Temas atualizados em Neonatologia · Infecções

Sífilis congênita

Guia Prático de Atualização SBP nº 226 (09/2025) comparado com CDC 2021 e as atualizações sobre a escassez de penicilina benzatina (2025–2026), o guia da AAP (07/2025), BASHH 2024 (Reino Unido), protocolos espanhóis, o percurso italiano SIN/SIP e as metas da OMS.

Resumo com convergências e divergências entre as atualizações de 2025–2026 em Neonatologia e as posições da Sociedade Brasileira de Pediatria, AAP, NICE, AEP/SENeo, Sociedade Italiana de Neonatologia, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

O Guia Prático de Atualização nº 226 da SBP (11/09/2025), baseado no PCDT do Ministério da Saúde de 2022, define tratamento materno adequado como penicilina benzatina completa, iniciada até 30 dias antes do parto, exige teste não treponêmico pareado mãe–RN em sangue periférico e separa o RN exposto (mãe adequadamente tratada; sem tratamento) da sífilis congênita (mãe não tratada ou inadequadamente tratada; notificar, investigar e tratar). Esses princípios coincidem com o CDC (2021), com o guia da AAP atualizado em 07/2025, com a BASHH (2024) e com os protocolos espanhol e italiano. As diferenças: a SBP usa benzatina 50.000 UI/kg dose única no RN de mãe inadequadamente tratada com avaliação normal — opção aceita pelo CDC com seguimento garantido, mas não pela BASHH, que trata 10 dias; e o CDC recomenda benzatina para o RN de mãe adequadamente tratada na gestação — admitindo não tratar se o seguimento sorológico for garantido —, enquanto a SBP não trata. O guia não traz doses de cristalina e procaína nem plano para a escassez de benzatina (atualizado pelo CDC em 2026), não incorpora IgM treponêmica nem PCR e não cita a meta da OMS (≤ 50/100.000 NV), da qual o Brasil (10,3/1.000) está ~20 vezes distante.

1.O que mudou em 2025–2026

Data Instituição Documento O que mudou
08/07/2025 AAP Congenital Syphilis Evaluation and Treatment Guide Guia alinhado a CDC/Red Book com 4 categorias (comprovada, possível, menos provável, improvável); doses de penicilina cristalina por idade; seguimento com título a cada 2–3 meses
07/2025 CDC Clinical reminders during Bicillin L-A shortage Prioriza a penicilina benzatina para gestantes e lactentes com sífilis congênita; penicilina é o único tratamento recomendado nesses grupos
11/09/2025 SBP (DC Neonatologia) Guia Prático de Atualização nº 226 — Sífilis congênita Atualiza o manejo com base no PCDT 2022; teste pareado periférico; benzatina dose única no RN de mãe inadequadamente tratada com avaliação normal
10/03/2026 CDC / FDA Bicillin updates FDA autoriza importação temporária de Lentocilin
14/04/2026 CDC Bicillin updates Pfizer adia a normalização do abastecimento de Bicillin L-A para o 4º trimestre de 2027
05/2026 ECDC Annual Epidemiological Report for 2024 UE/EEE: 140 casos em 2024 (4,7/100.000 NV), maior número desde 2009

2.Posição brasileira (SBP)

Documento: Guia Prático de Atualização nº 226, 11/09/2025, 19 p. Departamento Científico de Neonatologia (presidente e relatora Lícia Moreira; relatora Priscila Lyra). Base: PCDT do Ministério da Saúde para IST e Transmissão Vertical (2022).

