Temas atualizados em Neonatologia · Triagens e exposições pré-natais

Triagem de cardiopatia congênita crítica por oximetria de pulso

Novo algoritmo da AAP (Pediatrics, jan/2025) e sua leitura por autores de Harvard comparados com o teste do coraçãozinho da SBP (2011) e do Ministério da Saúde, UK NSC, SENeo (2021), SIN/SICP (2023) e Johns Hopkins.

Resumo com convergências e divergências entre as atualizações de 2025–2026 em Neonatologia e as posições da Sociedade Brasileira de Pediatria, AAP, NICE, AEP/SENeo, Sociedade Italiana de Neonatologia, Harvard (Boston Children's) e Johns Hopkins. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Em janeiro de 2025 a AAP publicou em Pediatrics um novo algoritmo de triagem de cardiopatia congênita crítica (CCC) por oximetria de pulso (Oster ME et al.), divulgado pelo CDC: triagem com ≥24 h de vida, na mão direita e em um pé; passa com SpO2 ≥95% em ambos e diferença ≤3%; falha imediata com qualquer medida <90%; valores de 90–94% ou diferença >3% levam a uma única repetição após 1 h (antes eram duas), e a persistência é falha. Autores do Boston Children's e do Brigham (Harvard) comentaram a mudança em J Perinatol (05/2025), defendendo dados estaduais padronizados e educação sobre os limites do teste. No Brasil vale o teste do coraçãozinho — Documento Científico da SBP de 07/11/2011, depois incorporado ao SUS pelo Ministério da Saúde: 24–48 h, membro superior direito e um membro inferior, normal com SpO2 ≥95% em ambos e diferença <3%, uma repetição após 1 h e ecocardiograma em até 24 h se persistir alterado. Há concordância em triagem universal, locais de medida, corte de 95% e repetição única. As diferenças são finas mas reais: a SBP não prevê falha imediata abaixo de 90% e considera alterada a diferença de exatamente 3%. A SENeo (2021) triageia antes de 24 h (ideal nas primeiras 12 h) e repete após 30 min; o Reino Unido não adota a oximetria como rastreamento populacional e usa o exame físico (NIPE); a Itália a considera prática difusa, sem algoritmo nacional localizado. Não localizamos atualização da SBP posterior a 2011.

1.O que mudou em 2025–2026

Data Instituição Documento O que mudou
01/2025 AAP Oster ME et al. — Newborn Screening for Critical Congenital Heart Disease, A New Algorithm (Pediatrics 2025;155(1):e2024069667) Uma única repetição (antes duas); falha imediata <90%; passa com ≥95% em mão direita e pé e diferença ≤3%; triagem após desmame de O2 e com RN alerta
2025 CDC Screening for Critical Congenital Heart Defects (página para profissionais) Divulga o algoritmo AAP 2025: ≥24 h ou o mais tarde possível se alta precoce
02/05/2025 Autores do Boston Children's e Brigham (Harvard) Levy PT, Thomas AR, Sen S, Ball MK — J Perinatol Comentário acadêmico: algoritmo simplificado para aumentar a detecção precoce e reduzir internações de emergência; defende dados estaduais padronizados e vinculados
— SBP / Ministério da Saúde — Sem atualização localizada; vigente o DC SBP de 2011

2.Posição brasileira (SBP)

Documento: "Diagnóstico precoce de cardiopatia congênita crítica: oximetria de pulso como ferramenta de triagem neonatal", Documento Científico da SBP, 07/11/2011. Não localizamos documento SBP de 2025–2026 nem a atualização de 2023 por vezes citada; o teste do coraçãozinho foi incorporado ao SUS pelo Ministério da Saúde (Portaria SAS/MS nº 20, de 10/06/2014 — texto oficial não consultado para este resumo).

Tema Conteúdo
Quem Triagem universal, antes da alta
Quando Entre 24 e 48 h de vida
Onde medir Membro superior direito (pré-ductal) e um membro inferior (pós-ductal)
Resultado normal SpO2 ≥95% em ambas as medidas e diferença <3%
Resultado alterado SpO2 <95% em qualquer medida ou diferença ≥3% → repetir após 1 h
Persistência Se continuar alterado → ecocardiograma em até 24 h
Desempenho Sensibilidade 75%, especificidade 99%
Limites O exame físico continua essencial; lesões como a coarctação da aorta podem escapar à oximetria

Não aborda (no documento de 2011): falha imediata com SpO2 <90%; triagem após desmame de O2 e com RN alerta; alta antes de 24 h; papel do diagnóstico pré-natal; orientação estruturada aos pais sobre sinais de alarme; registro padronizado dos resultados.

