummings JJ; AAP. RN com risco de doença pelo estreptococo do grupo B. Pediatrics 2019;144(2):e20191881. doi
- Kuzniewicz M et al. Update to the neonatal early-onset sepsis calculator. Pediatrics 2024;154(4):e2023065267. publications.aap.org
- NICE. Neonatal infection: antibiotics for prevention and treatment (NG195), 2021, atualizado em 05/2026. nice.org.uk
- Fernández Colomer et al. Manejo del recién nacido con riesgo de sepsis vertical. Documento de consenso SENeo. An Pediatr 2026;104(2):504106. analesdepediatria.org
- Fernández Colomer, López Sastre et al. Protocolo SENeo/AEP de sepse, 2008. seneo.es
- Berardi A et al. Observação clínica seriada do RN com risco de sepse precoce (grupo de trabalho EGB da Emilia-Romagna). Ital J Pediatr 2018;44. Springer
- SIN. Comunicado sobre sepse neonatal, 09/2026. cronachediscienza.it
- Puopolo KM et al. Estimating the probability of neonatal early-onset infection. Pediatrics 2011;128(5):e1155. publications.aap.org
- Nickel N. Early-Onset Sepsis Clinical Pathway. Johns Hopkins All Children's Hospital, 30/04/2026. PDF