Tema Conteúdo
Epidemiologia (Brasil, 2022) 83.034 gestantes com sífilis (32,4/1.000 NV); 26.468 casos de sífilis congênita (10,3/1.000 NV); 200 óbitos; transmissão vertical de 34,3%; até 80% intraútero; 60–90% assintomáticos ao nascer
Gestante Teste no 1º trimestre, início do 3º e no parto. Tratamento adequado: penicilina benzatina, completo para o estágio, iniciado até 30 dias antes do parto, intervalos respeitados (parceiro retirado da definição pelo PCDT 2022). Resposta: queda ≥ 2 diluições em 3 meses ou ≥ 4 em 6 meses
Maternidade Teste rápido em toda gestante e no abortamento; teste não treponêmico (TNT) pareado mãe–RN em sangue periférico, não de cordão; título do RN ≥ 2 diluições acima do materno = sífilis congênita; título igual ou menor não exclui
Notificação Mãe não tratada ou inadequadamente tratada → sífilis congênita (notificar); mãe adequadamente tratada → criança exposta (não notificar)
Criança exposta Mãe adequadamente tratada, RN assintomático, TNT não reagente ou ≤ 1 diluição acima do materno: sem tratamento; seguimento na atenção básica com TNT aos 1, 3, 6, 12 e 18 meses (suspender após 2 não reagentes consecutivos); treponêmico não obrigatório, após 18 meses
Mãe inadequadamente tratada Notificar; hemograma, glicemia, radiografia de ossos longos, líquor (células, proteína, VDRL). Tudo normal e TNT não reagente → penicilina benzatina 50.000 UI/kg IM dose única. Alterado → sífilis congênita: sem neurossífilis, penicilina cristalina ou procaína por 10 dias; com neurossífilis, cristalina por 10 dias (internação)
Líquor sugestivo RN: > 25 células, proteína > 150 mg/dL, VDRL reagente; > 28 dias: > 5 células, proteína > 40 mg/dL; neurossífilis em cerca de 60%
Ceftriaxona Apenas na falta de penicilina, sem eficácia comprovada
Seguimento da sífilis congênita Consultas na semana 1 e nos meses 1, 2, 4, 6, 9, 12 e 18; TNT aos 1, 3, 6, 12 e 18 meses; líquor a cada 6 meses se neurossífilis; avaliação oftalmológica, audiológica e neurológica semestral por 2 anos; retratar se título subir 2 diluições ou não negativar

Não aborda: doses e intervalos da penicilina cristalina (50.000 UI/kg 12/12 h até 7 dias de vida, 8/8 h depois) e da procaína; conduta detalhada na escassez de penicilina; os 4 cenários do CDC; RN de mãe tratada com menos de 4 semanas do parto; PCR de lesões e placenta; IgM treponêmica; manejo do parceiro; meta de eliminação da OMS. Há inconsistência interna: o texto diz que o treponêmico "entre 15 e 18 meses não é mais obrigatório", mas a tabela o posiciona a partir de 18 meses.

3.Posição das referências internacionais

Não localizamos protocolos públicos específicos do Boston Children's nem da Johns Hopkins All Children's (cujos pathways são institucionais); a prática nesses centros segue CDC/AAP.

Referência Documento e ano Posição resumida
EUA — CDC / AAP CDC — STI Treatment Guidelines, Congenital Syphilis (2021); AAP — Congenital Syphilis Evaluation and Treatment Guide (07/2025); CDC — Bicillin updates (2026); Perinatal HIV Hotline — Bicillin L-A shortage (2026) Tratamento materno adequado iniciado ≥ 30 dias antes do parto; título do RN ≥ 4× o materno sugere infecção. Cenários: (1) comprovada/altamente provável → avaliação completa e 10 dias de penicilina parenteral; (2) possível → líquor e ossos longos, benzatina dose única aceitável só com avaliação completa normal; (3) mãe adequadamente tratada na gestação → benzatina 50.000 U/kg IM dose única (alternativa: não tratar, com seguimento sorológico a cada 2–3 meses por 6 meses, se o retorno for garantido); (4) improvável (tratamento pré-gestacional, títulos baixos estáveis) → sem tratamento. AAP: cristalina 50.000 U/kg IV 12/12 h (≤ 7 dias) e 8/8 h (> 7 dias), 10 dias; alternativas procaína IM diária por 10 dias ou benzatina dose única com ressalvas; ≥ 1 mês 200.000–300.000 U/kg/dia. TNT a cada 2–3 meses, queda até 3 e negativação até 6 meses; treponêmico não serve para seguimento (IgG materna > 15 meses). Ceftriaxona só com especialista. Escassez: benzatina reservada a gestantes e lactentes com SC; Lentocilin importado (03/2026)
Reino Unido — BASHH / NICE Kingston et al. — BASHH UK guidelines for the management of syphilis in pregnancy and children (Int J STD AIDS, 2024) NICE: sem documento específico localizado. BASHH: adequado = tratamento concluído > 30 dias antes do parto, com penicilina ou ceftriaxona (macrolídeo = inadequado); sorologia pareada (não de cordão) com treponêmico, RPR quantitativo e IgM treponêmica; PCR de lesões, placenta, sangue e líquor. Tratar o RN se tratamento materno < 4 semanas antes do parto, com macrolídeo, ausente ou inadequado: benzilpenicilina 25 mg/kg IV 12/12 h (≤ 7 dias), 8/8 h (7–28 dias), 6/6 h (> 28 dias) por 10 dias; sem possibilidade de internação, ceftriaxona 75 mg/kg/dia IV por 10 dias (< 1 ano). Seguimento: baixo risco, ao nascer e aos 3 meses; tratados, RPR ao nascer, 3, 6 e 12 meses. Recomendações neonatais em geral de boa prática
Espanha — SEIP / AEP SEIP e outras — Documento de consenso sobre ITS (atualização 2024); Vall d'Hebron — Sífilis congénita, v2 (11/2024) Consenso de ITS 2024 da SEIP com sociedades e Ministério; como exemplo de prática, o protocolo Vall d'Hebron: inadequado = antibiótico não penicilina ou início < 30 dias do parto; regra de 4×; RPR no soro do RN + IgG/IgM (CLIA); comprovada → penicilina G sódica 100.000–150.000 UI/kg/dia IV por 10 dias; possível → sódica, procaína ou benzatina dose única; baixa probabilidade → benzatina ou observação; RPR a cada 2–3 meses; treponêmico aos 18 meses. Declaração obrigatória (RENAVE); 10 casos em 2024 (3,1/100.000 NV)
Itália — SIN / SIP / SITIP AMCLI, SIGO, SIMaST, SIMIT, SIN, SIP — Percorsi diagnostico-assistenziali Sifilide (04/2012); SITIP — Sifilide congenita, luci ed ombre (06/2023) Tratamento materno > 4 semanas antes do parto; 3 cenários de tipo CDC; penicilina G sódica 50.000 UI/kg IV 12/12 h nos primeiros 7 dias, depois 8/8 h, total 10 dias; benzatina 50.000 UI/kg dose única só com avaliação negativa e seguimento incerto; sorologia trimestral; treponêmico positivo após 18 meses = infecção. SITIP 2023: sem consenso novo; discute rastreio no 3º trimestre, tratamento do parceiro e escassez de benzatina. 7 casos em 2024 (1,8/100.000 NV)
Harvard — Boston Children's Sem documento específico localizado Prática segue CDC/AAP
Johns Hopkins Sem documento específico localizado entre os pathways públicos da JH All Children's Prática segue CDC/AAP
OMS / ECDC OMS — Eliminating congenital syphilis in Brazil (12/2024); ECDC — AER 2024 (2026) Meta de eliminação ≤ 50 casos/100.000 NV com cobertura de testagem e tratamento ≥ 95%; Distrito Federal reduziu 37% dos casos em 2021–2023. UE/EEE: 4,7/100.000 NV em 2024