3.Posição das referências internacionais

Referência Documento e ano Posição resumida
EUA — AAP / CDC Oster ME et al., AAP — Newborn Screening for CCHD, A New Algorithm (Pediatrics 2025;155(1):e2024069667); CDC — Screening for CCHD (2025) Triagem universal com ≥24 h (ou o mais tarde possível se alta antes); mão direita + pé; passa: ≥95% em ambos e diferença ≤3%; falha: qualquer medida <90%, ou <95% / diferença >3% em 2 medidas separadas por 1 h (uma única repetição); triar após desmame de O2 e com o RN alerta
Reino Unido — UK NSC / NICE UK NSC — Congenital heart disease (2014; consultado 2026) CCC rastreada pelo exame físico ao nascer e às 6–8 semanas (NIPE); recomenda pilotar a oximetria, sem adotá-la como rastreamento populacional; última revisão registrada em mai/2014, com revisão prevista para 2021–22 cujo resultado não localizamos. NICE: sem documento específico localizado
Espanha — SENeo/AEP Sánchez Luna M, Pérez Muñuzuri A, Couce Pico M — Cribado de cardiopatías congénitas críticas (An Pediatr 2021); versão 2018 Recomenda a triagem em todos os centros com partos; antes de 24 h, mais eficaz nas primeiras 12 h; mão direita e pé; positivo ≤89%; duvidoso 90–94% ou diferença ≥4%; negativo ≥95% e diferença ≤3%; duvidoso → repetir uma vez após 30 min; persistência → avaliação imediata e ecocardiograma
Itália — SIN / SICP SIN/SICP — Cardiopatie congenite critiche (14/02/2023) Oximetria antes da alta é "metodica diffusa", mas detecta sobretudo as formas cianogênicas; ênfase em orientar os pais sobre sinais de alarme e avaliação pediátrica em até 10 dias; sem algoritmo nacional no documento; não localizamos recomendação formal com pontos de corte
Harvard — Boston Children's / Brigham Levy PT, Thomas AR, Sen S, Ball MK — Updated and endorsed newborn screening guidelines in the United States for CCHD from the AAP (J Perinatol, 02/05/2025) Publicação acadêmica (não protocolo institucional) que apoia o algoritmo AAP 2025 — simplificação para aumentar a detecção precoce e reduzir internações de emergência; defende dados estaduais padronizados e vinculados, educação sobre os limites da triagem e aponta disparidades no diagnóstico pré-natal
Johns Hopkins — Sem documento específico localizado

4.Concordâncias e discordâncias

Tema SBP AAP NICE/UK AEP/SENeo Itália Harvard J. Hopkins Leitura
Triagem universal por oximetria Sim (SBP/MS) Sim Não (piloto; exame físico) Sim Prática difusa, sem mandato Apoia AAP — UK é a exceção
Momento 24–48 h ≥24 h — <24 h (ideal <12 h) Antes da alta ≥24 h — Espanha discordante
Locais MSD + MI Mão D + pé — Mão D + pé — Idem AAP — Concordância
Passa ≥95% e diferença <3% ≥95% e diferença ≤3% — ≥95% e diferença ≤3% — Idem AAP — SBP 1 ponto mais estrita
Falha imediata Não prevista <90% — ≤89% — Idem AAP — Lacuna SBP
Zona intermediária <95% ou diferença ≥3% 90–94% ou diferença >3% — 90–94% ou diferença ≥4% — Idem AAP — Próximos
Repetições 1, após 1 h 1, após 1 h — 1, após 30 min — Idem AAP — Todos com 1 repetição
Conduta na falha Eco em até 24 h Avaliação e eco — Avaliação imediata e eco — — — Convergente
Exame físico e orientação aos pais Exame físico essencial Educação sobre limites (Harvard) NIPE ao nascer e 6–8 semanas — Sinais de alarme; consulta em 10 dias Educação sobre limites — Consenso: oximetria não basta

5.Síntese

O algoritmo AAP de 2025 caminhou na direção do que o Brasil já fazia: ao reduzir as repetições de duas para uma, após 1 hora, a AAP ficou praticamente igual ao teste do coraçãozinho da SBP de 2011 na estrutura — triagem universal com pelo menos 24 horas, mão direita e um membro inferior, corte de 95% e uma única nova medida antes do ecocardiograma. Os autores de Harvard que comentaram a mudança destacam o objetivo de aumentar a detecção precoce e reduzir internações de emergência, e chamam atenção para o registro padronizado dos resultados e para as disparidades no diagnóstico pré-natal — temas que o documento brasileiro não aborda.