4.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP AAP NICE/UK AEP/SENeo Itália Harvard J. Hopkins Leitura
Tratamento materno adequado Benzatina, iniciada ≥ 30 d antes Iniciado ≥ 30 d antes Concluído > 30 d; aceita ceftriaxona < 30 d ou não penicilina = inadequado > 4 sem CDC/AAP CDC/AAP Concordância; UK aceita ceftriaxona
Título pareado Periférico; ≥ 2 diluições ≥ 4× Pareado + IgM + PCR 4× + IgM 4× + IgM CDC/AAP CDC/AAP Concordância (2 diluições = 4×); Europa soma IgM/PCR
Líquor e ossos longos Se mãe inadequada Cenários 1–2 Por risco Por cenário Por cenário — — Concordância
Mãe inadequada, avaliação normal Benzatina dose única Aceitável se avaliação completa normal 10 dias Benzatina possível Benzatina se seguimento incerto — — Divergência com UK
Mãe adequada na gestação Sem tratamento (exposto) Benzatina dose única (cenário 3; não tratar é alternativa com seguimento garantido) Não trata se > 4 sem (testes ao nascer e 3 m) Benzatina ou observação — — — Divergência parcial com CDC
Doses da cristalina Não traz 50.000 U/kg 12/12 → 8/8 h 25 mg/kg 12/8/6 h 100–150 mil UI/kg/d 50.000 12/12 → 8/8 h — — Lacuna SBP
Procaína Alternativa sem neurossífilis Alternativa Não citada Alternativa — — — Parcial
Seguimento do título 1, 3, 6, 12, 18 m A cada 2–3 m até negativar 3, 6, 12 m 2–3 m Trimestral — — Semelhante
Treponêmico aos 18 m Ambíguo Não para seguimento — 18 m > 18 m — — SBP inconsistente
Escassez / ceftriaxona Só na falta, sem eficácia comprovada Priorizar gestantes e RN; Lentocilin Ceftriaxona alternativa formal — Discute escassez — — UK mais permissivo
Meta OMS Não cita — — 3,1/100.000 1,8/100.000 — — Brasil ~20× acima

5.Síntese

O guia da SBP é fiel ao PCDT 2022 e está alinhado ao núcleo do consenso internacional: o critério temporal de 30 dias para considerar adequado o tratamento materno, a comparação pareada de títulos em sangue periférico (2 diluições equivalem à regra de 4 vezes do CDC), a investigação com líquor e ossos longos quando o tratamento materno é inadequado e 10 dias de penicilina parenteral na doença comprovada ou com avaliação alterada.

As divergências de conduta estão nas zonas intermediárias. Para o RN de mãe inadequadamente tratada com avaliação normal e teste não reagente, a SBP prescreve benzatina dose única, o que corresponde a uma opção do cenário 2 do CDC/AAP — condicionada a avaliação completa normal e seguimento garantido —, enquanto a BASHH trata todos esses RN por 10 dias. No sentido oposto, o CDC recomenda benzatina dose única para o RN de mãe adequadamente tratada durante a gestação (cenário 3), que a SBP classifica como exposto e não trata — conduta que o CDC admite como alternativa quando o seguimento sorológico é garantido. A Europa soma IgM treponêmica e PCR, ausentes do guia.

As lacunas pesam mais: faltam doses da cristalina e da procaína (explícitas na AAP, na BASHH e no percurso italiano), um plano para a escassez de benzatina (que o CDC enfrentou priorizando gestantes e RN e importando Lentocilin) e clareza sobre o treponêmico aos 18 meses. Sobretudo, com 10,3 casos por 1.000 nascidos vivos em 2022, o Brasil está cerca de 20 vezes acima da meta da OMS e mais de 200 vezes acima da taxa europeia de 2024; a sífilis congênita continua sendo, antes de tudo, falha de pré-natal.

Observações críticas
  1. Teste pareado: colher o não treponêmico do RN em sangue periférico (nunca de cordão) junto com o materno; título ≥ 2 diluições acima do materno define sífilis congênita, mas título igual ou menor não a exclui.
  2. Penicilina cristalina: 50.000 UI/kg IV a cada 12 h nos primeiros 7 dias de vida e a cada 8 h depois, por 10 dias (AAP; percurso italiano) — dose que o guia da SBP não traz.
  3. Benzatina dose única no RN de mãe inadequadamente tratada: só com hemograma, radiografia de ossos longos e líquor normais, teste não reagente e seguimento garantido; havendo dúvida sobre o retorno, preferir 10 dias de penicilina, como faz a BASHH.
  4. Escassez de benzatina: priorizar gestantes e RN; ceftriaxona apenas na falta de penicilina, com seguimento rigoroso (a BASHH usa 75 mg/kg/dia IV por 10 dias em < 1 ano).
  5. Seguimento: TNT aos 1, 3, 6, 12 e 18 meses; segundo a AAP, o título deve cair até 3 meses e negativar até 6 meses — subida de 2 diluições ou persistência indica novo líquor e retratamento.
  6. Oportunidade perdida: oferecer à mãe testagem para HIV e hepatite B e garantir o tratamento do parceiro, mesmo fora da definição de adequação do PCDT 2022.

6.Fontes

  • SBP. Sífilis congênita. Guia Prático de Atualização nº 226, Departamento Científico de Neonatologia, 11/09/2025.
  • Brasil, Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — IST e Transmissão Vertical (2022).
  • CDC. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines, 2021 — Congenital syphilis. CDC
  • CDC. Clinical reminders during Bicillin L-A shortage (07/2025; atualização 16/03/2026). Perinatal HIV Hotline. CDC NCHHSTP. Bicillin updates (2026). CDC
  • AAP. Congenital Syphilis Evaluation and Treatment Guide (08/07/2025). AAP
  • Kingston et al. UK guidelines for the management of syphilis in pregnancy and children 2024 (BASHH). Int J STD AIDS, 2024. BASHH; PubMed
  • SEIP, GEITS, GeSIDA, GEHEP, SEIMC. Documento de consenso sobre ITS em adultos, crianças e adolescentes (2024). SEIP. Hospital Vall d'Hebron. Sífilis congénita, v2 (11/2024). PDF
  • AMCLI, SIGO, SIMaST, SIMIT, SIN, SIP. Percorsi diagnostico-assistenziali — Sifilide (04/2012). SIN. Barisone, Garazzino. Sifilide congenita, luci ed ombre. SITIP, 09/06/2023. SITIP
  • OMS. Eliminating congenital syphilis — using evidence-based management in Brazil (20/12/2024). OMS
  • ECDC. Congenital syphilis — Annual Epidemiological Report for 2024 (2026). ECDC