Restam duas diferenças técnicas. A primeira é a falha imediata com SpO2 <90%, adotada pela AAP e, com corte ≤89%, pela SENeo; no algoritmo da SBP, um RN com 88% faria nova medida após 1 h, o que retarda a investigação de um caso de alta probabilidade. A segunda é a diferença de 3% entre as medidas: a SBP considera normal apenas diferença <3%, enquanto AAP e SENeo aceitam 3% como negativo — a SBP é, portanto, ligeiramente mais sensível e gera mais repetições. Nenhuma das duas diferenças exige mudança de equipamento, apenas de fluxograma.

Fora do eixo Brasil–EUA as divergências são de política. A Espanha triageia antes de 24 horas, preferencialmente nas primeiras 12, na direção oposta ao ≥24 h de Brasil e EUA, e usa repetição mais curta (30 min). O Reino Unido não adota a oximetria universal, apoiando-se no exame físico ao nascer e às 6–8 semanas, e a Itália a descreve como prática difusa, com ênfase na orientação dos pais e na consulta em até 10 dias. Todos concordam que a oximetria não detecta todas as cardiopatias críticas — a coarctação pode escapar, e a SIN/SICP lembra que o teste detecta sobretudo as formas cianogênicas — e que o exame físico e a orientação à família continuam indispensáveis. O documento SBP tem quase 15 anos, e uma atualização frente ao algoritmo AAP 2025 seria oportuna.

Observações críticas
  1. Tratar SpO2 <90% em qualquer medida como falha imediata, com avaliação clínica e ecocardiograma sem esperar a repetição — posição da AAP e da SENeo, não prevista no documento SBP de 2011.
  2. Manter o fluxograma nacional nos demais pontos: 24–48 h, mão direita e um pé, normal com ≥95% em ambos e diferença <3%; repetir uma vez após 1 h; persistindo, ecocardiograma em até 24 h.
  3. Medir com o RN alerta e já fora de oxigênio; em alta antes de 24 h, fazer o teste o mais tarde possível e registrar a limitação.
  4. Teste normal não exclui cardiopatia crítica: o exame físico antes da alta continua essencial (a coarctação pode escapar), e os pais devem ser orientados sobre sinais de alarme, com reavaliação pediátrica precoce — a SIN/SICP propõe até 10 dias.
  5. Registrar os valores numéricos (mão direita, pé e diferença), não apenas "normal", para permitir auditoria e indicadores, como defendem os autores de Harvard.
  6. Atualização do protocolo local: enquanto a SBP não revisa o documento de 2011, incorporar a falha imediata <90% e manter a repetição única já prevista; o diagnóstico pré-natal, desigual segundo os autores de Harvard, não substitui a triagem neonatal.

6.Fontes

  • SBP. Diagnóstico precoce de cardiopatia congênita crítica: oximetria de pulso como ferramenta de triagem neonatal. Documento Científico, 07/11/2011. sbp.com.br
  • Ministério da Saúde. Portaria SAS/MS nº 20, 10/06/2014 (incorporação da oximetria de pulso no SUS).
  • Oster ME et al.; American Academy of Pediatrics. Newborn screening for critical congenital heart disease — a new algorithm. Pediatrics 2025;155(1):e2024069667.
  • CDC. Screening for critical congenital heart defects — information for healthcare providers, 2025. cdc.gov
  • Levy PT, Thomas AR, Sen S, Ball MK. Updated and endorsed newborn screening guidelines in the United States for critical congenital heart disease from the AAP. J Perinatol, 02/05/2025. nature.com
  • UK National Screening Committee. Congenital heart disease — screening recommendation, 2014. gov.uk
  • Sánchez Luna M, Pérez Muñuzuri A, Couce Pico M. Cribado de cardiopatías congénitas críticas — actualización de la recomendación de la SENeo. An Pediatr, 2021 (versão anterior 2018). analesdepediatria.org
  • Società Italiana di Neonatologia / Società Italiana di Cardiologia Pediatrica. Cardiopatie congenite critiche colpiscono un neonato su mille, comunicado de 14/02/2023. sin-neonatologia.it